Por que Crianças Matam
Mary – Reflexões 2
Mary
Reflexões 2
E u estava no segundo andar na casa da minha tia Audrey quando eles vieram atrás de mim”, Mary me contou, lembrando-se do dia 7 de agosto de 1968. “Minha mãe estava em Glasgow. Meu pai também não estava lá. Ele teve quer ir à polícia em Durham, por causa de alguma
coisa que tinha feito, não lembro o que, e minha tia Audrey foi com ele. Então o tio Peter ficou de babá de todos nós – dos seus filhos e de nós. Era uma confusão, sabe, policiais femininas, policiais masculinos, e todos eles tão grandes...”. De repente, ela riu. “P. tinha visto eles chegarem, ele tinha feito alguma estripulia, não sei o quê, e fugiu porque pensou que eles tinham vindo por causa dele. Ele era rápido!”, ela disse com orgulho.
Você ficou surpresa quando a polícia chegou?
“Na verdade, não. Eles vinham todo o tempo – indo de casa em casa,
sabe – e eu sabia que Norma os tinha visto mais do que eu, eles meio que iam de uma para a outra. Aí eles me contaram que Norma, Brian e eu tínhamos sido vistos juntos, e eu contei não sei mais quais mentiras para eles. Aí, eles voltaram até ela, que virou e disse: ‘Não fui eu, foi May...’.” Ela disse que Norma chorou quando, ao conversar por cima da cerca, contou a Mary o que tinha dito.
“Eu sabia que era... Diferente para ela. Acho que a família dela esteve conversando com ela e, para tirá-la daquilo, eles queriam...”
A verdade? Perguntei.
“Sim, sim, mas... Bem, eles queriam que ela fosse a primeira a dizer alguma coisa ou a admitir que, sabe, ela tinha alguma coisa a ver com aquilo.”
E quanto a você? Seus pais conversaram sobre isso?
“Minha mãe não estava lá. Ela estava fora.”
E seu pai? Ele perguntou se você tinha algo a ver com aquilo? Você acha que ele sabia?
“Ele sabia, mais ou menos”, Mary respondeu, vagarosamente. “Era tarde da noite e Brian tinha sido encontrado; meu pai me chamou e ficamos sentados na escada da frente e... Hum... Ele se virou e olhou para mim e disse ‘Eles o acharam, ele está morto’. E ele só olhou para mim e eu só... Abaixei a cabeça.”
Agora, você achava que ele sabia ou adivinhara alguma coisa?
“Acho que o fato de eu não ter perguntado onde eles o encontraram... Não sei o que ele pensou. Só me lembro de estarmos sentados lá e tinha
muito barulho vindo lá de Tin Lizzie, um monte de luzes e meu pai sem dizer nada, só olhando para mim...”
Seu tio Peter foi com ela à delegacia.
“Eu estava sentada numa daquelas cadeiras giratórias que eles tinham e estava brincando nela. Tio Peter chegou, me deu um tapa na cara e me disse que eu estava encrencada para valer, e que era para ficar de boca fechada, para não admitir nada.”
Perguntei se ela havia sentido, naquela ocasião, que seu tio achava que
ela era culpada. Ela sacudiu a cabeça.
“Não lembro agora o que senti, mas claro que sabia que tinha feito algo errado e esperava levar uns tapas ou coisa assim. Eu sabia que minha mãe nem me faria perguntas, ela simplesmente me espancaria até a morte. Mas, pensando sobre isso agora, da perspectiva de hoje, muito mais que acreditar que eu era culpada de uma coisa terrível assim, ele pode ter pensado que eu tagarelaria alguma coisa que tivesse inventado para a polícia, para me exibir, sabe. Minha mãe sempre falou com todo mundo que eu ficava
imaginando coisas e que não se podia acreditar em nada do que eu falava. Foram anos e anos, na verdade uma vida inteira para mim, antes que eu entendesse que ela fazia isso era para se proteger. Então, o motivo por ele ter me batido era, provavelmente, menos pelo que eu tinha feito de verdade – que ele não poderia saber mesmo, poderia? – e mais porque o que eu podia dizer poderia botar meu pai, e cunhado dele, em encrenca. Ele queria que sua família não tivesse ligação com aquilo.”
Ela se lembrou daquele tapa quando conversou comigo, mas não se lembrou da primeira ida à delegacia no meio da noite, dois dias antes,
quando sua tia Audrey sentou-se no banco de trás do carro com o braço em volta dela, conversando calmamente e pedindo para ela dizer a verdade.
Antes, ela havia dito repetidamente que tanto ela quanto Norma queriam ser apanhadas. Bem, eu disse, enfim elas foram.
“Bem, não foi assim que imaginamos”, ela disse.
Havia algum tipo de acordo, perguntei, para assumirem a responsabilidade juntas?
“Não teve nenhum... Hum... Na verdade não fomos tão longe assim...
Nunca pensamos... Pensamos que estaríamos fugindo, na Escócia, como grandes criminosos.”
Mas grandes criminosos fogem, eu disse, porque sabem que fizeram algo de errado. Vocês nunca se deram conta de que a polícia era esperta e que elas seriam presas?
“Sim, nos demos conta, mas... Como vou colocar isso? Era isso que queríamos. Era tudo parte da fantasia. Mas não estávamos pensando logicamente... Racionalmente”, ela disse. “E mesmo enquanto queríamos
ser apanhadas, fugir de onde estávamos...”
De suas famílias?
“Sim. Mas também tínhamos pensado sobre como iríamos fugir. Nossos cavalos viriam com uma corda e o cavalo derrubaria a grade da cadeia. Era assim que imaginávamos, durante horas, dias, semanas...”
Claro que a “cadeia”, na imaginação infantil delas, era o tipo de coisa que ambas viam nos inumeráveis faroestes a que assistiam na televisão e nada tinham a ver com a realidade das celas para jovens da delegacia de
West End – dois quartos pequenos no final de uma estreita passagem que levava do banheiro ao escritório principal. Menos pesadas que as celas comuns, elas eram usadas com as portas abertas e uma policial feminina, nesse caso, sentada no corredor dentro do campo de visão, se menores tivessem que passar a noite lá.
As policiais Pauline J. e Lilian H. eram as que estavam de plantão naquela primeira noite e, quando conversei com elas um ano depois, ainda estavam tomadas pelo que viram e sentiram, como as outras colegas com as quais eu conversaria.
“Quando começamos nosso turno às 10 horas”, disse Pauline, “elas estavam deitadas juntas batendo papo na cama de um dos quartos. A primeira coisa que elas nos falaram era que tinham comido peixe com batata frita no jantar. ‘O Sr. Dobson comprou para nós’, disse Mary, meio orgulhosa, sabe”.
(“Sim, lembro-me das duas policiais”, Mary disse. “Mas conversando? Estávamos brigando. Eu estava com um medo terrível de molhar a cama.”)
“Era uma noite tão quente”, Pauline continuou, “e elas estavam naquela
agitação e não conseguiam dormir. Nós as colocamos em celas diferentes depois de um tempo. Eu sentei com Mary e Lil sentou com Norma. Em certo momento Mary gritou: ‘Vou matar minha mãe!’... Não tenho certeza se foi isso que ela disse”, acrescentou um segundo depois, duvidando de sua própria memória. “Pode ter sido ‘vou chutar minha mãe’.”
(“Não me lembro de ter dito isso”, Mary disse. “Não diria nem mesmo ‘vou chutar minha mãe’. Não na frente de uma policial.”)
“Ela estava mais preocupada com seus sapatos rasgados do que com
qualquer outra coisa”, Pauline continuou. “‘Falei com minha mãe que precisava de novos’, Mary disse. ‘O que as pessoas vão pensar se me virem assim?’ Eu tentei acalmá-la, conversei com ela calmamente e, depois de um tempo, ela disse que tinha medo de molhar a cama. ‘Normalmente eu molho’, ela disse.”
(“É isso de que mais me lembro”, disse Mary. “Eu pensava nisso todo o tempo. Sempre pensei nisso mais tarde, em qualquer lugar para onde me levassem.”)
“Falei para ela não se preocupar com isso”, disse Pauline, “mas ela se preocupava. Ficava indo ao banheiro. Ela não molhou a cama, mas também não dormiu.”
Quando foi a primeira vez que você reviu sua mãe depois de ter sido presa?
“Tia Isa foi a primeira pessoa que vi”, ela disse. “Veio naquela primeira manhã. Ela colocou os braços ao meu redor e cheirava a ar puro. Não vi minha mãe, acho que até uma semana depois ou coisa assim. Foi quando ela gritou comigo, como eu te disse, o que eu tinha feito com ela desta vez e tudo mais.”
Outra policial, Lynn D., levou Mary para o centro de avaliação Croydon depois da segunda reunião de custódia em 14 de agosto.
“Ela estava alegre, sabe. Era fácil não gostar dela por causa do que pensavam que ela tinha feito. Mas no trem para Croydon, de repente, ela ficou muito calada e eu olhei para ela e pensei ‘ora, ela não é nada mais que uma criança’. Ela ficou pálida e cansada, e coloquei meu braço a seu redor, embora sua cabeça estivesse cheia de lêndeas, e ela ficou entregue... Suave, sabe. ‘Espero que minha mãe não tenha que pagar uma multa’, ela disse. Eu
não conseguia acreditar, mas foi isso o que ela disse, era com isso que ela estava preocupada. E aí Mary falou sobre ter que ir para o tribunal novamente na semana seguinte – elas tinham que aparecer lá toda semana até o julgamento – e ela continuou: ‘Minha mãe vai estar lá. Espero que ela não fique chateada’.
“Eu disse que a mãe dela ficou chateada naquela manhã, que estava chorando. ‘Sei que ela estava’, Mary afirmou, ‘mas não era para valer. Acho que ela não gosta de mim, tenho certeza de que não gosta. Ela me
odeia’.
“Eu falei: ‘Ela é sua mãe, ela deve te amar’. ‘Se me ama, por que ela foi embora?’, Mary me respondeu, e eu não entendi o que ela estava querendo dizer.”
É questionável se a própria Mary, naquele momento de confusão e desespero, sabia o que estava tentando dizer, apesar de que alguém treinado para entender a mente de uma criança teria se dado conta do quanto ela estava revelando e poderia tê-la ajudado a revelar ainda mais naquela
época. Podemos ver que, mesmo nessa terrível fase de semiconsciência de que havia feito algo terrível e que coisas terríveis estavam para acontecer com ela, Mary Bell gritou por ajuda. Continuaria a fazer isso em muitos de seus comentários dirigidos àqueles que tomaram conta dela e às policiais que a vigiaram durante os quatro meses de custódia e os nove dias de julgamento. Mas ninguém ouviu; ninguém estava apto a entender.
As policiais que a vigiaram contaram-me que precisavam relatar cada palavra que ela dizia, e tenho certeza de que fizeram isso com diligência. Mas essas informações eram requeridas somente para fornecer à polícia e aos advogados possíveis evidências adicionais, não para lançar luz sobre a
personalidade ou os problemas da criança acusada.
A maior dificuldade de julgar crianças em tribunais para adultos é que o processo judicial inteiro é exclusivamente baseado em evidências. A motivação fica à margem dos julgamentos britânicos de assassinato: não é função nem da polícia – como disse o detetive Dobson – nem da promotoria buscar uma resposta sobre por que crianças cometem crimes como esse. Sob o sistema vigente, não há nenhum mecanismo interno que demande conhecimento sobre a criança, e a partir dela, como parte de um inquérito
sobre o crime que ela pode ter cometido. Não há nenhuma investigação automática quanto ao histórico familiar e à situação da criança que seria admissível como evidência na consideração de seu caso. Acima de tudo, não há a percepção de que crianças são, de fato, diferentes de adultos em seu entendimento dos rituais e da função do tribunal, nem da sua compreensão de certo e errado. Na verdade, elas são julgadas como pequenos adultos.
Para adultos de quem, teoricamente, se pode esperar o mesmo senso de
certo e errado daqueles que estão sentados para julgá-los, esse sistema é justificável: eles têm que ser responsabilizados legalmente pelo que fazem; qualquer coisa diferente disso levaria ao caos. Mas, quanto a crianças, para quem há uma grande diferença entre o que elas sabem ou crê-se que sabem e o que sentem e entendem de verdade, as evidências que servem de prova a seus crimes, uma vez obtidas, deveriam tornar-se quase irrelevantes. A única coisa que deveria contar são as evidências humanas – a resposta à pergunta: “Por quê?”.