Poder e Manipulação

Jacob Petry · Capítulo 20 de 25

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Poder e Manipulação

Capítulo 18 - Dos riscos e das dificuldades que existem na implantação de mudanças

Em seguida, quando melhor lhe convier, use essa informação em seu benefício. Ao usar esse conhecimento, você parecerá assombrosamente inteligente e familiar, ao passo que ele não saberá nada a seu respeito.

Desse modo, além de você obter um vasto conhecimento que poderá usar a seu favor, as pessoas ainda confundirão seu interesse nelas por amizade e admiração e as portas de suas fortalezas estarão completamente abertas para você.

CAPÍTULO 18

DOS RISCOS E DAS DIFICULDADES QUE EXISTEM NA IMPLANTAÇÃO DE MUDANÇAS

DE O PRÍNCIPE

Oleitor não deve estranhar que eu,

frequentemente, cite longos exemplos a

“Em vez de optar pela

propósito dos governantes e Estados. Em vez

originalidade, as

de optar pela originalidade, as pessoas quase pessoas quase sempre

sempre

preferem

seguir

caminhos

já

preferem seguir

percorridos por outros e imitar as ações caminhos já

destes. Sendo assim, um príncipe prudente percorridos por outros

deve analisar os caminhos já percorridos pelos e imitar as ações

grandes homens e seguir o exemplo daqueles destes.”

que foram os melhores. Ainda que não seja possível

seguir

fielmente

o

caminho

percorrido por outrem, nem atingir pela imitação a habilidade dos grandes, ao observar suas atitudes e se empenhar em segui-los, sempre se aprende e aproveita muita coisa.

Uma pessoa que aspira altos postos deve agir como os arqueiros mais prudentes que, desejando alcançar um alvo muito distante e conhecendo a limitação do arco, fazem a mira em altura superior à do ponto que desejam acertar. Esses arqueiros, como se sabe, não miram a altura para que a flecha alcance o ponto ao qual alinham a pontaria, mas servem-se da mira elevada somente para acertar com segurança o ponto designado mais abaixo.

Na busca e conservação do poder, a dificuldade se manifesta na razão direta da capacidade de quem o busca ou o conquistou. O fato de elevar-se ao poder, faz supor do príncipe valor próprio ou sorte. O certo é que qualquer uma destas razões exigirá a habilidade de resolver muitos desafios. É comum observar que a maioria dos líderes que foram menos beneficiados pela sorte foram os que se mantiveram por muito mais tempo no

“Não importa de que

poder.

maneira se chega ao

topo — o certo é que o

posto de líder exigirá

2.

a habilidade de

resolver muitos

Entre governantes antigos que alcançaram o desafios.”

poder e se mantiveram nele pelo seu valor, e não pela sorte, podemos citar como sendo os

maiores Moisés, Ciro, Rômulo e Teseu. Ainda que Moisés não deva ser citado por constituir-se mero executor das ordens de Deus, é correto, entretanto, admirá-lo pela graça que o tornou digno de falar ao Criador.

Consideremos, porém, Ciro e outros que conquistaram e fundaram reinos. Sob qualquer análise, todos são dignos de admiração. E

levando-se em consideração seus feitos, suas atitudes e ordens particulares, veremos que não se diferenciam em nada daqueles de Moisés, que teve tão alto mestre. E se analisarmos suas vidas e suas ações, chegaremos à conclusão inevitável de que eles não receberam da sorte nada além do que as circunstâncias de poder ajustar e moldar suas virtudes como melhor lhes aprouve. Sem essas circunstâncias, suas qualidades pessoais ter-se-iam apagado. E sem suas virtudes, as circunstâncias teriam sido inúteis.

Portanto, era preciso a Moisés ter o povo de Israel no Egito, escravo e oprimido dos egípcios, a fim de que, para se livrarem da escravidão, estivessem propensos a segui-lo. Era conveniente que Rômulo não achasse refúgio em Alba e tivesse sido exposto ao nascer, para vir a tornar-se rei de Roma e fundador de uma pátria. Necessário se tornou que Ciro topasse os persas descontentes do império dos medas e estes estivessem bastante acomodados e amolentados por um longo período de paz. Teseu não teria conseguido revelar suas habilidades se não houvesse encontrado os atenienses dispersos.

Tais circunstâncias levaram esses homens ao triunfo; e sua maior habilidade foi reconhecer essas circunstâncias, que os tornaram nobres e famosos. Os que, do mesmo modo que Moisés, Ciro, Rômulo e Teseu, se fazem grandes pela virtude própria e conquistam o poder com dificuldade, mas se mantêm nele com facilidade. A razão disso está no fato de que o caminho dificultoso e cheio de desafios os prepara para

as adversidades que encontram uma vez que chegam ao poder e para as mudanças que devem ser implantadas para superá-las. Deve-se observar aqui que não há coisa mais difícil, nem de êxito mais duvidoso, nem mais perigosa, do que implantar mudanças que afetam as leis, os costumes e as tradições de um povo.

Isso se justifica porque o príncipe, assim que assumir o poder e tentar implantar as mudanças necessárias, terá como inimigos ferozes todos os que eram beneficiados pelo sistema antigo e encontrará defensores tímidos naqueles que serão beneficiados pelo novo. Essa fraqueza se origina do medo das opiniões e da crítica dos adversários; e da incredulidade humana, que muitas vezes é incapaz de crer na verdade lógica das coisas novas senão depois de se acostumar a elas após as testar com longa e firme experiência.

Advém disso que, quando os adversários têm oportunidade de atacar o conjunto de medidas adotadas pelo príncipe, fazem-no como fanáticos. Já os que defendem a implementação do novo sistema agem sem entusiasmo algum e, com isso, colocam em perigo o novo projeto e a posição do líder.

3.

Para expor de modo bastante claro esta parte, faz-se necessário, portanto, examinar se o inimigo, nestes casos, age por conta própria ou se depende de outros. Isto é, se para levar adiante seu projeto ele depende de ordens e favores de outros, ou se, de fato, pode decidir por contra própria e se impor.

No primeiro caso, quando depende de ordens de outros, sempre é malsucedido e nada consegue. Quando, porém, o príncipe não depende de ninguém, conta apenas consigo mesmo e pode se impor, dificilmente deixa de ser bem-sucedido.

Desse modo, todos os inovadores armados venceram e os desarmados se deparam com o fracasso. Pois é fácil convencer o povo de uma coisa, mas é difícil firmá-lo nessa convicção. É preciso, então, ter condições de, quando não mais acreditar, fazê-los crer com uso da disciplina e força.

Quando um príncipe se encontra nessa situação, luta com imensas dificuldades para conduzir-se e encontra em seu caminho todo tipo de

ameaça e perigo que somente podem ser superados pela persistência, coragem e astúcia. Contudo, uma vez vencidos os obstáculos, ele passa a ser venerado; e uma vez vencidos os que invejavam as suas qualidades, torna-se poderoso, seguro, honrado e feliz.

MAQUIAVEL

Capítulo VI

Dos principados novos que se conquistam

pelas armas e nobremente

ANÁLISE

Muitos líderes e empreendedores só adquirem noção do peso da liderança e da vanguarda quando se sentem ameaçados ou atacados.

Nesses momentos, a tendência é se encolher e trancar as portas a sete chaves, acreditando que isso os protegerá das ameaças e dos ataques.

Com isso eles limitam o acesso à informação a um pequeno grupo, geralmente, a assessores mais próximos. Esse, talvez, seja o maior erro que eles possam cometer, porque essa atitude lhes tira totalmente a perspectiva do que de fato está acontecendo a sua volta. Uma vez que um líder perde o contato com suas fontes, o isolamento cria todo tipo de fantasmas em sua mente, tornando-o, quase sempre, um paranoico fantasioso.

Em momentos de crise, quando você for atacado pela crítica, quando sofrer com ameaças e incertezas, resista à tendência de se encolher e desaparecer de cena. Nessas ocasiões você tem de mostrar sua cara mais do que nunca. Em vez de se retrair, precisa tornar-se ainda mais acessível. Você deve circular pelos corredores e pelas ruas mostrando tranquilidade e segurança. Mostrar sua força, indo de encontro a seus aliados, trazendo-os à luz. Procure velhos amigos e faça-os voltar à cena ao seu lado. Passe a frequentar círculos sociais onde você tem certeza de que encontrará apoio. Se necessário, crie fatos novos, introduza elementos coloridos à rotina das pessoas, para ofuscar prazerosamente sua visão e desviar a atenção daquilo que o ameaça.

ENTENDA: se você se isolar demais, perderá contato com as fontes que lhe dão o poder que sustenta sua liderança. Nunca se imagine tão forte e poderoso que possa dispensar o fluxo de comunicação e as conexões com sua base, seja ela qual for.

LEMBRE-SE: o poder sempre nos é dado pelas pessoas e ele só pode ser aumentado através do contato direto e estratégico com elas. Nenhum líder sobrevive por muito tempo no isolamento. E isso é perigoso.

Sendo assim, nunca perca conexão com o que acontece a sua volta, o que o deixaria sem informações indispensáveis para exercer o comando.

Quando isso acontece, em vez de tornar-se mais seguro e tranquilo, você perde acesso a conhecimento indispensável para reverter a situação.

Então, nunca se enclausure de tal forma que não consiga saber qual o assunto que se fala pelos corredores, no refeitório ou até mesmo nas esquinas da cidade.

Tenha sempre em mente que, na sua ausência, os rebeldes e os conspiradores crescem e tomam conta. Rumores se converterão em fatos, animosidades se transformarão em doutrinas. Sabotagens e conspirações se formarão sem que você perceba. Para evitar isso, você precisa estar adequadamente aberto a todos e o fluxo de informação não só deve ser estimulado, mas organizado e canalizado de forma que você seja o primeiro a saber de tudo o que está acontecendo a seu redor; sobretudo no que diz respeito ao seu círculo de poder.

Outro aspecto que deve ser compreendido pelos que desejam poder e prestígio é que quanto mais você circular entre as pessoas, mais elegante e empático se tornará. O isolamento, por outro lado, lhe conferirá uma aparência estranha, desajeitada, artificial, e os outros não se sentirão à vontade perto de você, tampouco, você, perto deles, o que o levará a um isolamento cada vez maior. E isso significa o fim de qualquer líder.