Poder e Manipulação
Capítulo 3 - Do que fazer para obter prestígio e ser benquisto
Todo poder vem de dentro. E se você tem consciência de quem você é; se tem consciência daquilo em que é bom e daquilo em que não é; se conhece suas forças e sabe como explorá-las; se sabe onde estão suas fraquezas e como controlá-las; se é capaz de entender as pessoas e ter uma ideia clara do que as motiva; mesmo que não consiga ter controle absoluto sobre o contexto a sua volta, o simples fato de estar consciente de tudo isso lhe dará uma enorme vantagem sobre a maioria que o ignora.
Através desse processo — de saber quem você é, de compreender os outros, de entender a maneira como as pessoas agem e os motivos pelos quais o fazem —, sua chance de cometer erros bobos e ingênuos que possam destruir seu poder e sucesso se reduz significativamente.
Quanto menos você se apegar a fórmulas fixas, maior será sua capacidade de adaptar o pensamento às circunstâncias do momento e mais eficaz e realista serão suas respostas a essas circunstâncias.
Portanto, a partir de hoje, liberte-se de apegos desnecessários, descarte velhas técnicas, velhos métodos, fórmulas e filosofias ultrapassadas e em seu lugar desenvolva um radar para detectar os problemas e as oportunidades que estão por vir. Adapte-se rápida e constantemente ao contexto. Seja inusitado. Coloque-se na vanguarda. Esteja sempre em busca de algo que combine mais com a realidade atual do que com aquilo que já existe. Quando fizer isso, sua mente se tornará alerta e você passará a ver oportunidades onde a maioria absoluta só vê crises e obstáculos.
CAPÍTULO 3
DO QUE FAZER PARA OBTER PRESTÍGIO E SER BENQUISTO
DE O PRÍNCIPE
De todas as ações e virtudes de um príncipe, nada confere maior prestígio do que realizar grandes obras e servir, ele próprio, como raro modelo para seu povo.
Um exemplo que ilustra bem isso é Fernando II de Aragão, rei da Espanha, também conhecido como o Rei Católico. Começando como um líder fraco e insignificante, Fernando II, pela fama e pela glória conquistados, ganhou notoriedade como o primeiro e mais importante dos reis cristãos da história. E se considerarmos as suas ações, veremos que são todas grandiosas, sendo algumas até mesmo extraordinárias.
Assim que assumiu o reinado, Fernando invadiu Granada e a transformou na base de seus domínios. No começo, conduziu a luta sem chamar atenção, evitando causar qualquer tipo de alarde. Com isso, conseguiu manter os barões de Castela ocupados com a guerra, enquanto implantava, sem resistência, as mudanças que desejava, conquistando fama e autoridade sobre eles sem que se apercebessem disso.
Com a ajuda do povo e da Igreja, que lhe enviava elevadas somas de dinheiro, Fernando pôde recrutar e manter seus exércitos durante os onze anos da guerra contra Granada. Ao mesmo tempo, firmava as bases de sua reputação como grande militar, com a qual se distinguiu nos anos seguintes.
Além do mais, sempre se utilizando da religião como pretexto, Fernando preparou-se para projetos ainda mais audaciosos. Num deles, adotou uma política de piedosa crueldade para expulsar e libertar seu reino dos judeus.
Sob o mesmo argumento, invadiu a África, marchou em expedição pela Itália e, mais tarde, invadiu a França, sempre fazendo acordos e alianças que aumentavam seu reino, seu poder e prestígio.
E apesar da conduta duvidosa de suas ações, elas eram conduzidas de tal forma — uma após outra, sempre numa sequência ascendente —
que ninguém sequer cogitava questioná-las, muito menos agir contra ele.
Com isso, Fernando só fazia aumentar sua admiração e seu prestígio, ao mexer com os ânimos e a expectativa de todos, que aguardavam empolgados o sucesso final de cada um dos seus extraordinários feitos.
Analisando a trajetória de Fernando II, pode-se afirmar que, mesmo não tendo escrúpulos e simplesmente realizando projetos ousados e colocando-se sempre como exemplo, ele tornou-se um dos líderes mais prestigiados do seu tempo.
2.
Além de realizar grandes feitos, convém ainda ao príncipe, que pretende obter grande prestígio, dar exemplos raros quanto ao seu governo.
Um bom modelo disso foi Bernabó de Milão. Sempre que surgia a oportunidade, quando alguém de seu governo fazia algo extraordinário, fosse bom ou ruim, Bernabó tinha um método de compensar ou punir essa pessoa. Ele o fazia de tal modo que a ação gerasse grandes comentários e, assim, servisse de estímulo ou de alerta para os demais.
O foco do príncipe deve estar constantemente voltado no sentido de, em cada atitude e acima de tudo, procurar conquistar para si o prestígio e a reputação de uma pessoa grandiosa e marcante.
Outra estratégia que traz prestígio ao príncipe é ter sempre uma posição clara a respeito das coisas, mostrando-se um verdadeiro amigo ou um inimigo honesto. Com isso, quero dizer que ele deve, sem nenhuma restrição, declarar-se aberta e francamente a favor de uma ideia ou pessoa em oposição à outra.
Esteja atento, pois, ao contrário do que muitos pensam, assumir uma posição claramente em favor de alguém é sempre melhor do que manter-se neutro.
Imagine que dois amigos seus entrem em conflito. Apesar de serem seus amigos, eles também são seus rivais. A força e o poder deles sempre serão de tal ordem que, no final, o vencedor deverá ser temido ou não por você. Em qualquer uma das duas situações – se terá que temê-lo ou não —, sempre será melhor se você tomar partido e declarar sua posição de maneira clara.
Vejamos o porquê: no caso de o vencedor ser de tal ordem que seja prudente temê-lo, caso você não se declare abertamente durante a disputa, mais tarde, sem dúvida, você se tornará presa fácil dele, pois ele não lhe considerará um amigo, uma vez que não o apoiou. E aquele que foi vencido tirará disso satisfação e prazer. Ele irá torcer para que você seja derrotado também, uma vez que não o auxiliou na disputa. Assim, você não terá aliado algum para sua defesa, nem terá quem o acolha.
Talvez você se pergunte: e se eu procurar o
vencedor para formar uma aliança com ele?
“Um vencedor não
Devo afirmar que será muito improvável que quer aliados suspeitos
ele deseje formar uma aliança com você. Um e com os quais não
vencedor não quer aliados suspeitos e com os pode contar nos
quais não pode contar nos momentos de
momentos de
adversidades.
adversidades.”
Tampouco é provável que você consiga formar qualquer tipo de aliança com o
perdedor, uma vez que, durante a disputa, você não quis, de armas na mão, correr o mesmo risco e se expor contra o inimigo em comum. Ou seja: quem é vencedor não aceita aliados suspeitos e que desapareçam nos momentos difíceis. E quem perde não o aceitará porque você não quis lutar ao lado dele quando ele precisou de você.
3.
Quando foi para a Grécia a chamado dos etólios para ajudá-los a expulsar os romanos, Antíoco imediatamente enviou embaixadores aos aqueus, aliados dos romanos, que estavam sendo persuadidos por eles a tomar armas contra os gregos. A missão dos embaixadores de Antíoco, por sua vez, era convencer os aqueus a se conservarem neutros no conflito.
O assunto foi debatido no concílio dos aqueus, onde eles definiriam a sua posição na contenda. Na reunião, após o delegado de Antíoco defender a ideia de os aqueus se manterem neutros, o delegado dos romanos, presente no evento, disse: “Quanto à opinião de Antíoco, de que deveis manter-se neutros na guerra, posso garantir-lhes que nada poderia ser mais prejudicial aos vossos próprios interesses, pois, ficando neutros, inevitavelmente, em algum momento, sem recompensa e ingloriamente, sereis presa de quem for o vencedor”.
Como todo comandante sabe, aquele que é
seu inimigo sempre irá lhe pedir para que se
“Aquele que é teu
mantenha neutro; e aquele que é seu amigo o
inimigo sempre irá te incitará a tomar partido ao lado dele, pedir para que fiques
abertamente. Os líderes tímidos, para fugirem neutro; e aquele que é
do perigo de se posicionarem, adotam, com teu amigo te incitará a
frequência, a neutralidade, acreditando ser tomar partido ao lado
essa a melhor saída. Em virtude disso, dele.”
costumam acabar sozinhos e, com o tempo, sem dúvida alguma, se tornarão malsucedidos.
Quando, ao contrário, um líder toma partido aberta e ativamente, sempre encontrará bons aliados e amigos.
Imagine, outra vez, se num conflito vencer aquele que você apoiar.
Mesmo que ele seja mais poderoso que você e, por isso, você fique à mercê dele, ele terá obrigações com sua pessoa. Ele será compelido a ter sentimentos de respeito e amizade por sua pessoa e, certamente, irá honrá-los. Os indivíduos nunca são tão maus que desejem oprimir aqueles a quem devem ser agradecidos.
Além do mais, as vitórias nunca são tão completas que o vencedor não tenha que levar em conta outras considerações, sobretudo de justiça.
E se aquele que você apoiar perder a contenda, os laços serão ainda mais fortes, porque ele irá reconhecer que você esteve ao seu lado em um momento de dificuldade. E ele o socorrerá sempre que puder. Nesse caso, mesmo na derrota, você estará unido a uma força que pode ser muito útil para se reestruturar e renascer.
4.
Vejamos, ainda, o que ocorre no caso de os dois rivais em luta serem inferiores a você e forem de tal ordem que você não precise temer a vitória de quem quer que seja.
Neste caso, tomar partido e se aliar a um deles é uma atitude ainda mais sábia, uma vez que, assim, provocará a ruína de um com a ajuda daquele que o deveria salvar se fosse sábio. O vencedor, seja quem for, ficará sob seu domínio. E aquele que você apoiar certamente será o vencedor.
É preciso ressaltar, contudo, que um príncipe nunca deveria se aliar com alguém mais poderoso, exceto por extrema necessidade, para derrotar um terceiro inimigo, como expliquei antes. A razão disso é que, mesmo vencendo, o príncipe ficará preso ao seu aliado que é mais forte; e um príncipe deve evitar a todo custo ser dependente, submisso ou estar sob controle de outro príncipe.
O motivo pelo qual muitos optam pela neutralidade é que ela parece a escolha com menos riscos. Um príncipe, entretanto, nunca deve escolher um caminho só por parecer o mais seguro, porque todas as escolhas envolvem riscos.
Também não é sábio por parte de um príncipe esperar que todas as suas decisões sejam inteiramente acertadas. Ele deve saber que, pelo contrário, suas decisões são sempre incertas. Pois é da natureza das coisas, quando se busca resolver um problema, nunca deixa de criar outro.
A sabedoria do príncipe está exatamente em conhecer a natureza dos problemas e adotar aquele que for menos prejudicial como sendo bom.
5.
Além do mais, para obter prestígio, ele deve, ainda, mostrar-se admirador dos talentos e reconhecer aqueles que se destacam numa arte qualquer.
Do mesmo modo, deve estimular seus cidadãos a exercer suas atividades em liberdade, seja nos esportes, nas artes, no comércio, na agricultura ou em qualquer outra área.
Aos cidadãos cabe não deixar de produzir riquezas pelo medo de serem assaltados, atacados ou do risco de serem perseguidos por isso.
Aquele que quiser acumular riquezas deve ter a liberdade de fazê-lo sem precisar temer que suas posses lhe sejam tomadas.
Por esse motivo, o príncipe deve instituir prêmios e reconhecimentos especiais para aqueles que desejarem empreender em tais coisas e enriquecer sua empresa, família ou comunidade.
Ele deve também, em certas épocas do ano, promover festas e espetáculos ao seu povo. E como todas as comunidades estão divididas em grupos culturais, profissionais e étnicos, deve envolver-se com elas, procurando dar provas de afabilidade e união, mantendo sempre íntegras e honradas, entretanto, a grandeza e superioridade do seu posto.
MAQUIAVEL
Capítulo XXI
O que um príncipe deve realizar para ser estimado ANÁLISE
As pessoas têm uma necessidade extraordinária de acreditar em algo maior do que elas mesmas. A maioria anda aflita à procura de algo que possa usar para preencher o vazio e a insignificância de sua existência.
Elas se rendem a qualquer coisa que as façam se sentir importantes, dignas e maiores do que são. Essa necessidade as torna tremendamente suscetíveis a todo tipo de influência e manipulação. Qualquer charlatão que aparecer com uma promessa de salvação para a aparente falta de sentido da vida terá sua boa vontade e colaboração.
Profissionais bem preparados sabem dessa nossa deficiência e não têm piedade nem limites para explorá-la. Sobre ela, constroem fortunas e impérios nos quais, depois, quase sempre nos aprisionam e escravizam.
Seja na política, religião, esportes, artes, moda ou entretenimento a estratégia do manipulador é sempre a mesma: criar uma espécie de culto em torno de uma causa aparentemente nobre e se colocar no centro, como profeta e precursor da transformação que, em geral, converte um, aparente, mal num bem.
O processo todo não envolve nenhum tipo de ação (o que exigiria esforço e resultados concretos), mas imagens e palavras sempre empolgantes e evasivas. De um lado, o que essas pessoas nos oferecem
parece grandioso e transformador; de outro, vazio, raso e evazivo. Isso não é uma falha, mas uma técnica. Porque o vazio e evasivo oferece espaço para os indivíduos criarem sua própria ilusão sobre a promessa grandiosa que lhes é oferecida. E a técnica terá um efeito ainda maior se as palavras tiverem enorme ressonância, se forem repletas de entusiasmo, calor e promessas eloquentes. Títulos sólidos e pomposos, muitas vezes envolvendo números para esconder a característica vaga do conceito em si, podem ter um efeito viral sobre as massas.
Veja o exemplo da política: Juscelino Kubitschek e seus “cinquenta anos em cinco”, Fernando Collor de Mello e o “caçador de marajás”, Luiz Inácio Lula da Silva e o “fome zero”. Em todos eles, teve-se o cuidado de criar um slogan que criasse nos seguidores a sensação de fazerem parte de um grupo exclusivo que os conectasse a uma causa nobre, grande, maior que eles próprios. Em todos, há uma luta envolvida. Sempre contra um terrível inimigo comum, alguém que todos querem ajudar a exterminar. Juscelino, a estagnação do país; Collor, os marajás; Lula, a fome. Não raras vezes, suspeita-se de que há alguém por trás desse inimigo abstrato — um partido, um sistema, uma pessoa ou um grupo delas — que é apontado como o causador desse mal e que seu objetivo é acabar com o bem e propagar o mal.
Ao apresentar uma causa nobre, e apontar seu adversário como inimigo dessa causa, essas pessoas criam a sensação de que o mundo está divido em dois blocos: o bloco do bem e o bloco do mal. Elas, lógico, são o bloco do bem; os seus adversários, o do mal. Exemplos dessa técnica podem ser percebidas na história de Stálin e sua luta contra o capitalismo, de Hittler e sua luta contra os judeus, e, mais recentemente, de Hugo Chaves e sua luta fictícia contra o imperialismo yankee.
Essas pessoas nunca admitem nem deixam transparecer que seu poder vem da criação dessa luta, seja ela fictícia ou real. Ao contrário, elas fingem que emprestam seu poder para combater esse “inimigo cruel” que causa esse “grande mal”. E isso não se aplica só a políticos.
Está estampado em toda parte. Num estudo recente, grupos de homens que viram um anúncio de um automóvel novo ladeado por duas garotas sedutoras consideraram o carro mais veloz, mais atraente, mais bem projetado e o avaliaram com um preço superior ao de outros grupos que viram o mesmo anúncio sem as modelos.
Para evitar esse tipo de manipulação, olhe sempre para o produto ou para a pessoa e não para a causa na qual se insere. Olhe para o indivíduo em si, não para o super-herói no qual ele tenta se projetar por trás de uma causa. Analise suas palavras sem a euforia que elas provocam. Em vez de se concentrar cegamente na causa proposta, questione o como, o quando e o porquê dessa causa. O manipulador nunca terá a resposta para essas questões. Jamais se distraia com a imagem colorida que as pessoas pintam de si mesmas. Procure por aquilo que as motiva, pelos interesses escondidos em suas palavras entusiasmadas e enganadoras.
E se você busca prestígio e liderança, torne-se uma fonte de prazer e distração para os outros. Acorde, atice e flerte com a imaginação e a fantasia deles.
Evite ser o tipo realista e racional que lida abertamente com a dura realidade dos fatos. Jamais cometa o erro de dizer a quem você quer seduzir, que o sucesso, a riqueza e o prestígio são resultados do esforço e do trabalho duro, mesmo sabendo que isso é verdade.
Se fizer isso, ninguém se interessará por você. A realidade geralmente é dura demais, a solução é muito dolorida e as pessoas não querem lidar com ela. Então, ao contrário, prometa uma fórmula mágica, uma alquimia que mude tudo de uma hora para outra. Se fizer isso, você não será apenas prestigiado por elas — será glorificado. Não se iluda: há enorme reconhecimento e prestígio esperando por quem consegue mexer com a ilusão e a fantasia das pessoas.
LEMBRE-SE: os indivíduos raramente acreditam que seus problemas são fruto de seus próprios erros e da sua própria ignorância. A culpa sempre é de alguém ou de algo: os outros, a vida, as circunstâncias, a falta de sorte, a ausência de oportunidades e assim por diante. E se, na mente deles, a causa vem de fora, a solução também precisa estar lá fora.
Não tente, portanto, mostrar-lhes a verdade. Eles evitam a verdade porque ela raras vezes é agradável e prazerosa. Pense nisso!
A maioria de nós deseja mudanças e compreende muito bem a necessidade de fazê-las. Mas por que não as fazemos? Porque, na prática, qualquer mudança vai contra nossos hábitos profundamente estabelecidos. Ela exige uma ruptura traumática na nossa rotina, o que raramente estamos dispostos a enfrentar.
Portanto, se quer cativar e seduzir os outros, sua promessa de salvação não deve passar de promessa. Ela até pode ser intangível na realidade, mas precisa ser perfeitamente palpável na imaginação das pessoas.
Faça-as sonhar, desejar, serem tentadas por sua promessa, mas não lhes dê o suficiente para compreendê-la a ponto de quererem colocá-la em prática. Mantenha a realização delas sempre distante, não a explique demais, pois isso revelaria os obstáculos que precisam ser superados para realizá-la e, com isso, a maioria perderia o interesse por sua ideia.