Poder e Manipulação

Jacob Petry · Capítulo 1 de 25

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Poder e Manipulação

Introdução

Muitos anos atrás, numa fria tarde de julho, dirigi-me à biblioteca pública para retirar alguns livros. A biblioteca, como a cidade, era pequena e antiga. Pouquíssimas pessoas a frequentavam. E fazia anos, décadas talvez, que ela não recebia novos exemplares. Seu acervo era basicamente composto de clássicos. Mesmo assim, havia um limite para retirada: três exemplares por leitor.

Com medo de ficar sem livros de ficção — meus preferidos —, decidi que dos três, um, obrigatoriamente, seria de uma coleção chamada Os Pensadores: História das Grandes Ideias do Mundo Ocidental.

E para não cair em tentação de ler apenas os romances, comprometi-me com a árdua tarefa de primeiro ler o dessa coleção. Assim, logo que cheguei em casa dei início à leitura daquele que retirara naquele dia: Maquiavel — O Príncipe e Escritos Políticos. Lembro que, mesmo sendo ainda um adolescente, a cada página, exclamava: “Meu Deus, como somos otários! Eles usam essas estratégias o tempo todo contra nós, sem sequer percebermos!”.

Hoje, mais de duas décadas depois, o sentimento continua o mesmo: essas pessoas sabem o que funciona e o que não funciona. Seu trabalho é nos persuadir e nos manipular para tirar vantagens próprias

— sua sobrevivência depende disso. E eles não vão abrir mão dessas técnicas tão facilmente. Nossa única saída é nos precaver. E para isso precisamos compreender suas estratégias, seus truques e delinear o caminho que eles percorrem para chegar até nós. Esse, ao resgatar as principais lições de O Príncipe, é o objetivo de Poder e Manipulação.

Se olharmos para o passado, veremos que muitos dos maiores expoentes da história tiraram proveito de O Príncipe. Shakespeare incorporou elementos da obra em peças como Macbeth, Hamlet e A Tempestade. Napoleão Bonaparte o considerava sua bíblia pessoal e

andava com um exemplar debaixo do braço, usando-o como guia de consulta.

Mais recentemente, Tião dos Santos, quando ainda um catador de material reciclável no Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, diz ter encontrado uma cópia no lixo. Ela estava suja e manchada. Mesmo assim, Tião a levou para ler. Ele diz que, depois da leitura, nunca mais foi o mesmo. Meses depois, inspirado no livro, criou a Associação de Catadores de Material Reciclável de Jardim Gramacho. Nos anos seguintes, tornou-se uma celebridade. Em 2011, ganhou o prêmio de Personalidade do Ano do jornal O Globo. Estrelou uma campanha da Coca-Cola, e o documentário Lixo Extraordinário, do qual foi o protagonista, chegou a concorrer ao Oscar — o maior prêmio do cinema mundial.

Mesmo assim, o conteúdo verdadeiro desse livro continua sendo desconhecido para a grande maioria. Em parte, isso se explica pela polêmica em que ele sempre esteve envolvido. Muitos o condenam porque consideram seus princípios ruins, perversos e amorais. Alguns simplesmente o ignoram e o desprezam pela sua fama. Outros, a pequena minoria, o estuda e o usa como cartilha para abrir seu caminho ao topo do poder.

Aqui você encontrará vinte das suas lições mais importantes – são a essência da obra, quase sua totalidade, sem as partes de interesse absolutamente histórico, numa linguagem direta, clara e moderna. O que você vier a fazer com elas, será uma decisão cuja responsabilidade é totalmente sua.

A publicação e sua perseguição

A versão original de O Príncipe foi escrita em 1513 e publicada em 1532, cinco anos após a morte de seu autor. Em 1959, ela entrou para o índice de livros proibidos da Igreja Católica. Mas esse era apenas o começo da discriminação e difamação daquele que se tornaria, sem dúvida, o livro mais polêmico, controverso e também um dos mais influentes e importantes da história.

A obra é um pequeno tratado de como um príncipe (o líder e empreendedor moderno) deve agir para conquistar o poder e se manter

nele. A verdadeira intenção de Maquiavel ao escrevê-la ainda é amplamente discutida, assim como, lógico, o teor de seu conteúdo.

Muitos estudiosos afirmam que O Príncipe é o pensamento de uma época e, portanto, não pode ser interpretado fora do contexto histórico em que foi escrito. A meu ver, nada pode ser mais equivocado. Acredito, sem sombra de dúvida, que a verdade é exatamente o contrário: para entender de fato a obra de Maquiavel é preciso tirá-la do contexto em que foi escrita.

Uma instituição pública, empresa ou comunidade não existe sem as pessoas que a compõem. Por isso, se você quiser estudá-la, precisa analisar seus líderes, diretores, funcionários e até mesmo clientes e cidadãos. Ou seja: você deve estudar o caráter da natureza humana por trás da instituição, empresa ou comunidade que deseja conhecer. Em O

Príncipe, acima de tudo, Maquiavel trata da natureza humana. Os comportamentos e as atitudes descritas por ele, e que ficaram conhecidas como maquiavélicas, na verdade não são dele. Maquiavel não as inventou. Ele as detectou com enorme clareza nas pessoas a sua volta e simplesmente teve a coragem de descrevê-las com detalhes e precisão, sistematizando-as e transformando-as em engenharia operacional que muitos passaram a usar para pavimentar seu caminho ao poder.

Longe das teorias políticas, filosóficas e religiosas de seu tempo, Maquiavel percebeu, nas atitudes dos líderes, nos governos, nas religiões e em outros relacionamentos humanos, que a realidade apontava modos de agir muito distintos das belas teorias da ética, da moral e dos bons costumes com que outros filósofos tratavam do tema.

E seu grande trunfo foi mostrar como o mundo de fato é, em contraposição àqueles que mostravam como ele deveria ser.

Hoje, quinhentos anos depois, as atitudes descritas por Maquiavel continuam presentes em todos os setores da humanidade. Você pode percebê-las nas ações dos líderes políticos, religiosos, empresariais e culturais. Elas estão presentes nos púlpitos das igrejas, nas prefeituras, nos fóruns judiciais, nas assembleias legislativas, nos senados, nos palácios, nas conversas, nas salas de reuniões das grandes empresas, corporações e entidades de classes e até mesmo nos relacionamentos entre casais.

Não fosse assim, viveríamos num mundo sem corrupção, sem injustiça e sem violência. Os governos seriam para o povo e os políticos sempre cumpririam suas promessas; as empresas colocariam o interesse pelos clientes sempre à frente do interesse pessoal e do lucro e o cidadão comum jamais agiria com falsidade, egoísmo, brutalidade e deslealdade. Quem acredita que essa é a realidade, para usar as próprias palavras de Maquiavel, “é ingênuo e está fadado antes à ruína do que à salvação”.

Por que retomar o clássico?

Por que alguém deveria investir seu tempo para ler uma obra tão discriminada e mal-afamada? Que benefícios um cidadão de bem poderia tirar de um livro que ao longo dos séculos fez com que o nome do seu autor se tornasse sinônimo de manipulação, falsidade, frieza e até mesmo maldade?

Este livro fará três coisas por você. A primeira: ele mudará a forma como você vê o mundo. Sua leitura o levará a entender como as coisas a sua volta de fato são. Não é uma questão de aplicar ou não os princípios abordados por Maquiavel, mas de entender como muitos indivíduos, sobretudo nos níveis mais elevados de poder, agem. Por não compreender o comportamento e as atitudes dessas pessoas, facilmente nos tornamos objeto de manobra delas. Ao conhecê-las e compreendê-las, podemos nos precaver e nos defender.

A segunda diz respeito a como você irá se sentir daqui para a frente.

Muitas vezes, a ignorância parece uma bênção. Quando não vemos o problema, parece que não precisamos lidar com ele. Mas não é assim.

Não compreender como as coisas funcionam e por que as pessoas agem de certa maneira nos torna impotentes e nos coloca numa situação de vítima, como se houvesse uma eterna conspiração contra nós. Ao compreendermos que o modo como as pessoas agem não tem nada a ver conosco, mas com a maneira como elas são, e que elas agem assim com todo o mundo, nossa percepção muda drasticamente.

Por último, você estará pronto e livre para definir sua maneira de agir. Nos vinte capítulos deste livro, existem inúmeras lições e princípios que poderão mudar sobremaneira seu modo de agir daqui em diante, tanto na sua vida pessoal como nos seus negócios. Na

medida em que você compreender o contexto a sua volta, poderá começar a atuar de acordo com essa compreensão. Você não precisa ser uma pessoa cruel e má, mas deve saber o que fazer perante a crueldade e a maldade. E este livro lhe dará essa noção, não só como líder, mas também como pessoa.

Enfim, este é um livro escrito para ajudá-lo a entender as estratégias que muitas pessoas usam para manipular seu caminho ao poder e para manter-se nele, muitas vezes à sua custa. Ao compreender os princípios descritos aqui, você estará preparado para se defender e se precaver disso. Mas também para agir com mais ousadia, atrevimento e astúcia diante da vida.

Jacob Petry