Por que Crianças Matam
Parte 2 – Red Bank: fevereiro de 1969 a novembro de 1973
PARTE 2
Red Bank: fevereiro de 1969 a novembro de 1973
Deixando para trás
Red Bank, 1969 a 1970
F oi em 4 de fevereiro de 1969 que James Dixon e sua esposa Jean viajaram rumo ao sul para buscar aquela que se tornaria – conforme o Sr. Dixon me contou em 1970 – sua responsabilidade mais desafiadora, e também a que mais deles exigiu.
Mary sempre falou do Sr. Dixon de uma maneira comoventemente possessiva:
“Ele vestia um casaco xadrez com calças marrom-claro e sapatos irlandeses”, ela disse. “A Sra. Dixon era como uma bolinha de manteiga, pequena, aconchegante, alegre, com o rosto suave, arredondado e de tez inglesa. Ela usava um vestido com flores estampadas. O Sr. Dixon era alto,
mais ou menos 1,85 m de altura, eu acho. Eu tinha que olhar para cima ao falar com ele. Ele tinha o rosto um pouco abatido pelo tempo, um bigode que parecia um guidão de bicicleta quando ele sorria, e seus olhos eram carinhosos e brilhantes. Minha apresentação a eles foi muito formal. Ele era muito militar; todas as suas analogias eram muito militares, mas você olhava para o Sr. Dixon e sabia que ele não mentiria. O mundo deveria estar cheio de Srs. Dixons.”
As formalidades de sua partida, lembrou-se ela, demoraram bastante
tempo.
“O Sr. e a Sra. Dixon chegaram [em Cumberlow Lodge] por volta de 10 horas da manhã, eu acho, e teve um monte de blá-blá-blá, horas a fio, antes de nós sairmos. O Sr. Dixon ficou um tempão com o Sr. Hart – pelo menos, pareceu um tempão para mim.”
A viagem de carro de aproximadamente sete horas rumo a Lancashire, ela disse, foi emocionante no início. “Tudo, as casas, as pessoas nas ruas, o trânsito, era como... Ah, Não sei... Liberdade... Não, liberdade não – eu
acho que sabia que não seria livre, digo, livre, sabe. Mas era... Era ver uma vida comum. Aquilo me fez sentir mais... Comum.”
Eles pararam para comer no caminho?
“Eles pararam em postos na rodovia para abastecer e eu acho que
compraram coisas para comer, mas não lembro. A Sra. Dixon ia ao banheiro comigo. Claro que eu era alguém desconhecido para eles. Acho que eles podiam estar com medo de que eu fugisse; e o Sr. Dixon, bem, ele não era jovem. Quero dizer, se eu corresse, não sei se ele conseguiria me pegar.”
Você pensou em fugir?
“Ah, não, de jeito nenhum. Eu gostei do Sr. Dixon desde o início. Eu não fugiria dele.” Ela acha que dormiu no carro por bastante tempo. “Quando acordei, estava escuro do lado de fora. E quando eles disseram que
estávamos quase chegando, fiquei muito entusiasmada.”
Os Dixon contaram a você alguma coisa sobre Red Bank?
“Assim que chegamos perto, o Sr. Dixon disse que eu perceberia que Red Bank era ‘um navio dirigido com rigor’ e que não tinha tratamento especial. ‘Com isso’, ele disse, ‘eu quero dizer que todos somos iguais, funcionários e crianças: todos nós comemos juntos, a mesma comida, e trabalhamos juntos’. Ele disse que eu ia perceber que as pessoas conversavam muito umas com as outras e tomavam decisões juntas. Mas
ele não me contou que lá só tinha garotos, até passarmos por uma esquina antes de chegar. Então, ele se virou rindo e eu percebi certa diversão nos olhos dele quando disse: ‘Por falar nisso, você sabe que lá só tem garotos? E eles estão esperando um loirona com seios de 90 cm. Eles vão ter uma surpresa, não é?’. Eu vi a Sra. Dixon dando uma cotovelada nele e balançando a cabeça. Eu não sabia como me sentir.”
A Unidade Especial de Red Bank é a seção de segurança da instituição que era conhecida, em 1969, como uma “escola de recuperação”. Mas, no
início dos anos 1970, os órgãos do governo aos quais essas instituições eram subordinadas estavam em meio a conflitos entre os partidários de dois estilos divergentes de abordagem: de um lado, estavam os que se centravam na “disciplina” e, de outro, os que valorizavam o “cuidado”. Foi então que as “escolas de recuperação”, como instituições para crianças difíceis de controlar ou que haviam transgredido a lei, evocando imagens de isolamento e métodos vitorianos de disciplina, tornaram-se ideologicamente inaceitáveis e foram renomeadas de “lares comunitários”. A ideologia otimista do período era de “liberdade” tanto em relação à interferência do governo sobre aqueles que trabalhavam nessas instituições quanto para os
adolescentes, que viviam anteriormente sob a rígida disciplina que orientara a maioria das “escolas de recuperação”. A intenção era que esses lares comunitários, agora sob controle administrativo e financeiro do governo local, se tornassem parte da comunidade de alguma forma, acabando assim com o isolamento das crianças e fornecendo a elas modelos de comportamento fora dos limites da vida institucionalizada.
É justo dizer agora que isso não teve êxito. Em primeiro lugar, porque os governos locais individuais não estavam aptos, nem financeira nem
administrativamente, a assumir esses encargos e, em segundo lugar, porque as complexas necessidades de formação profissional e, num sentido mais abrangente, as demandas educacionais das crianças não podiam ser atendidas somente pelo esforço e pela boa vontade das comunidades envolvidas, mas exigiam um tratamento estritamente profissional, o que incluiria instalações caríssimas, além de um corpo docente altamente treinado. Ao longo da década seguinte, a maioria dessas escolas foi fechada e seus adolescentes ou foram devolvidos para suas famílias e para as
escolas locais, que já tinham provado que não podiam dar conta deles, ou eram deixados aos cuidados de diversos serviços da prefeitura e do governo, terminando em escritórios de apoio a desempregados e nos tribunais na maioria das vezes.
No momento em que escrevo este livro, portanto, a Escola de Recuperação de Red Bank – que, instalada em um edifício construído com o objetivo explícito de funcionar como centro de avaliação e escola de formação profissional, oferecia um espaço e um conforto consideráveis,
bem como um nível apreciável de treinamento ou educação para cerca de quinhentos garotos – não existe mais. Mas a unidade especial para a qual Mary fora enviada ainda funciona.
A unidade especial – situada propositalmente naqueles primeiros anos bem no centro do complexo escolar, de forma que se pudesse ver o que se passava na vida cotidiana da instituição e evitar o isolamento visual – foi planejada para 26 garotos que demandavam um alto grau de segurança e ficava sempre trancada. Uma vez lá dentro, o ambiente era agradável, cheio de luz, com cores vívidas nas paredes e mobília moderna. Havia várias janelas longas e estreitas que podiam ser abertas para deixar o ar fresco
entrar e, no inverno, o edifício inteiro era aquecido por um sistema central de calefação. No andar térreo, ficavam a biblioteca, as salas de estar com cadeiras de braço confortáveis, uma sala de jantar arejada e com muitas mesinhas, além de várias salas de aula com carteiras de madeira clara onde as crianças aprendiam em grupos de seis ou sete, de acordo com a idade. “May provavelmente está tendo mais educação do que os nossos filhos jamais terão”, sua tia Cath me disse em 1971. Também havia uma sala de artes bem equipada, com mesas compridas, exposições de pinturas e
desenhos (Mary indicou um dos desenhos dela quando eu estive lá), e um forno para trabalhos em cerâmica.
Dentro do perímetro dos muros da unidade havia um jardim, uma estufa e uma casinha para os animais de estimação. Do lado de fora, nos pátios da escola, havia uma piscina que os garotos da escola de recuperação construíram e que era usada pelas crianças da unidade especial todos os dias do verão.
No segundo andar, havia dois dormitórios, cada um para quatro garotos
mais velhos, e quartos individuais para os outros.
“O chefe do lugar, o Sr. P.”, Mary disse, “me contou depois que, quando decidiram me mandar para Red Bank, eles separaram setes quartos para garotas. Mas nos quase cinco anos em que fiquei lá, só vieram cinco garotas, todas muito mais velhas do que eu, e só uma delas ficou por três meses; as outras foram embora em poucas semanas.”
Na época da chegada de Mary, e quando a visitei em 1970, havia dezoito membros da equipe de professores – a maioria homens, mas mais tarde
chegaram umas poucas jovens mulheres – e doze pessoas na equipe interna, todas mulheres. Na equipe de professores estavam Ben e Carole G., que se conheceram e se apaixonaram enquanto trabalhavam lá. Red Bank foi o primeiro emprego dos dois. Ben começou em agosto de 1970, um ano e meio depois da chegada de Mary, e Carole, em 1972. Agora, ambos estão em cargos administrativos importantes trabalhando com crianças problemáticas.
“Desde aquela época, fizemos diversos cursos”, Ben disse, “mas – e acho que isso vale para nós dois –, quando chegamos a Red Bank, logo após
terminarmos o treinamento de professores, não sabíamos nada sobre as necessidades dessas crianças. E para ser franco, embora muitas pessoas da outra equipe tivessem evidentemente uma experiência muito mais vasta, nenhuma delas recebeu treinamento formal, nem especialização em educação ou psicologia, e isso inclui o Sr. Dixon, que realmente era o homem mais excepcional e inspirador”.
“Sim, eu não me surpreendo que May se lembre dele com tanto amor”, Carole disse. “Muitos dos garotos também o amavam. Ela sorriu. “Mas ele
era... Bem, talvez um pouco inocente. Ele sabia que muitas daquelas crianças eram muito perturbadas [...] alguns garotos talvez tão gravemente perturbados quanto Mary. Mas ele achava que o amor conquistava tudo e, é claro, o amor consegue fazer muita coisa. Ou digamos que, sem a atmosfera que ele criou em Red Bank, nada poderia ter sido feito. Mas mesmo todo o amor do mundo não pode dar a pessoas como nós a habilidade para ajudar as crianças a compreenderem suas mentes confusas. Para isso, você precisa de estudo e treinamento.”
“Nós não nos dávamos conta naquela época”, Ben disse, “mas sabemos disso agora. Mas vamos ser justos”, acrescentou, “mesmo do jeito que era, o lugar ajudou um número considerável de garotos: o espaço era estruturado, e havia regras muito precisas para sustentar essa estrutura”.
Red Bank permanece muito claro na mente de Carole e Ben G., não apenas porque foi onde começaram a vida juntos, mas porque foi essencialmente ali que decidiram o que fazer de suas vidas profissionais. Depois de saírem de Red Bank, ambos trabalharam em outras escolas para
crianças problemáticas, mas agora se estabeleceram em uma instituição de autoridade local no oeste da Inglaterra dirigindo departamentos diferentes: um lidando com escolas e equipes especiais; o outro, com problemas específicos de determinadas crianças. Depois que tiveram um filho, os dois disseram, não conseguiam mais trabalhar dia sim, dia não em lugares como Red Bank.
“Eu trabalhei assim por sete anos, desde que tinha 20 anos”, Carole disse, “e Ben, desde que tinha 21. Mas ter um filho muda a gente. Você se torna mais vulnerável e tem consciência de que sua criança precisa de proteção contra aquilo também. Você pensa de maneira mais profunda sobre
si, suas ações e suas reações”.
James Dixon selecionava pessoalmente todo o pessoal de Red Bank, eles disseram.
“E parecia que ele deliberadamente escolhia pessoas de idades, históricos e personalidades muito diferentes”, disse Ben. “Quase como se estivesse tentando suprir as crianças com um microcosmo da sociedade. Claro que quase tudo em Red Bank era fruto da própria personalidade do Sr. Dixon. E porque esses homens e mulheres são muito raros, você pode
individualmente tentar imitar o que eles tentam fazer, mas essa configuração não pode ser simplesmente copiada.”
“Havia ali uma espécie de ‘pureza’, em termos do que era oferecido às crianças”, disse Carole. “Não tinha sido contaminado, digamos assim, com nada que elas tivessem experimentado antes.”
“Por ser um homem tão bom, ele fazia as pessoas sentirem que coisas ruins não poderiam acontecer”, Ben disse. “Claro que elas aconteciam, como nós vimos com a experiência que May teve com o diretor, mas em um
ambiente como o que Dixon criou o efeito de um choque desses na comunidade foi mínimo e não, como se poderia esperar, grande e permanente.”
Mesmo quando estavam lá, eles disseram, havia outras crianças em Red Bank que hoje eles percebem que eram tão prejudicadas quanto Mary e, por causa das deficiências no treinamento dos funcionários e da falta de conhecimento especializado, não receberam ajuda do modo como precisavam.
“Mas você tem que olhar do outro lado da moeda também”, disse Ben. “Mesmo que algo tenha faltado, eles tiveram esse período de proteção, afeto e calor humano em um ambiente estruturado de forma cuidadosa. E eles tinham a forte influência moral que James Dixon sem dúvida exercia. A busca de May por autoconhecimento agora é prova disso. O lugar os ajudou, sim, a crescer.”
“O Sr. Dixon sempre explicava tudo de maneira muito aberta”, Mary disse, “especialmente quando não estava satisfeito com as regras. Tirando quando eu ficava trancada no meu quarto, de noite e durante trinta minutos ou uma hora de descanso depois do almoço, eu nunca podia ficar sozinha,
nem mesmo para ir ao banheiro”. Ela deu de ombros. “No começo isso me incomodava muito, mas aí o Sr. Dixon me explicou e eu aceitei. Depois de um tempo, eu nem notava. Agora, em retrospecto, eu acho que talvez isso até me fazia sentir segura [...] sentir que cuidavam de mim, sabe.”
O que mais a impressionou ao chegar foi o cheiro de limpeza.
“Era tão limpo e bonito, tão diferente de todos os outros lugares em que estive e, é claro, mais limpo do que qualquer outro lugar em que eu tinha morado.” Os Dixon levaram-na à sala comunitária, “e aí eu entendi o que
ele queria dizer com surpresa”, ela disse. “Até mesmo os funcionários ficaram espantados em ver aquela menininha que ele levara lá para dentro. Ele disse: ‘Esta é May – é assim que ela gosta de ser chamada’.”
Depois disso, o Sr. Dixon a levou à biblioteca e a Sra. Dixon levou alguns ovos mexidos.
“Eu não consegui comer. Fiquei enjoada com aquela longa viagem, com a fumaça dos carros e o cheiro de lustra-móveis. Ele disse: ‘Tudo bem, mas você não vai ter mais nada para comer’. Eles me levaram para o segundo
andar e eu fiquei realmente surpresa por eles destrancarem e trancarem todas as portas por onde nós passávamos.”
Surpresa? Interrompi. Por que essa surpresa?
Ela tomou um susto com minha pergunta.
“Bem”, Mary disse, “aquilo era uma escola, não era? Eles me levaram para o quarto e o Sr. Dixon me falou que eu ficaria trancada e que todo mundo ficava. ‘Sem tratamento preferencial’, ele disse de novo. E disse que a Sra. Dixon me apresentaria para a responsável pela casa, a Srta.
Hemmings, e que era para eu tomar um banho e me deitar. Eu o perguntei quanto tempo eu ficaria lá, e ele disse: ‘Veremos. Depende muito de você’, e que, de qualquer jeito, estava cansado e não tinha todas as respostas”.
A Srta. Hemmings havia mostrado os horários para ela: levantar às 7h30 da manhã, banho, arrumar a cama, descer e, antes do café, ficar em fila para a inspeção dos sapatos e das unhas.
“Era tudo como num navio”, Mary disse. “Claro, o Sr. Dixon tinha estado na Marinha e isso ficava evidente na maneira como ele agia.”
Você ainda molhava a cama?
“Ah, sim, isso continuou por anos. A Srta. Hemmings já sabia sobre isso
quando eu cheguei; eles colocaram um daqueles lençóis de plástico e uma sineta na cama. Ela disse para eu tocar o sino se acordasse e tivesse feito xixi durante a noite, pois alguém iria me trazer um lençol limpo. Durante todo o tempo em que estive lá, ninguém nunca falou nada sobre a cama estar molhada. Eu ou a Srta. Hemmings tirávamos os lençóis pela manhã e ela os levava embora. ‘Não se preocupe com isso’, ela disse uma vez. ‘Estou acostumada: muitos garotos têm esse problema.’ Era... Como em Rothbury... [Aquilo] me fazia sentir mais tranquila.”
“A Srta. Hemmings, a ‘mãe da casa’, era um tipo de pessoa especial”, disse Carole G. “Por fora, era a chefona que nunca sorria, mas tinha um coração de ouro por dentro e era uma fortaleza para as crianças.”
Ela gostava de Mary? Perguntei a Carole.
“Muito mais do que gostar, ela a adorava – Mary se tornou a filha que ela nunca teve. O que se tende a esquecer”, ela disse, “é simplesmente o quanto May era jovem e... Bem... Pequena. Para a Srta. Hemmings, que nunca tinha tido uma garotinha de quem tomar conta lá, deve ter sido um
choque quando a viu pela primeira vez”.
Se a maior parte das lembranças de Mary sobre os anos passados em Red Bank tem claramente um tom positivo, ela se torna definitivamente poética ao falar sobre James Dixon, citando as palavras dele – quase ipsis litteris, segundo ela – ao dirigir-se às crianças sob seu cuidado com deliberada formalidade e usando muitos termos da marinha.
“Era assim que ele falava”, ela disse. “Não vou esquecer nunca.”
Naquele primeiro dia, na reunião da manhã, após o café e o treinamento
físico – rindo, ela disse: “Depois de alguns anos, quando meu corpo... Você sabe... Se desenvolveu, eu fui liberada do treinamento físico” – ele a havia apresentado formalmente para os garotos.
“Ele disse: ‘Como vocês podem ver, temos entre nós um novo membro do tipo mais delicado. Eu sei que vocês irão tratá-la com respeito, da mesma forma que ela os tratará. O nome dela é May e isso é tudo que vocês precisam saber’.”
Perguntei se os garotos sabiam por que ela estava lá.
“Ah, sim. Todo mundo de alguma maneira sabia tudo sobre todos que chegavam. Os professores conversavam conosco...”
Conversavam com eles sobre as outras crianças?
Mais uma vez, ela se mostrou surpreendida com minha pergunta, que trazia implícita uma espécie de crítica.
“Bem, sim”, Mary respondeu defensivamente. “Eles confiavam em nós... Bem, em alguns de nós. Mas também, garotos iam e vinham, então chegavam pessoas que sabiam das coisas. Mas ninguém dizia nada, pelo menos não na minha frente, não até muito tempo depois.”
As aulas eram de 9 horas da manhã até 12h45 e de 2 horas da tarde até 4
horas. “Os garotos mais velhos faziam trabalhos práticos com madeira e metal. Deram-me testes e me colocaram num grupo de quatro que era mais acadêmico. Eu tinha um fantástico professor de Língua e Literatura Inglesa, o Sr. Shaw, mas nós tínhamos todas as matérias. E fazíamos provas sob a supervisão das autoridades locais.”
“May era brilhante, incrivelmente brilhante”, disse Ben G. “Mas não tanto em termos acadêmicos: ela aprendia através das pessoas mais que dos livros. Os livros ela só folheava. Ela era muito boa em folhear e ler páginas
aqui e ali, mas raramente lia capítulos, para não falar em livros inteiros. O que ela fazia – nós tivemos essa experiência e a vimos fazer isso com outras pessoas – era pegar a vida dos outros emprestada para desenvolver o sonho dela de como deveria ser a vida. Quando fazia isso com você, era muito cansativo – ‘me conte mais um pouco. Converse comigo. E aí aconteceu o quê? O que você fez? Como era isso? Descreva’. Aquilo era cansativo, mas de certa maneira achávamos que havia algo de maravilhoso no fato de ela estar sempre querendo preencher lacunas.”
“A refeição mais importante do dia, ou seja, o almoço”, Mary continuou, “era à 1 hora, e depois ficávamos trancados em nossos quartos para descansar. Entre 4 e 5 horas da tarde, podíamos escolher jogar damas ou xadrez. Às 5 horas era o chá, a última refeição preparada do dia. Às 6 horas, não importava como estava o tempo [‘somente no verão’, disse Ben G.], nadávamos por meia hora na piscina descoberta que pertencia à ‘escola de recuperação’. Nos fins de semana, era uma hora, duas vezes por dia. Depois de nadar, tinha futebol, ginástica ou qualquer coisa, tudo organizado em grupos, com horários bem definidos; não havia tempo para ficar pensativo. Às 8 horas da noite, era o banho, depois, ceia com chocolate e
sanduíches...”
Eles tinham que se vestir novamente depois do banho?
Ela riu. “Depois que eu cheguei, tinham. Antes, eu acho que eles desciam de pijama. E das 8h30 às 9 horas da noite, que era a hora de dormir – as luzes se apagavam às 9h30 –, podíamos ver televisão, se tivesse alguma coisa apropriada, um documentário ou um esporte. Se tivesse um bom filme, os funcionários podiam decidir se podíamos ficar acordados mais tempo. Eu me lembro da aterrissagem na lua: deixaram que todos
assistissem aquilo tudo. Os funcionários viram conosco. O Sr. Dixon disse que era a história sendo feita.
Quanto tempo se passou até que você soube que ficaria em Red Bank por anos?
“Acho que eu nunca soube”, ela respondeu. “Os anos não significavam nada, sabe. Era um tempo sem fim. A média para um garoto lá era de cinco meses. Havia um sistema de recompensa pelo qual as pessoas conseguiam todos os tipos de privilégios, saídas, licença para ir em casa, ser solto mais
cedo. Claro que não era para mim, pelo menos não por um tempo.”
O Sr. Dixon a encorajou a falar sobre o crime, sobre os garotinhos que você matara?
“Não. Ah, não. Durante anos, eu dizia que não tinha feito aquilo. Então, como ele poderia conversar sobre isso?”
Mas havia um psiquiatra que visitava a unidade uma vez por semana, eu a lembrei. Eu o conheci na época; ele era um homem simpático, não era?
“Não sei se ele era simpático ou não”, Mary disse, de modo ríspido. “Eu
não gostava de nenhum psiquiatra, mas dele eu não gostava de jeito nenhum, porque ele costumava sentar lá sem dizer nada...”
E isso fazia com que você se sentisse incomodada?
“Eu não sabia o que ele queria... Gosto de saber onde estou no meu relacionamento com as pessoas...”
Do que você não gostara nele? Perguntei, e ela se esquivou.
“Não é que eu não gostasse dele de verdade, eu só não conseguia me identificar com ele. Eu não sabia como devia me identificar já que ele só ficava lá sentado me observando. Quero dizer, se ele tivesse feito perguntas, como os outros fizeram, eu podia simplesmente ter mandado ele à merda.
Mas como ele ficava lá sem falar nada, não tinha nada que eu pudesse realmente dizer.”
Palavrões eram tolerados em Red Bank? Perguntei e ela riu, repentinamente feliz. Ela gostava de descrever Red Bank.
“Ah, não”, Mary disse. “De jeito nenhum. Você estaria encrencado pra valer se xingasse. Levaria um sermão e, é claro, poderia perder pontos. Depois de um tempo, eu parei de falar palavrões por completo.”
Para a maioria dos garotos – todos com exceção de dois, ela disse, que
estavam lá em prisão perpétua, como Mary –, esses pontos de recompensa eram muito importantes, porque depois que juntassem quarenta eles seriam soltos.
“Então, eles tinham um objetivo. Eu não tinha, exceto... Sabe... O que eu vim a sentir pelo Sr. Dixon. E ele tentou fazer o sistema de recompensas funcionar para mim também, dentro dos limites das circunstâncias. Se eu fizesse tudo direito, poderia escolher aulas divertidas para ir, em vez de ter que seguir o programa; e por um dia ou dois eu não tinha que levantar da
cama cedo; e uma vez o Sr. P. me levou para sair com a família dele, para ver o filme O morro dos ventos uivantes, e o Sr. Robert e sua esposa me levaram para ver Godspell. E tinha o Sr. G., que estava namorando a Srta. Jeffries – os dois eram muito jovens e me levaram para passear perto de um lago. Eles tinham uma garrafa de vinho e a colocaram no lago para esfriar. Foi muito divertido.”
Ben G. e Carole confirmaram a essência da maioria das histórias de Mary em Red Bank. Somente nos detalhes – datas e quem era quem em
algumas histórias – é que a memória dela às vezes falha.
“Quando eu cheguei”, disse Carole, “May tinha 15 anos e eu tinha acabado de completar 20. Deve ter sido muito estranho para ela ter de repente alguém lá... Bem, bastante feminino e de idade próxima à dela, tão obviamente inexperiente quanto a tudo o que acontece em um lugar como esse. Ela está certíssima se disser que éramos próximas: isso era um fato, éramos mais como irmãs do que como professora e aluna. Eu a deixava me chamar pelo primeiro nome, claro que não na aula, mas quando estávamos sozinhas – acho que isso talvez não seria permitido, se tivesse sido descoberto. O Sr. Dixon era muito rígido quanto a manter distância. Mas
parecia importante para ela, e eu não via mal nenhum nisso.
“Quando já tinha algum tempo que eu estava lá, ganhei permissão de levá-la para sair. Meus pais tinham um pub lá perto e eu a levava... Bem... Para o meu mundo, para conhecer as pessoas e, às vezes, para cortar o cabelo, ou simplesmente para sentar e conversar. E sim, Ben e eu a levamos para sair uma vez por um dia inteiro, num piquenique perto do lago e depois para jantar em um restaurante. Ela costumava nos escrever muito frequentemente depois que foi embora e sempre mencionava aquele
piquenique; foi um dia especial para ela.”
“Mas a garrafa de vinho que ela lembra de ter resfriado”, Ben disse, “isso foi no restaurante. Provavelmente ela veio em um daqueles baldes de gelo. Eu jamais levaria álcool em um piquenique com uma criança, mas no restaurante, sim, não havia problemas”. Ele não conseguia entender, Ben afirmou, como ela veio a imaginar aquela garrafa de vinho que descreveu com tanta precisão para mim sendo resfriada no lago, pendurada em uma corda. Ele balançou a cabeça. “Simplesmente nunca aconteceu.”
“Mas ela adorou o passeio daquela noite”, Carole disse. “Ela estava usando um dos meus vestidos: tínhamos ido ao meu armário juntas e ela o escolheu. Foi a primeira vez que foi a um restaurante como aquele, com uma mesa posta de maneira formal, com flores e todos os talheres e copos. Ela simplesmente adorou aquilo. Perguntava sobre tudo... Para que servia aquela colher ou aquele garfo e como se abria uma garrafa. Ela absorvia informações como uma esponja.” E aquilo, destacaram eles, era também o que haviam experimentado os outros professores que a levavam para sair.
“Um dia, os Dixon e a Srta. Hemmings me levaram... Só eu... Para Blackpool”, Mary continuou. “Mas eu acho que eles também saíam com os outros dois meninos de prisão perpétua. Foram dias muito felizes e eu realmente achei que ficaria bem, e eu sei que o Sr. Dixon pensava isso também.”
Ele se tornou uma espécie de avô para você, não?
“Não, não era como se fosse uma relação de parentesco... Mais que isso”, ela disse. “Quando você conhece alguém de quem você gosta, pode dizer que gosta dessa pessoa, mas, no fim, não era que eu simplesmente gostasse dele: eu o amava. Você não ama ninguém logo de início, quero
dizer, como se apaixonar, ou amar seu próprio filho. Chegar a amar alguém do jeito que eu amava o Sr. Dixon leva tempo, muito tempo...”
Mas considerando que você chegou ao ponto de amá-lo, nunca quis falar com ele sobre aquela “suspeita”, aquele sentimento que me disse que só tendia a aumentar à medida que o tempo passava, de que você fizera algo muito errado?
Mary balançou a cabeça afirmativamente. Mas, então, como se houvesse dois pensamentos simultâneos nela, disse: “Não, não. Eu não queria, porque
eu não queria que ele ficasse desapontado...”
Com o quê?
“Comigo.”
Nas duas vezes em que visitei Red Bank, fiquei espantada em ver que o quarto de Mary estava abarrotado de coisas – diferente dos outros que me mostraram, que eram em sua maioria relativamente vazios exceto por uma única foto, um pôster e os objetos de higiene pessoal.
“Chovem presentes dos parentes dela”, explicou o Sr. Dixon, que estava
me mostrando o lugar, “tantos que não podemos dar tudo para ela, seguramos alguns”.
Havia bonecas, sabonetes de todas as formas e aromas, potes de talco e saquinhos de sais de banho, garrafas de loção pós-banho e perfume, agendas e cartões; eles enchiam cada centímetro de cada superfície do quarto e formavam pilhas nos cantos contra a parede. Três quartos desses presentes, cuidadosamente arranjados, como se estivessem em uma vitrine, sequer tinham sido abertos e permaneciam em seus embrulhos de celofane
ou plástico.
“Parece uma exposição, não parece?”, disse o Dr. Dewi Jones, o psiquiatra com o qual Mary me conta agora que não conseguiu se identificar. E outro funcionário que conheci me disse: “Ela não usa nenhum deles, só olha para eles”.
“Quando eu conheci May”, disse Carole, “ela tinha mais ‘tranqueiras’ do que eu jamais tive. Ela adorava suas coisas, que eram muito importantes para ela. Tinha um cuidado meticuloso com elas e era muito limpa e arrumada”.
“Ela estava sempre tomando banho”, Ben disse. “Frequentemente subia para a cama com o grupo que ia mais cedo e, assim, tinha tempo para tomar banho de banheira. Eu ainda consigo ouvir [a Srta.] Hemmings batendo na porta e dizendo: ‘Vamos, saia, saia agora!’”
“Ela dizia: ‘Eu pretendo tomar banho esta noite e tenho todos os meus perfuminhos e minha banheira cheia de espuma’”, acrescentou Carole. “Mas, você vê, se havia alguma razão psicológica profunda por trás daquele negócio de tomar banho... Não sei se havia... Mas, de qualquer forma, nós
não sabíamos e não havia ninguém lá por perto que saberia.”
Dr. Dewi Jones, um jovem e bastante sensato consultor do Hospital Infantil de Liverpool, estava convencido – mesmo antes de eu lhe relatar o que a família de Mary havia me contado – de que ela estava bloqueando experiências e sentimentos da infância e precisava de ajuda para resolver esse conflito para que chegasse, algum dia, a se tornar uma adulta normal. Ele não pensava que isso pudesse ser feito, exceto em algum ambiente com foco psiquiátrico que, ele mesmo admitia, não existia na Grã-Bretanha.
O Dr. Jones sentia que Red Bank, com seu bem-intencionado quadro de funcionários, ainda que fosse agradável e até reconfortante para Mary, era totalmente inadequado para ela. Ele confirmou que, exceto por cursos intensivos de tratamento para crianças desajustadas, os professores não recebiam nenhum treinamento em psicologia. O médico salientou que, antes de Mary chegar, os funcionários receberam uma diretriz escrita sobre como lidar com ela, mas foram informados que não era importante que soubessem sobre seu histórico. E queria acreditar, ele afirmou, que tal sugestão fora
feita apenas com base na percepção de que seria inútil passar-lhes conhecimentos com os quais eles não saberiam o que fazer. Mas suspeitava que não fosse esse o caso. Os autores da diretriz oficial realmente acreditavam que a melhor forma de superar as lembranças negativas do passado – que eles, como tantos outros, sem dúvida reduziam a uma infância de pobreza e negligência, isto é, a uma questão de classe – era por meio de uma abordagem positiva do presente. Essa recusa em conceder importância às experiências vividas na primeira infância, ou seja, a um dos princípios básicos da psiquiatria da época (em 1970), era na opinião dele parte dos princípios do estabelecimento e profundamente prejudicial ao
tratamento de crianças perturbadas.
Dr. Jones afirmou que seu próprio papel na unidade era prova disso. Ele não estava lá para visitar crianças individualmente, mas para comparecer a uma reunião sobre um caso por semana, a fim de dar conselhos aos funcionários sobre certos problemas. É claro que isso significava que ele dependia das informações dos funcionários. A maioria dedicava-se às crianças, ele afirmou, e alguns deles eram apaixonados por seu trabalho; entretanto, por terem pouco ou nenhum treinamento em disciplina
terapêutica, suas observações eram, na melhor das hipóteses, as de um leigo inteligente, o que simplesmente não bastava para lidar com crianças seriamente perturbadas.
Vale dizer que, nesse aspecto em particular, ocorreram avanços ao longo dos últimos 25 anos. Agora, há quatro unidades especiais de segurança na Grã-Bretanha que lidam com crianças gravemente perturbadas, Red Bank sendo uma delas. Se uma criança concorda com o tratamento, coloca-se um terapeuta à sua disposição para atendimento individual.
O médico percebeu em 1970, logo após a mãe de Mary começar a visitá-la, que esses encontros estavam exercendo um efeito negativo na jovem.
“Mas tenho que admitir o fato de ter notado isso a partir dos relatórios sobre o comportamento dela depois das visitas, mais que pela minha observação”, ele me contou. Como consequência, porém, ele recomendou que fosse feito um severo controle de quais membros da família deveriam ter permissão para vê-la. “Eu sugeri que a mãe fosse excluída, pelo menos por um tempo, mas me disseram que não se pode proibir uma mãe de ver
um filho.” Essa foi a mesma resposta que recebi quando, após descobrir a partir da família dela algumas das coisas que Betty Bell havia feito com Mary, dei a mesma sugestão para o departamento responsável no Ministério do Interior.
O Dr. Jones havia insistido àquela altura que deveria ser autorizado a visitar Mary regularmente e sozinho, e conseguira. Mas quando conversaram, ele admitiu que aquilo acabou sendo inútil. Ele não podia ajudá-la visitando-a por trinta minutos ou uma hora uma vez por semana no ambiente de Red Bank. Sua sugestão seguinte, de que ela fosse levada para vê-lo no hospital duas ou três vezes por semana, foi rejeitada.
“Não acho que foi por causa do trabalho em levá-la ou por causa de dinheiro”, o médico disse. “As mesmas instâncias de poder que, meses antes, tinham acreditado de forma bastante sincera que não era importante que os funcionários da unidade tomassem conhecimento do passado de Mary acreditavam agora, de forma igualmente sincera, que ela não precisava de cuidados psiquiátricos. Não é possível fazer terapia de meio período com uma criança tão perturbada quanto ela, em um ambiente que, por mais organizado e benéfico que seja, ainda é um ambiente leigo. Há um
número crescente de crianças em todo o mundo tão perturbadas quanto Mary, mesmo que elas não tenham cometido um crime extremo. Enquanto não tivermos unidades educacionais com foco médico ou terapêutico de longo prazo – basicamente como Red Bank, porém com uma equipe especializada de educadores –, crianças como ela não vão conseguir aquilo de que precisam. Elas tendem a permanecer sendo um fardo para a sociedade enquanto viverem e elas mesmas vão pagar com a própria infelicidade por essas deficiências em nosso sistema.”
Ao longo de meu envolvimento com o caso de Mary, que já dura – em graus variáveis de intensidade – quase trinta anos, conversei com muitos psiquiatras importantes e assistentes sociais sobre sua vida especificamente e sobre o tratamento de crianças instáveis ou prejudicadas em geral. Em 1995, conversei com o professor Guy Benoit, um renomado psiquiatra infantil francês, sobre Mary Bell e sobre os garotos que mataram James Bulger. O que ele me disse converge com o que me foi explicado em 1969 pelo psiquiatra infantil de Oxford, Christopher Ounstead, diretor do
Hospital Infantil Park, que me conduziu durante minha pesquisa para o primeiro livro. Em ambos os casos, disse Benoit, não foi feita a devida conexão entre os crimes que essas crianças cometeram e suas condições mentais ou emocionais.
“Violência contra irmão ou irmã é comparativamente frequente”, ele disse. “Mas o tipo de explosão que leva uma criança a cometer o assassinato sem motivo de uma criança menor e desconhecida é muito raro.” Entretanto, segundo ele, o estado de raiva reprimida por muito tempo e de pressão emocional abafada que a criança está sofrendo e que se torna óbvia nesses casos [o Dr. Benoit evita – sabiamente, na minha opinião – o
termo “psicopatia”, substituindo-o por “pressão intolerável”] não é de forma alguma raro. “Meus arquivos – e também, tenho certeza, os de qualquer psiquiatra infantil que trabalhe nessa área – estão cheios de crianças que chegam ao limite dessa explosão ou desse ponto de ruptura e, se não tiverem ajuda, alcançam-no mais cedo ou mais tarde. Essa ‘explosão’ irá se tornar cada vez mais violenta, seja contra animais ou humanos, contra outros ou contra a própria criança.” Suicídio infantil, que tem se tornado horrivelmente frequente e que, na maioria das vezes, ocorre
depois de um grito final por ajuda na forma de tentativas repetidas de automutilação, é a manifestação extrema desse ponto de explosão.
Em 1996, contudo, Mary lembrava-se apenas do lado positivo de Red Bank. Perguntei se ela alguma vez sentiu raiva da unidade ou de estar lá.
“Ah não, não, não. Eu era uma maria-homem mesmo, e... Bem, talvez fosse errado que eu ficasse praticamente só com garotos durante anos. Eu acho que deve ter sido. Mas eu gostava de ser a única garota. Eu fiz alguns bons amigos, muito bons, amigos firmes e duradouros de quem nunca vou
me esquecer. E professores de quem nunca vou me esquecer. Muitos deles não estão a mais que um pensamento de distância...”
Se é assim, por que ela não tentou ver alguns deles desde sua libertação?
Ela deu de ombros. “Eles estariam muito ocupados”.
Nem tudo foi um mar de rosas, lembrei a ela. Falei que sabia sobre muitos problemas que ela teve e que alguns dos funcionários não gostavam dela, nem ela gostava deles. Vários professores, embora pedissem que eu não revelasse seus nomes, conversaram comigo abertamente para o livro
The case of Mary Bell depois que lhes contei, como fiz com o Dr. Jones, o que eu descobrira sobre a infância de Mary em Newcastle.
“Em todas as relações com adultos”, um deles comentou, “é Mary quem decide os acontecimentos. Ela até mesmo os leva a crer que não sentem nada diferente por ela do que sentem por outras crianças”.
Outro professor explicou-me que as crianças escolhiam seus próprios orientadores. Em meados de 1970, ele disse, Mary tinha tido quatro.
“No caso da maioria dos garotos, se eles requisitavam uma mudança de orientador, os funcionários apenas desconsideravam. Mas cada vez que
Mary pedia para mudar, as pessoas ficavam preocupadas, pensativas. Elas sentiam aquilo como um reflexo de si mesmas. Sentiam-se culpadas. Sentiam que tinha fracassado.” Havia também o problema de os professores não conseguirem manter seu distanciamento em relação a Mary. Dois membros se desligaram da equipe, ele disse, unicamente porque sentiram que estavam se envolvendo muito com ela. “O terceiro ainda se pergunta, às vezes, por que Mary não ficou com ele. E o quarto – que também saiu – ficou convencido de que Mary era inocente da morte dos dois garotinhos.”
Foi esse professor particularmente inteligente que me explicou pela primeira vez sobre o quanto era cansativo para muitos funcionários lidar com Mary. Suas observações foram proféticas. Não foi apenas o que descobri quando trabalhei com ela tantos anos depois, mas duas de suas agentes de condicional, que em conjunto cuidaram dela por dezessete anos, também me disseram o quanto ela lhes parecia cansativa.
“Há nela”, esse professor disse, “uma extraordinária intensidade interna... Uma carência que ninguém consegue entender ou manejar. E a
maioria de nós sente que fracassou com ela porque, sem entender de que ela precisava tão desesperadamente, não conseguimos lhe dar o que necessitava. É daí que vem o sentimento de fracasso”.
Carole G. contou-me sobre uma ocasião em que experimentou esse sentimento de ter falhado.
“Foi alguns meses depois de eu ter chegado a Red Bank. Eu estava jogando bola com um grupo de crianças, May entre eles, e um garoto grande chamado Ross chutou a bola para mim, gritando ‘Aí vai, Carole!’. E
May enlouqueceu completamente. ‘Você não pode chamá-la de Carole!’, ela gritou com ele. ‘Ela não é Carole para você. Senhorita Jeffries, senhorita Jeffries para você’.
“Bem, consegui acalmá-la naquele dia, mas dois dias depois eu estava dando aula de violão em uma das salas de estar do segundo andar quando esse garoto, Ross, começou com aquilo de novo. May atravessou a sala voando e começou a bater nele com toda a força, chamando-o de todos os nomes que existem. O violão girou – não exatamente ao redor do pescoço dele, mas algo assim – e ela estava fora de si, completamente fora de si. Quando, com a ajuda de um outro garoto, eu finalmente consegui tirá-la de
cima de Ross, ela estava tremendo inteira e seu corpo estava quase rígido de tanta tensão. Aí eu a levei para o funcionário de plantão, no andar de baixo, e ele me mandou para casa, de tão chateada que eu estava.
“Claro que não foi a única vez – os rapazes sempre tinham explosões físicas –, mas normalmente, pelo jeito como o lugar estava organizado, sempre havia funcionários por perto para conter tudo de forma rápida. Nesse caso, eu estava sozinha com eles e isso me incomodou muitíssimo. Primeiro, porque ela ficara com muita raiva, obviamente por causa de...
Bem, para me defender, ela pensou. Depois, porque não consegui evitar nem parar aquilo rapidamente. No dia seguinte, aquele garoto, Ross, estava com hematomas pelo corpo inteiro.”
Mary se arrependeu depois?
“Ela estava toda cheia de pedidos desculpa dia seguinte – para mim, não para o garoto; e não por ter brigado com ele, mas por ter dito palavrões. O Sr. Dixon não permitia palavrões. Eu estava realmente incomodada. Voltei andando para casa e fiquei tremendo como vara verde por uma hora. Chorei
e chorei. Ela... Ela realmente fazia com que se envolvessem demais com ela. Acho que – e isso se aplica a quase todos lá –, se tivéssemos tido treinamento adequado para lidar com essas crianças carentes, estaríamos mais protegidos – não completamente, mas em certa medida – das nossas próprias respostas emocionais.”
A única pessoa que de algum modo conseguiu lidar com ela, disse Ben, usando exatamente as mesmas palavras de um outro professor 25 anos antes, foi o Sr. Dixon:
“Ele tinha um talento especial para lidar com jovens. Não porque tivesse recebido mais treinamento – porque não recebeu –, mas apenas pelo tipo de ser humano que era.”
Quando Ben e Carole estavam com ela, perguntei, pensavam nela com frequência como uma criança que havia cometido um assassinato, se é que alguma vez tinham pensado nisso?
Ambos pensaram sobre isso por muito tempo e, por fim, Ben disse:
“Bem, não. Você lidava com o que estava ali na sua frente. Sabíamos que ela era um perigo, talvez para si mesma, talvez para os outros em momentos
de estresse, porque, especialmente nos primeiros dias, tínhamos visto isso acontecer. Mas, no dia a dia, não pensávamos nela como uma criança assassina. Não apenas porque ninguém jamais conversou ou precisou conversar sobre isso, mas também porque sabíamos que ela nunca tinha revelado – jamais tinha dito que fizera aquilo, e sempre houve aquele elemento de dúvida. No final, muitos funcionários – incluindo Jim Dixon, devo dizer – pensavam que ela era inocente e que devia ter havido um erro de julgamento. Agora, é claro, eu sei que aquilo não foi bom para ela. Ela
vivia em um estado de negação do que fizera e nós reforçávamos isso em vez de ajudá-la a se compreender e a conviver com isso.”
“Meses depois”, Carole contou, “ela repentinamente me disse: ‘Você não se preocupa em ficar sozinha no quarto comigo?’. Aquilo me balançou – o que estava implícito na pergunta era, naturalmente, a questão de quem ela era – e eu disse de imediato: ‘Claro que não’. E era verdade. Mas devo dizer que, no dia da explosão dela na sala de música, o pensamento passou pela minha cabeça – ‘Meu Deus, aí está...’. Claro que eu estava errada. Não se
tratava disso, de forma alguma. Existia uma tensão entre ela e aquele garoto de qualquer maneira, mas aquela explosão aconteceu porque ela era possessiva em relação a mim; se eu tivesse sido mais experiente ou melhor treinada, talvez nunca teria permitido que isso ocorresse. Eu entendo tudo isso agora. Mas, na época, todas as nossas reações eram mais instintivas do que impostas, e mais imediatas do que prolongadas.”
“Para nós, ela era simplesmente May”, Ben disse, “uma garotinha que estava crescendo; uma espertinha que ficava testando os limites todo o
tempo. Mas se pensávamos nela como uma criança que matou? Não, no sentido da sua pergunta, não. Não pensávamos”.
Mary pareceu não se preocupar com o fato de eu saber sobre suas dificuldades em Red Bank. Ela deu de ombros.
“É verdade, às vezes eu era um pequeno terror. Eu brigava e era grosseira, falava palavrões e tinha um ou dois na equipe que não gostavam de mim. O Sr. Dixon dizia que era tudo por causa de inveja e por eu manipular as pessoas; por causa do jeito que eu jogava um contra o outro. Sabe, levou tempo para eu... Eu me acalmar. Eu tinha que crescer, entende, e se eu cresci... Bem, mais ou menos”, ela riu depreciativamente, “foi pelo
menos em parte porque ninguém me tratava como se eu fosse uma aberração. Sempre conversavam comigo, explicavam as coisas para mim, mesmo depois de eu ter sido terrível...”.
Durante os primeiros dez meses de Mary em Red Bank, Billy Bell visitava-a regularmente.
“E uma vez ele levou a mãe dele, minha vó Bell”, Mary disse. “Ele costumava chegar lá praticamente ao amanhecer. O Sr. Dixon entrava no meu quarto às 6 horas da manhã e dizia: ‘Você tem visita’. Eu pulava da
cama e lá estava meu pai.”
Mas por que ele ia tão cedo?
“Não sei; nunca perguntei a ele. Eu simplesmente ficava muito contente em vê-lo. Ele e o Sr. Dixon se davam muito bem; eles tinham bastante respeito um pelo outro. Não eram muito diferentes, exceto por um ter estudado e o outro, não.”
Bem, o princípio de vida do Sr. Dixon era disciplina e ordem, não? Perguntei. De que jeito você achava que ele e seu pai eram parecidos?
“Eu acho que também era o princípio de vida do meu pai”, ela disse. “Ele tinha seus próprios valores, mesmo que isso possa parecer estranho. Uma vez, quando jovem, me meti numa briga. Entrei em casa e ele me perguntou quem tinha começado e me disse que, se fosse eu, era melhor não chegar chorando. Ele disse que sair procurando encrenca e dando uma de valentona com as pessoas era errado e não era para eu sair por aí dizendo para todo mundo que meu pai iria mostrar para eles, que iria bater em todo mundo. Claro que, se eu não tivesse começado a briga, aí seria diferente.
Você entende o que quero dizer? O Sr. Dixon podia ter dito isso também.”
O que você e o pai faziam quando ele ia visitá-la?
“Eu não tinha permissão para ficar sozinha com visitas. O Sr. Dixon normalmente ficava lá, ou então sentávamos na sala de estar, onde sempre havia um supervisor, e só conversávamos. De qualquer jeito, ele nunca podia ficar muito tempo. Eu acho que ele ia muito cedo porque pegava o trem da noite, mas aí tinha que voltar no mesmo dia, por isso não era mais que algumas horas.”
Tudo que Billy diria a mim na época sobre Mary em Red Bank era que ela gostava da escola: “Ela tem um belo quarto”, e declarou (erroneamente)
que foi “daquele lugar em Londres [Cumberlow Lodge]” que Mary mais gostou. “Foi lá que ela teve mais liberdade”.
Do final de 1969 em diante, porém, as visitas dele pararam por algum tempo. Em 10 de dezembro, ele e a mulher com quem estava vivendo na época foram julgados em Moot Hall, Newcastle, por roubo com violência. O Sr. Lyons, Conselheiro da Rainha, que havia sido o promotor no caso de Mary um ano antes e, agora, era um dos membros dos Tribunais Itinerantes, sentenciou a mulher, oito anos mais nova que Billy Bell, a trinta meses, mas
deu ao pai de Mary uma sentença comparativamente leve de quinze meses de prisão.
“Estou reduzindo a sentença que normalmente daria”, o Sr. Lyons disse, “por causa da tragédia que cerca a família deste homem”.
Billy acabou cumprindo apenas nove meses de prisão. A irmã dele, Audrey, assumiu as três crianças, o irmão de Mary de 10 anos, P., e as duas garotinhas, com idades de 7 e 3 anos, cuja mãe, depois de uma breve visita no início de 1969, nunca mais pediu para ver.
Mas no final daquele ano, no sábado, 20 de dezembro, dez dias depois que Billy foi mandado para a prisão, ocorreu que Brian Roycroft, funcionário responsável pelo setor infantil do Serviço Social de Newcastle (do qual seria posteriormente diretor), entrou em seu escritório e se deparou com Betty Bell sentada em um banco no corredor.
“Ela não sabia quem eu era e me perguntou se eu sabia onde ela podia conseguir passagens de trem e dinheiro [que eram fornecidos pelo Departamento de Crianças] para uma viagem até Lancashire”, o Sr.
Roycroft me contou na época. “Vínhamos tentando fazer com que ela fosse ver Mary já tinha algum tempo e ela sempre se recusava. Disse a ela que sim, eu sabia onde era, e que conseguiria a passagem.”
Ao retornar, ele se sentou ao lado de Betty e perguntou se ela sabia que trem pegar e onde ficar.
“Ela disse que tinha ouvido que havia um trem ao meio-dia e que não queria passar a noite lá, preferindo voltar para casa no trem noturno. Perguntei como ela se sentia naquele momento em relação a Mary e se ela estava ansiosa para vê-la na unidade.” E então, ele disse, Betty Bell começou a chorar e contou a ele sobre se prostituir. Então, “chorando ainda
mais, ela disse que ficava pensando, às vezes, se tinha feito mal a Mary, se ela tinha culpa. Ela estava especialmente perturbada sobre a ‘especialidade’ pela qual era conhecida”, em suas palavras, dizendo que a polícia a tinha apanhado muitas vezes e feito advertências. Isso “se espalhou” e mais e mais pessoas a procuravam para “aquilo”.
Finalmente, depois de ela se referir a essa especialidade diversas vezes, o Sr. Roycroft perguntou a Betty o que era. “Bato neles com chicote”, ela disse e acrescentou rapidamente: “Eu sempre escondi os chicotes das
crianças”.