Poder e Manipulação

Jacob Petry · Capítulo 4 de 25

Páginas do PDF

Poder e Manipulação

Capítulo 2 - Do papel da sorte nas coisas humanas e como mudá‑lo

LEMBRE-SE: o poder e a liderança que levam ao sucesso e à riqueza sempre são consequência da habilidade de preencher um vazio, de suprir uma demanda que existe nas pessoas ou no universo. Se você não tiver a habilidade de ver o mundo como ele realmente é, se não compreender as regras do jogo, se medir tudo por seus valores pessoais,

se ignorar o que motiva os outros e pensar apenas nas suas ambições pessoais, nem sequer conseguirá perceber esse vazio, quem dirá preenchê-lo.

CAPÍTULO 2

DO PAPEL DA SORTE NAS COISAS HUMANAS E COMO MUDÁ-LO

DE O PRÍNCIPE

Percebi que muitos têm pensado, e ainda pensam, que o mundo é governado por Deus e pela sorte de tal maneira que as pessoas, apesar de toda sua inteligência, praticamente não têm influência sobre os rumos que sua vida toma. Por esse motivo, elas acreditam que não é necessário nem mesmo incomodar-se muito com as coisas do mundo, apenas deixar-se governar por elas. Essa opinião ainda tem enorme aceitação pela complexidade e grande variação das coisas que podem ser observadas diariamente na conjetura humana e no contexto a nossa volta.

Às vezes, quando penso nisso, me sinto inclinado a também aceitar esse tipo de

“Se o acaso determina

opinião. Mas quando analiso melhor a a metade das nossas

questão, e para não negar nosso livre-arbítrio, ações, ainda assim

creio que se pode admitir ser verdade que resta-nos a outra

Deus e a sorte determinam a metade de nossas metade para

ações, mas que ainda assim ela nos deixa controlar.”

governar a outra metade.

A meu ver, a sorte pode ser comparada a um desses rios impetuosos que em tempos de cheias alagam as planícies, derrubam as árvores, os edifícios e arrastam montes de terra.

Diante de sua força, tudo foge do controle, tudo cede ao seu ímpeto, sem poder se opor.

Assim são as coisas da natureza. Porém, isso não significa que, quando retorna a calma, não possamos fazer reparos e barragens para que, em outra cheia, aquele rio impetuoso tenha suas águas direcionadas pela engenhosidade humana e assim sejam desviadas da

cidade pelos canais e pelas barragens. O seu ímpeto não agirá livremente e será muito menos danoso.

Do mesmo modo acontece com a sorte e o acaso; o seu poder se manifesta livremente apenas onde não se prepara nem se organiza nenhum tipo de resistência.

Se voltarmos nossos olhos para a Itália do meu tempo, quando foi sede e origem de muitas revoluções, veremos que ela era como uma região sem diques e sem nenhuma barreira. Se ela fosse, contudo, convenientemente protegida como a Alemanha, a Espanha e a França, as cheias não causariam os mesmos estragos ou até mesmo não se teriam verificado. Dito isso, acredito já ser o suficiente a respeito dos obstáculos que podem ser opostos à sorte, em termos gerais.

2.

Um dos motivos que nos levam a atribuir tanto poder à sorte é o fato de que, quando analisamos a história dos grandes homens, em muitos casos, é possível ver o sucesso de uma pessoa hoje e sua ruína amanhã.

Tudo sem ter havido mudanças em seu caráter, em suas atitudes e, tampouco, em suas habilidades.

Julgo que a razão disso é que quando o sucesso depende tão somente das circunstâncias, e não do indivíduo, ele se perde sempre que as circunstâncias mudam. Quando a circunstância é sua parceira, seus resultados serão a glória, mas quando ela o abandona, o que sempre acaba por acontecer, seu destino inevitável será a ruína.

Dessa forma, aquilo que conhecemos

como sorte depende muito da habilidade de

“A sorte depende

combinar nosso modo de agir com o que é muito da habilidade de

exigido pelas particularidades de cada

combinar a nossa ação

momento.

Aquele

que

observar

as

com o que é exigido

particularidades do momento, e souber agir de em cada momento.”

acordo, será beneficiado por elas. Aquele que não

as

observar

encontrará

enormes

problemas e será visto como desprovido de sorte.

Por isso, acredito que será feliz aquele que combinar seu modo de agir com as particularidades do momento, e infeliz aquele cujas ações delas divirjam.

3.

As pessoas sempre buscam poder, glória e riqueza. Seguem, todas elas, os mesmos objetivos, mas fazem isso agindo de modos diferentes.

Algumas agem com precaução, outras com impetuosidade; umas optam pela violência, outras pela astúcia; umas escolhem a paciência, outras a agitação; e assim por diante. E cada uma pode, a partir destes diversos modos, alcançar seus objetivos.

Nota-se, entre dois indivíduos cautelosos que almejam o mesmo objetivo, que, apesar de terem o mesmo comportamento, um pode alcançá-lo, e o outro, não. Do mesmo modo, uma pessoa cautelosa e a outra impulsiva podem obter os mesmos resultados, apesar de terem comportamentos diferentes. A razão disso se explica porque os resultados de cada um dependem das particularidades de cada época, bem como de se seu modo de agir se conforma ou não com elas.

Assim, como ficou dito, duas pessoas agindo diferentemente podem produzir o mesmo resultado, e no caso de duas agindo da mesma forma, uma pode alcançar o êxito e a outra não. Disso também dependem as diferenças de prosperidade. E a razão é a variação do que é certo e do que é errado, que depende das circunstâncias de cada momento.

Se um príncipe age com cautela e paciência e se, naquele momento, as circunstâncias exigem cautela e paciência, será bem-sucedido. Mas se as circunstâncias mudarem, exigindo decisões e atitudes rápidas, e ele continuar agindo com cautela e paciência, na certa fracassará. E isso tão só porque não alterou o seu modo de agir quando as circunstâncias mudaram.

4.

Ninguém, por mais sábio que seja, consegue se ajustar facilmente a mudanças radicais. As razões para isso são duas: nossa dificuldade de nos desviar daquilo a que nos impele nossa natureza e que nos faz agir de certo modo, muitas vezes, alheio a nossa vontade; a outra razão é que, quando prosperamos por certo tempo seguindo por um caminho, no momento em que as circunstâncias mudam, não conseguimos nos convencer a abandoná-lo a tempo.

O príncipe cauteloso, no momento em que é necessário ser impulsivo, por exemplo, não consegue sê-lo e por isso fracassa. Se mudasse de natureza, conforme as exigências do tempo e das coisas, não fracassaria e, assim, sua sorte não mudaria.

Concluo, portanto, afirmando que, como as circunstâncias mudam e o príncipe conserva, com obstinação, seu modo de agir, ele será beneficiado pela sorte enquanto seu modo de agir for apropriado às exigências do momento. Quando as circunstâncias mudarem e suas ações não forem mais adequadas para o momento, ele conhecerá o fracasso. E a isso chamamos de falta de sorte.

Estou convencido também de que é melhor ser ousado do que cauteloso, porque a sorte é feminina e para dominá-la é preciso saber flertar e seduzi-la. Também é reconhecido que ela se deixa seduzir mais pelos amantes ousados do que por aqueles que procedem com cautela e frieza. Conclui-se daí, ainda, que a sorte, como a mulher, é sempre mais amiga dos jovens, porque são menos cautelosos, mais ousados e impulsivos e a dominam com maior audácia e voracidade.

MAQUIAVEL

Capítulo XXV

De quanto pode a sorte nas coisas humanas e

de que maneira se deve resistir

ANÁLISE

Quando uma pessoa avança e conquista um certo nível de sucesso, sua tendência é se apegar a essa conquista e criar raízes nela. O sentimento ingênuo de que agora ela domina o jogo toma conta. Ela olha para trás, recolhe as ações que criaram essas conquistas e as transforma em filosofia de vida. O passado transforma-se numa densa neblina que a cega e ofusca as transformações no presente. Aos poucos, a repetição substitui a inovação. A mente se engessa, entra em decadência e, por fim, cai em colapso.

Em geral, só percebemos o problema quando aparece um novo competidor, alguém mais adequado ao momento e que não respeita

tradições, doutrinas e filosofias, que introduz novas regras e ferramentas ao jogo. Então, rapidamente, tudo muda, e talvez venhamos a compreender o quanto fomos insensíveis às circunstâncias, o quanto nossa visão de mundo e a resposta que damos a ele estava desatualizada. E nesse momento, como os dinossauros da pré-história, nos vemos pesados demais para nos defender dos cataclismos da mudança. E sem tempo para reagir, somos eliminados do processo num único golpe.

ENTENDA: nos dias atuais, as circunstâncias mudam num piscar de olhos. Se você se apegar demais às conquistas e estratégias do passado correrá um tremendo risco de ser excluído do jogo a qualquer momento.

Grandes líderes que se perpetuaram no mundo da política, dos negócios, dos esportes, das artes e da cultura se destacaram não por possuirem mais talento, sorte ou conhecimento que seus pares, mas porque foram capazes de se adaptar com enorme facilidade às mudanças de contexto. Eles desenvolveram um radar capaz de detectar o novo, o que criava a possibilidade de explorar o futuro, e não apenas o passado e o presente. É dessa forma que a inovação nasce, as oportunidades se oferecem para serem aproveitadas e o sucesso acontece.

Essas pessoas entendem que sucesso não é mais possível — e talvez nunca tenha sido — apenas por meio da aprendizagem de um conjunto de ideias, regras e princípios que devem ser seguidos com a rigidez e disciplina de uma dieta ou de uma receita. Não há fórmula mágica para o sucesso. Ideias, regras e princípios servem apenas como ferramentas, que, se não forem usadas no contexto certo, não servem para nada.

Nestes tempos velozes e fugazes, conhecimento, teorias, princípios e até mesmo a experiência podem ser extremamente limitados. Ninguém, por mais genial que seja, possui inteligência, experiência, formação e habilidade natural para prever com segurança absoluta os eventos futuros. Nenhum pensamento, por mais acurado que seja, consegue nos preparar para o caos das infinitas possibilidades que se apresentam a cada momento. A única segurança que podemos criar é desenvolver a habilidade de nos adaptar ao imprevisível assim que ele se manifestar.

O ponto de partida para desenvolver essa habilidade é entender que não temos controle sobre grande parte do que acontece conosco. Estudos apontam que entre 85% a 90% do que nos acontece foge

completamente do nosso domínio. Pense sobre sua vida: ao nascer, por exemplo, você não teve controle sobre quem seriam seus pais, o ano e o lugar em que você nasceu, o tipo de influência que você teve nos primeiros anos de vida, a escola onde foi alfabetizado, o contexto que definiu suas amizades. Essas coisas, todas de extrema importância, simplesmente se impõem a você.

O passo seguinte é aceitar que todos nós temos uma determinada margem de controle sobre a existência, o que nos torna os únicos responsáveis pela maneira como nossa vida se desenvolve ao longo dos anos. Compreenda: o nível de poder e sucesso que qualquer indivíduo alcança não é consequência dos fatores sobre os quais ele não tem controle, mas da maneira como ele age com os fatores sobre os quais ele tem controle. Desenvolver poder e liderança, então, é criar a habilidade não só de exercer o poder sobre essa pequena margem de domínio que temos, mas também de expandi-la. E o modo de fazer isso é desenvolver controle sobre si mesmo.

Como escreveu Krishnamurti:

A transformação do mundo é provocada pela transformação de si mesmo. Para haver transformação, o autoconhecimento é essencial; sem saber o que você é, não há base para um pensamento correto, e sem conhecer a si mesmo, não há transformação. O indivíduo precisa se conhecer como ele é, não como deseja ser. Pois aquilo que ele deseja ser é apenas um ideal e, por isso, fictício, irreal. Só aquilo que ele verdadeiramente é pode ser transformado, não aquilo que ele deseja ser.

Conhecer-se como se é requer uma mente extraordinariamente alerta, porque o que se é está sofrendo constante transformação e mudança: e para segui-lo depressa a mente não deve estar presa a nenhum dogma ou crença particular, a nenhum padrão de ação. Se quiser saber o que você é, não pode imaginar ou acreditar em algo que você não é. Se eu sou ganancioso, invejoso, violento, um ideal de não ganância é de pouco valor. O entendimento do que você é — seja feio ou bonito, bom ou ruim —, sem distorção, é o início da virtude. A virtude é essencial, pois ela proporciona liberdade.