Por que Crianças Matam

Gitta Sereny · Capítulo 22 de 27

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Por que Crianças Matam

Parte 4 – Depois da prisão: 1980 a 1984

PARTE 4

 

Depois da prisão: 1980 a 1984

Uma tentativa de vida

 

1980 a 1984

 

O s relatos de Mary sobre os últimos nove meses em Styal e pouco menos de um ano em Askham Grange tornaram-se estranhamente tranquilos, organizados e, às vezes, muito alegres. O relacionamento com um homem adulto foi curiosamente útil para ela, independentemente de o quanto alguns aspectos a deixam chateada agora, retrospectivamente, e do que podemos pensar sobre os aspectos éticos.

“Ele dizia ‘o que quer que você tenha feito, te amo pelo que você tem de bom e de ruim’. Era maravilhoso para mim.”

É certamente significativo que, ao longo dessa relação, Mary deixou de ter incontinência urinária pela primeira vez desde que tinha 4 ou 5 anos de

idade. “Eu não conseguia acreditar que tinha parado. Parecia que aquilo havia me acompanhado desde sempre e, de repente, se foi. Eu estava... Limpa.”

A inevitável separação desse homem, a gravidez e a liberdade: tudo contribuiu para o que, sob quaisquer circunstâncias, teria sido uma transição traumática. Quando saiu da prisão em maio de 1980, segundo me contou, metade dela estava em estado de euforia com a ideia da liberdade e metade era incapaz de olhar adiante.

“Aonde eu estava indo? O que eu iria fazer? O que... O que eu faria sem minhas amigas?” Na prisão, Mary havia criado um tipo de vida para si mesma e, por mais estranho que possa parecer, graças a seu talento para fazer amizades, desenvolvera também um certo sentimento de amor próprio. “Tudo se foi. Se foi, acho, quando atravessei os portões. Do lado de fora senti... Senti que estava... Como num vazio.”

Mary não tivera um lar fora da prisão; não tivera uma amiga que não fosse detenta; não tinha, em essência, uma família, embora houvesse muitos

parentes – pessoas boas e amáveis. “Eu tinha ficado com minha tia Cath durante minha licença, e eles foram amáveis. Não é que eu não fosse bem-vinda lá. Tio Jackie foi fantástico, como se eu só tivesse ido à loja da esquina e voltado. Mas, sendo realista, eu não achava que era assim. Sou

diferente da minha família. Tive uma vida diferente. Eles eram legais comigo, mas não me queriam por perto. Eu era um constrangimento.

Faltavam quatro semanas para que o aborto fosse feito, e aquele mês, com as dolorosas dúvidas e compreensões, foi para Mary o início do que seriam quase dois anos de uma existência errante e sem propósito, com duas significativas exceções. Era não somente uma consequência, mas também um agravamento da destrutividade da vida na prisão.

O destino comum de detentos que cumprem penas longas e que têm

famílias é serem devolvidos para elas. Anos antes, Molly Morgan havia dito a Mary que era improvável que um dia ela tivesse permissão para morar com a mãe, mas havia um precedente estabelecido pelas licenças para ir à casa dela, e Mary dizia que esperava ser solta e poder ir ao encontro de Betty. É condizente com a reação ambivalente de Mary em sobre qualquer coisa que tenha a ver com a mãe o fato de ela não se lembrar que tanto ela quanto Betty haviam requisitado que ela não fosse mandada para lá. Tudo de que ela se lembra é ter tido “sentimentos confusos” quando a vice-

diretora de Askham Grange, que vinha lidando com as formalidades da sua libertação, disse-lhe que haviam decidido não a devolver ao Nordeste e que ainda não sabiam para onde ela deveria ir.

De fato, as autoridades estavam buscando a melhor solução para Mary: temos o testemunho de Carole e Ben G. de que lhes perguntaram bem cedo se eles poderiam hospedá-la. Uma das muitas razões pelas quais o Ministério do Interior tinha dificuldades em colocar – ou hospedar – Mary era que ela sempre fora uma detenta em evidência. A mãe dela, claro, desde

o início do julgamento e durante sua detenção havia alimentado o interesse da mídia em função de suas próprias e complicadas razões, bem como por interesse financeiro. Na segunda licença autorizando-a ir para casa, Betty apresentou Mary para um de seus velhos colegas de bebida, um repórter do News of the World, e sugeriu em sussurros conspiratórios que ele seria a pessoa certa com quem ela poderia “escrever um livro”.

“E você pode imaginar o que ela tinha em mente quando sugeriu isso”, Mary me contou. “Quando saí definitivamente, ele era uma das pessoas que sempre parecia saber onde eu podia ser encontrada.”

Mas mesmo sem isso – e descontando meu livro The Case of Mary Bell,

que sem dúvida aumentou o interesse do público – a notoriedade de Mary havia perdurado, sobretudo no Norte da Inglaterra, e havia motivos para temer que sua saída da prisão trouxesse de volta tanto o trauma das famílias das vítimas quanto a perseguição de Mary pela mídia.

No final das contas, foi somente pouco antes de ser solta, em 14 de maio de 1980, que disseram a ela qual seria seu primeiro destino.

“Não tinha nada que eu pudesse fazer por mim mesma”, Mary disse. “O que eu sabia? Quem eu conhecia? O que eu podia fazer? Minhas amigas da

prisão ficaram chocadas que nada tinha sido preparado para mim, e uma delas até mesmo tentou fazer com que sua família me hospedasse. Eles eram uma simpática família de mineradores em Yorkshire e disseram que me aceitariam com prazer, mas claro que isso não foi aprovado.”

Uma das coisas mais importantes que deveria ser feita antes de Mary ser solta era estabelecer uma nova identidade para ela. Foi o diretor quem sugeriu um novo primeiro nome: “Ele disse que, se tivesse uma filha, era esse o nome que ele daria para ela, e isso me fez sentir que ele se

importava”, Mary disse. Com a ajuda da vice-diretora, ela escolheu um novo sobrenome, e alguém do Serviço Social de York lhe deu números de previdência social, já com o novo nome. Ela os pegou, mas não entendeu nada.

“Sabe, aquela mulher me entregou alguns papéis e agradeci. Mas eu não tinha a menor ideia. Sobre direitos trabalhistas, previdência social, impostos...? Não me faça rir. Ah, as garotas conversavam muito sobre isso e aquilo, mas era tudo sobre como enganar o sistema, não como obedecê-lo:

metade das pessoas em prisões abertas está lá por causa de sonegação fiscal, pelo amor de Deus. E o novo nome? Deus, eu era Mary. Como eu ia ser outra pessoa? Como conseguiria lembrar que eu era outra pessoa? Era como ser um alienígena.”

O nome – ou a falta de um – somente fez ressurgir a crise de identidade pela qual Mary havia passado em 1977, quando descobriu, em Styal, que Billy Bell não era seu pai biológico. Levaria muito tempo até que pudesse responder à sua nova identidade, que nunca foi real para ela.

De fato, o novo nome não ajuda em nada: nem se parece com ela nem soa como ela. E embora, levemente alterado, tenha se tornado seu nome

oficial, Mary usou muitos outros nomes desde então – a cada vez que um jornal parecia perto de descobri-la e como pseudônimos em vários documentos. Como muitos de nós, ela tem um apelido utilizado pela família e pelos amigos, que é adequado a ela, nome pelo qual também a chamo agora. Mas foi um grande passo em seu comprometimento com o processo de autoanálise necessário para este livro quando ela disse repentinamente, cerca de um mês depois de termos iniciado nossas conversas: “Quero que você me chame de Mary enquanto conversamos. É quem sou, não é?”.

No final da tarde de 13 de maio, doze horas antes de ser solta, disseram a Mary que no início da manhã seguinte a oficial do albergue e seu marido iriam levá-la para Cambridge, onde uma agente de condicional sênior, amiga do diretor, estaria esperando para levá-la a uma pequena vila em East Anglia.

“Não havia motivo para eu ir lá, exceto pelo fato de essa agente de condicional ter uma casa ali. Ela trabalhava em uma prisão próxima, mas tirou folga durante os dez dias em que fiquei lá. A sensação era de que eles

não sabiam o que fazer comigo, então fizeram isso até que o próximo lugar para onde eu tinha que ir ficasse disponível ou coisa parecida. Era uma

família Quaker26 em Yorkshire, a apenas dezesseis quilômetros de Askham Grange, que aceitava pessoas que precisavam de um teto sobre a cabeça, detentos ou coisas assim.”

A vila em Suffolk era muito pequena, de acordo com Mary.

“Não era algo estimulante como Blackpool, que era o que eu esperava. Só conheci duas pessoas lá: uma velha senhora que fazia crochê e era como

uma personagem de Dickens; e um cara barbudo que havia sido monge e acabou se tornando o açougueiro da vila; ele usava calção embaixo do avental e sandálias, muito hippie.” Mas na verdade ela não conversou muito com eles. “A agente de condicional era simpática, mas não alguém com quem se podia conversar. Acho que ela mesma estava meio perdida em relação ao que fazer comigo.”

O que, então, Mary fez durante esses dez dias?

“Saí para fazer umas caminhadas, mas dormi na maioria do tempo. Comi muito macarrão com queijo Brie; ela tinha um monte de Brie, não sei por

quê. Me sentia solitária, muito solitária. Não sabia que alguém podia se sentir tão solitário. Eu estava muito preocupada com o aborto que estava chegando.”

Você tinha dúvidas quanto à decisão?

“Dúvidas, não”, ela disse. “Só muitos pensamentos. Dado o que aconteceu comigo quando eu era criança, sentia que eu deveria ter sido abortada. Se tivesse tido bom senso e um pouquinho de responsabilidade na família de minha mãe, que tinha 16 anos, certamente eu teria sido. É por

isso que não tive dúvidas; não traria uma criança para este mundo sendo que eu não estava pronta para ela, e da qual eu poderia – e provavelmente iria – me ressentir. Recém-saída da prisão por nove meses: que tipo de mãe eu teria sido? E, de qualquer jeito, eu não teria permissão para ficar com a criança; ela teria tantas privações emocionais quanto eu tive. Se eu não tivesse cometido assassinato quando era criança, acho que o argumento moral em relação ao aborto não teria me ocupado tanto. Era terrível que a primeira decisão responsável que tive que tomar fosse gravemente...” Ela

fez uma pausa. “Relacionada.”

Quando ela decidiu fazer o aborto, era a infância dela que estava mais evidente em sua cabeça, ou eram Martin e Brian? Perguntei.

“As duas coisas”, ela disse. “Meus pensamentos estavam muito confusos...” Mary estava tentando dizer – e era a primeira vez na vida que expressava isso, acredito que até para si mesma – que sua infância e os assassinatos que ela cometeu eram indissociáveis. “Era completamente impossível. Eu conversei com o bebê dentro de mim... Pedi desculpas para

ele do meu jeito: ‘deixa para a próxima’.”

Ann Sexton foi a terceira de muitas agentes de condicional que Mary teria. “Parecia que eu passava por elas como se elas saíssem de moda”, Mary gracejou. “Ann assinou o recibo da minha entrega em Cambridge novamente.”

Eu a interrompi: “Assinou o recibo?”

“Bem, era assim que parecia aquele passar de mão em mão”, ela disse. “Não digo isso de maneira crítica, de jeito nenhum, mas você sabe, é uma rotina para eles. Eles têm tantos clientes... É assim que os agentes de condicional e os assistentes sociais chamam, e isso é significativo, não é?

Quero dizer, significa que somos um tipo de transação, não é? De qualquer jeito, Ann era jovem e muito simpática, mas era uma pessoa muito tímida. Eu sentia que talvez devesse chamá-la para conversar comigo, em vez de ela me chamar, entende o que eu digo? Era muito religiosa. Ela me contou que se inscrevera para obter um passe especial Winston Churchill para ir à África do Sul como um tipo de missionária, mas não havia sido aceita. As pessoas da família Quaker para quem ela me levou eram amigas dela.”

Geoffrey e Elizabeth Henderson27 tinham duas filhas, uma casada e outra

da idade de Mary que trabalhava em uma galeria de arte em Londres, e dois filhos: David, que estava no primeiro ano da universidade, e Tim, de 14 anos, em um internato.

“Tim era o único que não sabia quem eu era”, Mary disse. “Todos os outros sabiam. Eles eram pessoas boas de verdade. O Dr. Henderson – Geoff – era um homem rígido – ele dava aula de catecismo toda quinta-feira. Mas eram verdadeiramente bons. Liz era muito tímida, talvez porque o marido fosse muito forte, mas ela era muito, muito simpática comigo

também.”

Mary contou que tinha ido ao hospital para fazer o aborto três dias depois de chegar à nova casa, mas, na verdade, ele aconteceu um mês depois de ela ser solta. Seus novos anfitriões pensaram que tivesse algum problema feminino e não fizeram perguntas.

“Estava muito cansada quando terminou”, Mary disse. “Sentia uma vontade terrível de chorar. Não conseguia parar de chorar. Lembro que fui ao salão de beleza e explodi em lágrimas... Passei muito tempo no meu

quarto sozinha, e Liz e Geoff foram legais. Eles me deixaram na minha. Liz não era do tipo intrometida e, de qualquer jeito, acho que pensaram que eu estava desorientada: primeiro a mudança de identidade, sobre a qual eles sabiam; depois o hospital. Depois disso, tudo o que eu queria era arrumar um emprego”, ela continua. “Eu só queria trabalhar, não importava com o quê. Sabia que seria difícil sem ter um histórico de outros empregos, sem referências. Então, saí andando por aí e me inscrevia onde via anúncios de vagas.”

O primeiro emprego que Mary conseguiu, não mais de uma semana após deixar o hospital, ela acha, foi em um berçário local.

“Mas claro que tive que contar para a agente de condicional, e eles disseram que não, absolutamente.”

Bem, para ser justa, eu disse: entre tantas coisas, logo um berçário? A primeira regra para detentos soltos sob licença é que eles não têm permissão para trabalhar “com pessoas”.

“Eu sei”, Mary disse. “Mas, veja, eu não fiz essa associação...”

A questão não era, porém, que Mary não havia feito a associação entre um emprego em um berçário e a regra de não trabalhar com pessoas, mas

sim que ela não associara o berçário ao crime pelo qual ela fora condenada – associação essa que não apenas o Serviço de Condicional, mas também a mídia e o público, sem dúvida, teriam feito imediatamente.

“Então eu fui lá e pedi demissão. Então, eu meio que diz para mim mesma: ‘Chega. Vou voltar’. E voltei, voltei para Askham Grange. E a cerca de 180 metros da prisão uma carcereira me parou e perguntou o que eu estava fazendo. Eu disse: ‘Não gosto daqui de fora’. Ela era simpática, sabe, mas claro que disse que eu não podia voltar, que era difícil, mas que

eu tinha que continuar ‘lá fora’.”

Então, Mary foi trabalhar para um pintor e decorador.

“Eu tinha gostado de pintar em Styal, então ajudei a pintar a Prefeitura, e depois o interior de algumas casas.” Ficou evidente no relato de Mary que o Serviço de Condicional não preparou o terreno para ela quando saiu, muito menos a ajudou a conseguir um emprego mais tarde. “Depois eu tive alguns outros empregos, alguns dias fazendo isso, outros dias fazendo aquilo, e os meses se passaram de alguma maneira.”

“Aí, um dia, Geoff me levou com ele em uma viagem de negócios na direção de Newcastle e perguntei se podíamos dar uma passada na casa da minha mãe, que eu não via tinha meses. Ele passou por Scotswood e seguiu pela Whitehouse Road e perguntou se eu queria que ele parasse o carro em qualquer lugar por ali, mas eu disse que não, não. Eu queria sair dali, porque passar por lá me fazia lembrar de um sonho que eu costumava ter sobre meu pai e K. [irmã dela, cinco anos mais nova]. No sonho, eu estava de volta a Whitehouse Road... Estava ventando, ventando muito, e eu estava do lado de fora olhando pela janela do quarto. Eu gritava, chamando “Papai, sou eu, sou eu, posso entrar?”, e tudo que havia eram rostos sem expressão

na janela e nenhuma resposta.”

Há outro sonho que Mary teve repetidas vezes durante anos, sobre o qual me contou. Nesse outro, os rostos na janela são das duas irmãs, e K. pergunta a Billy: “Quem é essa?”. “Ninguém que conhecemos”, diz Billy.

“Depois Geoff me levou até a casa da minha mãe... Não me lembro de nada, exceto que ele ficou no carro – nem mesmo me lembro se ela estava lá, só que ele me levou para jantar em um restaurante na volta e eu contei a ele sobre o aborto, mas claro que não disse de quem era o bebê.”

Como surgiu o assunto? O que a fez contar a ele, de repente, meses depois?

“Era um lugar muito tranquilo onde estávamos comendo e... Ah, tudo se encaixou, sabe.” Mary se referia a Scotswood, ao sonho, a ver ou não a mãe. “Ele olhou para mim, sabe, para mim, e disse que eu parecia cansada, e... Bem, ninguém nunca olhou para mim assim e percebeu... E, veja, eu estava cansada, terrivelmente cansada. Acho que aquilo ainda estava fresco na minha mente, por isso, contei para ele, falei que tinha acontecido três

meses antes e foi tudo que eu disse. Ele não fez perguntas.”

Mary não via ou conversava com a mãe havia meses quando, pouco antes do Natal, ela “estava andando não muito longe da casa dos Henderson” e se deu conta de que havia um carro “seguindo-a”. Ela achou que era um repórter e que a haviam encontrado novamente:

“Eu pensei, afinal, ‘que se dane’, e parei. O carro também parou e dele saiu meu padrasto, Georgie. Ele é a pessoa mais honesta que conheço”, Mary disse. “Eu admirava muito a forma como ele subiu na vida, você sabe,

e o jeito que amava, ou de alguma maneira ficava com minha mãe, com os defeitos dela e tudo. E naquele dia, naquela rua, no Natal e tudo, sim, eu fiquei feliz em vê-lo. Ele disse, e estas foram as palavras exatas dele: ‘Sua mãe quer que você dê a ela outra chance de ser sua mãe. Ela quer que você volte para casa’. Minha mãe estava no carro, e voltamos para casa. Geoff estava lá e não ficou nem um pouco satisfeito. Ele disse que claro que eu poderia sair com eles no dia seguinte se quisesse, mas que, se eu voltasse para o Norte com eles, não seria mais bem-vinda na casa dele. Eu não poderia morar lá novamente porque, ele disse, se eu voltasse para minha mãe, ‘a coisa perdia todo o propósito’.”

Você entendeu o que ele quis dizer?

“Não, não entendi. E, na verdade, fiquei muito ofendida. Ele parecia tão bravo, meio ‘não tem mais discussão’... Foi como um ultimato.”

A forma como Mary pareceu reagir a tal ultimato foi um tanto quanto falsa, pois conheço sua raiva quando ela sente que está recebendo ordens de maneira autoritária ou quando acha que sua privacidade está sendo invadida. Nesses casos, ela se torna inacessível a argumentos ou à persuasão daqueles que acham que a ofenderam.

Há duas coisas que costumam ocorrer quando ela fica com raiva. Uma é que ela direciona a raiva para dentro de si, sai, caminha durante horas e, quando volta para casa, vai dormir. Mas retém aquela raiva interna por algum tempo, dias e semanas durante os quais, de modo incomum para ela, fica fria e retraída em relação à pessoa pela qual se sentiu atacada ou ofendida.

A sua segunda reação, em vez de retrair-se, é o ataque verbal: para repreender quem a ofendeu, seu tom de voz fica muito afiado. Não os

termos que ela utiliza, já que ela nunca é vulgar, mas sua voz, que normalmente é tanto baixa quanto hesitante, eleva-se uma oitava e as palavras tornam-se repentinamente muito precisas, articuladas e definidas. “Estou fu-ri-o-sa”, dirá ela, “ab-so-lu-ta-men-te fu-ri-o-sa”. E quanto mais nervosa fica, mais seu sotaque fica parecido com o da classe média, e menos com o ritmo mais suave de Newcastle.

Eu poderia ter previsto sua reação naquele dia em Yorkshire, pois o Dr. Henderson, por bons motivos, estava dando ordens autoritárias a ela. Sua

mãe e Georgie, segundo Mary, foram para uma pousada. Ela havia ficado em casa naquela noite, mas sem falar com o Dr. Henderson, e passou o dia seguinte com a mãe e com George.

“Fomos de carro para uma cidade vizinha e era dia de feira, quando os pubs estavam abertos – o dia todo, acho. De qualquer forma, havia uma livraria e eu disse que queria dar uma olhada lá, mas minha mãe foi atrás de mim. Ela perguntou o que eu queria com todos aqueles livros e me chamou para ir ao pub, aí fui junto com ela, e eles... Ah... Se ajeitaram por lá. Eu me lembro de dizer ‘Deus, como vocês conseguem ficar sentados aqui enquanto o dia está bonito lá fora?’. Estava frio, mas ensolarado – tocava

muita música, como toca por toda parte na época de Natal; estava lindo mesmo. E ela começou a tagarelar sobre como eu estava vivendo em um mundo de faz de conta, que era irreal para mim estar onde eu estava. ‘Essas pessoas’, ela disse, referindo-se a Liz e Geoff, e disse que eu não pertencia àquele lugar e que a vida que eu estava vivendo não era para alguém como eu. Prestei atenção, e senti o contrário: senti o quanto eu era uma pessoa diferente e que não podia pertencer a... À cena social da minha mãe.

“Mas aí, quando ela disse: ‘É Natal, venha passar o Natal conosco em

casa’, eu não consegui dizer não. Agora sei... Claro que agora sei que eu poderia ter lidado com a situação muito melhor com Geoff...”

Você ainda estava com raiva dele?

Mary não respondeu. “Eu gostava tanto deles; todos os filhos deles estavam vindo para casa. Alguns já estavam lá. Sei que poderia ter chegado a algum tipo de acordo com ele, mas não cheguei. Só fui para o Norte naquela noite, para o lugar onde eles moravam na região de Whitley Bay.”

Assim, Betty, que sempre soubera como manipular Mary, havia tido

sucesso novamente. Contando sem dúvida com o espírito festivo, ela entrou em cena pouco antes do Natal e usou o jovem e simpático padrasto de Mary – de quem sabia que a filha gostava – para usar a cartada de “mãe”, o que sempre funcionava. No pub, no dia da feira, Mary percebeu isso claramente por um momento e poderia ter hesitado. Mas àquela altura o Dr. Henderson, a forte figura paterna de uma família de Quakers, já tinha não apenas exercido sua autoridade – o que, para Mary, era como agitar um pano vermelho na frente de um touro –, mas também, ao desafiar a lealdade dela

para com a mãe, tinha dado um ultimato que ela considerou ofensivo tanto para a mãe quanto para si própria. E naquela véspera de feriado, com os quatro filhos dos Henderson em casa para o Natal, eles deixaram claro para Mary – ou assim ela pensou – que a casa dos Henderson não seria seu lar, mas sim um refúgio do qual ela poderia ser expulsa caso desobedecesse. Por mais que ela gostasse deles, por mais preparada que estivesse até mesmo para amá-los, os laços eram frágeis.

“Penso neles agora como uma família distante”, ela diria dezesseis anos mais tarde.

Como sua família distante?

“Como uma família distante para mim”, ela teve cuidado ao explicar. “Quero dizer, é bastante improvável que eles precisem de mim algum dia. Mas se no Dia de São Nunca eles precisarem de mim, qualquer um deles, bem, eu estarei lá para ajudar.”

Eles haviam, de fato, estado lá para ajudá-la quando ela precisou exatamente daquilo que ofereciam. E embora o Dr. Henderson soubesse claramente que as autoridades queriam reduzir o contato entre Mary e a

mãe, ele concordou com o desejo de Mary de fazer uma rápida visita a Betty quando eles estiveram nas proximidades da sua casa. Foi quando Betty forçou novos contatos com Mary meses depois, sem aviso prévio, que ele – desconhecendo tanto a complexidade do relacionamento entre as duas quanto a incapacidade de Mary de ceder a coerção – provavelmente não viu alternativa a não ser dar um ultimato.

O Natal, Mary contou, passou em um borrão de álcool.

“Entre o Natal e o Ano-Novo, acho que não fiquei sóbria de manhã até a

noite. Tudo aconteceu no pub dela; eu apenas bebia junto com todo mundo. Mas aí devo ter recobrado a consciência. De repente, percebi novamente que qualquer coisa que envolvesse minha mãe não era, nem poderia ser, um ‘lar’ para mim. Era como uma licença para ir para casa que eu não devia ter aceitado. Assim, em 4 de janeiro, saí de lá e fui a York, para o Serviço de Condicional.”

Ann Sexton não havia voltado, contou Mary, mas a agente de condicional de plantão disse-lhe que ela definitivamente não poderia voltar

para os Henderson e que estava proibida de se comunicar com eles, exceto por meio de Ann, quando ela retornasse.

“Ela era uma senhora muito amável, casada com um leiteiro, e naquela primeira noite fiquei com eles”, Mary disse. “Eles me arrumaram um quarto no interior, com uma professora primária, mas não tinha emprego lá, não tinha nada para fazer. Então, depois de duas semanas, me mudaram para Harrogate, a uns trinta quilômetros dali, onde disseram que seria mais fácil. Mas não foi e durante meses foi tudo muito frustrante.”

Esse foi um período no qual, saltando de emprego em emprego, em sua maioria como garçonete, Mary viveu de pensões do governo em pousadas

pagas pelo dinheiro da assistência social.

“Eu tinha que sair às 9 horas da manhã e não podia voltar até as 4 horas da tarde. Sempre existem vagas de garçonete, onde quer que você esteja, mas elas nunca duram: você trabalha direito, gosta do emprego, e aí é demitida, entre uma refeição e outra, e você não sabe o motivo.”

Foi somente no ano passado, depois de ela ter sido demitida novamente de um restaurante, e eu ter telefonado ao gerente para saber o motivo, que Mary e eu descobrimos que é somente empregando trabalhadores

temporários, as quais podem ser dispensados antes das contribuições sociais começarem a ser cobradas, que muitos pequenos restaurantes conseguem sobreviver.

“Foi uma época muito deprimente, muito solitária”, Mary disse. “Não é de se admirar, é?, que tantas pessoas sejam reincidentes...”

O estado de espírito de Mary em relação a qualquer período e a qualquer assunto sobre o qual ela estava falando sempre foi refletido em sua forma de se expressar. Não é somente seu corpo e seu rosto que espelham todos os

seus sentimentos, mas também a mente dela que parece ser regulada ou desregulada pelo assunto discutido, nunca o contrário.

Assim, a depressão, o fator preponderante daqueles meses ruins de pousadas – daquilo que Mary chamou de “dar de cara com a parede o tempo todo” – tomou conta dela em um grau tão elevado durante os dois dias inteiros em que falou sobre essas semanas chocantes que eu fiquei com páginas quase vazias em meu computador, apesar de diversas fitas de três horas de duração cheias de interjeições, pausas, suspiros, risadas

desprovidas de alegria, repletas de embaraço e pedidos de desculpa. Tocando as fitas – ou partes delas – para que meu marido pudesse ouvir mais tarde, tudo que conseguimos fazer foi olhar um para o outro sem entender.

“O que eles estavam pensando?”, ele disse. “Uma garota que esteve presa desde que tinha 11 anos; eles a libertam em um mundo de estranhos, sem trabalho, sem formação, sobrevivendo de caridade? Ela está certa. Não é de se espantar que tantas pessoas voltem a transgredir a lei.”

Enfim, Mary conseguiu um quarto em uma casa que pertencia ao proprietário de uma escola de inglês para estrangeiros e, nesse ponto, a

sorte dela mudou.

“Ele disse que era ridículo que eu ficasse vivendo nesse vazio e me colocou na faculdade.”

Ao todo, ela passou seis meses (dois períodos letivos) em uma faculdade em West Yorkshire – a “uni”, como ela diz – estudando Psicologia, Filosofia e Literatura Inglesa. O primeiro semestre letivo foi o tempo mais despreocupado de que ela se lembra. Estava morando em uma república da universidade, sem preocupações financeiras, com uma bolsa que cobria

tanto sua mensalidade quanto suas despesas.

“Eu me diverti mais do que nunca, mais do que sabia que poderia me divertir”, ela disse. “Na Uni, eu não era Mary Bell. Ninguém sabia... Eu sentia que era [seu novo nome], uma pessoa diferente, mas eu podia ser eu mesma, aquela de quem o Sr. Dixon se orgulharia, que ele sabia que eu era. Adorava as aulas, adorava a biblioteca. Eu tinha um quarto legal, um quarto de dormir e de estudar, todo para mim; e tinha um monte de coisas acontecendo, um monte de gente de quem eu gostava.”

Eu estava prestes a descobrir que Mary ficava curiosamente contida com relação aos detalhes desses primeiros meses felizes. Era como se coisas demais tivessem acontecido em um tempo muito curto, tudo de muito feliz, mas nada constituindo experiências com profundidade o bastante para que valesse a pena lembrar ou relatar em detalhes episódios individualmente.

Perguntei se ela saía com alguém.

“Não queria me envolver... Íamos nadar, a jogos de futebol, corridas de carro, e dançar também.”

Usavam drogas?

“Eu tinha experimentado LSD enquanto ainda estava andando sem rumo em Yorkshire. Ele travou minha mandíbula e eu tive acessos de riso; depois todas aquelas luzes intensamente coloridas... Mas acabei me sentindo muito cansada, então decidi que não estava a fim de fazer aquilo com muita frequência. E quando tomei anfetaminas na uni, como todo mundo fazia, não teve nenhum dos efeitos que era para ter; não fiquei alegre nem nada, só me fez ficar cansada. Não acho que eu tenha uma personalidade propensa ao vício.”

E quanto a todas as drogas na prisão?, perguntei. E quanto aos cigarros que ela não consegue largar?

Ela deu de ombros. “O que mais há para fazer na prisão?” E acrescentou de modo defensivo: “Cigarros? Eu só fumo quando estou sozinha ou fora de casa”.

Perguntei se as pessoas na faculdade perguntavam sobre os pais dela, sobre sua casa.

“Eu... Eu não mentia, apenas omitia, sabe?”, ela explicou. “Eu dizia que

o Dr. e a Sra. Henderson eram meus tios. Quero dizer, não era uma interpretação errada que prejudicaria alguém.”

E quanto a seus pais?

“Eu dizia que não me dava muito bem com minha mãe, e que ela e meu pai estavam vivendo separados. Na verdade, era isso.”

Como sua mãe se sentiu em relação a você estar na faculdade?

“Como se tivesse sido uma vitória dela.”

Você a viu?

“Sim, fui vê-la algumas vezes. Ela dizia para as pessoas que eu era a prima dela de Liverpool, ‘aquela da universidade’. E naquele Natal [1981], eu fiquei com ela, mas na verdade passei todo o tempo com meus amigos da faculdade.”

Mary começara a pensar sobre si como uma professora ou como uma terapeuta em potencial.

“Eram mais como sonhos”, ela disse. “Sabe, sonhos de ser pioneira na utilização de novos métodos e esse tipo de coisa. Mas aí, logo depois que

voltei para o outro período letivo, minha agente de condicional, que aparentemente não tinha se dado conta até então do que eu estava estudando ou planejando, me disse que eu nunca teria permissão para trabalhar em nenhuma dessas áreas, que essas eram profissões proibidas para mim. Então escrevi uma carta para a diretoria da faculdade pedindo transferência para um curso de esteticista, e eles escreveram de volta dizendo que não. E o diretor, com quem o Serviço de Condicional havia conversado e para quem haviam contado sobre mim desde o início, me convidou para jantar com a esposa na casa deles, mas eu disse que não. Não me sentia confortável com a ideia, porque ninguém que eu conhecia tinha sido convidado para jantar

lá, então eu pensei... Ah, você sabe... Como... Como...”

Como uma peça em exposição?

“É”, ela disse. “Algo assim. Aí fui chamada no seu escritório e ele disse que estava preocupado por eu tentar sair da vida acadêmica. Ele achava que eu devia manter contato com o tipo de gente que passei a conhecer e com quem tinha afinidade, que era assim que meu talento se desenvolveria. Ele também disse que eventualmente eu acharia meu caminho em algo que eu tanto queria quanto poderia fazer. Tinha boas intenções, eu sabia. Então,

depois disso... Bem, voltei a estudar meio sem entusiasmo. Mas, no fim das contas, eu simplesmente não conseguia enxergar para onde eu estava indo, o que eu estava fazendo. Não conseguia achar uma área acadêmica em que pudesse me encaixar e com a qual pudesse fazer alguma coisa no futuro. Eu estava tentando equilibrar um futuro desconhecido e o que minha mãe chamava de ‘vida real’.”

Àquela altura, ela também havia se metido em uma bagunça financeira, com uma dívida alta que o banco disse que ela teria que pagar.

“Eu só comprei roupas, roupas e roupas – sem motivo, só estava nervosa, impaciente, estúpida.” George pagou a dívida e, na Páscoa, Betty conversou com ela novamente sobre encarar a realidade. “Ela me disse em qual realidade eu devia viver – a ‘do meu tipo’, ela disse. Aí, eu pensei, ‘Ela provavelmente está certa’, e pedi a George que me levasse de carro de volta para pegar minhas coisas; então voltei para ficar com eles.”

Duas pessoas que ela conheceria nos meses seguintes teriam uma importância decisiva. A primeira era um rapaz (nós o chamaremos de Rob),

quase ainda um garoto aos 18 anos, que ela conheceu em uma festa em setembro e o viu apenas ocasionalmente por diversas semanas. Perguntei a Mary se ela dormiu com ele.

“Claro que não”, ela me respondeu indignada. “Não durante o primeiro mês. O Nordeste não era como Londres. Não naquela época.” No fim das contas, Rob se tornaria o pai da filha dela.

A outra pessoa era Pat Royston, que assumiu a função de agente de condicional de Mary em outubro de 1982. Àquela altura, Mary estava trabalhando havia seis meses – o período mais longo pelo qual ela manteve um mesmo emprego –, novamente em um asilo, mas dessa vez com a

esperança de obter alguma qualificação em enfermagem geriátrica.

“Pat me falou logo de cara que, apesar de apreciar o fato de eu gostar do trabalho, eu teria que desistir. Eu não teria permissão para me qualificar, mesmo que fosse muito boa”, Mary disse. “Ela disse que era para eu imaginar como me sentiria se tivesse um parente no hospital e descobrisse que a enfermeira responsável cumpriu prisão perpétua por assassinato. Bem...”, ela disse, um pouco agressivamente e, logo em seguida, resignada, “Eu sentiria que dependeria das circunstâncias e do que a pessoa se tornou.

Mas não tinha motivo para dizer isso, mesmo se eu a conhecesse melhor; ela tinha que seguir regras também. De qualquer forma, entendi o que ela estava falando. Era verdade que sempre haveria pessoas que reclamariam de eu fazer esse tipo de trabalho, talvez até mais se tivesse uma qualificação e fosse colocada em posições de responsabilidade”.

Perguntei a Pat Royston por que nenhuma das duas outras pessoas que a antecederam na supervisão de Mary após ela retornar ao Nordeste haviam feito objeções ao fato de ela trabalhar em um asilo; e ela disse somente que

a primeira era jovem demais para aquela função. A segunda, um homem mais velho, que ela pensou ter sido designado na esperança de se tornar uma espécie de figura paterna para Mary, era provavelmente protetor demais e, por fim, passou a apoiar os interesses da mãe dela: algo raro para os agentes de condicional de Mary, ele havia construído uma relação amigável com Betty, que queria ver a filha em um emprego “adequado ao seu status” e ficando em casa.

“É difícil dizer não para pessoas que estão necessitadas”, Pat disse, em

uma tentativa de dar mais explicações. “E tanto a mãe quanto a filha estavam muito necessitadas.”

O que Pat não disse, porque há um limite àquilo que ela pode revelar a quem está de fora, e o que a oficial que a antecedeu não sabia era que, enquanto essa necessidade tinha raízes distintas – Mary e sua carência de amor em relação à mãe, Betty e a necessidade de controlar a filha –, o resultado era que cada uma delas buscava a outra quase compulsivamente.

Pat disse que lera relatórios sobre Mary com bastante cuidado antes de assumir a função.

“Havia muita informação sobre o julgamento, os crimes, a defesa, o juiz, a sentença... Mas, exceto pelo fato de que sempre fora enurética, de ter tido uma infância problemática e de a mãe ser prostituta, não havia

absolutamente nada sobre a criança: Mary28 como pessoa. Uma vez longe de casa, tinha bastante informação sobre suas explosões de raiva em Red Bank, seus vários atos de rebeldia na prisão, as circunstâncias preocupantes do seu aborto, mais implícitas do que descritas, e as muitas dificuldades que minhas antecessoras haviam experimentado com ela desde que foi solta. E

nesse ponto havia uma quantidade de observações sobre sua personalidade, como sua tendência a exagerar ou dramatizar na descrição de acontecimentos na prisão e posteriores. ‘Ela é a rainha do drama’, escreveu uma de minhas colegas.

“Mas o que estava muito evidente no registro de quatorze anos era o que eu pude rapidamente confirmar por mim mesma quando a conheci. Ou seja, que Mary estava muito confusa emocionalmente, com uma autoimagem quase catastrófica e, apesar da evidência de sua considerável inteligência,

tinha enorme dificuldade de manter qualquer atividade intelectual ou emprego. O curso de três anos na faculdade para a qual foi admitida – uma tremenda chance oportunidade que eles não teriam lhe dado se não a considerassem capaz – é um exemplo cabal. Quando, depois de apenas um semestre letivo, ela descobriu que não teria permissão para ensinar ou exercer a profissão, imediatamente abandonou a vida acadêmica sem considerar outras carreiras possíveis. E quando se inscreveu para cursos de saúde ou de beleza e disseram a ela que havia várias inscrições, mas que

Mary tinha grande chance de entrar a partir de uma lista de espera, ela recusou de imediato. Basicamente, ela não acredita que pode ser bem-sucedida em coisa alguma. Então, ela antecipou um fracasso que considerava inevitável, largou a bolsa de estudos e partiu para um lugar onde, logo percebi, ela nunca deveria estar: a casa da mãe.”

Pat começou a trabalhar com Mary imediatamente, visitando-a uma ou duas vezes por semana durante várias horas.

“Eu a encontrava no Serviço de Condicional de Whitley Bay”, disse Mary, “um edifício velho e deprimente de chão de tábua corrida que ficava

rangendo, e onde nos sentávamos em um escritório escuro e empoeirado com cadeiras verdes e uma lareira que não era mais usada, ou saíamos para dar umas voltas de carro”.

“Quando começamos”, Pat disse, “ela estava muito confusa. Falava sem parar. Sua cabeça parecia não ter direção nenhuma, e ela resistia a se reestruturar. Era quase como se estivesse explodindo de necessidade de colocar palavras para fora, sem se importar com o que elas queriam dizer. Ela me passou a sensação de alguém terrivelmente reprimida,

emocionalmente isolada”.

Perguntei a Mary se ela percebeu logo de início que Pat era alguém com quem poderia conversar de verdade.

“Eu sentia que ela era responsável, não no sentido de responsável por mim como supervisora, mas como ser humano. Senti que seria um relacionamento que duraria, que ela estava do meu lado.”

“Eu disse a Betty que queria encontrá-la”, disse Pat, “para que pudéssemos nos conhecer, mas que eu tinha que ver o ambiente da casa de

qualquer jeito, já que Mary estava morando lá. Ainda assim, levou algum tempo até ela concordar. Tenho que dizer que a casa era algo inesperado. Do lado de fora, era uma casa com pintura muito bonita, que certamente havia sido ampliada. Do lado de dentro, era uma autêntica criação da revista de decoração House Beautiful [Beleza doméstica], como Betty teria imaginado.

“Nunca vou esquecer: o carpete da sala era azul-turquesa, grosso o bastante para ficar marcado a cada passo. Logo percebi um ancinho desses

de jardim em pé na parede interna da sala, perto da porta, destoando do ambiente. Assim que atravessei a sala e me sentei, ela apanhou o ancinho e passou sobre as marcas dos meus pés no carpete. Me senti um pouco envergonhada... Talvez eu devesse ter tirado os sapatos. Mas ela disse, de forma muito simpática e em tom de desculpas, que aquela era uma das suas manias. Foi muito, bem, esquisito, dado o que Mary me contou depois sobre como ela cuidava da casa durante sua infância. E depois que George a deixou, em 1987, o apartamento que ela havia alugado e onde morreu era igualmente impecável, embora ela tenha se tornado quase completamente alcoólatra.”

“Conversamos durante um tempo, mas foi muito, muito difícil. Aquela primeira visita foi na mesma semana em que a televisão francesa, só Deus sabe por que, logo naquele momento, estava tentando localizar Mary – talvez isso também tivesse algo a ver com o fato de Betty de repente ter concordado em me ver. Betty, acho, estava aterrorizada com o risco de alguém descobrir que ela estava levando os repórteres até Mary, fosse por dinheiro, sob o efeito do álcool, fosse por outra razão psicologicamente complicada que ninguém jamais poderia entender. Claro que não

demonstrei que suspeitava disso. Eu frisei para ela e para George, que estava lá também, para não falarem com ninguém da mídia, mas eu não tinha muita esperança com relação a Betty: ela já tinha conversado com muitos deles.”

Em seguida, Pat me falou novamente sobre a oferta de aproximadamente 250 mil libras da revista estrangeira pela história de Mary, sobre a carta que consta do registro confirmando a oferta e sobre as abordagens que o correspondente de Londres aposentado da revista fez tanto a Pat quanto ao

advogado de Mary.

“George não era de modo nenhum do jeito que eu imaginara”, continuou Pat. “Era muito calado, educado, alto, esbelto e de boa aparência: uma pessoa simpática mesmo, com um rosto amigável. Mas ela, ah, ela era uma senhora muito estranha, magra, abatida e... Fria, muito fria, sem nenhum calor emanando dela. Era, sei lá, quase macabra. Se vestia muito bem; eu notei isso toda vez que fui visitá-la. Posteriormente, quando não estava me esperando e não me deixava entrar, ela estava sempre – claro que em casa

também – bem-arrumada, com uma maquiagem cuidadosa e boas roupas. Mas conversar com ela era quase impossível: tudo se resumia a um bate-papo – muito semelhante a um relatório de Red Bank que descreve os seus encontros com Mary, em que elas falavam ‘sobre nada’.

“Fiquei lá por algum tempo naquela primeira visita. Eles me ofereceram uma bebida. Mas a única coisa realmente importante que ela disse, de repente, sem propósito – mas importante porque confirmou o que Mary tinha me dito – foi que ela preferia considerar Mary como uma irmã ou uma prima. Mas quando eu tentei usar isso como o início de alguma conversa de verdade, ela se fechou.”

Pouco depois da primeira visita de Pat, Betty expulsou Mary.

“Ela disse que era porque eu saía até tarde e ela ficava acordada preocupada comigo”, Mary disse. “Mas, primeiro, eu tinha 21 anos de idade, e segundo, ela não ficava acordada: ficava bêbada toda noite. Mas talvez, de alguma forma, nada disso fosse o motivo: talvez fosse porque ela conheceu Pat e estivesse com medo do que eu pudesse contar. De qualquer forma, por mim, estava tudo bem. Eu arrumei um emprego como recepcionista em um hotel e fui morar com Rob.”

“Tentei ver Betty várias vezes depois disso, mas só conseguiu em duas oportunidades”, Pat disse. “Todas as outras vezes, ou ela abria a porta parcialmente com a tranca de corrente e a batia na minha cara, ou não atendia à campainha, mas olhava por trás da cortina; eu via a cortina balançar. Na segunda ocasião, quando consegui atravessar a porta, ela começou a berrar comigo, me culpando por Mary não ir visitá-la e culpando Mary por todas as suas doenças. Quando tentei questioná-la, sobre o fato de Mary molhar a cama quando criança e outras coisas, ela ficou silenciosa

como uma pedra. Por fim, ela abriu a porta para mim, me mandando sair. ‘Não tenho que conversar com você’, disse ela. ‘Não sou sua cliente.’ E na

única outra vez que consegui entrar ela gritou como uma banshee, 29 porque falei que queria que Mary fosse a um psiquiatra.”

Perguntei a Pat se, durante a primeira visita, Betty havia mencionado o namorado de Mary, Rob.

“Não sei se Betty mencionou naquela ocasião ou em outras, mas ela não o aprovava de jeito nenhum: a idade e o histórico de classe média dele e

mesmo o trabalho que ele tinha escolhido fazer [venda atacadista]. Como se mostrou depois, Rob era de fato muito jovem e imaturo para Mary. Mas claro que esse não era o ponto: vim a entender, quando Mary começou a conversar comigo de verdade, que Betty tentaria impedir qualquer relacionamento de Mary que pudesse levá-la a ‘falar’. Com Rob, ela tomou a iniciativa de ir conhecê-lo, e não apenas contou a ele ‘quem’ Mary era, como também mentiu para ele, dizendo que Mary tinha sido esterilizada e não poderia ter filhos.”

“Eu fiquei absolutamente chocada quando Rob me contou isso”, Mary disse. “Não sobre a coisa de Mary Bell; eu estava acostumada com ela

contando para todo mundo e eu mesma contaria para ele, talvez já tivesse contado. Ele tinha uma irmã mais nova, muito simpática, que ficou minha amiga; acho que contei para ela. Mas a outra coisa? Sei que ela estava jogando contra ele desde que comecei a sair com Rob, mas dizer isso... Por que ela diria uma coisa assim?”

Rob comprou uma boa casa à beira-mar e, quando Mary foi morar com ele, deu a ela um anel de noivado.

“Acabou dando tudo terrivelmente errado” Mary deu aquela risada rouca

que eu frequentemente ouvia quando ela estava prestes a admitir algo embaraçoso ou triste. “Provavelmente, era muito para Rob. Atribuí a ele mais maturidade do que ele tinha. E por que ele deveria ter? Era só um garoto. Mas achei que ele fosse boa pessoa por natureza e, no fim das contas, ainda acho que ele era, mesmo depois de tudo o que aconteceu.”

“Mary me contou sobre seu desejo de ter um bebê logo que comecei a trabalhar com ela”, Pat disse.

“Não foi por causa do que minha mãe tinha falado para Rob”, Mary

explicou. “Quero dizer, não era que eu quisesse ficar grávida só para provar que minha mãe estava errada. Isso não saía dos meus pensamentos desde o aborto. Esse não é o tipo de ‘anticoncepcional’ que cai fácil na consciência.”

A vida pós-libertação de prisioneiros que cometeram crimes contra crianças está sujeita a uma série de regulamentações e precauções, e a segurança de crianças ainda não nascidas ocupa um posto alto entre elas. Pat Royston falou com Mary que, se ela e Rob estivessem planejando ter

um bebê, ela deveria tomar providências para que Mary passasse por uma avaliação psicológica.

“Eu sabia que ela teria problemas com o serviço social a respeito disso, e um relatório poderia impedir antecipadamente as possíveis objeções deles”, Pat me disse. “Ela concordou imediatamente, o que era interessante, porque eu sabia que ela seguia a mania da mãe contra psiquiatras. Tomar essa decisão na época mostrou a força do seu sentimento com relação a ter uma criança. Entretanto, o estranho foi que quase na mesma hora que Mary falou sobre ter um bebê, ela começou a falar sobre seus sentimentos por Martin e Brian, quem ela ainda não tinha mencionado até então. Era como se seu

desejo por uma criança fosse inseparável da consciência que ela tinha de ter causado a duas famílias a perda de suas crianças.

“Ela me falou que não tinha admitido para si mesma, durante anos, que tinha matado. Disse que ficava se perguntando por que o remorso tinha demorado tanto para aparecer. Quando ela falava sobre isso, ficava claro que tinha cristalizado todas as emoções, com Betty – que ela mencionava constantemente – sempre em segundo plano dizendo ‘não fale com ninguém sobre nada do que aconteceu ou você vai estar encrencada’.

“Mary me disse que tinha sido apenas naquele momento, depois de dezoito anos, que ela conseguiu pensar sobre os pais dos dois garotos e sobre como deve ter sido para eles. E, no momento em que mencionava os pais, ela começou a chorar. ‘Isso nunca vai acabar para eles; nunca vai acabar para mim.’ Ela sempre trazia Martin e Brian à tona e sempre em conexão com sua própria filha – não tanto os detalhes sobre o que ela fez com os dois garotinhos, nunca me contou isso, mas sim sua tristeza pelos pais e seu desespero por si mesma.”

Pat pensou alguma vez, perguntei – como eu mesma havia pensado ao conversar com Mary pela primeira vez – que esse remorso vinha em benefício próprio, ou seja, que Mary a poderia estar manipulando?

“Eu certamente me perguntei a mesma coisa no começo. Sabia, claro, que algumas pessoas em Red Bank, e depois muitas outras nas prisões, falavam muito sobre ela ser manipuladora. E ela sem dúvida foi manipuladora em todos os seus relacionamentos lá. Mas a situação agora era diferente e era nova para ela. Eu estava tentando mesmo trabalhar com

Mary, num sentido terapêutico, e ela estava reagindo a isso. Acho que quando a mãe concordou em me ver – e não se esqueça, isso foi enquanto Mary ainda estava morando com eles – foi em parte porque Betty se deu conta de que eu estava ficando mais próxima de Mary e entrou em pânico com isso. Vi isso bem depressa. Ela realmente tinha muito medo de mim. Isso era, afinal de contas, o que ela tinha tentado impedir durante todos aqueles anos. Era o pesadelo dela. E as evidências que ela me dava de hostilidade, raiva e claramente medo do que eu pudesse descobrir eram chocantes.

“Então, minha resposta para a sua pergunta é que, após minhas diversas experiências com Betty, embora eu não soubesse nenhum dos detalhes que conheceria mais tarde por meio de Mary, e depois por você, tive certeza de que os atos que Mary cometeu em 1968 só poderiam ser compreendidos no contexto de quaisquer que tenham sido os atos que a mãe dela cometeu na sua primeira infância. E associando essa certeza com o desespero que testemunhei em Mary, sim, eu estava convicta de que seu remorso era real e verdadeiro.”

Em 28 de abril de 1983, Pat levou Mary até Londres, onde ela visitou um psiquiatra, o Dr. Arthur Hyatt-Williams, e um psicólogo, Paul Upson.

“Eu senti que não tinha nada a esconder deles”, Mary disse. “Se tinha havido alguma coisa de errado comigo quando eu era criança, não havia mais. Sentia que, se eles pudessem tirar um raio x de mim por dentro, conseguiriam ver que qualquer coisa que estivesse quebrada havia sido consertada.”

O Dr. Hyatt-Williams a recebeu em seu consultório em casa, e, de modo

compreensível, eles imediatamente se viram em conflito.

“Sabe qual foi a primeira coisa que ele disse?”, Mary me perguntou. “Ele disse: ‘Que mãos grandes você tem. O que você sente quando você olha para as suas mãos?’. Quero dizer, você consegue imaginar um médico dizendo uma coisa dessas?”

Pontuei que ele estava tentando provocá-la. E claramente conseguira.

“Eu chorei. E aí ele disse que eu estava chateada porque a observação dele me fez lembrar de usar estas mãos para matar as crianças.”

Eu disse a Mary que, por ter um tempo muito limitado para avaliar as emoções dela, fazer com que ela as manifestasse era exatamente o que ele pretendia.

“Talvez. Mas tudo o que eu sabia estar sentindo era raiva por ele ter dito algo tão pessoal e tão pouco gentil sobre minhas mãos. E aí ele perguntou se eu não achava estranho que tivesse escolhido me apaixonar por um homem que tinha exatamente a mesma idade que Martin teria.”

Perguntei se ela se lembrava de sua resposta.

“Bem, não”, ela disse. “Quero dizer, isso nunca me ocorreu. Eu gostava de Rob e, embora estivesse ciente de que ele era mais novo do que eu –

afinal de contas, minha mãe não parava de me falar isso –, eu não me sentia mais velha. Eu me sentia bem jovem.

“Então ele me disse que eu estava ‘em negação’. Eu sabia o que aquilo queria dizer – eu tinha lido sobre o assunto – e achei que ele estava errado, que eu estava fazendo algo diferente, embora não soubesse como aquilo era chamado.”

Comentei que era uma pena que ela não tenha discutido seus sentimentos com ele. É exatamente assim que um bom psiquiatra iria querer ajudar.

“Não acho que ele queria isso. Ele só queria... Suponho que, como você disse, ele só estava me vendo aquela única vez para escrever um relatório, então ele apenas disse coisas – coisas provocativas – para ver como eu reagiria. Como dizer que me dei conta do que tinha feito aos 14 anos, simplesmente porque eu estava na puberdade, menstruava e tudo mais – mas não era só isso, era? Quero dizer, um monte de coisas aconteceu comigo naquela época, não aconteceu? E foram essas coisas que me fizeram pensar. É tudo muito clichê, a maneira como eles colocam as

coisas, não é?

“Me mostraram os relatórios mais tarde. Ele disse que minhas ‘manifestações homicidas’ jamais ‘explodiriam’, apenas ‘implodiriam’, o que quer que isso queira dizer. E falou também sobre Rob ser sete anos mais novo, e que isso significava que eu estava procurando por uma ‘expiação’ ou coisa assim. O mais importante, entretanto, era que ele disse que eu não era um perigo para ninguém; então fiquei grata por isso. E o outro cara, o psicólogo, era muito mais fácil estar com ele e foi muito

interessante; ele me mostrou um monte de cartões e eu tinha que dizer o que eu pensava ou sentia sobre eles. De qualquer forma, ele também escreveu que eu estava bem.”

Embora os dois especialistas tenham levado seis meses para escrever seus relatórios, ambos disseram que, de fato, era inteiramente seguro que Mary tivesse um bebê.

“Rob tinha me perguntado depois que eu voltei de Londres se eu ainda queria ter um bebê, e decidimos pensar de verdade sobre isso”, Mary disse, “o que significaria, como nós faríamos em termos financeiros e como a família dele se sentiria com isso. O pai dele havia morrido, e a mãe tinha

acabado de se casar de novo, mas ela não tinha problemas comigo”.

A mãe de Rob sabia sua verdadeira identidade?

“Sabia. Todo mundo parecia saber. Eu nunca tive muita certeza de como – talvez minha mãe, conversa de bar... Muito depois, quando as coisas deram errado, foi o próprio Rob que contou para as pessoas, mas naquele início estava tudo bem mesmo. Ele era alegre, trabalhava duro. Tínhamos uma casa boa. Ele tinha avós paternos maravilhosos que ficaram muito satisfeitos porque ele estava se acertando e porque eu era muito sensata –

eles disseram –, e a irmã dele também gostava da ideia de um bebê na família, então estava tudo bem, bem mesmo.”

Os dois relatórios ficaram prontos em outubro de 1983.

“Eu falei com Rob. Jogamos meus anticoncepcionais na privada.” Mary deu uma risadinha. “Eu soube duas semanas depois que estava grávida e contei para Pat.”

“Eu tinha que tratar Mary como qualquer um que cometeu crimes contra crianças”, Pat disse. “Criminosos desse tipo raramente são autorizados a

ficar com seus filhos e, no caso de Mary, também havia o problema da sua grande evidência. Tínhamos que assegurar que as informações sobre a gravidez dela e todas as decisões que fossem tomadas permanecessem em sigilo. É por isso que, quando eu convoquei uma reunião sobre o caso em janeiro de 1984, todos os chefes de departamentos – Saúde, Polícia, Serviço Social, Legal e Condicional – compareceram.”

Na reunião, as autoridades receberam todas as informações disponíveis sobre a vida de Mary. A mãe foi descrita como mentalmente desequilibrada;

Billy Bell, como irresponsável, com várias condenações criminais. Sobre a própria Mary, foi dito que ela havia sofrido violência emocional e física quando bebê, que a violência continuou até 1968, época em que Betty e Billy estavam morando separados, e o divórcio estava pendente. Havia velhos relatórios psiquiátricos dos doutores Westbury, Rowbotham e Cuthbert, que falavam do fato de Mary molhar a cama, inclusive com incontinência urinária diurna, mas, tirando isso, de um “desenvolvimento normal” (Cuthbert), e os novos relatórios, que declaravam ser seguro ela se tornar mãe.

“Ficou acordado que nada iria para o computador”, Pat disse. “Todos os relatórios da época e posteriores passariam por mim e ficariam em meu escritório. O que estava em questão era basicamente quem deveria ter responsabilidade e controle sobre a criança assim que ela nascesse, os pais ou o Serviço Social. Mas, subjacente a isso, havia outro perigo: o de que Mary pudesse ser considerada inadequada para ficar com a criança.

“Eu mesma sentia – e já sentia isso havia meses”, Pat disse, “que, enquanto a criança fosse, e sem dúvida seria, considerada protegida pelo

tribunal, e todo mundo concordava com isso, Mary deveria ter permissão para ficar com a criança. Além disso, os pais – Mary e Rob – também deveriam ter responsabilidade e controle da criança. Os departamentos Legal e de Saúde sustentavam meu ponto de vista; a Polícia ficou em cima do muro até ser instruída pelo Serviço Social, que finalmente acabou concordando que Mary deveria ficar com a criança”.

Dois ou três dias depois do nascimento do bebê, a primeira de três audiências ex parte [sem a presença de todas as partes envolvidas] foi

realizada na Divisão de Família do Tribunal Superior.

“[O advogado de Mary] representou os pais, e eu apresentei evidências”, disse Pat. “Tentamos manter os detalhes o mais longe possível de Mary.

Nessa primeira audiência, a criança foi colocada sob a proteção legal do tribunal e uma ordem interina foi emitida dando custódia para os pais até completarem-se as audiências, algumas semanas mais tarde. Mas, na segunda audiência, dez dias depois, o Serviço Social contestou essa ordem e o juiz chamou Pat Royston até sua sala para descobrir mais sobre a

avaliação psiquiátrica prévia de Mary. Uma semana depois, na complementação das audiências, o Serviço Social solicitou custódia com a intenção de transferir Mary, Rob e a criança para um centro de observação de famílias – isso significaria até seis meses em uma unidade residencial, com diversas outras famílias, a quilômetros de distância de onde eles moravam e sob atenta supervisão, da manhã até a noite.

“Isso não era justificado, de jeito nenhum, e poderia ser destrutivo para o relacionamento deles”, Pat explicou. “O advogado de Mary e eu lutamos contra essa proposta durante todo o dia e, ao final da audiência, o tribunal determinou que a custódia ficasse com os pais sob uma ordem de

supervisão em relação à criança.”30

“Nas últimas semanas antes de o bebê nascer eu me sentia – Ah, muito acalentada por dentro”, Mary disse. “Contente. Apesar de Rob ter pedido demissão em 10 de maio, e eu mais tarde entendi o quanto isso foi ruim para ele e para nós, aquilo não me incomodou na época. Ele estava envolvido comigo e com o bebê, isso era tudo com que eu me importava naquele momento. Estávamos todos prontos: papel de parede no estilo dos livros infantis de Beatrix Potter, baú listrado, retratos na parede, um móbile

de letras. Errei na data, é claro. Ela veio antes do esperado. Mas tudo bem. Eu me lembro mais de risadas do que de qualquer outra coisa: Rob apareceu com uma máscara, eu ri e ri, e eles disseram, ‘Isso é bom, continue rindo’. E Rob ficou dizendo ‘vamos, você consegue’, como numa corrida de cavalos, e isso me fez rir mais. Aí eles disseram: ‘É uma garotinha. Você tem uma garotinha’. Comecei a chorar e a segurei. Falaram que iam ter que levá-la para limpá-la, mas eu disse: ‘Não, eu quero que ela fique aqui’, mas a levaram assim mesmo e me trouxeram chá com torradas. Depois a

trouxeram de volta toda enrolada. Eu a segurei, e lá estava ela: tão pequenininha, com uma penugem de cabelo meio alaranjado, arrepiado. Então eu disse, ou pensei, ‘Olá, eu esperei por você durante muito tempo’. E ela ficou em um berço perto de mim. Às vezes, ela acordava durante a noite, eu a apanhava e ninava; as enfermeiras diziam que eu não devia, mas eu sentia que aquilo era o certo.”

De repente Mary parava, dava risadinhas e, então, sussurrava para mim como se estivesse contando um segredo: “Eu a acordava às vezes para ter

um motivo para pegá-la no colo”. Ela riu. “Ela acordava os outros e aí voltava a dormir, e eles também.”

Quando perguntei sobre sua mãe, Mary disse: “Não. Nem pensei nela. Eu não a via... Ah, havia um ano ou quase isso.”

Perguntei se Mary achava que aquele era o momento em que ela esteve mais livre da mãe. Ela olhou para mim.

“Nunca me ocorreu... [Eu não] pensei nela; era o meu momento, o momento do meu bebê.”