Poder e Manipulação

Jacob Petry · Capítulo 19 de 25

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Poder e Manipulação

Capítulo 17 - Da competição – o dever principal de quem quer o poder

E, por isso, elas se dedicam à prática da solidariedade e da generosidade. Esses indivíduos não querem nada ao ajudá-lo, a não ser se sentirem importantes, honestos e generosos. Muitas vezes até, eles agem assim apenas para acobertar ações menos honrosas que cometeram ou ainda cometem. Quando encontrar alguém assim, não se acanhe: ofereça-lhe a oportunidade de praticar o bem e “reconheça” a importância dele, para não parecer ingrato e ser odiado e atacado por isso.

CAPÍTULO 17

DA COMPETIÇÃO — O DEVER PRINCIPAL DE QUEM QUER O

PODER

DE O PRÍNCIPE

Aquele que deseja o poder não deve ter outro objetivo, pensamento ou foco que não seja a organização e a disciplina para a competição.

Essa é a única arte que tem de ser dominada por quem quer estar no comando. Ele precisa aprender as táticas, estratégias e desenvolver a disciplina necessária para ser constantemente melhor do que seus adversários.

Essa arte não só é necessária para manter a sorte daqueles que nasceram em berço de ouro como também tem o poder de elevar pessoas comuns aos níveis mais altos de glória, poder e prestígio.

Por outro lado, quando um príncipe

ignora a competição e passa a se preocupar

“Quando um líder deixa

mais com os luxos e o glamour do posto que de lado a competição

ocupa, logo perde sua glória e seu poder. Sem e passa a se

medo de cometer um equívoco, me atrevo a preocupar mais com

dizer que a maneira mais rápida de perder o os luxos e o glamour

posto de líder é ignorar essa arte; e a maneira do cargo que ocupa,

mais fácil de conquistá-lo é conhecê-la nos logo perde sua glória e

seus pormenores.

seu poder.”

Francesco Sforza, por exemplo, de uma

pessoa comum tornou-se duque de Milão

apenas porque se dedicou à arte do armamento e se armou devidamente.

Seus sucessores, que ignoraram as armas, de duques passaram a cidadãos comuns.

Quando uma pessoa evita ou ignora a competição, ela cria acomodação e passividade, qualidades que logo irão obrigá-la à submissão. E essa é uma das posições que se deve evitar.

Não é razoável que uma pessoa que está armada obedeça de boa vontade a outra que

“Quando uma pessoa

não está. Assim como não é de se esperar que evita ou ignora a

ela, estando desarmada, viva tranquilamente competição, ela cria entre outras, armadas. Um comandante não acomodação e

versado em milícia, e que não possui vontade passividade,

de enfrentar seus inimigos, não pode esperar a qualidades que logo

estima nem a confiança de seus soldados. Da

irão obrigá-la à

mesma forma, uma pessoa acomodada e

submissão.”

passiva não pode querer comandar gente

entusiasmada, ativa e desejosa de poder. Por isso, não é razoável esperar que um príncipe acomodado consiga conviver por muito tempo entre competidores ativos sem perder seu posto de liderança.

2.

Assim como o comandante não pode deixar de se preocupar com a arte da guerra e praticá-la, tanto na paz quanto (ou ainda mais) no conflito, quem deseja postos mais elevados não pode deixar de estudar a competição tanto nos momentos de prosperidade quanto nos de crise.

E isto se consegue de dois modos: pela ação e pelo pensamento.

Quanto à ação, além de conservar os soldados disciplinados e permanentemente em exercício, os comandantes devem levá-los para extensas caçadas pelos campos e pela selva. Além de habituar o corpo à rudeza do clima, essas caçadas são fundamentais para reconhecer e estudar os diferentes tipos geográficos. São analisados fatores como o formato dos montes, a profundeza dos vales, os tipos de solos que compõem as planícies e a natureza dos rios e pântanos. Tudo com a máxima atenção.

Esses conhecimentos são úteis sob dois aspectos: primeiro, o soldado desenvolverá amplo conhecimento sobre seu país e, dessa forma, aprenderá melhor os meios naturais de defesa. Segundo, pelo estudo e a análise desses lugares, em caso de necessidade, entenderá com facilidade qualquer lugar novo, pois os montes, vales, planícies, rios e pântanos são semelhantes em muitos locais.

Um príncipe que falha nesse pormenor falha na primeira das qualidades de um comandante: aprender a entrar em contato com o inimigo, acampar, levar os exércitos e traçar planos de combate. O

mesmo deve ser aplicado em todos os setores da liderança. Um príncipe deve conhecer os territórios de seus adversários, caso queira vencê-los.

É necessário analisar constantemente os passos, as táticas e estratégias dos concorrentes para não ser pego de surpresa.

Filopêmene, general dos aqueus, nos tempos de paz, jamais deixou de pensar em estratégias de guerra. Conta-se que, passeando no campo com amigos, muitas vezes detinha-se e os interpelava: “Estando os inimigos sobre aquele monte e nós aqui com nossos exércitos, quem teria maiores vantagens? Como se poderia ir ao seu encontro, mantendo nossa formação? Se quiséssemos nos retirar, como faríamos? Se eles batessem em retirada, como os seguiríamos?” Assim, formulava todas as hipóteses possíveis em caso de um combate naquela situação. E muito atento ouvia as opiniões dos demais comandantes e também dava a sua, firmando-a com razões e exemplos. Quando se achava à frente de seus exércitos, Filopêmene nunca topava acidente que não tivesse previsto e para o qual não tivesse já uma solução predefinida.

Assim deve também agir o príncipe que deseja se manter vivo diante da concorrência.

Quanto ao pensamento, é preciso estudar a vida dos grandes e meditar sobre suas ações, considerar como se portavam nas diferentes situações, entender as razões de suas vitórias e derrotas, para estar apto a fugir destas e imitar aquelas. Sobretudo, deve simular situações e se perguntar como os grandes homens teriam procedido se estivessem na mesma situação. E, na medida do possível, tentar imitar aqueles que se glorificaram por suas ações.

Como se sabe, esse não é um processo novo. Alexandre Magno imitava Aquiles, César imitava Alexandre, Cipião imitava Ciro. E aquele que ler a vida de Ciro como descrita por Xenofonte e acaso ler, depois, a biografia de Cipião, reconhecerá quão valiosa lhe foi aquela imitação e quanto se parecia ele, na abstinência, afabilidade, humanidade, liberalidade, ao que disse Xenofonte a respeito de Ciro.

Um príncipe sábio deve considerar essas coisas e jamais estar ocioso nos tempos de paz; deve, isto sim, de modo inteligente, ir

acumulando conhecimento de que tire proveito nas adversidades, para estar a qualquer tempo preparado para vencê-las.

MAQUIAVEL

Capítulo XIV

Dos deveres do príncipe para com suas tropas ANÁLISE

Poucas pessoas possuem uma visão clara de seus objetivos. Isso faz com que elas não tenham um senso de urgência que as ameace. A falta de desafios as coloca num estágio de letargia física e mental.

Quando não há nada que ponha nossa reputação em jogo, nós nos tornamos preguiçosos. E quando isso acontece, esperamos tempo demais para agir. A indolência toma conta e nos tornamos vítimas fáceis de qualquer coisa que atravesse nosso caminho.

Como vimos até aqui, grande parte do jogo de poder é sobre controle e persuasão. Para controlar e persuadir seus súditos, aliados e adversários é crucial que você os observe meticulosamente, sob todos os ângulos. Por isso, a partir de hoje, torne-se um investigador incansável. Não fique à espera do competidor para agir. Instigue-o a abrir o jogo, provoque-o, crie animosidade, inquiete-o, comova-o e, se necessário, irrite-o, enfureça-o.

Neste processo, nunca revele aos seus adversários suas verdadeiras ideias, planos, estratégias e intenções. Ao contrário, induza-os a falar sobre os planos e estratégias deles. Para tanto, quando estiver conversando com alguém, exclua-se sempre do assunto. Torne seu interlocutor o foco permanente e sua vida, o tema principal.

Treine-se a constantemente penetrar na mente das pessoas e extrair de lá coisas que possam lhe ser úteis. Se quiser adquirir influência e poder sobre elas, você precisa conhecer as ideias, os planos, as intenções, as estratégias e os sentimentos delas melhor do que elas mesmas. Investigue-as, descubra se são honestas, confiáveis, disciplinadas e íntegras, ou não. Descubra seus desejos, interesses, planos e estratégias. Depois, mostre-lhes o que elas querem e ofereça-se

para ajudá-las a satisfazer as necessidades e os desejos delas. Aja desse modo e você não encontrará limites para suas conquistas!

Sutilmente, faça perguntas estratégicas com o objetivo de descobrir quais são seus planos e desejos. As pessoas são tão egocêntricas e carentes de atenção que, se alguém estimulá-las a falar sobre si, sem perceber, entregarão seus planos e segredos numa bandeja dourada.

Então, induza seu interlocutor a confessar tudo: seus sonhos e desafios, seus problemas e estratégias, suas forças e fraquezas, tudo.

Contudo, tenha cuidado. Faça-o com cautela e sutileza. Se o interlocutor perceber que você está tentando arrancar coisas dele, o efeito poderá ser o contrário.