Por que Crianças Matam
Parte 6 – O começo de um futuro: 1984 a 1996
PARTE 6
O começo de um futuro: 1984 a 1996
Passos hesitantes
1984 a 1996
N ão acho que, na visão de Mary, os primeiros onze anos da infância de sua filha tenham sido determinados por seu desejo inconsciente de manter a maior distância possível entre a menina e a mãe de Mary. Mas o fato é que, no período entre pouco depois de sair da prisão e a gravidez, nem ela nem Betty conseguiam resistir a uma carência recíproca. Até o verão de 1985, por quase dois anos, nem Mary havia visto Betty, nem esta havia visto o bebê.
“Não queria que ela [a criança] sentisse a influência dela [Betty]”, Mary explicou.
Em 1985, Mary fizera uma histerectomia devido a uma suspeita de
câncer. Três semanas depois, segundo Pat Royston me contou, havia retornado ao hospital com uma infecção.
“Foi no dia em que Mary voltou”, Pat disse, “que Betty apareceu de repente na casa deles, extraordinariamente vestida em calças de cetim roxas. Extraordinariamente”, ela acrescentou, “por que era o tipo de coisa que ela vestia anos atrás, mas nenhum de nós a tinha visto assim desde que ela passou a viver respeitavelmente com George”.
“Eu estava sentada segurando o bebê”, Mary disse. “Não conseguia
acreditar que ela [minha mãe] tinha vindo assim, sem ser convidada. Quero dizer, aquela era minha casa; eu não a queria lá. Nem mesmo queria que ela me visse com o bebê, então não disse nada, apenas escondi meu rosto no cabelo do bebê. Pat disse para a minha mãe ‘O que você acha de sua neta? Não é linda?’. ‘Não tenho que falar com você’, minha mãe respondeu e saiu.”
Mary não deu o bebê para ela segurar?
“Deus me livre!”, ela respondeu com um tom sincero, mas, agora, quase
com ironia em vez de raiva.
Foi também nessa época que o casamento de Mary mostrou suas primeiras fraquezas. Rob, ela me disse, e Pat confirmou, era jovem demais
para entender os efeitos físicos e emocionais de uma histerectomia em uma jovem mulher.
“Eu fiquei sabendo que ele estava fazendo piadas sobre mim para os amigos dele... Falou com todo mundo que eu fiquei frígida.”
Ele fez mais do que isso, porém. Começou a existir pela fama de Mary. “Como minha mãe sempre fez, mesmo”, ela disse. Ele começou a falar cada vez mais sobre o passado dela, não apenas com amigos, mas também com estranhos.
“Quando nos tornamos amigos, cometi o erro fatal de contar a ele sobre a oferta de um cheque em branco pela minha história feita por uma revista estrangeira, e agora percebo que isso ficou na cabeça dele desde aquele instante. Quando largou o emprego, ele disse que queria passar mais tempo com o bebê, e fez isso – era verdade, ele amava o bebê –, mas tinha também outros planos”.
Em algum momento no final daquele ano, Mary, incentivada por Rob, ficou uma semana (72 horas seguidas, ela me disse) passando parte de sua
história para o papel – nada sobre sua infância, nada sobre sua mãe, uma repetição de seus depoimentos sobre os crimes no tribunal, e muita coisa sobre seus anos de detenção.
“Era fácil escrever a verdade sobre a prisão”, ela disse, e deu de ombros. “Mas o restante era, em sua maioria, mentiras.” Mary deu de ombros novamente. “Sensacionalismo: era o que eu sentia que as pessoas queriam.”
Levaria muitos anos até que ela desenvolvesse juízo moral suficiente para entender que “sensacionalismo” era exatamente o que as pessoas
rejeitariam se viesse dela, conforme demonstrou a agência que concordou em trabalhar seu manuscrito quando estipulou que cinquenta por cento do que o tal livro arrecadasse seria dado à Associação Nacional para a Prevenção da Crueldade contra Crianças.
“Achei que isso era pura hipocrisia. Era bajulação, mau gosto; seria como se eu estivesse dizendo ‘por favor, gostem de mim, sou uma boa pessoa porque estou dando dinheiro para a caridade, para crianças, ainda por cima’. Era nojento. E eu não achava que, para pessoas decentes, aquilo me faria uma boa pessoa, nem provaria que eu era. Então, mandei eles se danarem.”
Cerca de um ano depois, quando o casamento de Mary estava quase se acabando, George foi visitá-la e lhe disse que havia deixado Betty.
“Ele disse que ela tinha descontado todas as suas tristezas, suas mentiras e suas culpas nele durante 21 anos, mas ele não conseguiria mais suportar aquilo. Ele disse que garantiria que ela sempre estivesse bem em termos financeiros e, quanto a mim, sempre seria meu amigo, mas isso era tudo.
“Bem, fiquei com pena dela. Corri para lá, e ela estava sentada como um pato à beira da morte, e me implorou para trazê-lo de volta. Mas isso era
impossível. Ele tinha encontrado outra pessoa muito boa e eu sabia que aquela seria a vida dele dali em diante.”
Mas a vida de Mary também estava prestes a mudar. Durante vários meses, enquanto Rob estava cada vez mais “na gandaia”, como ela diz, Mary havia conhecido um rapaz chamado Jim, em uma boate aonde ia com amigas de vez em quando, e de quem gostou.
“Eu não pensava nele seriamente”, ela disse. “Mas como o relacionamento que eu vivia estava muito, muito abalado, eu ficava criando
fantasias. Mas nunca sonhei que ele – Jim – estava pensando em mim do mesmo jeito. Nunca teria ousado...”
Eles se tornaram amigos e foi a Jim que ela recorreu quando, alguns meses depois, no começo de maio de 1988, uma briga mais séria (sobre Rob sair por aí falando de Mary como se ela fosse “algum tipo de aberração”) pôs um fim no casamento.
“Entenda, eu tinha que sair dali”, Mary explicou. “Durante doze anos, tinham repetido para mim que eu tinha que me controlar, e eu me controlei:
não apenas aprendi isso, eu sentia isso. Mas naquela noite, quando uma amiga me contou o que Rob vinha falando sobre mim, esse controle se rompeu. Eu bati nele, dei socos, e aí me detive e saí correndo... Sabia que ele amava [a criança, que estava então com 4 anos] e era mais do que capaz de tomar conta dela durante uma noite. Eu tinha que sair.”
“Eu vinha acompanhando aquele relacionamento havia quatro anos”, Pat Royston disse, “e tinha me dado conta desde muito cedo de que Rob era imaturo demais. É claro que Mary é uma pessoa muito complexa, e ele não conseguiu lidar com isso. Em sua frustração, várias vezes ele havia sido violento com Mary, que tinha aceitado aquilo. Mas quando foi demais para
ela, Mary se viu respondendo violentamente contra ele e, penso que de maneira muito correta, afastou-se ao perceber que estava perdendo o controle”.
No dia seguinte, houve uma reunião no escritório do Serviço de Condicional e Pat levou a criança para Mary. Quatro dias depois, Jim, Mary e a garotinha se mudaram para o Sul. Era a intenção deles se estabelecerem lá, e Jim logo encontrou um emprego para trabalhar com instrumentos de precisão. Mas apenas seis meses depois, ele saiu de lá em protesto à
demissão de um colega de trabalho. Jim estava convencido de que o colega fora demitido só porque era negro.
“Jim simplesmente não aceita isso”, Mary disse, “mas não tínhamos dinheiro guardado, então tivemos que voltar para onde ele podia contar com os pais e eu podia contar com Pat...”.
Pat havia trabalhado durante anos para reerguer a frágil autoestima de Mary e auxiliar nas emergências. “Mas a próxima foi verdadeiramente catastrófica”, ela disse.
Os três haviam se estabelecido em uma pequena vila. “Onde quer que Mary (ou qualquer detento de prisão perpétua em liberdade) vá viver”, contou Pat, “a agente de condicional dela tem que informar o Chefe de Polícia da região; e ele, por sua vez, deve contar à polícia local. Nessa circunstância, um policial na vila, ao saber quem era ela, contou à esposa”.
Junto com outros moradores da vila, ela preparou uma petição e logo as pessoas estavam fazendo uma manifestação na rua com faixas: “Fora, assassina”.
“Claro que tive que mudá-los de imediato”, Pat disse. “Mary estava angustiada, completamente angustiada. Ela tinha dado graças a Deus que a criança ainda não soubesse ler, mas como poderia viver colocando-a sob esse risco? Era terrível. E disseram que queriam voltar para o Sul e nunca mais voltar para o Nordeste. Bem, achei que essa era uma reação legítima. Então, nós os ajudamos a se mudarem para uma área no sul da Inglaterra, em que ela poderia ter a ajuda de uma agente experiente.”
Samantha Connolly, que se tornou a agente de condicional de Mary a partir de outubro de 1988, é uma das pessoas mais calorosas e atraentes que
eu vim a conhecer enquanto trabalhei com Mary. Agora aposentada, ela trabalhou no Serviço de Condicional durante trinta anos e, com exceção de Pat Royston, tornou-se a mais sábia conselheira de Mary.
“Conheci Mary num dia de final de outono, no início da tarde”, ela relembrou. “Eles haviam conseguido se estabelecer muito rapidamente em uma fazenda, onde os proprietários deram a eles uma casinha muito boa sem cobrar aluguel em troca da ajuda de Mary no casarão por doze horas semanais e de um dia inteiro de trabalho de Jim no campo. Durante o resto
da semana, ele arranjou um emprego como carpinteiro que adorava e trabalhava duro.”
Sam ficou impressionada com a recepção que a pequena família fez para ela.
“Mary foi muito amável, muito educada, quando telefonei para ela”, a agente disse, “e tinha preparado a mesa para o chá quando eu cheguei. Não é com isso que estou acostumada ao visitar meus clientes”. Ela riu. “Normalmente há uma xícara de café ou chá, mas não é com um pequeno
banquete cuidadosamente preparado que eles costumam receber as pessoas. Você sabe, ela não estava fingindo para mim nem nada; era uma moça feliz com o lar e era tímida e calorosa... Tudo muito inesperado. Eu fiquei impressionada também com a delicadeza deles: a criança não estava lá quando cheguei – tinha sido levada para brincar com novos amigos; e Jim pediu licença após uma xícara de chá, dizendo que iria buscá-la, mas era claramente porque se deu conta de que eu queria falar com Mary sozinha.
“Pat, é claro, havia me informado até certo ponto, e eu havia lido
cuidadosamente o arquivo que ela me mandou. Aprendi muito com Pat, mas muito pouco com a parte do arquivo anterior à liberdade de Mary, que afinal deveria cobrir 23 anos da sua vida. Fiquei surpresa.
“Mas estava claro, pelo que Pat havia me contado, que Mary havia conversado com ela sobre sua infância, e decidi não tocar no passado a não ser que houvesse uma iniciativa dela própria. Me parecia que minha função era ficar de olho em como as coisas estavam caminhando, com os empregos deles, com o relacionamento e, é claro, em relação à criança...” Durante os cinco anos seguintes, Sam não apenas supervisionaria e aconselharia Mary, mas também (como Pat fizera desde o início) ficaria de olho na criança, que
permanecia protegida pela Justiça.
Sam tem tanto um senso de humor quanto um olhar crítico em relação ao que está atrás da fachada que as pessoas frequentemente constroem, e passou a simpatizar consideravelmente com Jim.
“Desde o começo, senti uma espécie de força interior nele que, como vim a entender, era absolutamente crucial para Mary”, ela disse. “Observei também garotinha deles durante cinco anos; não sei como Mary faz isso, mas ela é uma criança inteiramente segura e feliz.
“De alguma forma”, Sam disse, ecoando meus próprios sentimentos, “Mary tornou-se duas pessoas para o seu próprio bem. Há a Mary consistente, capaz daquilo que posso traduzir como uma disciplina suave e excelente para a criança, e princípios claros mesclados a muita alegria. E existe a outra Mary, cuja mente caminha desordenadamente sobre inúmeras coisas, incapaz de se agarrar a um mesmo assunto por mais de um instante, especialmente quando está deprimida; sua depressão é sempre em relação à própria culpa. Ao falar com ela, você não conseguiria tocar no assunto que
ela própria introduziu antes que ele desaparecesse em um rebuliço de outros pensamentos e outras ideias. E se você quisesse voltar a ele em outro dia, aquela Mary não conseguiria fazer isso. Mas a outra Mary – a mãe da garotinha – era totalmente consistente não apenas no que fazia, mas também nos pensamentos e nas ideias que ela comunicava à criança”.
Sam achava que não poderíamos sequer começar a entender como Mary aprendera a ser mãe de uma criança, dado seu modelo familiar, além do fato de que a fase final de sua infância, sua adolescência e sua fase de jovem
adulta foram totalmente institucionalizadas.
“Observei-a durante anos”, disse Sam. “Era meu trabalho, mas era também um prazer. Era extremamente interessante para mim o modo como ela, que não consegue se ater a nada nem por um instante – empregos, cursos, mesmo ideias –, era capaz de criar várias oportunidades para a criança. É quase como se ela pudesse transferir – se você quiser chamar assim – aquela habilidade enterrada em si mesma para a criança. Ela é muito, muito capaz de amar. Muito delicada, mas sem exageros; não satisfaz as próprias necessidades. É uma mistura de dar à criança muita liberdade para fazer as coisas por conta própria e com amigos e, por outro
lado, conter esse lado muito protetor. Quando ela foi para a escola, Jim ou Mary sempre a levavam e buscavam. E eles faziam muitas coisas com ela: esporte, jogos, andar de bicicleta quando ela já tinha aprendido... Mas com tudo isso, Mary impunha muita disciplina – hora de dormir era hora de dormir. Se ela saísse para brincar, tinha lugares aonde ela não poderia ir. Se ela quisesse ir além de uma distância estabelecida, tinha que pedir e, se Mary dissesse que não e a criança ficasse emburrada dizendo ‘você é uma mãe terrível’, como as crianças fazem, Mary parecia conseguir aceitar
aquilo com o tipo de tranquilidade que ajuda a criança a superar seu mau humor. Se a criança fizesse uma pergunta, a mãe dava uma resposta, não fugia do assunto. Sabe, no que diz respeito à filha, Mary pensa apenas de forma saudável. Lembro-me da segunda vez que a visitei; eu estava tomando chá com ela e, de repente, a garotinha disse: ‘Tenho dois pais, não tenho?’. E Mary a abraçou e disse: ‘Sim, você não é sortuda?’.”
Tendo dito isso, Sam explicou que não queria me passar uma falsa impressão. Mary, embora fosse uma das “clientes” mais interessantes que
ela teve, era também uma das mais difíceis e exaustivas.
“Depois de algum tempo, Mary conversou comigo sobre seu passado”, ela disse. “Muitas vezes, só em algumas pinceladas. Acredito que as pessoas só conseguem lidar com um pouco de cada vez. Eu só reagia ao que ela me dizia. Houve muitos momentos bons, mas os ruins conseguiam ser ruins mesmo, muito intensos. Me lembro de dias em que, ao voltar para casa, eu tinha que me deitar de tão exausta que estava com aquilo, e várias vezes pensava ‘Como Jim aguenta isso?’, porque é claro que tudo devia cair
em cima dele.”
Sam não achava que Mary era o que ela chamava de uma pessoa “chorona”.
“Ela só chorava quando estava muito para baixo, quando seus sentimentos de culpa a sobrecarregavam. Mas aí podiam vir tempestades de soluços incontroláveis. Você sabe, não tem como tirar a culpa dela. Está lá. É um fato. E, basicamente, tem que estar. A questão é: como se pode ajudar alguém a viver com isso?”
Sam achou a responsabilidade de supervisionar Mary particularmente solitária.
“Nossos departamentos são muito pequenos. Todo mundo lida com muitos casos e, ainda que a maioria dos clientes não seja tão complexa ou não envolva tantos riscos quanto esse pesadelo de publicidade como Mary, eles ainda são difíceis. [No caso de Mary] antes de tudo tinha a identidade secreta dela, com a qual já havia ocorrido aquele problema terrível no Norte; depois havia sua grande evidência, e a minha responsabilidade de manter a criança segura, longe disso tudo. E quando você está lidando com um ser humano com uma dor terrível dessas, você se preocupa muito se,
mesmo com tudo o que aprendeu, você sabe o suficiente. Quando ocorre uma crise, você não pode trocar ideias com ninguém. Tem que aguentar sozinho a ansiedade de não saber se está fazendo a coisa certa, e isso é difícil.” Pelo menos, Sam e Pat podiam se comunicar por telefone e resolver juntas um certo número de problemas práticos urgentes relativos a Mary.
Em questão de semanas após a chegada de Mary ao Sul, houve o relato de um garoto de 13 anos que havia matado uma garota de 2.
“A mídia enlouqueceu”, Sam disse. “Pat telefonou para dizer que eles
estavam procurando Mary por toda parte. Ela recebeu telefonemas da televisão e da imprensa e não sei de quem mais. Me disse para, pelo amor de Deus, avisar Mary. Fiquei andando para lá e para cá como uma barata tonta tentando encontrá-la; ela tinha saído para dar um passeio com um grupo de crianças. Por fim, me apressei para encontrá-la quando ela voltasse e falei com ela. Por mais estranho que possa parecer, ela estava completamente calma.”
Mary se lembrava da ocasião, mas disse que foi apenas uma de várias, e
que parecia que a imprensa a perseguia sempre que houvesse qualquer crime envolvendo crianças, fossem transgressoras ou vítimas.
“Naquele dia”, Mary disse, “tudo que me deixou contente foi que eu não tinha dado meu endereço à minha mãe; se tivesse, eles já estariam em cima de mim. Do jeito que tudo estava, senti que estávamos seguros”.
Sam contou que Mary havia finalmente conversado com ela sobre sua mãe, sua confusão por causa dela, sua necessidade de pertencer a ela, ao mesmo tempo em que existia a raiva dela.
“A raiva não era apenas pelo que a mãe havia feito com ela no passado”, Sam explicou, “mas por continuar a fazê-la se sentir culpada e
desvalorizada, isolando-a do resto da família e sugando-a emocionalmente. E claro que havia também a questão de quem era seu pai biológico, que parecia uma tortura para ela.”
Finalmente – Sam acha que foi em 1992 – Mary lhe disse que queria ir até a mãe e tirar isso a limpo sozinha.
“Nós três íamos para o Norte em maio, mas eu fui mais cedo, para o Dia das Mães”, Mary me disse. “Eu não tinha tido contato nenhum com ela e, logo que entrei na casa, ela disse: ‘Não faz diferença nenhuma para mim se
você vem ou não; você pode morar na mesma rua que a minha e eu nunca te veria’. Mas eu perguntei à queima-roupa, como tinha feito antes, lembra, depois que Chammy me contou, e ela apenas fugiu da minha pergunta. Mas dessa vez eu perguntei muito mais calmamente, e ela me falou um nome, um homem que era amigo do meu tio Jackie. Aí, alguns dias depois, Jim e eu fomos visitar tio Jackie, e eu disse: ‘Você vai me contar a verdade, já que minha mãe me deu um nome?”, e ele respondeu: ‘Vou, se puder’. E eu disse: ‘Meu verdadeiro pai é L. D.?’. E ele pareceu... Bem, o rosto dele
mostrava surpresa total... Tanta surpresa que Jim e eu tivemos que acreditar que não era ele. Depois disso, fui visitar Georgie e perguntei a ele outra vez, mas ele disse o que tinha dito antes, ‘É melhor você não saber’.”
No dia seguinte, quando eles estavam hospedados com os pais de Jim, Mary e a mãe dele estavam sentadas na sala de estar no início da noite, conversando sobre a família de Jim, “e eu estava contando para ela sobre minha avó McC., que tinha morrido [em abril de 1981], e sobre como minha mãe não tinha me deixado ir ao funeral porque disse que minha tia
Isa não iria querer me ver, pois ela ainda me culpava pela morte do pequeno John. Falei com a mãe de Jim sobre como me sentia péssima por não ter estado lá, pois amava muito minha avó, e, de repente, ela disse: ‘Você se incomoda se eu perguntar uma coisa? Não quero parecer mórbida e não quero te aborrecer, mas é algo que está na minha cabeça, então quero perguntar’. Eu disse que tudo bem, e ela disse, do nada: ‘Sua mãe abusou sexualmente de você?’. Ela disse que tinha lido seu livro e achava que tinha que haver um motivo para o jeito que eu era quando tinha 10 anos; que mais alguma coisa, que não estava no seu livro, devia ter acontecido. Então, contei para a mãe de Jim, e ela disse que me amava como uma filha e me
disse para perdoá-la, mas que ela, sinceramente, poderia matar minha mãe. Mas eu disse: ‘Ela é doente. Ela sempre foi doente’”.
“Foi isso que ela me contou ao voltar”, Sam disse. “Ela também falou que teria que desistir da questão de quem era seu pai verdadeiro. Mary tinha certeza de que a mãe nunca contaria, que era terrível demais para contar independente de quem fosse o pai. E Mary disse que queria e tinha tentado tanto estar mais próxima da mãe e que não achava que Betty quisesse conscientemente fazer mal a ela, ou fazer o que fez, ou fazê-la se sentir do
jeito que se sentia. Ela parecia muito bem naquele dia, mas não estava; estava num estado lastimável que só piorava.”
Em janeiro de 1993, Mary telefonou para Chammy e disse que queria vê-lo antes que ele morresse: ela não conseguia lidar com a culpa pelo que fizera.
“Sim, fiz isso”, ela me disse. “Foi nessa hora que tudo começou a pesar para mim, eu não conseguia suportar. Martin e Brian estavam na minha cabeça todos os dias, qualquer dia, qualquer dia comum, alguma coisa
trazia esses pensamentos, qualquer coisa: o Sol, uma noite bonita, a palavra ‘Gillette’, meu sentimento sobre ser mãe e sobre os pais deles, o que eles haviam passado por minha causa, ah Deus...” Ela começou a chorar. “Nunca vai ser o suficiente, nunca vai mudar... O peso disso. Sinto muito, sinto muito... Sinto... Mas são palavras... Não são? Só palavras...”
“Isso durou semanas, meses”, Sam disse. “Ela teve enxaquecas terríveis, como as muitas outras que havia tido antes; infecções de ouvido, abscessos na boca, resfriados, gripe. O médico a receitou analgésicos, e Jim ficou
muito preocupado com ela. E, ainda assim, mesmo que a dor estivesse claramente lá, ela conseguia deixá-la de lado quando a criança estava perto... Mas claro que, naquele momento”, Sam explicou, “veio o pesadelo do caso Bulger”.
“Foi mesmo um pesadelo”, Mary disse. “Me senti esgotada.” Ela afirmou que não sabia detalhe algum de como o pequeno James Bulger encontrou a morte, que não queria descobrir lendo artigos de jornais ou ouvindo os intermináveis noticiários sobre isso. “Mas fiquei imaginando se todo o pesadelo se repetiria: se aconteceria de novo do mesmo jeito que aconteceu comigo. Se condenariam um e absolveriam o outro. E me senti
muito... Mal.... Pelos pais daquele garotinho. Mas, veja, pelos outros pais também, me senti enojada, absolutamente enojada com o circo que fizeram em torno daquilo, e que eu sabia que se tornaria ainda pior quando fossem levados a julgamento como eu fui, com os nomes revelados e com o público tendo permissão para assistir... Fazendo filas por horas para entrar – eu ouvi alguém dizer isso –, para ficar olhando para eles de boca aberta...”
Uma vez, ela disse, eu estava na casa de uma vizinha e a televisão estava ligada “e os garotos estavam sendo tirados do tribunal e havia pessoas,
adultos, gritando, batendo, dando pancadas na van em que eles estavam como se quisessem matá-los. E aí – eu gelei – o apresentador comentou isso e mencionou meu nome: foi como um raio. De qualquer forma, os pais de Martin e Brian estavam na minha cabeça o tempo todo, mas quando isso aconteceu, ficou pior... Só pensei no que deve ter sido para eles ouvir isso; já era ruim demais sem precisar de comparações...”
“Todo mundo, todo mundo mesmo, falava sobre isso”, ela disse. “Meus amigos também, por que não falariam? Não consigo te dizer como era ouvir
‘Mary Bell’ a toda hora, e inúmeras vezes eram mentiras. Uma vez, liguei o rádio e, por acaso, um apresentador de um programa de debates estava dizendo que eu tinha telefonado para ele. Achei que fosse desmaiar. Nunca telefonei para ninguém. Nunca conversei com ninguém; depois de um tempo, nem mesmo com os amigos. Eu tinha pavor que alguém pudesse me descobrir, me reconhecer em fotos antigas que de repente reapareceram nos jornais. Teve uma enquete por telefone, uma amiga me contou, em que eles perguntavam às pessoas o que pensavam sobre um toque de recolher para
crianças. E uma mulher ligou e disse que se lembrava de um dia em que não entrou para casa quando a mãe dela a chamou, e, quando ela chegou, sua mãe a sacudiu e disse: ‘Se você não entrar quando for chamada, Mary Bell vai te pegar’.
“Era como se eu não conseguisse me afastar do nome. Por fim, não conseguia pensar sobre mais nada: não conseguia comer, não conseguia dormir. Eu soube, pela Sam, que os jornais estavam procurando por mim, e ela me disse que estava preocupada com a polícia local. Ela tinha medo de que um deles fosse me entregar, como já tinha ocorrido. Eu achava que era uma questão de tempo até que me descobrissem, e fiquei desesperada com
isso. Agora, não sei sobre o que eu pensava mais: o que tinha acontecido com o garotinho e o que aconteceria com os garotinhos que fizeram aquilo, ou minha terrível apreensão em relação às pessoas ligarem aquilo ao meu passado e me perseguirem.
“Sim, eu tinha medo não apenas da imprensa, mas também de que as pessoas me atacariam se descobrissem quem eu era. E foi tão difícil para Jim. Eu sabia que ele estava terrivelmente preocupado com minha reação, com o jeito como liguei aquele caso à minha história, com a dor que senti e
com meu pânico. Manter aquilo tudo longe [da filha dela] era o máximo de controle que eu conseguia. Me ajudava um pouco ter que fazer aquilo: de alguma maneira me forçava a dar uma respirada, mas, fora isso, como durante o dia, quando ela estava na escola, ou à noite, quando ela estava dormindo, eu sentia que estava caindo aos pedaços.
Foi Pat Royston quem, enfim, decidiu que a única coisa segura era levá-los de volta para o Nordeste e estabelecê-los em uma área onde ela conhecesse o Chefe de Polícia e pudesse confiar na polícia local.
“Tive que aconselhá-los a irem”, Sam disse. “Jim não se importou tanto assim; é verdade que havia recessão no Norte, mas ela nos atingiu também. Ele havia perdido o emprego e estavam vivendo do seguro social havia oito meses. Mary odiava ter que ir. Ela não queria levar a garotinha lá para o Nordeste. Acima de tudo, não queria a filha – ou ela mesma – perto de Betty. Mas eu concordei com Pat que os recursos dela para mantê-los seguros eram melhores do que os meus. Eles tinham que ir.”
Embora Mary e Jim tenham trabalhado algumas vezes, ao longo dos dois
anos seguintes eles viveram principalmente do seguro social.
“Eu odiava, odiava ficar lá”, Mary disse. “Mal via minha mãe. Fiquei mais brava com ela depois da morte da minha avó McC. Ela não tinha o direito de me alienar... De todos, tinha? A família inteira foi ao funeral da minha avó. Só eu não fui. O que eles devem ter pensado? Que eu não me importava? Eu não conhecia nenhum deles. Como eles poderiam saber o quanto eu me importava?
“Ela fez algo ainda pior quando minha tia Cath morreu. Eu estava na casa dela [de Betty] e disse que estava indo visitar minha tia Cathleen, mas
ela não me contou que minha tia tinha morrido. O funeral fora duas semanas antes. E lá fui eu, como o anjo da morte, perguntando por minha tia Cath, e eles olharam para mim como se eu fosse louca, como deveriam mesmo. Fui para a casa ao lado, onde o filho mais velho dela morava, meu primo R., e foi lá que fiquei fora de mim. Ele passou por maus bocados tentando me acalmar. Aí voltamos e ficamos vendo fotos com meu tio Jackie.
“Mas tudo o que estava dentro de mim... Aquilo tinha durado tempo
demais, e eu estava muito cansada daquilo, dela.”
Mas duas coisas aconteceram quase simultaneamente. Primeiro, por volta de três semanas antes do Natal de 1994, Betty entrou em contato com Mary e pediu para visitá-los.
“Ela parecia... Frágil, de algum modo”, Mary disse, “e Jim disse que nós a encontraríamos em um pub. Ela perguntou o que estávamos preparando para o Natal, e Jim, acho que num impulso, perguntou por que ela não vinha passar o Natal conosco. Aí, falei com ela sobre [a filha]. Ela só a tinha visto
uma vez, quando bebê. Mostrei as fotos para ela e sugeri que ela a conhecesse antes de vir para o Natal. ‘Você é a vovó dela’, eu disse. ‘Sem chance de fazermos aquela merda de eu me passar por sua prima’, e ela balançou a cabeça, obediente, como eu nunca a vi fazer”.
Mary sempre falara à filha que a avó estava doente e que era por isso que ela não estava por perto.
“Naquela noite, quando falei a ela que iríamos ao Metro Centre [um grande shopping center em Gateshead] com a vovó antes do Natal, ela disse
‘Ah, que bom. Ela está melhor, então?’. E de repente pensei, e Jim também pensou, que eu não tinha mais direito de isolar minha filha da avó do que minha mãe tinha de me afastar da minha família.”
A data era uma semana antes do Natal.
“Fomos até lá. Havia centenas de pessoas, e [a criança] estava olhando ao redor e perguntou qual a cor do cabelo da avó. Eu brinquei dizendo que era alaranjado, mas claro que não era. Eu a vi sentada perto da fonte; não estava usando peruca e seu cabelo estava muito ralo, só um pouquinho de cabelo, meio cacheado e cinza... Ela não era velha, tinha só 56 anos, mas parecia uma senhora pequena, magra e velha. [A criança] correu na direção
dela, quase a jogou no chão com toda aquela energia que ela tem e exclamou: ‘Ei, vovó!’. E nas quatro horas seguintes, enquanto fazíamos compras, comíamos e andávamos, ela quase se esgotou, basicamente apenas falando. Ela estava uma tagarela, a minha garota. Mas foi um dia bom, um dia bom mesmo. Eu estava feliz; minha mãe também estava feliz e, mais tarde, [a criança] perguntou qual era o problema com ela. ‘Ela parece bem’, a menina disse. Então, falei com ela que a avó tinha um problema com bebida, e ela perguntou: ‘Ela não consegue parar?’. Expliquei que, se
alguém tem esse problema, não consegue parar se não quiser muito, e que eu achava que ela não queria. Tive que contar a ela: Jim e eu sempre tentamos falar a verdade para a nossa filha, até onde achamos que ela consegue lidar.
“Passamos dois dias verdadeiramente bons quando ela veio passar o Natal”, disse Mary. “Talvez fosse porque o tempo foi curto o bastante para não darmos uma nos nervos da outra, mas durou o bastante para ela conhecer [a criança] e ainda assim para eu ficar calma, porque sabia que
não seria tempo suficiente para ela influenciar a garota.”
Mary considerava que a criança não estava sob risco algum em relação a Betty, primeiro porque não era responsabilidade da sua mãe, segundo porque a criança era muito segura.
“E ela conseguia fazer a avó dela rir... Ouvi-la rindo, rindo de verdade, era simplesmente fantástico.”
Betty foi embora em um táxi na manhã de 27 de dezembro. Mary telefonou para ela naquela noite e ninguém atendeu. “Telefonei de novo no
Hogmanay [véspera de Ano-Novo] e mais uma vez ninguém atendeu. Pensei que ela estivesse no pub, ou com Maggie, amiga dela...”
Não se sabe exatamente quando Betty morreu.
“Os vizinhos a viram na véspera de Ano-Novo”, disse Pat Royston. “Eles deram o alarme no dia 3 de janeiro.” Quando a polícia arrombou a porta e entrou, encontraram-na nua em uma cadeira bem próxima a um aquecedor a gás que estava ligado e que havia queimado um lado do corpo dela. A necropsia e o inquérito concluíram que ela teve peritonite, porém declararam pneumonia como causa da morte. Ela sofrera algum tipo de ataque, conseguira se levantar, tirar e limpar a roupa de cama e deixá-la
junto da camisola, empilhada no chão do banheiro. Parece que, depois, ela tomou banho ou se limpou com uma esponja e se sentou na cadeira.
“Sei que Mary acha que ela queria morrer”, Pat disse. “Mas a polícia não achou que foi suicídio. Havia batatas e vegetais limpos e prontos para cozinhar em um pote de água no fogão. O telefone estava mais ou menos ao alcance dela. E tinha uma grande amiga dela no andar debaixo: se tivesse gritado, ela teria sido ouvida. Havia vizinhos – mas, é verdade, ela não gritou.
“Georgie telefonou para me contar que ela estava morta e que visitaria Mary para contar a ela”, Pat disse. Mary me telefonou logo que ele saiu e tanto ela quanto a garotinha choraram ao telefone. “No dia seguinte, quando eu a levei, junto com Jim, ao apartamento de Betty, ela demonstrou uma mistura de tristeza, alívio e raiva. Quando chegamos lá, o apartamento estava cheio de familiares, todos revirando as coisas dela, em busca do testamento. Era aquele ‘livro’ dela que estavam procurando. Era lá que eles achavam que ela teria colocado o testamento. Mas nunca encontraram o
livro ou um testamento.”
Perguntei a Mary se ela achava que pedir para passar o Natal com eles foi o jeito de sua mãe dizer adeus.
“Sim, sim...”, ela respondeu hesitantemente.
Foi bom Mary, Jim e a garotinha terem dado a ela aqueles dois dias, não foi?
“Ela que os deu para mim, mais ou menos”, ela disse. “No funeral, fiquei na frente com Jim e tia Isa... Toda a família estava lá, exceto as garotas e P.,
ele estava com problemas. Mas eu o vi depois e foi bom. Sempre vou amá-lo, vendo-o ou não. E acho que ele sente algo por mim. Algo de muito tempo atrás.
“Depois do funeral, a maior surpresa para mim foi o filho de Isa, D., um rapaz grandão e fantástico, jogador de futebol profissional. Ele se aproximou de mim; eu esperava que ele fosse apertar a minha mão, o máximo que a maioria das outras pessoas tinha feito, mas ele me puxou em direção a ele e disse: ‘Me dá um abraço’, e me deu um abraço de urso. Aquilo foi maravilhoso, maravilhoso.
“Mas, mesmo depois, nunca fiquei próxima da minha família. Eu acabei por fim indo ver minhas irmãs. Elas foram educadas, mas eu sabia que não me queriam – não podiam me querer – na vida delas. O que havia entre nós? Nossas vidas tinham sido diferentes demais. Acho que consigo entendê-las, mas não é possível a elas me entenderem. Elas têm suas famílias, suas crianças. Tempo demais se passou e somos estranhas. Eu queria que não fosse assim, mas é.
“Uma semana depois da morte de minha mãe, fui sozinha até o
apartamento dela. Sentei lá, esperando não sei o quê. Não esperava visitas, vozes... Apenas sentei, olhei em volta; estava vazio, tinha somente a cadeira. Acho que eu estava esperando, que tinha esperança de um tapinha imaginário na cabeça... Algo como um ‘muito bem’, mas nada veio... Eu tinha esperanças de, ah, eu só queria...” Mary colocou a mão na barriga. “Só queria sentir. Aí, eu pensei ‘Ah, merda. Você me procurou. Você foi na minha casa, brincou de vovó e aí você vai embora e morre na primeira vez em que agiu como uma pessoa normal perto de mim...”
“E aí Jim telefonou e falou que eu fosse para casa. Balancei a cabeça. ‘Sim, vou.’”
Foi pelo fato de o “livro” de Betty ter desaparecido que Mary imaginou que a mãe se matara – ou talvez se deixara morrer.
“Ela nunca, nunca estava sem aquele livro”, Mary disse. “Todos vasculharam por toda parte, mas ele não estava lá. E se não estava lá, ela o destruíra. E ela não o teria destruído se fosse continuar a viver.”
Enquanto todos estavam procurando pelo livro, no dia seguinte à morte
de Betty, Mary abrira uma das gavetas da mãe. “Estava cheia de cartas minhas para ela. Elas começavam com ‘Querida mamãe’ e ‘Querida querida mamãe’, e eu não tinha escrito nenhuma delas.”