Poder e Manipulação

Jacob Petry · Capítulo 9 de 25

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Poder e Manipulação

Capítulo 7 - Das coisas que se deve evitar: ódio e desprezo

É por esse motivo que a habilidade de compreender o que motiva as pessoas é a principal chave da liderança eficaz, do poder e do sucesso.

Como disse no começo deste livro, se você sabe o que o outro busca, o que ele quer e precisa, a necessidade que existe por detrás de suas ambições, lágrimas, ansiedades, seus desejos e medos, você pode se oferecer para suprir essa necessidade. E isso lhe dará um poder incrível.

O problema é que poucos têm a capacidade de entender as necessidades alheias. Na maioria das vezes, apenas ouvimos aquilo que

queremos ouvir. Nossa mente está confinada a um canal pequeno e estreito no qual ela projeta nossos próprios desejos através do que ouvimos. Temos uma ideia em nossa cabeça e adequamos tudo a essa ideia. Por isso, somos tão fracos na arte de seduzir, incentivar e motivar os outros.

Desse modo, se posso lhe sugerir algo, saia um pouco da sua cabeça, se desapegue por instantes das suas ideias e dos seus sonhos, das suas necessidades e obsessões pessoais e mergulhe na mente das pessoas a sua volta. Procure enxergar a interioridade delas, ir além do que elas dizem, entender e transcender o desejo vago e raso que elas manifestam, investigue a compulsão por detrás de suas ações superficiais, descubra o que elas realmente querem e ajude-as a conquistá-lo. Se você fizer isso, obterá tudo o que quiser e muito mais. Mas não espere. Comece a colocar essa estratégia em prática hoje mesmo e observe como, com o tempo, você fará progressos tremendos na arte da persuasão e da influência.

CAPÍTULO 7

DAS COISAS QUE SE DEVE EVITAR: ÓDIO E DESPREZO

DE O PRÍNCIPE

Alguém que deseja o poder precisa agir conforme vimos até aqui, mas ter a habilidade de fazê-lo de tal forma que isso não o torne odiado ou desprezado pelo povo. Sempre que conseguir ter esse tipo de atitude, estará seguro com o cumprimento de seu dever e decerto não encontrará grandes obstáculos nas demais áreas onde possa ter defeitos.

O que faz um príncipe ser odiado, sobretudo, como expliquei antes, é se apropriar direta ou indiretamente dos bens daqueles a quem lidera.

Quando sentem que sua propriedade e sua honra são respeitados pelo príncipe, a maioria das pessoas se mostrará satisfeita com ele. Uma vez que o príncipe siga esse princípio, apenas deverá ter o cuidado de combater a ambição de um pequeno grupo, o que pode ser feito de muitos modos e com certa facilidade.

Outra coisa que o torna desprezado são atitudes que o fazem parecer leviano, covarde

“Suas decisões

e irresoluto. Por isso, ele deve evitar essas precisam parecer

características com a mesma cautela com que

irrevogáveis para que

o navegante evita um rochedo. Suas atitudes e ninguém pense em

sua postura devem mostrar seriedade e

enganá-lo e, tampouco,

segurança. Aos olhos de quem o observa, suas insista em querer decisões precisam parecer irrevogáveis para fazê-lo mudar de

que ninguém pense em enganá-lo e, tampouco,

ideia.”

insista em querer fazê-lo mudar de ideia.

O príncipe que conseguir fazer com que o

povo tenha essa opinião sobre ele adquire grande estima e reputação; e quem goza de grande estima e reputação dificilmente torna-se vítima de

conluios. Ao saber que o príncipe possui grande admiração do povo, seus adversários pensarão duas vezes antes de atacá-lo em público ou mesmo de conspirar contra ele em segredo.

Além disso, ele precisa ter dois cuidados: um interno, da parte de seus súditos; e outro externo, dos adversários e poderosos que não simpatizam com sua liderança. Das forças externas, ele deverá se defender com boas armas e bons aliados; e uma vez que tem armas, sempre terá bons aliados. As questões internas, por seu turno, estarão em paz sempre que as externas estiverem sob controle, a menos que a situação já esteja conturbada por algum tipo de conspiração.

Por isso, o príncipe deve sempre manter o controle sobre as relações externas. Pois, mesmo quando as coisas externas ameaçam se voltar contra ele, se estiver preparado, tiver tomado as precauções que já descrevi e não perder a cabeça, estará em condições de resistir a qualquer tipo de agitação.

2.

Vale sempre repetir, como citado acima, que um dos remédios mais eficientes que existem contra as conspirações é não se tornar odiado e desprezado pelas massas. A razão disso é que quem lidera uma conspiração pensa sempre que ao remover o príncipe do posto estará satisfazendo os desejos do povo e que, por isso, terá seu apoio. Se o conspirador perceber, no entanto, que ao tentar remover o príncipe do cargo estará ofendendo o povo, certamente, não terá coragem de agir, pois sabe que, então, as dificuldades contra as quais teria de lutar seriam infinitas.

A história nos mostra que já houve muitas conspirações, mas poucas com êxito. Isso acontece porque o conspirador raramente consegue agir sozinho e só encontrará aliados naqueles que estiverem desgostosos com o príncipe.

Um fato curioso que nem sempre é levado em conta é que, quando se trata de uma conspiração, assim que alguém revela suas intenções a um descontente está dando a ele razões para seu contentamento: denunciar o próprio conspirador, pois, ao denunciar o conspirador, o descontente pode esperar inúmeras recompensas, todas, com certeza, maiores do que as possíveis vantagens que teria unindo-se ao

conspirador. Ao denunciar o conspirador, o descontente pode ter certeza de certos benefícios e vantagens. Ao fazer parte da conspiração, entretanto, não terá certeza alguma, apenas dúvidas, ameaças e perigos.

Em resumo, do lado do conspirador não há muita coisa além do medo, da inveja e da suspeita de castigo que aterroriza qualquer um. Já do lado de quem detém o poder, entre outras vantagens, há o próprio poder, os cargos e a defesa dos amigos e aliados que o resguardam.

Levando todas essas questões em consideração, fica claro que apenas amigos inquestionáveis do conspirador (e esse tipo de amigo é muito raro) ou inimigos implacáveis do príncipe se conservarão fiéis à conspiração.

É preciso levar em conta, ainda, que o conspirador, além de temer os riscos antes e durante o golpe, também precisa temer a sequência de eventos que sucedem o golpe. E mesmo que obtenha êxito durante o golpe, se ele tiver o povo como inimigo após isso, não poderá esperar por nenhum tipo de refúgio ou triunfo duradouro.

3.

Eu poderia citar aqui diversos exemplos sobre esse tema, mas creio que um só é o suficiente. Em junho de 1445, Aníbal Bentivoglio, então príncipe de Bolonha, foi assassinado por uma conspiração arquitetada por membros da família Ganneschi. Revoltado com o assassinato de Aníbal, o povo de Bolonha rebelou-se contra os conspiradores matando toda a família Ganneschi. Com a morte de Aníbal, o único herdeiro que restou na família Bentivoglio foi Giovanni, seu filho. Giovanni, no entanto, ainda era uma criança de colo. Em respeito, e pela admiração que tinham por Aníbal, o povo quis, a todo custo, manter seus herdeiros no poder. Assim, descobriu-se que a oitenta quilômetros de Bolonha, em Florença, existia um jovem, filho de um ferreiro, que pertencia à família Bentivoglio. Os bolonheses foram buscá-lo e lhe deram o governo da cidade. Ele a governou até que Giovanni alcançasse idade suficiente para assumir o poder.

Com esse exemplo, quero reforçar a ideia de que, sendo benquisto e respeitado pelo povo, um príncipe não deve se importar muito com possíveis conspirações. Entretanto, se o povo é seu inimigo e o odeia, deve temer a tudo e a todos, o tempo inteiro.

Quando o objetivo é manter-se no poder, príncipes e governantes que são sábios e

“Quando um líder é

cautelosos têm enorme cuidado com duas

amado pelo povo, ele

coisas: primeiro, em não provocar a

não deve se importar

insatisfação e o desespero dos grandes e com as conspirações,

poderosos. Segundo, em satisfazer e contentar mas quando o povo é

o povo. Essas são inquestionavelmente duas seu inimigo e o odeia,

das questões mais importantes que eles

deve temer a tudo e a

devem manter em mente.

todos.”

Para obter a simpatia dos poderosos e a admiração do povo, alguns lançam mão de uma importante artimanha: sempre que há a necessidade de impor um castigo ou uma pena, ou de fazer um anúncio que vá de encontro aos interesses do povo, o príncipe escala outra pessoa para fazê-lo. Porém, quando se deve anunciar algo que agrada o povo e os aliados, o próprio príncipe assume a responsabilidade de fazê-lo. Com isso, quando lembrarem seu nome, ele estará associado na memória somente a atitudes que originam sentimentos de afeto. Seguindo essas sugestões, dificilmente um príncipe será odiado ou desprezado pelo povo, tampouco pelos grandes e poderosos.

MAQUIAVEL

Capítulo XIX

De como se deve evitar ser desprezado e odiado ANÁLISE

Muitos poderiam pensar que ser presidente da República seria um enorme orgulho para a família e que ela faria qualquer coisa para proteger o membro ilustre. Se você é um dos que acreditam nisso, afaste esse pensamento de sua mente. Nossas maiores ameaças, descontentamentos e traições não vêm de pessoas estranhas, mas de familiares, amigos e colegas. Pense em quem foi o pivô das denúncias que fizeram Fernando Collor de Mello renunciar à presidência, em 1992.

Foi algum estranho?

O caso Collor não é uma excessão. Os livros de história, e até mesmo a Bíblia, estão cheios de relatos de membros de famílias conspirando abertamente entre si. Pense em José que, por ter sido o escolhido de Deus, foi amarrado, atirado num poço e, depois, vendido como escravo por seus irmãos. Todos nós conhecemos histórias assim envolvendo traições e brigas entre familiares, conhecidos e amigos.

Qual é o problema?

Muitas vezes, nós nos preocupamos demais em parecer perfeitos e impecáveis e tentamos ao máximo omitir nossos defeitos, achando que assim seremos benquistos e admirados. Nada pode estar mais errado.

Quando agimos assim, ignoramos completamente o risco que corremos ao tentar parecer perfeitos demais. Dar a impressão de não ter falhas ou fraquezas é perigoso porque desperta inveja. E a inveja, como já vimos, cria inimigos silenciosos que complicam tremendamente nossas vidas.

Por isso, é melhor colocar-se sempre no mesmo nível daqueles a sua volta, confessando problemas, dificuldades ou mesmo defeitos, para evitar que eles contaminem sua vida com inveja, ódio e mesquinharias.

Se você possui alguma intenção de se destacar na vida, precisa saber lidar com seus problemas e com os seus adversários. Um líder deve ter claro que a melhor resposta para pequenos incômodos e provocações é o desprezo e a indiferença. Ele jamais deve deixar transparecer que uma provocação, fofoca ou um comentário inapropriado o afetou. Isso colocaria em xeque seu poder, sua autoridade e, por fim, sua superioridade sobre aquele que o está provocando ou desafiando.