Poder e Manipulação
Capítulo 4 - Da questão econômica – quando se deve ser generoso ou sovina
CAPÍTULO 4
DA QUESTÃO ECONÔMICA — QUANDO SE DEVE SER
GENEROSO OU SOVINA
DE O PRÍNCIPE
Permita-me começar, então, pela primeira das duas
qualidades
mencionadas:
a
“A reputação de
generosidade. Preciso dizer que a reputação generoso pode ser um
de generoso pode ser um fator positivo. Mas o fator positivo. Mas o
comportamento que lhe dá essa reputação comportamento que
pode lhe trazer enormes problemas.
lhe dá essa reputação
Primeiro, porque se você quiser ser
pode lhe trazer
generoso de modo virtuoso, como se deve ser, enormes problemas.” terá que exercer a generosidade em silêncio, com discrição, sem que a sua mão esquerda saiba o que a direita está fazendo. E, nesse caso, ninguém saberá da sua qualidade e você não tirará nenhum proveito dela.
Por outro lado, se você quiser ser amplamente conhecido como generoso, tem de aproveitar todas as oportunidades que aparecem para mostrar sua generosidade. Se seguir por esse caminho, terá que gastar muito e, logo, ficará sem recursos.
A partir de então, você precisará escolher um entre dois caminhos: procurar, a todo custo, manter a fama de generoso ou abrir mão dela. Se quiser manter sua fama de generoso terá de sacrificar o povo extraordinariamente, sobretudo os que mais produzem. Terá que agir com dureza e sem piedade no aumento da arrecadação de impostos e na criação de novas taxas. Terá que fazer todo o possível para juntar dinheiro a fim de poder sustentar sua generosidade.
Isso começará a torná-lo odioso aos olhos do povo. E, nesse caso, o empobrecerá. E não tenha dúvida: assim que estiver empobrecido, o povo, inclusive aqueles a quem você serviu com sua generosidade,
perderá o respeito e a estima por você. E
tendo sua generosidade trazido prejuízos a
“Assim que estiveres
muitos e benefícios a poucos, você começará
empobrecido, o povo —
a sentir os primeiros revezes na sua liderança.
inclusive aqueles a
Ao perceber a falta de recursos e os revezes quem serviste com tua que a situação lhe causa você desejará retrair-generosidade —
se e cortar as ações que lhe dão a fama de perderá o respeito e a
generoso e imediatamente se verá rotulado estima por ti.”
como mentiroso, enganador e avarento.
Assim, portanto, não podendo fazer uso
da generosidade sem causar prejuízo a si próprio, uma vez no poder, o príncipe, para ser prudente, não deve se preocupar em buscar a reputação de generoso. Tampouco, deve se importar caso o rotulem de avarento ou mesquinho.
Com o tempo, ele poderá demonstrar sua generosidade. Pois sua rigidez no controle de gastos fará com que acumule recursos que poderá investir em benefícios para a população e também atrever-se à construção de obras grandiosas que promovam o desenvolvimento da comunidade. Tudo sem sacrificar o povo com o aumento da cobrança de taxas e impostos.
Se agir dessa forma, logo as pessoas verão que ele está sendo generoso com aqueles dos quais nada tira — que são muitos — e avarento apenas com aqueles para os quais nada dá — que são poucos.
2.
As maiores obras, ao longo da história, foram realizadas por aqueles príncipes considerados avarentos e mesquinhos. Os demais, os que foram generosos, quase sempre caíram no esquecimento ou arruinaram-se.
O papa Júlio II, por exemplo, usou a fama de generoso apenas para alcançar o papado. Uma vez no poder, abriu mão dela imediatamente, tornando-se severo e rigoroso com as contas do Estado. Essa medida possibilitou-lhe realizar muitas obras sem sacrificar o povo com aumentos extraordinários de taxas e impostos.
Outro exemplo foi Felipe II, rei da Espanha. Se fosse generoso, ele jamais teria conseguido custear as guerras que ampliaram seus
territórios, nem teria sido capaz de levar a cabo as inúmeras obras que realizou.
Assim sendo, o príncipe — para não ser forçado a roubar seus súditos e a sobrecarregar o povo com abusivos aumentos de impostos ou se tornar pobre e digno de desprezo — não deve se importar com o rótulo de sovina. Ele deve entender que essa é uma virtude disfarçada em defeito, pois ela lhe dará a possibilidade de fazer uma grande administração.
3.
É evidente que existem outros exemplos, como o do imperador romano Júlio César, que ascendeu ao poder em grande parte pela sua generosidade. É preciso entender que há uma diferença entre estar no poder e estar a caminho do poder. Em outras palavras: ou já se é um príncipe ou se está a caminho de sê-lo. No primeiro caso, quando se está no poder, a generosidade sempre é prejudicial. No segundo, quando se está a caminho dele, é preciso buscar a fama de generoso.
César era dos que desejavam alcançar o poder em Roma e, por isso, mostrou-se
generoso.
Quando
assumiu
o
reino,
reduziu
consideravelmente suas atitudes generosas, mesmo porque se tivesse vivido mais tempo e continuado com as despesas que o elevaram ao poder teria destruído o império.
Para ser generoso é preciso gastar. Todo recurso precisa vir de algum lugar. Sendo assim, o príncipe generoso ou gasta do que é seu e do povo ou o que pertence a outro. No primeiro caso, quando ele gasta o que é seu, precisa ser muito cauteloso. No segundo, quando gasta o que é de outrem, precisa esbanjar dinheiro. Porque aquele que vive de propinas, corrupção e outros crimes tem de distribuir riquezas; caso contrário, seus comparsas e aliados no crime não serão coniventes com ele e o entregarão em seus atos na primeira oportunidade.
Além disso, é muito mais fácil ser generoso com o dinheiro alheio.
Grandes imperadores como Ciro, César e Alexandre foram generosos nesse sentido. Gastar o dinheiro de outrem, a princípio, não o prejudica; pelo contrário, aumenta sua fama e reputação. Gastar o seu próprio, isto sim, é prejudicial.
4.
A essa altura, creio estar claro que não há nada que se destrua mais depressa do que a generosidade. Pois, com seu uso contínuo, o sentido de ser generoso vai se perdendo, assim como o próprio recurso. E
sendo generoso, com o tempo, você se torna pobre e necessitado ou, para escapar da pobreza, corrupto e odioso. E dentre as situações que um príncipe deve evitar está tornar-se pobre e necessitado ou corrupto e odioso. E a generosidade costuma levar a uma ou outra.
Desse modo, é mais prudente ter fama de sovina e mesquinho, o que acarreta má fama sem ódio, do que, para obter fama de generoso, ser levado a incorrer também na de desonesto e corrupto, o que constitui infâmia odiosa e quase sempre imperdoável.
MAQUIAVEL
Capitulo XVI
Da liberalidade e da parcimônia
ANÁLISE
Em psicologia, existe um princípio chamado regra da reciprocidade. De acordo com essa regra, toda vez que recebemos algo de alguém, um presente, um convite, um favor etc., sentimo-nos obrigados a retribuí-lo. Sabendo disso, políticos, dirigentes de empresas, profissionais liberais, marqueteiros e amigos nos oferecem estrategicamente sua generosidade sabendo que, lá na frente, poderão tirar proveito da sensação de obrigação que seu ato generoso incutiu em nós.
Por isso, a generosidade é uma das armas prediletas daqueles que ambicionam construir seu poder e sucesso à nossa custa. E não se engane: quando usada de forma estratégica, ela também é uma das armas mais poderosas que existem no mundo do poder e da manipulação.
Em 2002, Luiz Inácio Lula da Silva, então candidato à presidência do Brasil, disse num programa de televisão:
Lamentavelmente, as pessoas não votam de modo partidário e, lamentavelmente, existe uma parte da sociedade que, pelo seu alto grau de empobrecimento, é conduzida a pensar “pelo estômago” e não “pela cabeça”. É por isso que se distribui tanta cesta básica, é por isso que se distribuem tantos litros de leite; porque isso, na verdade, é uma peça de troca em época de eleição. E assim se despolitiza o processo eleitoral. Trata-se o povo mais pobre da mesma forma que Cabral tratou os índios quando chegou ao Brasil. Assim como ele distribuiu bijuterias e espelhos para ganhar os índios, os políticos distribuem alimentos. Tem-se como lógica manter a política de dominação que é secular no Brasil.
No ano seguinte, ao assumir a presidência do país, aproveitando um programa criado pelo seu antecessor que previa um auxílio a famílias carentes que mantivessem seus filhos menores regularmente na escola, Lula implantou um dos maiores sistemas legais de distribuição de dinheiro para famílias pobres do mundo. Em 2006, no seu segundo mandato como presidente, Lula, através de seu governo, distribuía dinheiro mensalmente (uma média de R$ 65 reais por família) para onze milhões e cem mil famílias, cerca de quarenta e cinco milhões de pessoas, pouco menos de um quarto da população brasileira.
O poder vem da capacidade de se fazer parecer maior que os demais a nossa volta. E a generosidade é uma ferramenta essencial para criar essa impressão. As pessoas, em geral, são preguiçosas e avarentas. Elas querem as coisas, mas não desejam pagar o preço para obter aquilo que desejam. Por isso, aceitam de bom grado qualquer esmola que cair em suas mãos. Mal sabem elas que não existe tal coisa como “algo” por
“nada”. Tudo tem um preço. E ao aceitar algo que lhes é oferecido sem que seja exigido nada em troca, quase sempre elas estão abrindo mão do seu bem mais precioso: a liberdade.
Por isso, a partir de hoje, ignore e desdenhe tudo que lhe for oferecido de graça. Se algo vale a pena, pague o preço necessário para obtê-lo. Lembre-se sempre de que aquilo que lhe é oferecido de graça, na verdade, não passa de uma armadilha. Tenha certeza de que, lá na frente, a cobrança virá.
Quem, por exemplo, em troca da promessa de receber algo gratuito —
um vídeo, uma aula, uma palestra, um e-book ou qualquer outra coisa inútil e desprezível, mas cuidadosamente ornada para parecer valiosa e exclusiva —, não caiu na armadilha de cadastrar seu email e, a partir de então, durante anos, passou a ser bombardeado com mensagens indesejadas? Portanto, nunca esqueça: nada com valor verdadeiro é distribuído gratuitamente sem que haja algum tipo de intenção oculta por detrás.