Poder e Manipulação
Capítulo 16 - Da vulnerabilidade daqueles que se sustentam com forças alheias
CAPÍTULO 16
DA VULNERABILIDADE DAQUELES QUE SE SUSTENTAM COM
FORÇAS ALHEIAS
DE O PRÍNCIPE
Queria trazer à lembrança uma passagem do Antigo Testamento que ilustra bem o que pretendo dizer aqui. Quando o jovem Davi foi até Saul oferecer-se para combater Golias — o provocador filisteu que o desafiava —, Saul, na intenção de encorajá-lo, passou-lhe a armadura real. Davi aceitou a oferta de Saul. Mas assim que a vestiu, repeliu-a e disse a Saul que, usando a enorme armadura, não poderia fazer uso de sua própria força e que desejava combater o inimigo valendo-se somente de suas armas pessoais: a funda e a faca. E foi assim que o fez.
O que essa passagem da Bíblia nos
ensina? Que sempre que você se valer das
“A falta de sabedoria
forças
alheias
para
enfrentar
suas
nos impede de adversidades ou seus inimigos, essas forças perceber o veneno que
deslizarão do seu corpo, pesarão demasiado está oculto nas coisas
sobre você ou restringirão o uso de suas que, a princípio,
próprias armas.
parecem boas.”
Se estudarmos o início da decadência de
qualquer indivíduo, empresa, nação ou
império, veremos que sua origem sempre está no uso de forças, bens ou capital alheio. A razão disso é que a falta de sabedoria das pessoas faz com que elas tenham dificuldade em perceber o veneno que está oculto nas coisas que, a princípio, lhes parecem boas, conforme já disse no capítulo anterior. Isso se aplica àqueles que, no início, se rendem a ofertas que os libertam do aperto, como o auxílio dos outros, sem perceber que, sendo um alívio imediato, criam enormes comprometimentos futuros.
Quando alguém escolhe a opção de viver com oxigênio alheio, suas forças e seu poder declinam e se deterioram rapidamente. E logo ele será tomado por aquele de quem emprestou as forças para sobreviver. Por isso, a pessoa que, do alto de seu posto, não é capaz de descobrir os males na sua origem não é inteiramente sábia. E a sabedoria, como temos conhecimento, é uma virtude concedida a poucos.
Concluo, portanto, que, sem possuir
forças próprias, nenhum príncipe ou
“Sem forças próprias
governante pode se sentir seguro e livre para não teremos agir de acordo com suas virtudes e seus segurança e liberdade
desejos pessoais. Antes, está à mercê da boa para agir de acordo
vontade de outros, que logo desejarão tomar com nossas virtudes e
seu lugar.
nossos desejos
Foi sempre a opinião e a sentença dos pessoais.”
sábios: “Nada é tão instável quanto o poder de um príncipe quando não apoiado em sua
própria força”. Por isso, um indivíduo deve sempre zelar por preservar suas forças próprias. E quando há forças que ainda não estão plenamente sob seu controle, deve dedicar todo seu conhecimento, toda sua energia e toda sua disciplina para reforçar suas bases e assumir o controle de tudo que lhe possa servir de ameaça não só no presente, mas também no futuro.
MAQUIAVEL
Capítulo XI I
Das milícias auxiliares, mistas e do próprio país ANÁLISE
A maioria de nós, humanos, vive à procura de uma chave secreta para o sucesso. Algo que nos dê poder e prestígio num passe de mágica.
Poucos estão dispostos a pensar por conta própria. Buscamos uma receita pronta que possa ser seguida passo a passo. Queremos algum tipo de teoria, de doutrina, uma fórmula que explique o caminho; e assim ficamos presos na própria fórmula, na teoria, na explicação e, pouco a pouco, nos afastamos do principal: a ação. Isso ocorre porque, por trás de todo palavreado, há o medo constante da dor da ação. Por isso, construímos teorias e fórmulas que servem como cortina de fumaça atrás das quais procuramos nos abrigar e nos esconder.
Confundimos estratégia com fórmula.
COMPREENDA: toda mudança é lenta e gradual. Ela exige poder, decisão, renúncia, disciplina, planejamento e persistência. Mas a maioria das pessoas quer transformações instantâneas e radicais, sem o esforço ou o sacrifício que ela demanda. Em nossas cabeças, estratégia é uma sequência de etapas que nos levará para um objetivo específico.
Procuramos essas etapas em livros, seminários, palestras ou até mesmo através de um mentor, de um coach ou de um guru. Apostando no poder da imitação, queremos saber exatamente o que as pessoas de sucesso fazem para poder imitá-las, acreditando que, se agirmos assim, alcançaremos o mesmo resultado que aqueles a quem imitamos.
Esse raciocínio dificilmente nos levará aonde queremos chegar. Na verdade, com o tempo, em vez de nos libertarmos, nos tornaremos presas daqueles que prometem ter a receita que procuramos.
Grandes líderes e empreendedores excepcionais entendem que a essência de uma estratégia não é seguir um conjunto de passos ou técnicas, mas saber se colocar numa posição privilegiada que confira a possibilidade de obter o maior número de informações possíveis. No lugar de ver o mundo em preto e branco, eles buscam um ponto que lhes dê acesso à infinita variação de cores intermediárias. Eles sabem que entender a realidade é mais importante que conhecer fórmulas ou teorias, porque fórmulas ou teorias quase sempre são ultrapassadas, e por isso falsas e irreais. Do contrário, a realidade sempre é atual, e por isso verdadeira e real. Entendê-la requer enorme habilidade, uma mente ágil, livre e não enraizada em ideias e convicções. Mas como não estamos dispostos a encarar a realidade, buscamos atalhos e escapes e os justificamos com nomes bonitos, como princípios, valores, ideais, tradição e assim por diante. Uma mente incapaz de compreender a realidade nunca conseguirá liderar com sucesso, por mais força que tenha.
Não é a força ou o poder que definem o sucesso, mas a habilidade de traçar a estratégia correta para cada momento. Para isso, tanto na
defesa do que é seu como na busca do que você quer é preciso que tenha uma noção clara daquilo que existe a sua volta e tenha a ousadia e a coragem de enfrentá-lo.
Uma mente confusa em relação à realidade se torna retraída e sempre tenta se agarrar em algo que lhe dê segurança ou proteção. Ela está sempre fugindo por medo do desconhecido (da realidade, de si mesma, dos outros).
Sendo assim, empenhe-se ao máximo para desenvolver uma profunda compreensão de quem você é, de quem são seus aliados e quem são seus adversários; e, ainda, qual o contexto em que ambos se inserem. Olhe a sua volta e identifique cada pessoa com certa influência, descubra com quem ela está conectada e qual é o vínculo dessa conexão.
Circule por tudo, procure conhecer o máximo de indivíduos, crie uma rede de conexões tão poderosa que seus adversários — ou mesmo um aliado que tente se rebelar contra você — se sintam completamente isolados e rejeitados socialmente.
Lembre-se de que o sentimento de gratidão quase sempre se torna um peso que as pessoas carregam e do qual se libertariam com prazer, mesmo que isso lhes custasse o fim de uma amizade. Por esse motivo, quando procurar um aliado para pedir apoio, nunca lembre favores que você fez a ele no passado. Pois, como já disse, as pessoas costumam ser ingratas e raramente farão algo de bom grado em troca daquilo que você fez por elas em outros tempos. Lembre-se também de que a gratidão não é uma obrigação e a maioria só expressa sua gratidão até você sugerir que lhe retribuam o favor. Nesse momento, com raras excessões, elas darão qualquer desculpa e lhe virarão as costas.
Então, em vez de citar ações e favores do passado, fale do futuro.
Mostre às pessoas tudo o que ganharão ao se aliarem a você. Lembre-se sempre de que o interesse próprio é a força principal que nos move.
Então, primeiro, descubra qual é o interesse daquele que no momento lhe interessa. Descubra seus planos, desejos e aspirações e, depois, mostre com clareza como, ao ajudá-lo, ele poderá satisfazer esses desejos e essas aspirações. Não seja tímido na sua oferta. Mostre sempre a todos, de maneira clara, o que eles têm a ganhar no porvir e esqueça tudo o que você fez por eles um dia. Porque, na mente deles, isso não conta mais. Uma vez que conseguir mostrar-lhes como você
pode ajudá-los a conquistar o que querem, qualquer resistência ao seu pedido desaparecerá, quase sempre.
Porém, essa é uma arma da qual pouquíssimas pessoas fazem uso.
Quase todos nós estamos tão centrados naquilo que queremos que nos esquecemos do que move os outros. Pensamos, ingenuamente, que os demais gostam de nos ajudar, que o ser humano é movido pela generosidade espontânea e desinteressada — uma virtude de poucos.
ENTENDA: seus desejos e necessidades só interessam a você. Os outros só se interessam por algo quando eles podem tirar vantagem disso e satisfazer seus interesses. O que os move, em geral, é o benefício pessoal que eles veem ao nos ajudar.
Porém, fique atento: muitas vezes, a necessidade maior de certas pessoas é se sentir importantes, virtuosas e boas aos olhos do mundo.