Por que Crianças Matam
Desistindo: Styal, 1975 a 1977
Desistindo
Styal, 1975 a 1977
F oi em Righton que Mary experienciou violência pela primeira vez. “É assim que me lembro disso”, ela disse. “Porque acho que o que eles fizeram comigo foi uma invasão, uma invasão total, muito injusta; eu não merecia... Ninguém merece uma coisa assim.”
“O que aconteceu é que, não muito tempo depois que fui para Righton, tinha uma senhora lá, também chamada Mary, e não sei o que ela tinha feito, mas a estavam levando para fora do prédio. Ela resistiu, mas foi puxada pelo cabelo. Fiquei gritando até não poder mais, xingando ou coisa parecida. Por alguma razão, aquilo era a gota d’água para mim, quero dizer, tratar uma velha senhora assim, bem, eu me descontrolei. Eu estava
descontando toda a minha raiva e frustração, sem fazer nada violento como as pessoas faziam sempre, como quebrar janelas, jogar móveis pela sala ou chutar portas. Eu só fiz escândalo, gritei, comecei a chorar e simplesmente não conseguia parar.
“Qualquer boa agente poderia ter me feito parar, mas a que estava lá tocou a campainha de conduta violenta. O grupo veio correndo, me carregou para um lugar fechado e se sentou em cima de mim, impedindo que eu me mexesse. Chamaram uma enfermeira e ela injetou em mim o que
eles chamavam de ‘líquido camisa de força’. Nunca imaginei que fossem fazer isso comigo. Quero dizer, eu sabia que isso acontecia; tinha ouvido falar disso e eu via frequentemente a enfermeira Watson andando por lá com aquela seringa grande de que me falaram, mas...” Mary engoliu repetidas vezes, esforçando-se para controlar sua emoção repentina. “Eu não tinha feito nada que precisasse desse tipo de tratamento...”, e, então, ela começou a chorar. “Desculpe”, soluçou, “mas foi horrível, horrível demais”.
“É uma droga hipnótica, acho que se chama paraldeído”, explicou quando se acalmou pouco depois. “É uma substância oleosa verde, terrivelmente dolorosa quando entra no corpo. Deixaram-me trancada a noite toda. Não me lembro de descer as escadas, mas me lembro de voltar à
consciência no quarto e de sentar numa cadeira com as mesmas roupas que vestia no dia anterior. Isso é tudo que lembro; elas sentando em cima de mim, a injeção e o lugar em que fiquei trancada, a dor e aquele cheiro terrível. E depois, sentada no quarto no andar de baixo, fui levantar, mas não consegui; ia dizer algo e não consegui, minha boca parecia estar toda pesada e minha língua, inchada. Eu sabia que tinha que fazer xixi, mas a droga te deixa paralisada. Eu não conseguia mexer nem falar e só sentia sair aquela água quente por baixo de mim....” Ela chorou de novo, dessa vez,
suavemente. “Por que, por que fizeram isso comigo? Mais tarde tentei achar um motivo, e quase dá vontade de achar algo que justifique aqui, mas tudo o que eu conseguia imaginar era que eles apenas decidiram, ‘agora é sua vez, vamos mostrar a você, sua vadiazinha arrogante’.”
Comentei que ela ainda parecia estar muito chateada; eu nunca a vira tão chateada com nenhuma outra coisa que aconteceu em Styal, nem mesmo em Bleak.
“É verdade”, Mary disse. “Eu acabei aceitando... Eu ia para Bleak com
tanta frequência que fiquei em paz com isso. E na maioria das vezes eu provocava, então... Não me importava tanto assim com a reclusão. Muitas vezes eu gostava dela e conseguia ver ou encontrar um lado cômico para a maior parte das coisas que aconteciam lá: a comida horrível, a vulgaridade das agentes. De um jeito engraçado, essa era minha vitória, já que é preciso se opor ao sistema para vencê-lo. Mas isso, isso...” Ela parou como se recuperasse o fôlego. “Não sou burra. Conheço tranquilizantes – existe um monte deles; eles me deram uma injeção de clorpromazina em outra
ocasião, que não foi tão ruim. Consigo entender que eles precisem usar tranquilizantes quando as pessoas ficam fora de controle, mas isso, esse veneno que eles injetam à força, te torna incapaz de se mexer, de falar. Você fica acordada, mas totalmente, totalmente incapacitada. Como eles se atrevem? Eles não têm o direito. Esse não pode ser um remédio que possa ser dado assim. Eu queria saber... Eu queria mesmo saber se eles ainda fazem isso”.
Fui informada de que essa droga pesada, amplamente utilizada em hospitais psiquiátricos e prisões vinte anos atrás, é agora considerada
ultrapassada.
Perguntei a ela quanto tempo durou essa experiência.
“Com os efeitos tardios das agulhadas, que você sente por horas até passar por completo, acho que quase 48 horas.”
Nesse momento de seu relato, ela fez uma digressão, como de costume, para meses e mesmo anos de distância do acontecimento que acabara de descrever. Eu sabia que era inútil tentar forçá-la a relatar seus anos de prisão numa sequência. Não era porque ela não queria; era porque não
conseguia. Nas duas ocasiões em que encorajei Mary a tentar, ela disse: “Simplesmente não consigo pensar nisso desse jeito. Me sinto mal, sinto que estou te desapontando por não contar as coisas com alguma ordem cronológica, mas não consigo. Nada disso está na minha cabeça do jeito que você quer e tenho que contar do jeito que vem porque, quando tento encontrar a ordem que você me pede, trava tudo.”
Me dei conta de que o único jeito de Mary relatar aquilo era dar vazão às emoções conforme surgiam, ativadas por imagens ou qualquer outro
motivo, como e quando surgiam.
Ela ainda explicou que nunca mais lhe deram paraldeído, embora em uma ocasião posterior, ela não tinha certeza de quando, uma irresoluta tentativa de suicídio tenha feito com que ela tivesse uma segunda experiência com o “grupo”.
“Foi quando eu estava muito, muito deprimida. Não me lembro se foi depois que o Sr. Dixon morreu, no verão de 1975 [uma data da qual ela sempre se lembraria], ou mais tarde, quando soltaram Alicia, uma garota
por quem eu estava perdidamente apaixonada.” Descobri mais tarde que foi nessa segunda ocasião, na época em que ela tinha 21 anos.
“Eu estava em Fry. Enchi a banheira e coloquei a toalha cobrindo a porta, que era um sinal para as pessoas não entrarem. Eu tinha quebrado uma garrafa de café e tinha um pedaço grosso de vidro, então comecei a dar talhos... Doeu – o primeiro corte é o mais fundo, e dói muito, mas continuei. Mas eu não conseguia suportar cortar os pulsos, então fui cortando braço afora e coloquei o braço na banheira, porque eu tinha ouvido que isso faz o sangue escorrer...”
Perguntei se ela estava realmente tentando cometer suicídio.
“Não, não, era só um tipo de manifestação de... Ah, acho que de infelicidade.”
Ou de um desejo por atenção?
Mary riu, uma risada um pouco estridente. “Ah, não, eu tinha atenção o bastante, não?” A risada parou. “Só que algumas vezes naqueles anos eu apenas... Não conseguia continuar. Quero dizer, acho que sabia que eu ia continuar, então você está certa, não era suicídio ou nada assim...” Ela deu
de ombros. “Não sei como se pode chamar isso...”
Um gesto?
“Sim, sim, mas um gesto para mim, não para qualquer outra pessoa. Uma das minhas amigas em Fry House era Tricia, uma garota bonita e gentil que tinha sido freira antes de se tornar funcionária de prisão; aí ela mesma foi mandada para a prisão porque tentou ajudar Myra Hindley a escapar. Tricia viu a água ensanguentada saindo debaixo da porta e alertou as funcionárias”, Mary disse. “Quando dei por mim, estava sendo costurada
em um bloco hospitalar e, como te falei antes, sendo escoltada para [Bleak] porque”, novamente Mary soltou aquele “ha ha” irônico e aborrecido, “eu tinha me machucado intencionalmente dentro de uma propriedade do governo. Aí, acho que por eu ter resistido, botaram uma camisa de força em mim, dessa vez uma de verdade, e como ela forçou meu braço por debaixo dela os pontos arrebentaram.”
Nessa época, duas novas agentes de alto escalão tinham sido designadas para Styal e ambas conseguiram estabelecer um relacionamento com Mary.
“A Srta. Fowler era diretora-assistente e a Srta. Kendall, a principal responsável. As duas eram brilhantes, cada uma do seu jeito, ótimas”, Mary disse. “A Srta. Fowler – nós a apelidamos de ‘Pônei’ porque tinha alguma coisa nela que lembrava um cavalo – parecia ter saído de um seriado de comédia. Ela era muito masculinizada, com cabelo curto e cinza; usava sapatos sociais com furinhos e roupas enormes em xadrez de duas cores, e tinha uma risada alta maravilhosa – na maioria das vezes, ria de si mesma. Ela chegou quando eu estava no meu pior momento e foi colocada como responsável pelas detentas de prisão perpétua. Fowler disse para a diretora que, se pudesse tomar conta de mim, me colocaria na linha. Mary contou
isso para mim, diretamente, na primeira vez em que foi me ver em Bleak, claro. Isso foi quando eu passava mais tempo lá do que fora, muito antes do episódio em que cortei o braço.
“A Srta. Fowler me disse com aquela voz alta dela – era incapaz de falar suavemente – que não fazia rodeios com ninguém, nem fazia nada por baixo dos panos. ‘Mas isso é uma via de mão dupla’, ela disse. ‘Se você tem algo a dizer, diga logo, e nós vamos resolver’. Aí me disse que nós duas tínhamos uma pessoa muito especial em comum: o Sr. Dixon. Ela
tinha trabalhado em Red Bank. Aquilo foi uma ótima surpresa. Aí Fowler questionou ‘se eu te tirar de Bleak agora, para onde você gostaria de ir?’. Bem, esse é o tipo de pergunta capciosa que eu já tinha ouvido antes. Sabíamos que elas certamente nos mandariam para qualquer lugar, menos o lugar que pedíssemos. Normalmente, nós imaginávamos qual seria o contrário de onde queríamos e pedíamos para ir para lá. Pelo menos desse jeito tínhamos a chance ir para o lugar que queríamos. Mas quando ela perguntou, alguma coisa me fez dizer a verdade, que eu queria voltar para
Fry. A diretora respondeu: ‘Certo. Fry então. Amanhã’, e assim foi.”
Mary explicou que a Srta. Kendall era diferente. “Ela era daquele tipo muito magro, cerca de 40 anos de idade, e acho que não era muito feliz, mas claro que não sei ao certo. Ela não ria tanto, mas se importava com as pessoas. Fazia qualquer coisa para evitar dar queixa. ‘Você se comporte’, ela me dizia. ‘Tenho pesadelos de que você ainda vai estar aqui quando eu terminar meu serviço. Não vou aceitar isso, então tome jeito.’ Mas aí, no Natal, quando ela tomava uma taça ou duas, ela dizia ‘espero que este seja
seu ano. Tem que ser seu ano’. Todo ano ela dizia isso. Parece sentimental, mas ela tinha autoridade verdadeira: as detentas sempre sabem quando a autoridade é verdadeira. Ela foi para Holloway depois como diretora-assistente.”
E foi a Srta. Kendall que se sentou ao lado de Mary na cela em Bleak quando a enfermeira Watson, usando uma agulha reta, refez os pontos nos 27 cortes que Mary fizera no braço (ela puxou a manga para me mostrar as cicatrizes).
“Ela segurou minha mão e disse: ‘Aperte minha mão; aperte o máximo que conseguir’. De alguma maneira, ela estava sempre por perto quando
acontecia alguma coisa de errado comigo. Aconteceu de novo depois. Não consigo lembrar quando, mas foi num período em que, ao contrário de todas as minhas intenções, eu tinha aceitado tomar tranquilizantes. Era para eu tomar uma dose às 9 horas da manhã e outra às 11 horas, mas por alguma razão eles não anotaram, e quando fui novamente ao meio-dia, não sei se porque eu tinha esquecido ou só por ir, eles me deram a injeção de novo e depois não conseguiram me acordar. Quando finalmente acordei, às 7 horas da noite, a Srta. Kendall estava sentada na minha cama, pegou minha mão e
disse: ‘Ah, graças a Deus, graças a Deus!’. E, sabe, eu estava muito grogue, mas ouvi isso, e isso significou muito para mim. Ainda significa. Fico imaginando como a Srta. Kendall está.”
Mary não tem certeza de quando o Sr. Dixon foi vê-la pela primeira vez. “Ele veio três vezes”, mas, estranhamente, ela não se lembra de quase nada das visitas dele.
Tentei ajudá-la a se lembrar comentando que, quando ele falou sobre sua transferência para Styal, disse que ela tinha que ser a embaixadora de Red
Bank. Perguntei se isso veio à tona quando ele a visitou.
Ela deu de ombros. “Ele disse para eu me sentar direito.”
Cerca de um ano depois, enquanto eu estava completando esta parte do livro, perguntei por que, dado o quanto o Sr. Dixon havia sido importante para ela – e na verdade ainda é –, ela não conseguia se lembrar mais das três visitas que ele lhe fez em Styal.
“Pensando sobre isso agora”, ela disse, “fico imaginando se em algum lugar dentro de mim, apesar de todo o meu amor por ele, ou talvez por
causa desse amor, eu estava com raiva. Para mim, ele era muito poderoso. Talvez eu sentisse que ele deveria ter conseguido consertar aquilo para mim. Talvez, de alguma maneira, o culpasse por não ter consertado nada. Mas também era muito, muito difícil conversar com as visitas, com qualquer um ‘de fora’, mesmo o Sr. Dixon. O que havia para dizer? Como se poderia contar para alguém, exceto para quem também vivia aquela vida, como era aquela vida, que era tudo o que existia? Não, tudo que eu podia fazer era me isolar e foi o que fiz durante todos aqueles anos. Depois de um tempo, eu podia escrever cartas, sobre o clima, sobre o trabalho que eu fazia, sobre o que as pessoas escreviam para mim. Mas as coisas que eu via
e sentia mesmo não podiam ser colocadas em palavras para aqueles que estavam do lado de fora”.
“Jim Dixon nunca falou sobre visitas a May”, Carole G disse. quando eu a perguntei sobre isso. “Estou sabendo agora que ele a visitou. Mas ele sentia algo tão profundo por ela que eu imagino que a ver em Styal seria traumático para ele.”
“Ben e eu fomos vê-la, acho que foi seis meses depois que ela foi para lá. Ela havia escrito nos convidando.” Embora falasse com entusiasmo de
Carole e Ben, Mary não se lembra das visitas deles em Styal.
“Fomos vê-la duas vezes”, Ben disse. “Primeiro na primavera de 1974, e depois por volta de um ano mais tarde. Ela veio até a sala de visitas para nos encontrar; tinha um tablado, mesas e cadeiras.”
Perguntei qual impressão Mary passou a eles nessa primeira visita.
“Vimos a May que conhecíamos”, ele disse. “Claro que mais velha, mas ainda era ela mesma, muito feminina. Ela entrou e nos deu um grande abraço; Carole e ela choraram. A única coisa estranha era que ela estava
vestindo um uniforme de prisão, um tipo de vestido pesado de lona, e não esperávamos por isso.”
“Acho que eu não contei para eles: eu devia estar sendo punida”, Mary me disse quando lhe contei isso. “Eles te faziam usar aquele uniforme horrível por um tempo se, por exemplo, pegassem você usando as roupas de outra pessoa. Bobo, mas era assim: tínhamos três peças de cada coisa e era tudo o que tínhamos para vestir, mais nada.”
“Aquilo tudo deve ter nos deprimido também”, Ben disse, “porque eu
lembro que, quando fomos embora e entramos no carro, nós dois choramos.”
A segunda vez em que Carole e Ben G. foram vê-la foi no final do verão ou no outono de 1975, pouco antes de saírem de Red Bank para trabalhar no sul da Inglaterra. “Naquela época, ela parecia bastante mudada”, Ben explicou. “Ela tinha uma aparência muito diferente. Estava com olheiras grandes e fundas no rosto. Explodiu em lágrimas quando nos viu, mas, quando sentamos com ela – e ficamos lá durante muitas horas –, Mary estava apenas muito desanimada. Toda aquela energia, aquela vivacidade, tinham sumido. Ficamos muito, muito preocupados com ela quando fomos
embora.”
Em meados de 1975, Mary havia recebido muitas cartas de Carole e Ben, a última delas enviada durante as férias deles nos Estados Unidos. Na volta, eles encontraram a resposta de Mary, escrita em sucessivas noites, na qual, para a surpresa deles, ela perguntava se eles poderiam fazer um grande favor caso ela sacasse certa quantia de dinheiro de sua conta e lhes
enviasse.21 Após agradecê-los pelas cartas e pelo cartão-postal e contar-lhes como desejava viajar para aumentar seu conhecimento de mundo, ela conta
a eles que tinha começado, naquela noite, um curso preparatório para a universidade aberta e que já havia aprendido muita coisa em duas horas. Mostrando-me a carta, Carole disse: “E, veja, ela nos pede para comprar um rádio a pilha para ela”.
Não posso pedir à mamãe [escreve Mary] porque quero que seja uma
surpresa para ela e quero lhe mostrar que tem uma filha que sabe lidar com dinheiro. De verdade, vocês estariam me fazendo um favor, afinal de contas, é para isso que servem os amigos. Não estou tentando fazer chantagem emocional, mas depois me contem se deu tudo certo. Vou encerrar por agora, temos que nos recolher e as luzes vão se apagar. Então, vou deixar assim, provavelmente até amanhã à noite, porque tenho que trabalhar por mais oito horas amanhã – como faço isso? Então, vou abaixar a cabeça, fazer meu relaxamento espiritual de ioga e
voar até vocês em meus sonhos. Desejem-me boa viagem, boa noite, bom descanso. Sua dorminhoca.
Agora são 8h30 de quarta-feira [continua a carta], tomei banho e estou na cama. Fui para a oficina de beleza esta noite, fiz as sobrancelhas, passei hidratante de amêndoa roxo no rosto. Ele ainda parece o mesmo. Eu esperava uma mudança milagrosa em duas horas: levou quase uma hora para que minhas sobrancelhas fossem pinçadas adequadamente. [Nesse ponto, ela pergunta sobre alguns dos conselheiros de Red Bank e
sobre Jeff, o jovem norte-americano amigo dos G. por quem ela ficou um pouco apaixonada.] Quando eu encontrá-lo de novo, se eu o encontrar, espero ser forte o bastante para interromper este sentimento
esquisito... Como uma mãe ou uma analista. É difícil admitir que seu herói é só mais uma pessoa. Sei que eu só tinha 14 anos, mas algumas
coisas demoram um tempo para serem digeridas. Ainda assim, seria bom vê-lo novamente e ver como vou reagir agora. Não há muito a escrever – alguma vez houve? Não sei como consigo quatro páginas. As estrelas estão no céu agora. Adoro me deitar na cama e olhar para todas elas. O que você vê, estrelas ou grades? Eis aí uma pergunta difícil. Temo que só veja as estrelas e o céu etc. Grades eu dificilmente percebo, somente uma vez ou outra, quando me sinto triste. Devo encerrar agora, amigos, cuidem-se e até a próxima vez.
Mary foi mantida em Righton por volta de seis meses, ela calcula. “Suponho que até eles acharem que eu estava civilizada o bastante para me juntar às fileiras de outras detentas. Eu não imaginava que eles iam me mudar... Nós nunca recebíamos aviso nenhum sobre nada. Foi a Srta. Kendall que chegou um dia e disse que estava me levando para Barker: ‘Vamos experimentar’, disse ela.”
Barker, naquela época, era o bloco de elite da prisão, lar de uma seleta
dúzia de detentas de prisão perpétua, mais ou menos. “Era a ‘sala de exposição”, Mary relembrou. “Era para lá que eles levavam as equipes de filmagem que iam fazer documentários sobre mulheres na prisão. Era realmente inacreditável, coisa de outro mundo. Aquelas mulheres viviam lá como num lar de idosos, um asilo. Elas tinham seus próprios jogos de cama, tinham permissão para usar relógios de pulso e por todo lado havia peças de tricô e vasos de flores em arranjos. Toda a mobília era coberta com chita. Os funcionários da casa eram tratados como convidados, traziam xícaras de
chá e tudo. Eu não conseguia acreditar em nada daquilo. Elas eram totalmente institucionalizadas, contentes. Depois descobri que nunca, nunca haviam dado queixa de alguém em Barker.”
Ela soltou uma risada estridente: “Eu mudei isso rapidinho. Na manhã em que me levaram para lá, eu subi as escadas correndo para dar uma olhada geral no lugar e Pearl, ah, ela tinha por volta de 50 anos, disse naquele tom de professora brava que todas elas adotavam: ‘Nós tiramos nossos sapatos ao entrar nesta casa’. Quando falei que eu chutaria a boca
dele se ficasse me dando ordens, a senhora respondeu: ‘Sua fama já chegou aqui’ e ‘vou te colocar no colo e dar palmadas no seu traseiro’. Aí eu disse que ela era uma pervertida e que eu iria arrebentar a cabeça dela se
encostasse em mim. Na verdade, ficamos muito amigas depois. Ela era legal, a velha Pearl.”
Muito depois, após Mary sair de Styal, conversei sobre ela com uma ex-detenta de lá, uma mulher em seus trinta e poucos anos. “Ela podia ficar terrivelmente agressiva, terrivelmente rude... Tinha um palavreado terrível quando falava das agentes prisionais e mesmo com elas.”
Perguntei o que as agentes faziam quanto a isso, e a ex-detenta deu de ombros.
“Nada. Elas a tratavam de maneira diferente de como nos tratavam. Ela era diferente. Era como uma dama. Comparada a mim, ela era uma dama.”
Mesmo sendo rude? Mesmo com o palavreado terrível?
Ela deu de ombros outra vez. “Se qualquer outra pessoa tivesse esse comportamento, estaria em uma cela em questão de minutos. Com ela... Elas simplesmente deixavam passar.”
Perguntei se isso causava ressentimento nas outras detentas. A mulher balançou a cabeça positivamente, de maneira meio perplexa.
“Eu não gostava dela logo que a conheci”, ela disse. “Mas mais tarde eu passei a achar que ela estava no lugar errado, apenas no lugar errado. Mas eu nunca fui próxima dela. Mary tinha que estar no hospital. Ela tinha 11 anos, só 11 anos quando fez aquela coisa terrível”, disse, parecendo brava. “Tenho dois filhos e um tem 11 anos. Se ele fizesse uma coisa assim, eu saberia que está doente. Então talvez as oficiais pensassem, como eu pensava, que ela não devia estar lá, e talvez seja por isso que a tratavam de modo especial. Ressentimento?”, questionou, voltando à minha pergunta
anterior e balançando a cabeça em negativa. “Não. Ela tinha boas amigas. Ela podia ser terrível, terrível mesmo, mas era uma boa amiga para um monte de gente.”
Margaret Kenyon,22 uma jovem atraente envolvida de maneira apaixonada na reestruturação de prisões femininas, é uma diretora de prisões que, no começo de sua carreira, esteve em Styal quando Mary estava lá.
“Eu não estava muito envolvida com Mary”, ela disse, “mas todo mundo sabia sobre ela. Ela era diferente da maioria das outras detentas. Não
apenas era ingênua, mas também não tinha vivido nas ruas, ao contrário de muitas outras. Embora sua inteligência fosse óbvia, ela era curiosamente inocente e, de alguma maneira, pura; havia uma espécie de sentimento materno em relação a ela, não tanto entre as agentes prisionais, mas com certeza entre as prisioneiras. As mulheres mais velhas, especialmente, queriam mantê-la do jeito que ela era; acho que elas a viam como uma filha favorita substituta. Claro, ela era muito jovem – mesmo depois de estar lá por anos, ainda parecia jovem...”.
Quando Mary me contou sobre Barker House, ela se deu conta de que, àquela altura, tinha estado em Styal por mais de um ano. “Eu tinha 17 anos, e a melhor coisa era que Diane estava lá também, e também Angie, e elas tinham 18 anos. Pela primeira vez, eu estava com garotas da minha idade e, embora eu não gostasse de Angie, porque ela era uma puxa-saco, Diane se tornou minha melhor amiga, a melhor amiga que já tive.”
Ela ficaria em Barker por nove meses, seu período mais longo em um mesmo pavilhão. “E de algum modo, Diane e eu víamos aquilo como se
fôssemos crianças no internato”, Mary disse. “Ríamos e chorávamos muito juntas, fazíamos pegadinhas com todo mundo e uma com a outra. Coisas bobas, bobas mesmo, como uma vez que eu tinha acabado de deitar para dormir à noite e, de repente, senti meu travesseiro mexer embaixo de mim. Pulei para fora da cama aterrorizada, pensando que eram camundongos ou ratos, e aí ouvi Diane dando risadinhas debaixo das cobertas: ela tinha costurado uma linha debaixo do meu travesseiro e estava puxando o carretel. Na noite seguinte, descontei nela quando – depois que apagaram as
luzes, claro – estávamos brincando de pular, subíamos no alto de um grande armário alto e pulávamos em cima das camas. Quando foi a vez de Diane, eu empurrei a cama dela para longe e falei que ela tinha que cantar antes de eu colocar a cama de volta no lugar. Enquanto ela cantava e cantava e cantava, sentada no alto do armário, eu fingia que estava pegando no sono. Mas era tudo de brincadeira, quero dizer, era bobagem de criança.
“Mas acima de tudo, tínhamos uma proximidade maravilhosa. Deitávamos na cama à noite, olhando através da grade, e conversávamos sobre liberdade. Tínhamos um sonho de que um dia iríamos à Disney, nós duas usando grandes chapéus: o dela branco; o meu azul. A Disney resumia
tudo o que achávamos que era a liberdade, um lugar onde as pessoas riam felizes, onde a vida seria perfeita. Toda véspera de Ano-Novo olhávamos para fora até achar a estrela mais brilhante no céu e fazíamos um pedido. Mesmo agora, todo Ano-Novo, pouco antes da meia-noite, eu saio sozinha por um momento e procuro pela estrela mais brilhante, e sei que Diane está fazendo o mesmo para manter nosso pacto e garantir que a gente não esqueça um dia o que foi tudo aquilo e o quanto nós crescemos juntas.”
Perguntei se ela teve um relacionamento sexual com Diane.
“A maioria das pessoas pensava que sim, mas não, não tivemos, nem conseguiríamos. Seria como um incesto, entende. Tentamos uma vez, mas não deu certo – nós duas simplesmente explodimos de rir. Ainda assim”, a lembrança parecia confundi-la, “acho que nós duas ficávamos com ciúmes dos nossos relacionamentos com outras pessoas. Engraçado, não é?”
Foi durante 1975, quando Mary tinha 18 anos de idade, que ela tomou muitas decisões. “Acho que tudo aquilo se cristalizou depois que o Sr. Dixon morreu.”
Era um dia adorável de junho e, segundo Mary, ela estava fazendo jardinagem à tarde quando começou a se sentir “realmente triste, tão para baixo que eu não sabia o que fazer. Deixei o ancinho escorado em uma árvore e deitei na grama para dormir. E quando o Sr. Walker, o jardineiro, me achou e me acordou, eu sabia que havia algo errado. Não sabia dizer o que, mas mal conseguia suportar aquela sensação. E tudo que eu queria era ficar sozinha.
“As agentes aparecem ao entardecer e perguntam se alguém quer ver o
médico ou a diretora. Eu pedi para ver a diretora porque queria que me enquadrassem na regra 43 [solitária] porque estava de saco cheio, só queria ficar um tempo sozinha. Elas disseram que não, eu não podia ver a diretora para isso. Então na manhã seguinte eu fiquei na cama, porque sabia que eles teriam que dar queixa. Foi isso que aconteceu e me mandaram para Bleak. Às quatro horas daquela tarde, me chamaram na sala de julgamento, onde a Srta. Morgan mostrou seu lado humano pela primeira vez e me contou, muito delicadamente, que o Sr. Dixon tinha morrido às 4 horas da tarde do dia anterior. Eu já sabia: às quatro horas eu soube, não soube? Algo morreu dentro de mim naquele dia e não voltou à vida até...” ela fez as contas. “Até
nove anos depois, quando [a filha dela] nasceu. Ela me devolveu a vida.
“Voltei para a minha cela naquele dia e apenas fiquei sentada, sem fazer nada. Não consegui chorar até vários dias depois, quando estava de volta ao meu pavilhão. Estava passando um show na TV e de repente me vi soluçando sem conseguir parar. E acho que, quando parei de soluçar, eu tinha mudado.”
Essa mudança que ela descreveu para mim tinha duas partes: por um lado, ela chegou à conclusão que se opor abertamente ao sistema, como
fizera por dois anos, era contraproducente. “Se tudo que eu fazia era dizer não”, ela disse, “eu não estava usando minha inteligência. O que eu tinha que fazer era, sim, continuar a lutar contra o sistema, mas eu tinha que subir da classificação de detenta para a de trapaceira, o que significava que, mais do que ser aberta e raivosa, eu tinha que ser fechada e engenhosa. Na prisão, o 11º mandamento é: ‘Não serás apanhada’. E dali em diante era a ele que eu iria obedecer”.
A segunda decisão dela naquela semana foi “virar butch – e, acredite,
estava muito alinhada com a primeira.”
“Como uma butch”, ela disse, “é você que está no comando da sua vida. Você seleciona com quem ficar. Você tem uma posição e um domínio estabelecidos dentro do microcosmo da sociedade que é a prisão. Isso não quer dizer que você apenas ‘ganha’, que fazem coisas para você, arrumam sua cama, te dão coisas, enrolam cigarros para você, fazem tarefas no seu lugar. Também quer dizer que você ‘faz’. Sexualmente... Já te contei... Você nunca recebe, você apenas faz, mas para além disso, você é alguém que as
pessoas procuram...”
Para quê?
“Pedir ajuda, conselhos...”
Perguntei se ela tinha uma namorada na época.
“Eu tinha várias, muitas garotas negras. Elas eram tão lindas!”
Isso a fazia feliz sexualmente?
“Não, sexualmente não. Mas se você não tivesse relacionamentos, embora não necessariamente sexuais, você ficava solitária demais e isso era insuportável.”
Perguntei como ela se arranjava com sexo. Sozinha?
“Sozinha”, respondeu, como se não fosse grande coisa. “Mas para o resto, eu desenvolvi uma atitude meio ‘garoto encrenqueiro’. Era fácil para mim parecer um garoto, porque eu não tinha que fingir. Afinal de contas, eu vivi com garotos desde que tinha 11 anos, quero dizer, eu conhecia os garotos como ninguém, sabia como eles se mexiam, como sentavam, como brincavam... Sabia como eles se sentiam também. Eu podia ser um garoto.” Ao longo dos anos, ela provavelmente fez sexo com (ou proporcionou alívio sexual para) duzentas mulheres.
“Bem”, disse o Dr. Chamarette, sorrindo e arrastando a palavra, “acho que duzentas pode ser um pouquinho de exagero, assim como o sentimento dela agora de que passou mais tempo em Bleak do que fora de lá durante seus dois primeiros anos em Styal. Mas ela certamente ‘conhecia’ muitas mulheres”, ele sorriu de novo. “Talvez não seja tão importante se era no sentido bíblico ou não.”
Norman Palmer Chamarette, consultor em psiquiatria infantil no Hospital Macclesfield de 1954 a 1968 e carinhosamente conhecido como
“Chammy” por todos, tem agora 93 anos de idade. Ele é alto, esbelto, com saúde excelente; altamente capaz de articular suas ideias e com extraordinária memória. Durante onze anos, incluindo o tempo em que Mary esteve encarcerada, ele manteve um grupo semanal de sessões de terapia bastante procurado em Styal.
“Implorei durante dois anos para entrar no grupo de Chammy”, disse Mary, “não porque eu estivesse mudando ou ‘me desenvolvendo’, mas apenas como um jeito de matar serviço – matar serviço na quinta à tarde, ter
uma outra coisa, uma coisa nova, fora da rotina. E também porque Alicia – você lembra, te falei sobre ela [uma das garotas por quem Mary estava apaixonada] – estava no grupo. Alicia era uma das garotas mais bonitas que já vi, mas ela ficava em um bloco diferente, então aquela era uma chance de vê-la. Algumas pessoas – americanos de Porto Rico – levavam o grupo muito a sério, como os americanos fazem. Eu sabia que nunca levaria a sério. Mas tinha ouvido muito sobre Chammy. Elas diziam que ele escutava todos os problemas delas. ‘Um homem adorável é o que ele é’, elas diziam, e contavam que, se você estivesse no grupo de Chammy, eles te davam um caderno totalmente sem acesso para as agentes, ou mesmo para a diretora.
Ninguém podia encostar nele, ninguém podia ler. Claro que não acreditei naquilo. Seria incomum para uma agente deixar passar sem abrir qualquer coisa que você portasse quando você era revistada. Nem boto a culpa nelas: é intromissão de mulher. Se eu visse alguma coisa em cima da mesa, eu olhava. Mas eu acreditava mesmo nelas com relação à ternura e à inteligência dele: detentos sabem quando alguém é autêntico”.
Mary sempre acreditou que Chammy fosse austríaco e judeu, certamente por associar psiquiatras a Freud, e me disse o quanto havia gostado do
“sotaque estrangeiro” dele. Precisei convencê-la do contrário pois, a despeito de sua distinta origem inglesa, o Dr. Chamarette não apresenta nenhum sotaque discernível de classe ou de região e é um cristão devoto. Na sala de estar de sua casa pequena, iluminada e arejada em Lancashire, a Bíblia estava não apenas à mão como também em sua mente enquanto ele conversava.
“Mas o médico, que mediava a inscrição, sempre dizia não”, Mary continuou. “Ele me perguntou o que eu queria com um psiquiatra. Disse que
sabia tudo sobre mim e que tudo que eu queria era deixar tanto o grupo quanto o psiquiatra malucos, do mesmo jeito que eu estava deixando todos eles. E que não tinha nada de errado comigo que precisasse de um psiquiatra e, se tivesse, eu teria pedido para ver o médico que atendia individualmente [“um bode velho para quem eles mandavam os suicidas”, ela me falou em um parêntese]. Perguntou por que eu não tinha feito isso, e disse que a resposta era que eu estava tirando sarro deles como vinha fazendo desde o instante em que atravessei os portões de Styal.”
Mary respirou fundo.
“Foi assim que aconteceu, mas, no fim das contas, depois de mais de dois anos, ele provavelmente se cansou de mim e disse ‘tudo bem, vai, vá em frente, vá em frente e o deixe maluco’.”
“Sim, eu sabia que ela estava tentando entrar”, Chammy disse, “e as outras estavam buscando apoio para ela. Elas ficavam dizendo ‘você não pode fazer alguma coisa para incluir a May?’. Mas eu não podia. Ela tinha que ser indicada”.
Perguntei se ele a considerava popular junto às colegas.
“Não acho que ‘popular’ seja o termo certo. Ela se destacava. Era
importante para as pessoas. E não, não acho que é correto dizer que as pessoas achavam que ela fosse ‘engraçada’, nem mesmo ‘divertida’. Ela não fazia piadas, de modo algum. Era muito inteligente, bem articulada, claramente superior à maioria das agentes, e conseguia argumentar em prol de outras pessoas quando elas estavam com problemas. As detentas contavam a ela sobre coisas que sabiam – ela era muito confiável – e, frequentemente, diziam que ela nunca iria dedurar. Elas podem muito bem ter contado a ela seus problemas mais íntimos.” Ele riu. “Acho que ela
realmente se via como um tipo de psicóloga. Certamente tinha muito talento para isso. Suspeito que ela sabia muito sobre a vida de várias pessoas, coisas que ela nunca contou a mais ninguém.”
Perguntei ao médico qual era a rotina para quem se juntava ao grupo.
“Eu recebia uma notificação da diretora por meio do médico avisando que alguém se juntaria ao grupo, embora, é claro, isso dependesse de eu ter espaço: eu tinha limitado o grupo a oito; às vezes, concordava em aumentar até doze, dividindo-as em duas equipes de trabalho. Sim, é claro que eu a
aceitei e que estava interessado nela. De modo algum porque ela era uma celebridade ou por causa do crime dela: havia muitas mulheres lá que tinham cometido crimes horripilantes e, não se esqueça, eu não sabia nada sobre o histórico de Mary – e como eu viria descobrir, ninguém mais sabia. Examinei cuidadosamente sua ficha antes de sua chegada, mas não tinha nada lá, exceto o caso do tribunal, algumas páginas de relatórios policiais, uma breve referência à sua primeira estadia – os cinco anos em Red Bank –, mas também não havia detalhes sobre isso, nem relatórios de assistentes
sociais ou quaisquer avaliações psiquiátricas de espécie alguma.”
A agente de condicional de Mary, Pat Royston, tem acesso ao arquivo original do caso e confirma que não havia relatórios de assistentes sociais sobre ela antes ou como resultado de sua prisão em 1968. Perguntei ao Dr. Chamarette se isso era diferente das outras fichas.
“Tudo que posso dizer sobre o assunto é que algumas fichas tinham aquele tipo de informação, e eu fiquei surpreso ao ver que a dela não tinha. Mas eu fiquei muito mais surpreso quando, logo depois disso, li seu primeiro livro e vi pelo menos algumas das coisas que aconteceram na infância dela: então, eu não consegui entender de jeito nenhum por que a
ficha dela era assim tão... Tão limitada. Como podia não ter acontecido nenhuma investigação? Como eles podiam não saber dessas coisas?”
Perguntei por que Mary tinha sido impedida durante dois anos de se juntar ao grupo.
“Acho que Styal não tinha ideia de que May pudesse estar aberta a qualquer tipo de tratamento. Eles não achavam que a relação custo-benefício valesse a pena. Eric, o médico, teria dito: ‘Ela só vai ficar matando trabalho’ – o que provavelmente era verdade, mas não teria
importância para mim. Diriam também que, de qualquer forma, o grupo estava cheio e não podia aceitar mais pessoas.”
Perguntei o que os fez mudar de opinião.
“[Foi] em parte porque May continuou insistindo naquilo, mas também, apesar de May achar isso difícil de acreditar, acho que Molly Morgan teve alguma influência...”
Perguntei se isso significava, então, que a diretora estava mesmo interessada nela.
“Ah, sim. Acho que sim. Ela era uma diretora muito boa; veio subindo na hierarquia, era jovem, cheia de energia, muito justa. Claro que as detentas não pensavam assim: era preciso uma personalidade muito durona para exercer essa função. Mas os funcionários pensavam assim, com certeza. Não sei te dizer o quanto ela estava interessada em May; talvez não tanto quanto May pensava, havia um número enorme de mulheres lá com quem era muito, muito difícil de lidar. Mas conhecendo Molly Morgan, acho que ela não estaria alheia ou indiferente à extrema juventude de May
quando ela chegou. Ninguém podia deixar de estar interessado nela.”
“Dr. Chammy era mais recluso, como o avô da Heidi”, Mary disse. “O grupo se encontrava em um bloco separado nas tardes de quinta, e eu fiquei muito surpresa quando fui pela primeira vez, porque nós todas fomos revistadas, ao entrar e ao sair. Realmente, não conseguia entender por quê. Não confiavam nele? Nunca descobri, mas decidi, enfim, que era a necessidade habitual deles de mostrarem controle.
“Tinha por volta de dez de nós. Ele pegou minha mão quando eu entrei, parecia que queria ficar segurando enquanto dizia olá, mas eu a puxei de
volta. É uma coisa de lésbica, sabe, não segurar a mão de um homem. De qualquer forma, ele não deu muita importância para isso ou para qualquer coisa, só disse ‘olá, May, é assim que você gosta de ser chamada?’. Aí ele contou uma história sobre uma árvore, não me lembro como era, aí riu e todo mundo começou a rir. De repente ele bateu na mesa e todos pararam de rir. Achei aquilo fantástico. Era controle, mas seu próprio tipo de controle, que todo o grupo aceitava – não, não apenas aceitava, queria, e era bom, muito bom. Achei que ficaria cética com relação a ele, como eu ficava com
todo mundo, mas acabou que não fiquei. Eu confiava nele. E logo me dei conta de que ele sabia que eu era a mais consciente [...] das pessoas... Me fez muito bem perceber que alguém me via... De modo diferente. Mais tarde eu recebi algumas cartas maravilhosas dele nas quais ele falava sobre algumas das garotas. Isso também foi bom para mim. Ele me lembrou que aquilo aconteceu, que ele sabia que eu [...] entendia as pessoas, e que confiava em mim como eu confiava nele.”
Perguntei a Chammy se Mary conversou com ele sobre si mesma em
Styal.
“Havia poucas oportunidades para sessões individuais”, ele disse. “E não era essa a ideia: era terapia em grupo. Mas claro que falar de si é em grande parte o que as pessoas fazem nesse tipo de trabalho em grupo. Um monte de coisa aparece.”
Segundo ele, durante o tempo que ele a conheceu lá, Mary esteve envolvida principalmente com os problemas das outras mulheres. “O jeito como ela pensava sobre elas – o jeito, talvez, como ela as ‘analisava’ [ele
enfatizou a palavra] – era muito feminino, mas seu jeito de ser, de falar e de se portar eram extraordinariamente masculinos. Ela fez muitos esforços para persuadir seu mundo de que era masculina.” Ela não andava como uma mulher, ele disse, “andava de um jeito arrogante. Ela nos contou que tinha trabalhado durante três meses para Burton, o alfaiate, como um homem, com roupas de homem, maquiando-se como se tivesse pelos no rosto”.
Perguntei se alguém tinha acreditado nisso, se ele mesmo tinha acreditado nisso. Afinal de contas, tratava-se de uma pessoa de 18 anos que estava encarcerada desde os 11 anos.
“Claro que eu sabia que ela tinha fantasias e, provavelmente, algumas
das outras detentas também. Mas era minha função jamais parecer duvidar delas: o objetivo geral do exercício era que elas dissessem o que quisessem, do jeito que quisessem. No caso de May, isso era o que ela precisava dizer, tanto em público quanto intimamente. Aquilo auxiliava sua persona em Styal, porque lá ela também ‘se fantasiava’. Ela embolava meias na forma da genitália masculina e mencionou isso no grupo. Acho que ela as usava o tempo todo, mas talvez não de modo tão óbvio, não de modo tão provocativo na frente das agentes prisionais. Mas elas viam, sei que viam, e
de alguma maneira elas deixavam que fizesse aquilo.”
“Minha lembrança mais marcante sobre ela”, disse Margaret Kenyon, que fazia parte da equipe de Styal na época, “eram aqueles olhos muito azuis, aquele cabelo escuro cacheado e aquela cortesia: realmente parecia mais uma garota de internato do que uma detenta. Ainda assim, eu tinha ouvido muitas histórias sobre ela, sobre o quanto podia ser brava, endurecida... Diziam que ela tinha olhos firmes como rocha. Não sei se percebi isso na única vez que realmente interagi com ela.
“Foi quando ela seria transferida para Askham Grange. Quando as garotas estavam prestes a ir para a prisão aberta, nós sempre arrumávamos roupas para elas, sabe, e eu fui selecionada para sair com ela e comprar roupas de baixo e qualquer outra coisa de que ela pudesse precisar. Ela estava bem, educada como sempre e, novamente, um pouquinho como uma criança em um passeio pela cidade, até que fomos à seção de lingerie. Ela disse, meio cuspindo as palavras, ‘o que estamos fazendo aqui?’. Eu disse que íamos comprar calcinhas para ela.
“‘Calcinhas?’, disse ela com desdém. ‘Não uso calcinhas, uso cuecas’, e durante os minutos seguintes ficou reclamando comigo com aquela vozinha aguda e decidida, enquanto a vendedora, uma senhora, nos olhava com os olhos arregalados. Não sei se algo do tipo já tinha acontecido naquela loja.
“‘Cuecas’, ela ordenou, ‘ou eu fujo’. Tenho certeza de que ela pensou que eu ficaria apertada e desistiria, mas ela não sabia da missa a metade. ‘Vá em frente’, eu disse. ‘Fuja’. Claro que eu não tinha a mínima ideia do que fazer se ela fugisse – tenho certeza de que ela era mais rápida que eu, pelo menos parecia. Mas ela não correu.”
Perguntei o que elas compraram.
“Calcinhas”, disse Margaret com uma risadinha.
Perguntei ao Dr. Chamarett e se ele disse a Molly Morgan alguma vez que pensava que Mary precisava de ajuda.
“Acho que não”, ele respondeu, um pouco triste. “Eu tinha alguns casos muito graves lá, uma garota, por exemplo, que tinha dado dezessete facadas no marido, uma mulher que matou a filha de 5 anos... Ah, tantas mulheres muito, muito complicadas. Os problemas de May, por mais estranho que
isso possa parecer, eram quase de menor gravidade quando comparados ao resto. Você também não pode esquecer que, quando eu a conheci, ela não tinha mais 16 anos – tinha quase 19. É ultrajante que ela tenha sido mandado para lá aos 16 – é ultrajante que qualquer um tão jovem seja mandada para qualquer prisão como aquela. E olhando para trás, eu me posicionaria com mais firmeza com relação às suas necessidades se a tivesse conhecido antes e soubesse sua história pessoal, mas, como você sabe, eu não sabia. Ninguém sabia.”
As mulheres no grupo normalmente falavam sobre seus crimes e como se sentiam em relação a eles, ele disse. “Um dia, uma das garotas perguntou a May sobre o que ela tinha feito. E ela disse que tinha levantado o pequeno Martin pelas orelhas só para mostrar para a amiga dela, Norma, como ela era forte, e que ele escorregou das mãos dela e caiu, e que foi assim que ele morreu. Ela acrescentou que tinha levantado Norma daquele jeito também, e outras crianças.”
Perguntei se ela mencionou a outra criança, Brian. Ele balançou a cabeça
em negativa. “Ela nunca o mencionou e, certamente, ela retratava a morte de Martin como um acidente.”
Perguntei se ele acreditou nisso e ele deu de ombros. “Não muito”, respondeu. “Mas, por outro lado, também não pensei que, tendo 10 ou 11 anos, sua intenção tivesse sido ‘assassinar’ ou ‘matar’.” Chammy balançou a cabeça. “É inacreditável que até agora ninguém tenha tentado ajudá-la a confrontar a si mesma. Isso mostra como nós valorizamos pouco os seres humanos.”
Perguntei a Mary se ela contou a Chammy alguma vez sobre o que aconteceu com ela quando era criancinha.
“Não com detalhes, não, não contei”, ela disse. “E não no grupo. Mas nós chegamos a um acordo sobre o caderno... Sabe, aquele que não era para as agentes lerem, mas que eu sabia que elas leriam de qualquer jeito. Então, fizemos um acordo de que ele me daria dois cadernos: em um, o que eu levava para todo lado como todo mundo do grupo, eu escreveria só para falar com as agentes... Quase nada, coisas como ‘eu odeio a Sra. Jones’, ou algo assim. Mas no segundo eu escreveria pensamentos, poesias e o que mais pudesse imaginar durante as seções, aí dava para ele guardar para mim
e trazer de volta toda quinta-feira. Nesse outro, acho que talvez eu tenha escrito alguma coisa de verdade. Talvez ele ainda tenha o caderno, ele poderia mostrar a você.”
“Ela se esqueceu”, Chammy disse. “Ela escreveu para mim e pediu para mandar o caderno para o diretor de Askham Grange [sua última prisão]. Escrevi de volta e perguntei a Mary se ela tinha certeza de que queria que eu fizesse isso. Ela confirmou que tinha certeza e queria que o diretor a conhecesse, então eu mandei.”
Perguntei a Mary se ela escreveu sobre a mãe nesse segundo caderno. A resposta veio de uma vez: “Ah, não. Sobre minha mãe, não. Não podia. Te falei: ela não podia ser culpada. Ela tinha que ser irrepreensível”.
Chammy observou que “ela chegou a falar sobre a mãe, sim, mas apenas no passado, para dizer que sua mãe tinha sido inadequada, viciada em álcool ou drogas, uma prostituta, e que ela sempre ia para Glasgow”.
Perguntei se ela tinha expressado ódio ou amor pela mãe, ou talvez medo.
“Não me recordo de ela ter feito isso. A única palavra que permanece na minha cabeça é ‘inadequada’, e lembro que ela disse que não tinha tido nenhum tipo de cuidado maternal.”
Ele não se lembra de ela ter mencionado o “pai”, Billy, e não viu o nome dele na ficha dela.
“Isso é estranho mesmo”, Mary disse, “porque em uma das poucas vezes que conversei com Chammy sozinha, só por alguns minutos, ele me falou algo que me deixou muito chateada. Ele me perguntou sobre quem eu mais gostaria de ver entrando pela porta. E eu disse ‘meu pai, porque ele não vem me ver desde que vim para Styal’. E ele disse, ‘qual pai?’, e eu
respondi ‘bem, o George não [o segundo marido de Betty], ele é meu padrasto’. E ele disse ‘não, eu sei, mas Billy também não é seu pai’. E simplesmente... Bem, ele não falou aquilo para me machucar... Ele achou que eu sabia, entende, ele me contou que a diretora sabia e aí achei que todo mundo sabia e fiquei imaginando se o Sr. Dixon sabia... Bem, aí fiquei meio ansiosa, confusa, com raiva, furiosa e, muito depois, anos depois, perguntei a Billy e ele respondeu ‘quem disse que não sou seu pai? Claro que sou seu pai’. E ele é, claro que é. Mas, também, ele não é... Não meu pai biológico.
Mas ninguém me diz quem é.”
Logo depois, Mary perguntou à mãe sobre isso. “Quando minha mãe veio me visitar de novo – não foi muito depois, e daquela vez eu tinha decidido que tinha que ser algo realmente terrível –, disse: ‘me diga, só me diga. Olha’, eu perguntei: ‘foi seu pai? Foi seu irmão? É por isso que eu me tornei quem me tornei?’.”
E Betty respondeu muito calmamente: “Você é cria do demônio. É isso que você é”. Então, ele se levantou, disse Mary, e saiu.
Uma longa carta que Mary escreveu a Carole e Ben em 1976 é indicativa das mudanças que aconteciam nela naquela época.
Finalmente, uma resposta para a sua carta, que me alegrou muito... Recebi más notícias de casa. Teve uma batida na estrada e George está no hospital. Mamãe está doente e esse é o motivo do meu atraso para
escrever esta carta.
Bem, sem muitas novidades. Não ouvi nada sobre a condicional ainda. Tenho precisado muito de vocês ultimamente. Sei que é muito errado e é fraqueza. Não gosto de fraqueza de caráter, mas sinto que estou me afundando na falta de esperança e na falta de identidade. Tento falar, me conectar com os outros, mas, tendo construído uma barreira ao meu redor por tanto tempo, acho que as pessoas pensam que eu tenho segundas intenções quando tento quebrá-la. Não sei, as coisas
simplesmente parecem não estar dando certo de alguma maneira. Não entreguei os pontos, apenas desisti de ficar esperançosa. É estranho, porque fico acordada à noite e tento pensar, imaginar rostos na minha
cabeça, colocar as coisas em perspectiva, mas não vem nada, só um tipo de vazio. Escuridão, como se eu fosse uma cabeça-oca. Estou
escrevendo isto para vocês porque sei que vocês entendem, porque me conhecem muito bem.
Também me dei conta, de repente, da enormidade do meu crime, de que eu realmente tirei uma vida. Eu não consigo nem pensar sobre isso. Sei que foi muito tempo atrás, muitas lágrimas foram derramadas, mas a amargura cresceu. Mas também sei no fundo do meu coração que eu não faria uma coisa assim de propósito. Não consigo lembrar o que aconteceu exatamente. A outra garota que foi acusada junto comigo, não
sinto amargura em relação a ela, me sinto muito, muito triste porque ela sabe que nesse caso o que aconteceu não era para acontecer. Não consigo me forçar a perdoá-la, porque, durante nove anos, ela foi livre enquanto eu estive aqui dentro.
Só quero alguém com quem conversar, quero ser “eu” de novo, Ben. Abafar emoções desse jeito não faz bem para ninguém. Mas aqui é muito difícil por uma série de motivos. Não posso me voltar para as drogas porque o médico não deixa. Também não quero que chegue até a
direção que não consigo passar sem drogas, então estou agarrada aqui. Não estou sentindo pena de mim mesma, só estou muito frustrada e acho que solitária. Vocês já sentiram que estavam com medo, mas sem saber de quê? É assim que estou, com medo, mas não sei de quê. Quero ficar sozinha, mas tenho medo de ficar sozinha. É muito difícil explicar. Estou tentando muito ser boa, por uma série de motivos. Tenho uma nova diretora-assistente e ela tem sido muito correta e justa comigo: o jeito dela me lembra o do Sr. P., de certa forma. Não sou nenhum
anjinho, nem com muita boa vontade, mas acho que finalmente estou aprendendo aos poucos a confiar nas pessoas de novo. Levou muito tempo para eu chegar a esse ponto. Perdi toda a fé na humanidade, mas no fim das contas vou me recuperar. Me meto em encrencas aqui e ali, mas nada muito sério. No momento, estou trabalhando numa equipe de pintura. Gosto do trabalho de pintar as estufas da prisão e só tem seis garotas, então não me sinto sufocada, o que acho que estava acontecendo nas oficinas. Estava ficando paranoica. E sou a invencível
Mae [ela alterara a grafia do nome para a forma escocesa “Mae”], aquela que poderia passar pela vida sem ser afetada por ela, que disse
que a “prisão não vai me mudar”. Ela me mudou, mas é difícil dizer de que jeito, se para melhor ou para pior. Basicamente, me deixou mais dura, mas ao mesmo tempo me abrandou. Sinto-me mais dura, já que consigo aceitar os revides e as decepções como parte do dia, mas mais branda porque talvez eu consiga entender como os outros se sentem. Eu realmente sinto que [...] se envolver com algumas pessoas torna alguém mais brando.
Sabe, me envolvi com uma garota aqui... Ela já foi embora. Para mim,
ela era uma pessoa muito bonita. A parte de si que ela me deixou ver era bonita. Fui muito feliz até ela ir para casa, o que acabou com tudo. Depois de todo esse tempo vendo as pessoas indo e vindo, pode-se pensar que não seria tão ruim, mas isso me deixou em pedaços, porque eu a amava, amava mesmo... Tinha uma afeição verdadeira por aquela garota. E agora ela vai ser simplesmente outra recordação, no momento uma recordação dolorosa, pois eu não consigo me acostumar com a ideia de ter que esquecê-la. Ela fez muito por mim, me fez querer estar
viva e feliz. Acho que vou superar com o tempo – é a fase intermediária que machuca tanto. Guardei as cartas dela para mim. Algumas eram bastante comuns, mas ela era uma pessoa muito sincera, muito boa para mim. Uma coisa que ela me disse uma vez quase me fez chorar. Foi no dia antes de ir para casa: “Se tivesse alguma coisa nesse mundo que eu pudesse fazer, eu te devolveria sua infância, Mae”. Era típico da consideração dela, da profundidade do seu sentimento, que ela pudesse dizer alguma coisa assim. No geral, eu consigo tratar as amizades da
prisão com a incerteza que elas merecem, mas essa era muito diferente. Era mais que amizade.
Bem, tenho mesmo que terminar aqui. Obrigada por serem vocês mesmos, por estarem aí, por ouvirem. Não posso dizer que me sinto como uma nova mulher agora, mas sei que vocês vão captar os sentimentos que estou tentando expressar e que vão me escrever de volta. Então, meus amigos, termino aqui. Junto com todo o meu amor e meus pensamentos, sorrio docemente para os seus cactos, pois eles não
viram o Sol. “Perdoem aqueles que te atormentam, pois eles não viajaram muito longe nos reinos do entendimento.” Minha amiga me
disse isso. Com amor como sempre, Mae.