Poder e Manipulação

Jacob Petry · Capítulo 16 de 25

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Poder e Manipulação

Capítulo 14 - Dos que alcançam o poder por meios injustos e corruptos

Por fim, lembre-se sempre de que não são os outros ou as circunstâncias que definem seu preço no mercado, mas você mesmo.

Peça pouco e será isso que você receberá. Desse modo, defina o valor que você quer ter. Em seguida, envie ao mundo o sinal apropriado do valor que você definiu. Logo verá que mesmo aqueles que não acreditavam em você mudarão seu ponto de vista e passarão a respeitá-lo pela sua autoconfiança, firmeza e ousadia. Saiba, no entanto, que firmeza e ousadia não devem ser confundidas com indiferença e arrogância.

CAPÍTULO 14

DOS QUE ALCANÇAM O PODER POR MEIOS INJUSTOS E

CORRUPTOS

DE O PRÍNCIPE

Além das maneiras de chegar ao poder que vimos no capítulo anterior, pode-se dizer que existem ainda outros dois modos, que são: Conquistar o poder pela maldade, por caminhos desonestos e corruptos, contrários a todas as leis humanas e divinas;

Alcançar o poder pelo favor de seus compatriotas.

Embora essas duas formas não sejam em nada muito honrosas, não me parece inteligente omiti-las.

Em relação ao primeiro, quero fazer referência ao exemplo de Agátocles Siciliano, que mesmo sendo filho de um simples oleiro que se utilizou de meios corruptos e desonestos associados a atitudes desprezíveis e repudiantes, tornou-se rei de Siracusa. Sua vida de barbáries começou cedo. E através de conluios e maldades de toda ordem, tornou-se o pretor de Justiça de Siracusa. Esse cargo, entretanto, não lhe pareceu suficiente. Agátocles queria tornar-se príncipe. E utilizando-se de uma estratégia covarde, aliou-se secretamente com Amílcar, um general cartaginês que se encontrava com seu exército na Sicília e preparou o golpe que poderia lhe dar o trono que tanto almejava.

Certa manhã, Agátocles reuniu o povo e o senado de Siracusa na praça da cidade com o pretexto de realizar um plebiscito sobre negócios públicos. Quando todos se encontravam ali reunidos, ele ordenou que

seus soldados exterminassem, ao mesmo tempo, todos os senadores e os homens mais ricos da cidade. Em seguida, apoderou-se do governo de Siracusa e conservou-o. Então, mesmo tendo os cartagineses rompido com ele duas vezes e cercado a cidade, Agátocles conseguiu fortificar Siracusa e assaltar a África. Depois, libertou Siracusa do cerco e humilhou os cartagineses.

Considerando as ações e conquistas de

Agátocles, não se achará nada, ou muito

“Não há mérito em

pouco, que possa ser atribuído como

ações como matar

resultado da sorte. Todos os degraus trilhados seus concidadãos e

entre sua infância pobre como filho de oleiro trair os amigos.”

até o comando de suas milícias foram

conquistados com muitos dissabores e

perigos. Amparado na sua vontade e ambição, ele passou por tudo que foi preciso para chegar ao poder. Contudo, não se pode dizer que o conseguiu através da virtude. Não há mérito em ações como matar seus concidadãos, trair os amigos, não ter fé, não ter religião, nem piedade.

Mas, mesmo assim, pode-se, com isso, conquistar o poder; porém, jamais a glória.

Se levarmos em conta sua habilidade em enfrentar e vencer obstáculos e perigos, sua força de espírito por suportar e superar coisas contrárias, a astúcia em conseguir derrotar os inimigos, não há nada que possa julgá-lo inferior a nenhum dos capitães mais ilustres que já existiram. Entretanto, sua crueldade desumana e seus inúmeros crimes não permitem que ele seja celebrado entre os mais ilustres homens da história. Não se pode, portanto, atribuir fortuna ou valor àquilo que ele alcançou sem uma nem outra.

2.

Em nosso tempo, sob o reinado de Alexandre VI, temos o exemplo de Oliverotto de Fermo. Como seu pai morreu quando Oliverotto ainda era criança, ele foi criado por um tio materno, Giovanni Fogliani. Ainda muito jovem, Oliverotto dedicou-se à vida militar e teve Paolo Vitelli como mentor. Era desejo de sua família que, uma vez treinado através de dura disciplina, Oliverotto lograsse algum posto de destaque na milícia.

Quando Paolo faleceu, Vitellozzo, seu irmão, passou a comandar o jovem. Como era engenhoso, forte e destemido, em pouco tempo Oliverotto tornou-se o primeiro homem da corporação. Pareceu-lhe, contudo, coisa desprezível continuar servindo com os demais, e ajudado por alguns cidadãos de Fermo, que preferiam a servidão à liberdade de sua pátria, e auxiliado por Vitellozzo, Oliverotto decidiu ocupar a cidade de Fermo.

Desse modo, escreveu a seu tio Giovanni Fogliani di zendo-lhe que, por ter estado muitos anos fora de casa, queria visitá-lo. Disse também que desejava muito mostrar para sua cidade natal o patrimônio que acumulara. Como não trabalhara com outro objetivo senão adquirir honras, a fim de que seus concidadãos reconhecessem que não gastara o tempo em vão, pretendia apresentar-se em grande pompa e acompanhado de cem cavaleiros, todos seus amigos e servidores. Por isso, solicitou ao tio que organizasse uma passeata, sugerindo que os cidadãos de Fermo o acolhessem com homenagens. Ressaltou ainda que, além de ser gratificante para ele, constituiria também uma honra para o tio, que o educara.

Giovanni não deixou de atender nos mínimos detalhes aos pedidos de seu sobrinho. Quando veio o dia, fez com que os cidadãos de Fermo o recebessem com grandes festejos. Muito feliz, Giovanni alojou o sobrinho e toda a comitiva em sua própria casa.

Decorridos alguns dias, tudo estando preparado para que ordenasse o que convinha a sua futura traição, Oliverotto organizou um banquete, para o qual convidou seu tio Giovanni Fogliani e os demais homens de destaque da cidade de Fermo. Assim que encerrou o banquete, Oliverotto propositalmente iniciou uma discussão a respeito de assuntos graves, da grandeza do papa Alexandre e de César, seu filho, assim como de suas empresas. Uma vez que Giovanni e os outros haviam externado também considerações a tal respeito, em um momento de ira, Oliverotto afirmou que aquilo era tema para se discutir em local mais reservado e dirigiu-se à sala ao lado. Assim que os convidados se acomodaram para continuar a conversa, os soldados de Oliverotto saíram dos esconderijos e assassinaram Giovanni e os demais convivas.

Depois do homicídio coletivo, Oliverotto percorreu a cidade a cavalo com suas tropas e cercou o supremo magistrado no palácio da

cidade. Com medo, o supremo cedeu à pressão de Oliverotto e criaram um governo no qual ele se tornou o chefe. Após assassinar todos aqueles que poderiam estorvá-lo, Oliverotto fez-se forte por novas leis civis e militares, de modo que durante o ano em que governou a província não conseguiu apenas assegurar-se da cidade de Fermo como ainda tornar-se temido por todos os seus vizinhos.

Teria sido difícil tomar a cidade de Oliverotto se ele não tivesse sido enganado por César Bórgia. Desse modo, um ano após ter cometido o assassinato coletivo e tomado a cidade, Oliverotto foi estrangulado juntamente com Vitelozzo, mestre de suas virtudes e infâmias.

3.

Diante das histórias que acabamos de conhecer, alguém poderia se surpreender e perguntar: “Como se explica que Agátocles e outros tantos, após cometerem tantas traições e crueldades, conseguiram se manter no poder e envelhecer com tranquilidade e segurança, sem que os cidadãos ou os inimigos conspirassem contra eles, enquanto outros, como Oliverotto, por conta da mesma crueldade, não conseguiram se manter no poder?”

Acredito que isso depende da maneira como se faz uso da crueldade.

Ela pode ser bem ou mal praticada. Bem praticada (se é que se pode chamar a um mal de bem) são aquelas feitas de uma só vez, pela necessidade de prover sua própria segurança, e depois são deixadas de lado e seus benefícios são transformados o mais rápido possível em vantagem para o povo. Mal praticadas são aquelas que, a princípio, são realizadas muito esporadicamente, mas, com o tempo, em vez de serem deixadas de lado, passam a ser exercidas cada vez com mais frequência.

Aqueles que seguem a primeira destas linhas de conduta podem encontrar proveito e ter consequências aceitáveis de seus atos, como sucedeu a Agátocles. Os outros, da segunda linha, não conseguirão se manter no poder.

Sendo assim, é prudente dizer que ao assumir o poder o príncipe precisa determinar as medidas duras e severas que deverão ser tomadas e executá-las todas de uma vez, de forma a não ter necessidade de repeti-las no dia a dia. Assim, apesar do choque inicial, o príncipe irá impor respeito aos seus inimigos logo de início e terá tempo para reconquistar a confiança do povo e obter seu apoio, mostrando-lhe os benefícios que conquistou com as medidas severas impostas por ele no passado.

Quem procede de outro modo, por timidez

ou por força de maus conselhos, precisa

“As ofensas devem

sempre estar com a faca na mão para se ser praticadas todas

defender e jamais poderá confiar em seus numa única dose a fim

súditos, pois estes, em seu turno, não podem de que, sendo

confiar nele, devido a suas recentes e inúmeras e duras, haja

contínuas ofensas contra tudo e contra todos.

pouco tempo para se

Por isso, as ofensas devem ser praticadas falar sobre elas

todas numa única dose, a fim de que, sendo separadamente.”

inúmeras e duras, haja pouco tempo para se falar sobre elas individualmente. Quanto menos tempo houver para falar delas, menos elas ofenderão. Quanto aos benefícios, porém, estes precisam ser administrados pouco a pouco e um a um, para serem digeridos lentamente e, com isso, ser mais bem saboreados.

Um príncipe precisa ter controle sobre seus súditos de tal modo que nenhum incidente, bom ou mau, faça mudar radicalmente suas atitudes.

Se um incidente o forçar a mudar radicalmente, sua atitude terá sido em vão — pois o povo não dará valor a esse tipo de ação quando ela não for espontânea, mas obrigatória. Além disso, ainda condenará o príncipe por permitir que a tragédia acontecesse sem preveni-la.

Se o incidente o forçar a agir compassivamente, a compaixão também não irá beneficiá-lo, pois o povo entenderá que ele agiu assim porque as circunstâncias não lhe deixaram outra escolha e ninguém agradecerá a sua prática.

MAQUIAVEL

Capítulo VI I

Dos que alcançaram o principado pelo crime

ANÁLISE

Há uma grande limitação na interpretação que fazemos dos indivíduos e situações a nossa volta. Quando pensamos ou analisamos as pessoas ou circunstâncias, o fazemos com uma visão muito simplista, porque isso exige o mínimo de esforço de nós. Costumamos nos precipitar nas nossas conclusões, julgando as pessoas e circunstâncias de acordo com nossas próprias projeções, nossos medos, angústias, ambições e ansiedades, percebendo apenas o que estiver de acordo com esses sentimentos.

Nossa mente, raras vezes, se encontra aberta ao novo. Ela se mantém constantemente ocupada no esforço de comparar, justificar, condenar e rotular. E uma vez que criamos um rótulo, nós nos agarramos a ele e não soltamos mais. Esse rótulo, como já vimos, quase nunca foge da dualidade simplista que classifica as coisas como boas ou ruins, fáceis ou difíceis, bonitas ou feias, claras ou confusas e assim por diante.

A verdade é que nada na vida é tão simples assim. Pessoas, eventos e circunstâncias sempre são mais complexas. Posso ser ruim com você hoje e bom amanhã. Você pode ser ruim comigo e bom com outra pessoa. Seu adversário pode parecer fraco e surpreendê-lo com sua força. A circunstância que hoje parece negativa, amanhã poderá se mostrar positiva. Assim como o que parece positivo hoje, pode se tornar negativo no futuro.

Por isso, reduzir o mundo a preto e branco torna sua compreensão mais simples e, talvez, momentaneamente, faça com que seja mais fácil lidar com ele. Mas, por outro lado, também nos distancia de como ele é na realidade e nos leva a cometer muitos erros de avaliação, tornando-nos vítimas fáceis do nosso próprio julgamento.

Se deseja ser um grande empreendedor, um profissional liberal brilhante ou um executivo extraordinário, descubra o poder, a beleza, o vigor e a vitalidade que existe numa mente aberta, livre de dogmas, doutrinas e convicções predefinidas. Resista, a todo custo, à tendência de saltar para conclusões precipitadas que costumam ser fruto de suas projeções e, por isso, irreais e falsas.

Tenha cautela. Saiba que, para descobrir o novo, muitas vezes é preciso se livrar do velho, sobretudo suas doutrinas e convicções dogmáticas. Se agir com mais cautela, permitindo mais espaço para a avaliação, se der mais atenção a possíveis nuances e ambiguidades, libertando-se de certos resíduos de sua formação, você se distanciará

das massas da noite para o dia e os benefícios serão enormes em todos os sentidos.

Indivíduos que avaliam tudo em termos de A ou B se apegam muito às aparências, tornando-se vítimas ingênuas e indefesas das circunstâncias e das pessoas, porque tanto as circunstâncias quanto as pessoas nunca são simplesmente boas ou ruins.

Circunstâncias e pessoas, como já vimos, podem ser boas e ruins ao mesmo tempo. E, com isso, confundir e enganar, com tremenda facilidade, aqueles que não estiverem atentos. Em outras palavras, aquele que não desenvolver a habilidade de raciocinar com clareza, sem ilusão, a partir dos fatos, e não de suas convicções e de seus dogmas, ignorará o lado bom que há nas coisas ruins ou o lado ruim que existe nas coisas boas e, com isso, correrá o risco de sair perdendo em ambas.