Por que Crianças Matam
Mary – Reflexões 1
Mary
Reflexões 1
M ary falou bastante sobre Norma quando conversamos, mas suas lembranças são apenas da infância e, quando tenta transpô-las para a vida adulta, Mary fala sobre ela com nada mais do que simpatia. O ressentimento que carrega, apesar de associado a Norma, não é contra ela, e sim contra um sistema que, agora ela acredita, usou Norma de forma deliberada, da mesma maneira que ela própria – embora não deliberadamente.
“A família de Norma se mudou para a casa ao lado da nossa em Whitehouse Road uma semana depois que nós chegamos [na primavera de 1967]”, ela disse. “Quando eu ouvi que o sobrenome deles era Bell, como o
nosso, perguntei a papai se eram nossos parentes. Ele disse: ‘Sem chance’.
“Eu era fascinada com o fato de eles terem onze filhos. Ficava extremamente curiosa em saber como eles viviam, como faziam para sobreviver. Sabe, a casa deles era exatamente como a nossa: uma cozinha, uma copa, um banheiro e uma sala de estar na parte de baixo e três quartos e um banheiro em cima. Como colocavam trezes pessoas lá? Depois eu descobri que todos comiam em turnos.
“Eles eram boas pessoas. Eu passei a gostar muito da mãe dela. Não
consigo imaginar como ela fazia para sobreviver. Ela devia trabalhar duro. E era legal, sabe. Ela costumava cantar. Eu conseguia ouvir...
“Minha melhor amiga era uma garota chamada Dot, que tinha morado perto da nossa casa, em Westmoreland Road [uma região de Newcastle notavelmente degradada na época, onde os Bell moraram antes de se mudarem para Whitehouse Road]. Mas ela se mudou para outra região quase na mesma época que nós, então nossa amizade foi diminuindo. Logo fiquei amiga da irmã de Norma, Susan, que era da minha idade, mas ela
acabou se mostrando uma menina enjoada, certinha, então eu comecei a brincar com Norma. Ela era alguns anos mais velha e disseram, depois, que tinha mentalidade inferior à idade, mas eu nunca achei isso. Sempre me pegavam em flagrante quando eu aprontava alguma coisa, mas ela sempre
conseguia se safar de tudo, fazendo-se de desentendida, como se não tivesse nada a ver com aquilo. Ela era muito boa em se fazer de desentendida e a aparência dela, com aqueles olhos que ela tinha, ajudava muito nisso. Mas era bastante esperta. Era espirituosa e muito engraçada. Costumava me fazer rir e eu também a fazia rir.”
Perguntei se, olhando agora para trás, ela pensava que havia sido uma criança agressiva.
“Eu era uma criança provocadora”, ela disse. E, pensando sobre isso, sua
voz se tornou sonhadora; ela saltava de lembrança em lembrança, raramente concluindo uma frase: “Eu queria... Veja, quando você é criança... Eu costumava achar que eu podia estar num tipo de gangue como Jesse James, o fora da lei do Velho Oeste, sabe, andar a cavalo e tirar alguém da prisão amarrando uma corda nas barras da grade e botando o cavalo para correr, puxando as barras, como eu vi nos faroestes que assistia com meu pai na TV...”.
Perguntei a ela se, tirando os faroestes, ela acreditava que quando criança
teria fantasiado sobre crimes e prisões. Essa foi uma das perguntas que a fez refletir por muito tempo – essa reflexão, logo entendi, raramente era porque tivesse medo de “se incriminar”, mas ocorria quando ela sabia que sua resposta revelaria algo íntimo, algo que ela considerava só dela.
“Bem, você sabe, meu pai... Bem, ninguém me contou nada, mas eu costumava ouvir daqui e dali e estava ciente da polícia e de que ele era uma espécie de gângster. Bem de leve. Ele apenas roubava, né? Ele nunca machucou ninguém e nunca faria isso, mas estava constantemente, sabe,
meio que fugindo. E, apesar de eu não saber disso naquela época, sei que nosso estilo de vida... O da minha família... Era de desconfiança para com a autoridade. A polícia, o serviço social, o governo, as leis, tudo isso era tratado com desdém e escárnio. E também o trabalho, eu acho.
“Minha mãe nunca se referia a nenhuma autoridade sem utilizar um palavrão. Com exceção de meu tio Philip – o irmão da minha mãe, da Escócia, que esteve no Exército –, do marido de minha tia Audrey, meu tio Peter, que era um caminhoneiro, e do marido de tia Cath, Jack, que trabalhou nas minas até adoecer, eu não conhecia ninguém que trabalhasse. Claro que burlar a lei era ‘trabalho’ e você sabe o que minha mãe estava
fazendo, e aquilo era tratado como sair ‘a negócios’. Naquela época eu não sabia, mas as palavras ‘trabalho’ e ‘negócios’ eram totalmente distorcidas. Se as pessoas saíssem para roubar uma loja ou furtar coisas de caminhões estacionados, isso era chamado de ‘sair para o trabalho’ ou de ‘fazer negócios’. A polícia batia na porta e meu pai saía pelos fundos como um relâmpago, e eu dizia que ele estava fora ou que não morava ali. Eu o amava e ele era um herói para mim, porque era sempre muito bom para nós. Mas agora eu sei que se uma família vive assim, então não é só a polícia
que é inimiga, qualquer autoridade é.
“Eu gostava da escola, mas ficava muito tempo longe dela. Agora acho que, talvez sem entender, eu fazia isso por algum sentimento confuso de solidariedade em relação a meu pai – você sabe, ‘professores também são inimigos’. Então talvez eu pensasse que, se eu brincasse de desprezá-los, eu seria admirada por isso.
“Era confuso porque, se minha mãe realmente descobrisse que eu faltara à escola ou tinha sido grosseira lá, eu apanharia, independentemente de
quão grosseira ela fosse com os professores ou com o sistema escolar. Mas isso não importava. Vira e mexe eu voltava a ‘enfrentar’ as pessoas.”
E Norma era esse tipo de criança provocadora também?
“Não do mesmo jeito, não, nem um pouco. A família dela era realmente muito correta, claro que pobres, mas honestos. Mas ela era briguenta. Ela arrumava brigas com crianças negras. Eu não sabia por que, mas ela não gostava delas.”
Depois disso, Mary falou durante muito tempo sobre o quão fortemente
ela e seu companheiro são contrários ao preconceito e de como a filha dela jamais poderia ser intolerante ou se sentir superior em relação a qualquer pessoa por causa da cor da pele ou por sua religião. “Crianças são aquilo que nós fazemos delas”, disse, finalmente.
“De qualquer jeito, ela se metia em muitas brigas”, ela disse, voltando a Norma. “Agora eu acho que era apenas para chamar atenção – como eu, mas não do meu jeito. Eu – como sei agora – precisava da atenção de algum adulto para... Para me distanciar da minha família. Com ela, eu acho que era provavelmente o contrário. Ela só queria que a família a notasse. Deve ter sido duro, naquela família com tantas crianças, ser uma das mais velhas e,
como disseram depois, ser uma das mais lentas. Era possível que ela acabasse ficando esquecida. Mas ela realmente adorava o irmão que tinha deficiência física, e quando as crianças tiravam sarro dele, você sabe, como crianças costumam fazer, ela se punha de pé na frente dele com os punhos cerrados e gritava ‘Quem vai ser o primeiro?’. E ficava com uma aparência selvagem.”
Eles brigavam com ela então?
Ela riu, descartando essa ideia. “Não, claro que não. Ela os assustava e
eu admirava aquilo. E eu ficava incrivelmente impressionada porque ela era uma fujona...”
Fujona?
“Ela fugiu de casa diversas vezes...”
Mas por que ela fugiu? Ela falava sobre ser infeliz em casa?
“Sim, ela ficava dizendo que odiava a casa dela, que queria ficar longe deles. Eu me pergunto hoje se eles realmente notavam que ela havia fugido de casa... Agora que eu penso sobre isso, ela estava constantemente... Eu
não sei... Simplesmente triste. Eu acho que nós duas éramos, do nosso jeito, duas garotinhas muito tristes.”
“A primeira vez que eu vi Norma desde a custódia foi no primeiro dia do julgamento”, Mary disse. “Disseram que não era para falarmos uma com a outra, mas claro que falamos. E ela estava diferente... Ela parecia uma pessoa completamente diferente da garota que eu conhecia. Logo me dei conta de que ela estava... Bom, recebendo uma porção de agrados. Vi que ela tirava proveito disso e também da ideia de que ela era burra. Ela pode
ter sido uma criança abaixo do normal em termos educacionais, como dizem, mas burra é uma grande besteira. Naquela ocasião, achei que era um esquema dela, mas olhando para trás, eu realmente não acho mais isso. Acho que ela fez o que mandaram – a família, os advogados...”
Ela achava que seu próprio comportamento no tribunal fora controlado por seus advogados e por sua família?
“Bem, eu realmente nunca tive nada a ver com meu advogado. O Sr. Bryson me disse logo de cara que qualquer coisa que eu quisesse falar para o outro advogado tinha que ser por meio dele. Eu lembro que pensava: ‘Como o outro advogado podia falar sobre mim sem me conhecer?’. Então,
quando eu os ouvia dizer coisas que não eram verdade no tribunal, eu queria falar com o Sr. Bryson, mas ele me mandava parar de sussurrar para ele. Ele também me mandava parar de sorrir para Norma quando eles diziam alguma coisa que eu achava engraçada. Ele dizia que o melhor a se fazer era me sentar em silêncio e escutar.”
O que ela achava engraçado?
“Era quando alguém – eu não sei quem – me chamava de ‘monstruosidade da natureza’ ou algo assim. Eu achava que essas palavras
eram realmente muito engraçadas e não tinham nada a ver comigo. Elas me faziam pensar sobre um programa de TV que eu tinha visto, Perdidos no Espaço. De qualquer jeito, na maior parte do tempo eu achava que não tinha nada a ver comigo. Era como se eu não estivesse lá; ou como se estivesse lá, mas não fizesse parte daquilo.”
Seus pais ou outro membro de sua família conversaram com ela sobre o que estava acontecendo e sobre como ela deveria se comportar?
“Nunca”, ela disse de imediato. “Ninguém jamais mencionou a razão do
julgamento, exceto meu pai, uma vez, quando ele veio me ver durante um intervalo e, de repente, me abraçou e sussurrou ‘Você vai ficar bem. Eu sei que você vai ficar bem’.” Billy acreditou durante anos que Mary era inocente e – alguém da família me disse –, quando ficou óbvio que ela seria condenada, concebeu com alguns de seus amigos um plano para raptá-la e escondê-la. “Minha mãe nunca me disse nada, embora ela levasse vestidos para mim. Ela fez o vestido que eu usei no dia do meu interrogatório, pelo menos disse que fez.”
“De fato, sua mãe foi todos os dias ao tribunal”, eu a lembrei.
“Bem, minha avó foi, minhas tias também, então ela não ousaria deixar de ir. Mas... Para ela era um espetáculo, um show. Meu pai, minhas tias, meus tios achavam também. Agora acho que eles estavam desesperados por mim e, provavelmente, comigo também. Ela estava desesperada por si mesma e, depois de alguns dias, começou a me maltratar quando vinha me ver sempre que não tinha ninguém olhando.”
Maltratar como?
“Me beliscando nos braços e nas costas. Eu sempre soube, durante todos os dias de custódia e do julgamento que, quando eu fosse para casa – parte
de mim pensava que eles teriam que me deixar ir para casa –, ela me bateria até a morte.”