Poder e Manipulação
Capítulo 9 - De como escapar dos bajuladores
Esteja atento e vigilante. Mantenha tudo sob seu controle. Não permita que ninguém fale publicamente da sua nova invenção antes de você. Compreenda: assim como você está se apropriando do trabalho dos outros, haverá outros querendo se apropriar do seu. Nunca permita isso, a menos que você esteja numa situação inferior ou caso não se importe em viver na obscuridade.
Cerque-se de gente corajosa, criativa e confiante, com todas as habilidades que lhe faltam, pessoas que criam ideias e as colocam em prática, que geram riqueza e poder para você e para si mesmas; mas tenha sempre o cuidado de estar no controle de tudo. A regra é esta: assuma legalmente o crédito do trabalho dos que estão abaixo de você e dê o crédito do seu trabalho aos que estão acima de você — a menos que seu superior seja um trouxa que não se importe em perder o posto para você.
CAPÍTULO 9
DE COMO ESCAPAR DOS BAJULADORES
DE O PRÍNCIPE
Não posso omitir-me de um ponto importante, do qual pode ser difícil evitar erros graves, sobretudo quando o príncipe não souber escolher com sabedoria. Refiro-me aos bajuladores, uma praga presente em todos os níveis de relacionamentos, mas principalmente nos que envolvem o poder. A única preocupação dessas pessoas é agradar. Por isso, escondem o que na verdade pensam e sentem e dizem apenas aquilo que soa doce e suave aos ouvidos daqueles em cujas graças pretendem cair.
O problema é que as pessoas se
comprazem tanto nas coisas que dizem
“As pessoas se
respeito a elas próprias, e se deixam enganar comprazem tanto nas tão facilmente sobre si, que é difícil querer se coisas que dizem
libertar da bajulação. Além disso, mesmo respeito a elas
quando se quer evitá-la, corre-se o sério risco próprias, e se deixam
de cair em desconsideração. Pois não há outro enganar tão facilmente
modo de alguém se livrar da bajulação senão sobre si, que é difícil
deixando claro a todos que não se ofende com querer se libertar da
a verdade. Entretanto, quando alguém se sente bajulação.”
no direito de dizer para aquele que está no poder tudo o que pensa, ele dificilmente conseguirá impor respeito.
O príncipe que age com sabedoria deve, portanto, portar-se de outra maneira: escolher um grupo de pessoas igualmente sábias e formar um time de conselheiros. E a eles (e só a eles) deve dar o direito de dizer-lhe a verdade, porém, somente sobre as questões cujo esclarecimento ele solicitar; nada além. O príncipe deve consultar esses conselheiros a
respeito de tudo e suas análises devem ser ouvidas com atenção, para deliberar depois como julgar melhor sobre os conselhos do grupo.
Contudo, o príncipe deve comportar-se de modo que seus conselheiros percebam que com quanto mais liberdade falarem, mais facilmente suas opiniões serão aceitas. Fora esse grupo de conselheiros, ele não deve ouvir nenhuma outra pessoa. Quando falar ou debater questões publicamente, há de ir direto ao assunto e se manter firme em suas posições.
Se não seguir essa regra, o príncipe será enganado pela opinião dos aduladores ou mudará demais seu parecer, passando uma imagem de inseguro e confuso, o que resultará em falta de respeito e confiança.
2.
Quero, a este propósito, trazer um exemplo importante: o bispo Lucas, homem de confiança do imperador Maximiliano. Referindo-se a sua majestade, Lucas disse que Maximiliano não se aconselhava com ninguém, mas também não confiava nunca somente no seu próprio juízo. Isso acontecia porque o imperador não seguia o conselho que descrevi acima. Sendo um homem discreto, Maximiliano não discutia seus planos com ninguém e também não pedia opiniões. No momento, porém, de pôr em prática as suas deliberações, as pessoas a sua volta imediatamente apontavam seus problemas e falhas, fazendo-o reconhecer seus equívocos e voltar atrás nas suas decisões. Resultado disso é que as coisas que ele fazia num dia, destruía no outro. Além do que, não havia modo de saber quais as pretensões, de fato, do príncipe, tampouco se podia contar com suas decisões, mesmo depois de serem tomadas, o que afetou drasticamente sua liderança.
Um príncipe sempre deve buscar conselhos antes de tomar suas decisões. Mas esses conselhos devem ser solicitados por ele e apenas quando ele achar necessário; não quando os outros os quiserem dar.
Para ser ainda mais incisivo, é aconselhável, inclusive, que ele proíba as pessoas de lhe oferecerem conselhos sem que ele os solicite.
O príncipe sábio pergunta muito e ouve pacientemente. E ao perceber que alguém, por medo ou por qualquer motivo, não lhe fala a verdade, deve mostrar abertamente o seu desprazer.
3.
Muitos entendem que o mérito dos príncipes que adquirem reputação de sábios não é deles, mas sim dos conselheiros que eles escolheram para os auxiliarem. Pensar assim é ingênuo, porque é regra geral que um príncipe que não é sábio por si mesmo, tampouco o será se bem aconselhado — a menos que não faça valer sua opinião própria e costume acatar os conselhos de um só conselheiro, muito sábio, que lhe aponte sempre o caminho a seguir. Este caso pode acontecer, mas duraria pouco. Porque o conselheiro sábio – que neste caso é quem de fato governa — em pouco tempo lhe tomaria o posto.
Ao aconselhar-se com mais de um, porém, alguém que não seja sábio não conseguirá tirar uma conclusão sensata dos diferentes conselhos do grupo, nem saberá harmonizá-los. Cada conselheiro terá em mente seus próprios interesses e o príncipe precisará saber interpretá-los pelo que cada um representa, bem como tirar o melhor juízo a respeito.
Ele deve entender também que os
conselheiros são inclinados por sua natureza
“A sabedoria do líder
a agir dessa maneira, pois as pessoas serão não vem dos bons
sempre más para o outro, a não ser que a conselhos, mas, pelo
necessidade ou os interesses as forcem a ser contrário, os bons
boas. E disso tudo conclui-se que a sabedoria conselhos vêm sempre
do príncipe não vem dos bons conselhos, da sabedoria do líder.”
mas, pelo contrário, os bons conselhos vêm sempre da sabedoria do príncipe.
MAQUIAVEL
Capítulo XXI I
De como se evitam os aduladores
ANÁLISE
A bajulação não é um problema exclusivo dos poderosos. Ela é extremamente comum entre todos os indivíduos. Os ambientes sociais, mesmo os mais vulgares, estão infestados de pessoas famintas à caça de
outras que elas consideram maiores, mais corajosas, mais felizes, mais ricas, mais bonitas — e que estejam acima da vulgaridade em que elas se sentem imersas — para poder sugá-las.
Se você quer se tornar alguém notável, evite, a todo custo, ser um desses bajuladores indesejados que infectam os meios sociais onde reinam vestígios de poder e prestígio.
E se você ocupa um lugar de destaque e quer se libertar dessa praga, siga estes dois passos:
AUMENTE A IMPORTÂNCIA DE SUA PRESENÇA TORNANDO-SE MENOS
ACESSÍVEL. Evite estar disponível e acessível a qualquer um ou durante tempo demais. É importante que você tenha uma presença forte — isso atrairá a atenção e o poder. Mas tenha cuidado para não se expor demais. Faça retiradas estratégicas de cenário, pois elas aumentam seu poder e sua glória. O que é raro e de difícil acesso torna-se cobiçado, admirado, valorizado e desejado. O que está constantemente a nossa disposição torna-se comum e em algum momento perde a importância.
Quando as pessoas começarem a tratá-lo como alguém familiar, possivelmente, será por você estar exagerando na sua exposição e elas logo cansarão da sua imagem. Você está perdendo o prestígio, o encanto e a magia que tinha e logo será tratado como uma pessoa qualquer. Para evitar esse tipo de desgaste, dificulte o acesso, faça com que os outros valorizem sua presença como algo raro e especial, faça-os ansiar pela sua presença. Para isso, evite se perder entre o ordinário, tornar-se invisível pelo óbvio ou cair no esquecimento por preguiça ou timidez. No momento certo, retire-se de cena para não se tornar um ponto comum na vida dos demais. A exposição exagerada fará com que as pessoas percam a admiração e o respeito por você.
TORNE-SE UM MESTRE DA IMPREVISIBILIDADE. Tenha posições claras e firmes, mas evite, a todo custo, tornar-se previsível. Nunca deixe claro qual será seu próximo passo. Crie uma aura de mistério a sua volta, carregue sempre uma carta na manga e introduza-a no jogo quando os demais menos esperarem. Faça tudo estrategicamente, abra de propósito uma lacuna no seu plano, crie uma deficiência visível a qualquer um, provoque a curiosidade dos outros e também o desejo de antecipação em suas mentes, faça-os pensar que você está sem saída e
então, com suspense, apresente a solução: tire a carta da manga e magicamente preencha a lacuna que deixou aberta. Use todas as armas para seduzir, encantar e até mesmo, quando necessário, intimidar com o seu silêncio. Faça isso e as pessoas morrerão por você.
Não se distraia com pensamentos bobos, tenha sempre certeza: é isso o que grandes líderes fazem. Um vídeo que se tornou famoso mostra Barack Obama entrando no avião sem cumprimentar o segurança que fazia guarda no pé da escada da aeronave. Após sumir por alguns segundos no corpo da aeronave, Obama retorna, desce as escadas, cumprimenta o guarda e volta a entrar no avião. Tudo feito estrategicamente, tudo planejado, e o povo vai à loucura com o extraordinário caráter do líder americano. E esse não é o único: existem dezenas desses vídeos circulando por aí.
A lógica de suspender as pessoas com sacadas assim é essa: ao adivinhar seu próximo passo, as pessoas se sentem superiores a você e acreditam estar no controle da situação porque sabem o que você fará em seguida. Por isso, sempre que necessário, confunda-as sobre o que você pensa. Mostre-se capaz de fazer manobras. Planeje seus movimentos de maneira que você as surpreenda, quebre as expectativas delas. Assim, você manterá seu respeito e despistará os bajuladores de plantão que são covardes demais para conviver com o imprevisível.