Por que Crianças Matam
Parte 5 – De volta à infância: 1957 a 1968
PARTE 5
De volta à infância: 1957 a 1968
“Tirem essa coisa de perto de mim”
1957 a 1966
C onforme eu havia descoberto naquele primeiro dia, em 1996, quando Mary e eu nos encontramos para conversar sobre a possibilidade deste livro, ela não leu The Case of Mary Bell até os 24 anos, quando enfim contrariou a mãe e leu “uns pedacinhos dele”, como ela colocara. Betty sempre dissera a Mary que o livro era cheio de mentiras, que a família dissera a ela que nunca havia se encontrado comigo e que era para Mary jamais ler o livro ou falar comigo. Seriam necessários outros quatorze anos até que seu tio Jack lhe contasse que tudo era verdade.
Em 1969 e 1970, quando eu estava preparando o livro, as tias, os tios e a avó materna, horrorizados com o que havia acontecido e na esperança de
que saber mais sobre a vida de Mary poderia fazer com que as pessoas a tratassem com mais gentileza nos anos seguintes, contaram-me tudo o que sabiam, ou talvez tudo o que conseguiam dizer, sobre sua primeira infância. Acho que Mary entendeu, desde o momento em que iniciamos nossas conversas, que as coisas que aconteceram com ela quando criança e, depois, a morte dos dois garotos teriam que ser a parte central da história que ela iria me contar e que eu iria escrever.
Nos dois primeiros dias que passamos juntas, conforme eu disse no
início do livro, ela falou somente sobre a filha – e, por extensão, sobre si mesma como mãe. Foi no terceiro dia que eu disse a ela que precisávamos conversar sobre sua infância, indo até o mais cedo que ela conseguisse lembrar. O quanto ela sabia, perguntei, sobre o que a família me contara sobre sua mãe?
Ela me perguntou, reagindo à minha pergunta sem sequer uma pausa, se eu sabia que sua mãe ficara escondida em um convento enquanto estava grávida dela.
“Não, não sabia disso”, respondi. “Quem lhe contou isso?”
“Ela contou”, Mary disse. “Numa noite quando estava... Ah, bêbada, acho, para me mostrar como foi duro para ela, como as freiras eram difíceis,
como ela teve que trabalhar duro, exatamente como era antigamente com garotas católicas que tinham filhos ilegítimos...”
Mary revelou que sabia que eu havia escrito sobre algumas das coisas que a mãe fizera com ela desde muito cedo, mas queria saber o que eu sabia. “Depois”, disse, balançando a cabeça abruptamente de maneira curiosa, “vou contar para você”.
Contei-lhe que sua tia Cath dissera que ela e a avó não entenderam quando a primeira coisa que Betty disse ao colocarem o bebê em seus
braços foi: “‘Tirem essa coisa de perto de mim’. Cath havia dito que você era o bebê mais lindo”.
“Bem”, respondeu, com a voz áspera, “foi esse o momento em que eles deveriam ter me tirado de perto dela para sempre, não é?”.
Nunca houve qualquer possibilidade de Billy Bell ser o pai biológico de Mary. Betty o conheceu apenas alguns meses depois do nascimento da menina. Ela se casou com ele em março de 1958 e P., a segunda criança, filho de Billy, nasceria naquele outono. Eles estavam morando com a mãe e
a irmã mais nova de Betty, Isa, em um agravável apartamento em Gateshead, logo em frente ao rio, próximo de Scotswood. A mãe, Sra. McC., apesar de sofrer de enxaqueca e tensão nervosa, para as quais tomava remédio, sempre soube como tornar o lar confortável. Era muito cuidadosa em relação ao lugar em que guardava seus remédios, conforme me contaria em 1970: “Especialmente quando havia crianças por lá”. Mantinha o frasco atrás do compartimento de agulhas usadas de um velho gramofone que ficava no alto de um pequeno baú, e guardava em uma gaveta a agulha de
tricô que usava para retirar o vidro do esconderijo.
Apesar dessas precauções, Mary, com 1 ano de idade, de alguma maneira pegou os comprimidos e os tomou. Para conseguir isso, o bebê precisou encontrar a agulha de tricô, escalar até onde ficava o gramofone, alcançar a parte de trás dele com a agulha para puxar o vidro, retirar a tampa de segurança e tomar o suficiente dos comprimidos de gosto ruim para quase se matar. Por sorte, a avó a encontrou a tempo; correram com ela para o hospital, onde a menina se recuperou depois de passar por uma lavagem estomacal.
Um ano e meio depois, em novembro de 1959, Cath, irmã de Betty, recebeu uma carta dela dizendo que as coisas estavam ruins e que ela havia “dado May para os [D.]”, amigos de Cath e do marido, Jack, que moravam em uma cidade próxima. Eles sempre haviam demonstrado interesse por Mary e, por várias vezes, pedido para adotá-la. Cath foi atrás dos D., e Mary foi devolvida à mãe.
Seis meses depois, quando Mary tinha quase 3 anos, Cath foi visitá-los e levou dois pacotes de doces sortidos, um para Mary, um para o irmão dela,
P., que estava então com 18 meses de idade. As irmãs foram para a cozinha fazer chá e, quando Cath voltou, encontrou as crianças sentadas no chão comendo doces que haviam caído e se espalhado. Para seu horror, ela viu entre os doces uma grande quantidade de pequenos comprimidos azuis, que reconheceu como sendo Drinamyls (anfetaminas), e as crianças disseram que, sim, haviam comido alguns. Betty disse que as crianças deviam ter pegado o vidro em sua bolsa. Cath apressou-se em buscar um copo de água quente com sal. Ambas as crianças vomitaram na pia e foram então levadas
para o hospital, mas os médicos disseram que tudo havia saído.
Algumas semanas depois disso, Cath e Jack, àquela altura seriamente preocupados com a segurança de Mary, escreveram para Betty e Billy, como já haviam feito duas vezes, e pediram que eles os deixassem ficar com Mary – “não adotar”, eles deixaram claro, para tornar mais fácil para Betty, mas ficar com Mary até que ela terminasse a escola. Betty disse não.
Três meses depois, no verão de 1960, Betty e Mary estavam visitando a Sra. McC., em Glasgow. Como o apartamento dela ficava no terceiro andar
e os banheiros, no primeiro nível, a família tinha o hábito de deixar as crianças fazerem xixi na pia, que ficava perto da janela.
Um dia, enquanto a mãe de Betty estava trabalhando como recepcionista em um hospital próximo, seu irmão, Philip, e sua irmã mais nova, Isa, estavam sentados no sofá a uns dois metros da pia. De repente, Philip viu Mary, que Betty estivera segurando de pernas abertas sobre a pia, caindo pela janela, que estava totalmente aberta. Ele atravessou a sala em disparada e de alguma maneira conseguiu agarrar a menina pelos tornozelos e puxá-la de volta para dentro: “Ele ficou sem trabalhar por três semanas depois disso, porque machucou as costas ao agarrá-la”, contaram-me as irmãs dele
mais tarde.
Mary tem uma vaga lembrança dos arranhões e esfolados em suas pernas e das vozes raivosas associadas a eles naquela ocasião. Ela também se lembra de parte do que aconteceu a seguir. A família de Betty havia ficado preocupada; Isa foi instruída pela mãe a não deixar que Betty e Mary saíssem de vista. Alguns dias depois do incidente da janela, Isa seguiu Betty enquanto esta levava Mary para uma agência de adoção. Uma mulher saiu da sala de entrevistas chorando e disse que não lhe dariam um bebê por
causa da sua idade e porque ela estava emigrando para a Austrália. “Eu trouxe essa para ser adotada. Fique com ela”, disse Betty, empurrando a garotinha para a estranha e indo embora em seguida.
Isa, que mais tarde me contou a história, seguiu a mulher e Mary e, após anotar o endereço para onde ela fora levada, correu até o hospital e contou à sua mãe. Elas correram para casa e a Sra. McC., ao que parece, falou com Betty que, se a menina não estivesse de volta em duas horas, ela contaria à polícia. Mary foi buscada, com alguns vestidos que a mulher já havia
comprado para ela e permitira que ela levasse.
“É disso que me lembro”, Mary disse. “Uma casa bonita e um monte de roupas novas, e Isa, eu acho, vindo e me levando embora. Por que eles fizeram isso?”, ela me perguntou com voz de criança, como aconteceria várias vezes ao longo dos dias seguintes. “Por que não me deixaram com a senhora que queria uma filha?”
Mary de repente soou mais atenciosa.
“Essa seria uma oportunidade para ela também. Teria impedido,
impedido o que quer que fosse. Ela não tem culpa”, ela disse. “Você tem que dizer que ela não tem culpa. Eu não queria que ela parecesse meio ‘Ah, que vagabunda, que horror’, por que ela não era assim, não era.”
Perguntei o que Mary achava que se passava com a mãe, e ela balançou a cabeça.
“Não sei. Simplesmente não sei.”
O pior “acidente” de Mary aconteceu cerca de seis meses depois, quando ela tinha quase 4 anos. O registro no Hospital Geral de Newcastle declara: “Mary Flora Bell, Elswick Road, 28, Newcastle/Tyne, 6/3/61 a 9/3/61: sob os cuidados do Dr. Cooper”.
Cath correu para Newcastle assim que um policial foi avisá-la (ela não tinha telefone) de que Mary estava no hospital. Quando chegou, Mary já havia passado por uma lavagem estomacal e voltado à consciência. Betty estava em pé do lado de fora da enfermaria. “Não acredite nela”, ela implorou à irmã. “Está dizendo que eu dei os comprimidos para ela.”
Dessa vez, aparentemente Mary havia engolido uma grande quantidade dos suplementos de ferro de sua mãe. Quando acordou, disse para o médico: “Minha mamãe me deu as bolinhas...”, e ficou repetindo isso por
24 horas. E aqui houve uma testemunha, uma garotinha de 5 anos, a melhor amiga de Mary. Cath a encontrou na rua alguns dias depois, e a menina disse: “A mamãe de Mary deu as bolinhas para ela no quintal”.
Depois desse incidente, Betty e a família trocaram palavras pouco amigáveis.
“Uma vez é acidente, até mesmo duas poderia ser”, Cath se lembra de ter dito a ela, “mas três, e agora quatro vezes, é impossível”.
Pouco depois, a Sra. McC. e as outras filhas receberam cartas de Betty –
mais tarde, Cath me mostrou as que ela recebera – dizendo que não queria vê-los nunca mais. E eles não a viram por mais de um ano.
Em The Case of Mary Bell, do qual tirei a maioria das descrições que você acabou de ler, eu terminei essa seção sobre a infância de Mary dizendo que, embora a família não tivesse visto Betty durante um ano, de certa forma a preocupação deles teve o efeito desejado, pois esse acabou sendo o último dos acidentes domésticos de Mary. Mas eu estava terrivelmente enganada.
Não acho, por um minuto sequer, que qualquer membro da família de Betty sabia do terrível uso que ela estava fazendo de Mary a partir de determinado momento, logo depois que parou de ver a família. Durante os primeiros quatro anos da vida de Mary, independentemente do quanto seus familiares pudessem ter relutado em deixar que qualquer pessoa de fora da família soubesse dos sentimentos doentios de Betty em relação à criança, se eles tivessem a menor ideia do que estava para acontecer e continuaria acontecendo durante os quatro anos seguintes, tenho certeza de que eles teriam agido para salvá-la.
Mary se lembra tanto do hospital quanto de sua mãe lhe dando os comprimidos.
“Lembro que eu estava em um triciclo. Tenho certeza de que os comprimidos estavam em um tubo de confeitos de chocolate e eles não perderam a cor quando os coloquei na boca, como os de chocolate perdiam. Eu me lembro disso, e lembro que vomitei e me senti anestesiada. Me lembro de uma cama branca e de pessoas vestidas de branco em pé, em volta de mim. E de um dos médicos dizendo ‘olhe para estes olhos’.
“Então lembro, não muito depois disso, que flagrei ela e o proprietário do imóvel onde morávamos: imagino que ela estava pagando o aluguel”, ela disse com raiva. “Ela me bateu, e o proprietário tentou passar por mim e subir as calças ao mesmo tempo. Ela me agarrou pelo cabelo e me jogou na cozinha. Westmoreland Road, onde morávamos, tinha uma espécie de sala de estar onde meus pais e K. [a irmã mais nova dela] dormiam. Billy ficava a maior parte do tempo fora, e K. estava com minha tia Audrey. E aquele quarto era cheio de crucifixos e rosários dependurados – eles estavam por
toda parte e, quando você estava na cama, encostavam em você. Tinha uma cozinha e um quarto nos fundos, que havia sido uma espécie de dispensa para guardar carvão, onde P. e eu dormíamos. Billy fez uma toca para o meu coelho. Tinha outros quartos na casa: Harry Bury, amigo de Billy, morava no andar de cima, e o irmão dele também tinha um quarto, e uma mulher chamada Frizzy, que tinha um bebê. Tudo estava bem quando meu pai estava lá. Mas, frequentemente, ele não estava.”
A história parece ser toda uma única lembrança, contada de uma só vez,
mas não foi assim de maneira alguma. Devo admitir que, a princípio, eu estava tão cética quanto aos detalhes de que ela se lembrava, e tão preocupada com a horrível natureza deles, que fiz com que ela me contasse três vezes ao longo dos meses.
A primeira vez foi duas semanas depois que começamos a conversar, em julho de 1996. A última foi no início de dezembro daquele ano. Em julho, ela demorou quatro dias para botar tudo para fora, às vezes com voz monótona, mas, com mais frequência, com profunda angústia. Seu rosto ia ficando mais e mais pálido, disparava a suar e, por fim, ela falava em meio a soluços de desespero, passando sua fala para o tempo presente, como já
havia feito antes quando estava sob extrema pressão emocional.
Ela não se lembrava de quantos anos tinha, mas achava que 4 ou 5.
“Eu ainda não estava na escola”, ela disse. Mary se lembra de que fizeram com que ela se sentasse na sala de estar e que havia um homem na cama com a mãe dela. “Pelo que lembro, o pênis desse homem era todo branco, isso é o que lembro, branco mesmo, e quando ele... É... Você sabe, a coisa sai, eu simplesmente não conseguia entender de onde saía, sabe, ou o que era.” Ela franziu o nariz como se estivesse sentindo um cheiro nojento.
“Tinha aquele cheiro, terrível, nojento... Era terrível, e aí eu estava na cama e aí... Eles vieram pra cima de mim.”
À medida que ela respondia às minhas perguntas, uma lembrança se misturava à outra.
“Eu estava usando umas meiazinhas brancas e só uma blusa e, hum, uma fralda, uma coisa parecendo fralda... E minha mãe...”, Mary suspirou profundamente (minhas anotações dizem: “soltando a respiração aos pouquinhos”) e continuou. “Minha mãe me segurava, com uma mão
puxando minha cabeça para trás, pelo cabelo, e a outra segurando meus braços atrás do meu corpo, meu pescoço para trás, e... E... Eles colocavam o pênis na minha boca e quando... Quando, sabe, eles... Ejaculavam, eu vomitava.
“Às vezes ela vendava meus olhos – ela chamava isso de ‘brincar de cabra-cega’. Ela amarrava uma meia por cima dos meus olhos e me erguia e girava, rindo. E aí ela colocava uma coisa... Uma coisa de seda no meu rosto para... Para fazer minha boca ficar aberta e era tão terrível, com os
rosários batendo em mim; eu me sentia muito mal, muito mal.”
Ela me dissera que, quando o pai estava por lá, ela sempre se sentia segura. Então, perguntei, por que ela não contou a ele? Por que não pediu a ajuda dele?
“Eu tinha tanto medo, porque antes de acontecer, ou depois, ela diz que, se eu contasse qualquer coisa, ela me levaria para longe e me trancaria. Você sabe, te contei da guarita em Tyne Bridge? Era para lá que ela dizia que eu iria. E ela disse que ninguém acreditaria em mim. E, de qualquer jeito, acho que eu devo ter pensado que era minha culpa. Eu tinha feito algo de errado e estava sendo castigada. Eu... Eu...” Ela chorava e chorava. Foi
um dos piores momentos do tempo que passamos juntas. “Eu me sentia tão... Tão suja.”
Com que frequência isso acontecia?
“Não sei. Não com muita frequência, talvez, ou quem sabe algumas vezes. Sei lá.”
O que fica claro é que tanto a imagem do pênis branco quanto o obsceno jogo de “cabra-cega” a que sua mãe a havia submetido tinham permanecido em sua memória inconsciente todo aquele tempo. Afinal, o “jogo” havia
aparecido inesperadamente e sem contexto em uma visita de Mary, aos 14 anos, a um hospital psiquiátrico onde sua mãe estava presente. E, em 1983, ela havia falado com Pat Royston sobre memórias de pênis brancos e pessoas sendo espancadas, sem detalhar o resto do abuso.
Eu sabia que um exame médico antes de ela ser mandada a Red Bank havia mostrado que ela estava intacta. Perguntei a ela se os homens a haviam tocado, embaixo. Foi muito, muito difícil para ela encontrar palavras para responder.
“Sim, mas... Não quero dizer que... Não, acho que não colocavam o pênis lá, acho que não... Eu não... Quero dizer, me seguravam de barriga para baixo. Doía para diabos, doía... Doía mesmo, mesmo. Eu estava amordaçada, mas gritava ‘está doendo, está doendo’. E ela dizia para mim suavemente ‘não vai demorar, não vai doer por muito mais tempo’. Mas demorava. Eu ficava machucada. Quando eu ia no banheiro, estava machucada e tinha marcas, marcas de arranhão nas pernas e marcas onde eles enfiavam coisas em mim.”
Coisas? Que tipo de coisas?
“Eram... Pareciam balas, tipo bala de espingarda, com uma coisa de metal, uma coisa que parecia supositório... Eles costumavam enfiar essas coisas em mim torcendo.”
Onde?
“No meu... Bumbum... Em cima das pernas.” Mary levantou a saia do longo vestido que estava usando e me mostrou umas curiosas cicatrizes arredondadas.
Perguntei se ela alguma vez se perguntou por que eles faziam isso. Ela balançou a cabeça.
“Talvez para me fazer chorar? Mas eu não chorava. Eu não iria chorar.”
“Você está chorando agora; você está chorando aqui.”
“Eu não chorava na hora”, Mary repetiu.
Sua mãe lhe dava coisas depois?
“Sim, doces, e ela ficava simpática comigo e ria. Me lembro das vezes em que ela fazia isso, depois eu sentia que ela me amava. Eu ganhava um saco de batatas fritas e não apanhava. Me lembro dela muito linda, e não me xingava, e até mesmo me ensinava a tricotar. Mas aí, ela arrebentava os
pontos do tricô e jogava as coisas em mim.”
É de alguma relevância que, quando Pat Royston e eu conversamos, ela ainda não tinha lido meu primeiro livro.
“Mary mandou que eu não lesse”, ela disse. “Então, não li. É assim que trabalhamos no serviço de Condicional: se eu tivesse lido, teria que contar a ela e poderia perder sua confiança. As lembranças de sua primeira infância”, Pat disse, “pareciam inteiramente focadas em castigos, fossem surras, ser dada a estranhos, ser forçada a fazer outras coisas terríveis que
ela não especificou, mas que pareciam ruins, tinham gosto ruim, cheiro ruim ou coisa assim. Todas essas terríveis recordações eram dominadas pela lembrança da mãe lhe dirigindo olhares cheios de ódio – da mãe olhando para ela com ódio. Ela me contou sobre essas surras constantes em casa, mas também das chicotadas, parece que na presença de homens que, ela se lembra, tinham pênis eretos. Foi um relato inacreditavelmente emocional. Me lembro de sentir que eu tinha que registrar tudo de uma vez, mas fiquei completamente exausta com o desespero dela. Me lembro de voltar para
casa naquela noite, e meu companheiro, Martin, teve que me abraçar, de tão perturbada que eu estava”.
Perguntei a Mary por quanto tempo esse terror continuou.
“Em Westmoreland Road”, ela disse. “E também em outro quarto próximo, em Elswick Road, que acho que pertencia a uma amiga dela, Elsie. Acho que enquanto eu era pequena, pequena mesmo, 4, 5, 6 anos. Depois disso, ela ou Elsie me levavam para quartos onde viviam homens velhos e me deixavam lá.”
E o que acontecia?
Ela deu de ombros. “Não muita coisa. Eles tocavam em mim. Eles se
masturbavam. Eu não me importava.”
Ela se importava, sim. E demonstrou isso de um jeito extraordinário quando tinha de 7 para 8 anos, ela acha.
“Te contei sobre o amigo de papai, Harry Bury, o homem que catava bugigangas na rua e morava no segundo andar da nossa casa em Westmoreland Road? Ele era fantástico. Me chamava de amuleto da sorte. Um dia subi até o quarto dele, e ele provavelmente tinha bebido e estava deitado dormindo de costas. Eu subi e comecei a mexer com a calça dele...
Sabe, abri os botões ou o zíper ou sei lá o que e puxei para fora.”
Puxou o pênis dele para fora? Por quê?
“Queria ver se ele era igual a todos os outros. E ele deu um pulo, ficou completamente enojado e disse: ‘Que diabos você está fazendo...?’. Mas aí, quase de imediato, ele falou: ‘Está tudo bem, tudo bem. Vamos tomar uma xícara de chá e dar comida ao gato’. Depois disso, me senti bem. Na vez seguinte em que surgiu o assunto, eu disse à minha mãe que não iria mais fazer aquilo...”
Em 1970, eu conversei brevemente com Harry Bury. Como ele achava que aquilo tinha acontecido – o que quer que tenha acontecido com Mary?
“Quando ela era muito pequena”, ele disse depressa, “foi quando isso começou, parece...”