Poder e Manipulação
Capítulo 5 - Da crueldade e da piedade – se é preferível ser amado ou temido
Contudo, se você, por algum motivo, deseja aumentar seu círculo de influência, use a generosidade com inteligência. Se conseguir fazer com que sua isca pareça especial, sempre encontrará um número suficiente de otários que cairão com tremenda facilidade na sua armadilha.
Há, entretanto, dois cuidados que você precisa tomar: 1. Nunca pratique a generosidade por tempo demasiado com as mesmas pessoas.
2. Tampouco pratique-a deliberadamente com todos.
No primeiro caso, o valor da ação diminui com o tempo, na medida em que os indivíduos vão se acostumando com ela. No segundo, ela não tem muito valor porque deixa de ter a impressão de algo notável e exclusivo. As pessoas são egoístas e costumam responder com mais entusiasmo àquilo que as coloca acima das demais.
CAPÍTULO 5
DA CRUELDADE E DA PIEDADE — SE É PREFERÍVEL SER AMADO
OU TEMIDO
DE O PRÍNCIPE
Prosseguindo na análise das qualidades necessárias para conquistar o poder e manter-se nele, tenho a afirmar que o príncipe sempre deve buscar a fama de piedoso, e não de inflexível, insensível e cruel.
Contudo, ele deve ter extremo cuidado em como empregar essa piedade.
O duque e cardeal César Bórgia, filho do papa Alexandre VI, era visto como um homem frio e cruel. Entretanto, sua frieza e crueldade o ajudaram a reerguer a Romanha, a uni-la e restaurar a paz e a esperança.
Qualquer pessoa que analise realisticamente as conquistas de César Bórgia verá que ele foi mais piedoso do que o povo de Florença, que, para evitar a fama de cruel, permitiu que Pistoia fosse destruída.
Se a reputação de duro e insensível conservar sua equipe unida e próspera, o príncipe não deverá se importar muito com ela. Porque, mesmo sendo duro, com raras e pequenas exceções, ele é mais piedoso do que aquele que, por excesso de tolerância, permite que surjam desordens, das quais podem se originar indisciplina, desrespeito e insegurança.
É preciso levar em conta que essas turbulências prejudicam todo o povo, conquanto as execuções severas e frias de um príncipe intolerante ofendam pequenos grupos, ou mesmo, em muitos casos, um só indivíduo.
Sendo assim, dentre todos, aquele que recém conquistou o poder é o que menos pode prescindir da fama de inflexível e intolerante. Quanto mais novo, frágil e inseguro é o mestre, maior é a liberdade do discípulo.
O mesmo se repete em todos os setores. Sempre que se percebe que o príncipe age com indecisão e insegurança, emergem grupos de
sabotadores e traidores que não hesitarão em expor sua liderança a infâmia e desordens. Daí a necessidade de ter fama de duro e insensível.
Como diz o poeta romano Virgílio, no poema Eneida, através da boca de Dido, rainha de Cartago: “A dura condição das coisas e o fato mesmo de ser recente o meu reinado obrigam-me ao rigor e à precaução, exigindo-me a fortificar as fronteiras”.
Por outro lado, o líder nunca deve confiar em boatos e agir com base neles. Tampouco ser precipitado ou assustar-se com os próprios pensamentos e se retrair. É preciso que ele aja com equilíbrio e prudência — para que a confiança exagerada não o torne desatencioso e a desconfiança excessiva não o faça suspeitar de todos e de tudo tornando-se intolerável.
2.
Uma vez dito isso, surge a dúvida: é melhor ser amado que temido ou o contrário?
A minha resposta é que o certo seria ser as duas coisas. Entretanto, como é difícil uma única pessoa reunir as qualidades para provocar esses dois sentimentos ao mesmo tempo, se tiver que escolher entre os dois, é muito melhor ser temido do que amado.
A razão disso é que as pessoas, em geral, são ingratas, volúveis, dissimuladas, covardes
“As pessoas, em geral,
e querem tirar vantagem em tudo por causa de são ingratas,
suas ambições financeiras. Enquanto você dissimuladas, fogem
lhes fizer o bem, elas estarão inteiramente a dos perigos e querem
seu lado, oferecendo seu sangue, suas posses, tirar vantagem de tudo
sua vida, seus filhos e tudo o que têm. No por causa de suas
momento em que você precisar delas, elas lhe ambições pessoais.” virarão as costas e se juntarão aos seus rivais.
Sendo assim, o príncipe que confiar
inteiramente nas palavras daqueles ao seu redor, sem tomar nenhum outro tipo de precaução, facilmente se verá diante da sua própria ruína.
Isso porque as amizades que nascem da troca de benefícios são estruturadas em interesses, e não na nobreza de caráter, como deveria de ser. Esse tipo de amizade é comprada e não se pode contar com ela no
momento preciso. Tais amizades até podem servir por um tempo ou em certas circunstâncias, mas nunca serão seguras.
As pessoas hesitam menos em ofender
aqueles que amam do que aqueles que temem.
“As amizades que
Isso acontece porque o amor é conservado por nascem da troca de
laços de obrigação. Como os seres humanos benefícios são
são infiéis sempre que lhes apraz, esses laços estruturadas em
tendem a ser rompidos assim que surge a interesses, e não na
menor ameaça aos interesses próprios. Por nobreza de caráter,
outro lado, o temor é conservado pelo medo como deveria de ser.”
da perda e do castigo, sentimentos mais fortes e com os quais as pessoas quase nunca falham.
Outra razão pela qual é preferível ser temido a ser amado é que se tornar amado
“Pessoas sempre
depende muito da vontade do povo e de seus
hesitam menos em
subordinados, enquanto se fazer temido
ofender aqueles a que
depende tão só das atitudes do príncipe. E
amam do que aqueles
aquele que souber agir com sabedoria colocará a que temem.”
seu objetivo no que depende de si, e não no
que está nas mãos dos outros.
3.
É preciso, contudo, que o príncipe tenha o extremo cuidado de tornar-se temido de tal modo que, mesmo que não seja amado, também não se torne odiado. Afinal, uma pessoa pode muito bem ser temida sem ser odiada. Isso tende a acontecer sempre que o príncipe não tentar se apropriar dos bens dos cidadãos e de seus súditos.
Muitos tentam fazer isso com discrição. Eles tiram proveito de estratégias dissimuladas, como o aumento de impostos, saques, multas, taxas indevidas e até mesmo o corte de benefícios prometidos ou legalmente conquistados. Essas ações costumam torná-lo odiado. Pois as pessoas esquecem mais rápido a morte do pai do que a perda de sua herança.
Por isso, é preciso estar atento. Uma vez no poder, um príncipe sempre encontrará pretextos para colocar a mão no que é dos outros, e aquele que começa a viver de propinas e corrupção acaba sempre encontrando motivos e circunstâncias para fazê-lo. Até que seja descoberto e arruinado.
4.
Dois exemplos ilustram muito bem o que estamos afirmando: o primeiro é Aníbal, general cartaginês que comandou os exércitos de Cartago contra Roma, considerado um dos maiores estrategistas militares de toda a história. O exército de Aníbal era muito numeroso, composto de homens de todas as nacionalidades e idades que lutavam em terras alheias. Contudo, jamais surgiu nenhuma disputa entre as tropas.
Aníbal era um homem de inúmeras virtudes que o tornaram venerado e temido pelos seus soldados. Entretanto, apesar de todas essas virtudes, o motivo pelo qual ele conseguia manter a ordem e o respeito entre os seus soldados deve ser atribuído unicamente a sua frieza quase inumana. Prova disso é que, ao se referirem à frieza de Aníbal, os historiadores mais comedidos contentam-se em admirar e elogiar essa sua qualidade, ao passo que outros atribuem a ela todos os triunfos que o general alcançou.
5.
O segundo exemplo é Cipião, general romano que lutou contra as tropas de Aníbal. Cipião era um homem extraordinário. E isso não apenas no seu tempo, mas também na memória dos fatos que a história registra.
Apesar de todas as suas virtudes, porém, Cipião não conseguiu os mesmos feitos de Aníbal em relação a suas tropas e viu seus exércitos se revoltarem contra ele na Espanha. Se analisarmos os motivos que o levaram a esse fracasso, veremos que seu erro foi a excessiva bondade com que tratava seus soldados, a quem dava mais liberdade do que convinha à disciplina militar. Quando, por exemplo, um tenente de suas tropas saqueou um inimigo indevidamente, comportamento inadmissível até mesmo para a época, Cipião se mostrou conivente.
Nem mesmo o reprimiu. Atitudes assim contagiavam os demais
soldados, servindo de mau exemplo e criando indisciplina entre as tropas. E tudo isso era resultado da insolência que brotava por conta do caráter bondoso de Cipião. Por esse motivo, ele foi severamente advertido no senado por Fábio Máximo, que o tachou de corruptor da milícia romana. Outro senador, falando em defesa de Cipião, referiu-se a ele dizendo que “existem homens que preferem não errar a corrigir erros alheios”.
Sobre se é melhor ser temido ou amado, concluo, portanto, que o príncipe sábio deve amar os outros como quer ser amado e, sendo temido por eles como quer, deve firmar-se no que é seu, e não no que pertence aos outros, evitando apenas o ódio dos cidadãos e súditos, como disse.
MAQUIAVEL
Capítulo XVI
Da crueldade e da piedade – se é preferível
ser amado ou temido
ANÁLISE
A vida é uma longa e constante batalha que precisa ser combatida todos os dias. Essa é a realidade inevitável de todas as espécies em sua luta pela sobrevivência. E não é diferente para o ser humano. Felizmente, a maioria de nós não vê mais os campos sangrentos das refregas de outrora, mas isso não quer dizer que as guerras tenham acabado. Hoje, a luta é em outro nível. As estratégias, agora, se voltam para a conquista da nossa mente. A ameaça é contra nossas fraquezas psicológicas.
Em todos os setores existem indivíduos e empresas que não medirão consequências para conquistar e assegurar sua posição no topo. A concorrência entre pessoas, companhias e organizações é uma guerra aberta. E não se iluda: o mundo está repleto de pessoas inescrupulosas que tentarão nos usar como objetos para conquistar o que elas querem. Se não estivermos atentos e não tomarmos alguns cuidados, seremos sutilmente seduzidos a incorrer em erros e cair em armadilhas que podem nos custar décadas de trabalho.
Tome cuidado com aqueles que agem com simpatia e amizade na sua frente, mas o sabotam e o combatem quando você vira as costas. Ou com aqueles que, ainda mais dissimulados, lhe oferecem apoio e suporte em promessas que nunca serão cumpridas, só para iludi-lo e, na hora certa, puxar seu tapete.
A cultura talvez negue essa realidade e promova uma sociedade generosa e pacífica fingindo que tudo está bem. Mas, no fundo, cada um sente o peso da realidade como ela é. No palco, tudo parece em paz e sob controle, mas atrás das cortinas, cada um está por si só, acanhado e com medo.
E PIOR: os ataques não acontecem apenas entre estranhos, mas também entre amigos, familiares e casais. Seu próximo inimigo pode ser um cliente, um sócio, um chefe, um comprador, um funcionário, um colega, um amigo, um namorado ou um cônjuge. É bom estar preparado.
Aqueles altamente sedutores, não raras vezes, são os mais dissimulados e manipuladores, capazes de fazer qualquer coisa para enganá-lo e tirar o máximo de vantagens possível da relação.
Não desdenhe desses riscos tentando ser o tipo “pensamento positivo”. As consequências de um cochilo podem ser intoleráveis para quem pensa assim.
ENTENDA: a verdade é que somente uma minoria pode vencer no jogo da vida. E mesmo que você tenha chegado ao topo com honestidade e integridade, o simples fato de estar no topo, inevitavelmente, despertará a inveja daqueles ao seu redor. E aqueles que mais o atacarão não serão os estranhos, mas o seu círculo mais íntimo: amigos, familiares e colegas, gente que você deixou para trás. O sentimento de inferioridade diante do seu sucesso os machucará, os fará sentirem-se incapazes e, uma vez feridos, a inveja costuma ser a única saída.
Quando você despertar a inveja em alguém, tenha cuidado, pois tudo o que você fizer estimulará ainda mais esse sentimento. Aos poucos, essa pessoa não suportará mais manter esse rancor escondido e começará a espalhar o veneno contra você. E pior: ela não fará isso abertamente, mas de maneira oculta, em geral, por trás de uma máscara complacente e amorosa.
Por isso, não se agarre em promessas de amor e amizade eternas e acima de qualquer suspeita. Ame, rodeie-se de amigos e seja leal, mas mantenha-se atento. Tenha uma postura firme, baseada, acima de tudo, no respeito mútuo.
Sua postura é importantíssima, porque ela afetará diretamente a forma como você será tratado pelos demais. Uma postura vulgar e desleixada, que não inspira segurança e autoridade, fará com que as pessoas não o respeitem da maneira apropriada. Por isso, um líder, primeiro, deve aprender a liderar a si próprio. Isso lhe conferirá respeito sobre si mesmo, o que faz com que ele inspire o mesmo respeito nos outros. Ao agir como um líder, confiando em seu poder de liderança, você será visto pelos demais como um líder e será respeitado como tal.
Sendo assim, nunca permita-se perder o autorrespeito. Faça com que a integridade seja seu único parâmetro de comportamento e esteja mais preocupado com seu próprio julgamento sobre si mesmo do que com o julgamento alheio. Evite condutas impróprias por respeito próprio, e não por causa das convenções sociais. Tenha admiração por si mesmo e verá que não irá precisar implorá-la aos outros. Nunca demostre dúvida nem abra mão de sua dignidade. Faça com que suas ações sejam dignas de um grande líder. Seja sublime em seus pensamentos e obras e todas as suas atitudes mostrarão que você merece ser um líder forte e poderoso, mesmo que ainda não ocupe oficialmente tal posto.