Por que Crianças Matam

Gitta Sereny · Capítulo 4 de 27

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Por que Crianças Matam

Prólogo: Newcastle upon Tyne, 1968

Prólogo

 

Newcastle upon Tyne, 1968

 

A ntes de chegar à essência deste livro, devemos fazer um breve retorno ao passado até o ano 1968, à velha e adorável cidade no norte da Inglaterra, às margens do Rio Tyne, e aos dois garotinhos que morreram.

Hoje, Newcastle é relativamente rica. Há novas indústrias, novas fábricas, novas casas. Acima de tudo, há empregos. Não o bastante para todo mundo, mas infinitamente mais do que havia em 1968, quando a cidade estava decadente, à beira da ruína econômica devido à derrocada das indústrias de mineração e de construção de navios. Newcastle, nessa época, detinha os recordes pouco honrosos de maiores taxas de crimes, mais alto

índice de alcoolismo e uma das mais elevadas e consistentes taxas de desemprego, se comparada a qualquer outra cidade britânica. E isso era mais evidente em Scotswood, uma área de aproximadamente 800 metros quadrados que se estendia por uma colina a oeste, a 4,8 quilômetros de distância do centro da cidade, cujas ruas de humildes casas da prefeitura, pelas quais os inquilinos pagavam quase 2,40 libras por semana, eram espremidas em extensos blocos que desciam até o aterro industrial ao longo do Rio Tyne. Cerca de 17 mil pessoas viviam lá e o desemprego atingia

mais de cinquenta por cento da população.

Os moradores de Newcastle são e sempre foram um povo amigável, apesar de suas reações explosivas e de seu vocabulário ácido, em momentos de alegria ou de raiva. Eles falam geordie, um dialeto que é praticamente incompreensível para forasteiros: home [lar], por exemplo, é hyem; my wife [minha esposa] é wor lass; pretty [lindo/linda] é canny, embora canny também possa significar many [muitos/muitas], como em canny few [muito poucos]. A língua, pode-se deduzir, é mais subjetiva que lógica: quando

uma criança acha que vai ser castigada, ela fala em ser wrong [errado] e a palavra me [me/mim], como em he asked me [ele me perguntou] é sempre substituída por us [nós]. Independentemente de quão confuso possa ser o dialeto, porém, a hospitalidade e o riso são inatos e, apesar da rapidez do

tapa que segue alguma má-criação, existe muito amor pelas crianças, tal qual havia naqueles tempos ruins do final dos anos 1960.

Em Scotswood, duas grandes ruas – a Whitehouse Road e, abaixo dela, a St. Margaret’s Road – contornam a colina com umas poucas ruelas e curvas entrecortando-as. Quase todos os vizinhos se conheciam e eram muito tolerantes uns com os outros – pelo menos era o que parecia aos estranhos. Havia uma pequena loja ao final da St. Margaret’s Road, conhecida como “Dixon’s” ou “Davy’s”, e, próxima dali, a Escola Woodlands Crescent e seu

tanquinho de areia. Ambos desempenhariam um papel importante nos terríveis acontecimentos daquela primavera.

As casas nas duas ruas mais importantes davam vista para as ferrovias, bem como para uma fábrica que pertencia à Vickers Armstrong, um grande aterro chamado pelas crianças que lá brincavam de “Tin Lizzie”. Além dele, via-se a rua principal Scotwood Road, o rio e, a uma curta distância, a cidade.

Como os moradores conheciam uns aos outros e ficavam cientes de

imediato da presença de estranhos, as crianças eram muito livres. Mesmo quando muito novas, elas tinham liberdade para brincar na rua, vagar pela vizinhança, aparecer sem avisar na casa de parentes (era comum em Newcastle gerações de uma mesma família conviverem juntas), levar cachorros para passear no pequeno Parque Hodkin; pular no tanque de areia da escola ou comprar batatas fritas, um pirulito ou um picolé na Davy’s.

Apesar das pressões financeiras daquele período e da hostilidade contra as autoridades – que só apareciam para fazer ameaças ou caridade, da qual

os habitantes também se ressentiam –, era uma vida amistosa e sociável: um sem-fim de xícaras de chá, bate-papos por cima das cercas ou de janela a janela, um costume quase igual ao do sul da Europa. E na hora das refeições, gritos pelas portas abertas para que as crianças entrassem eram rapidamente obedecidos: “John, Ian, Kate, Brian, May, Martin – o chá!”.

Em 25 de maio de 1968, Martin Brown tinha 4 anos e 2 meses. Era um garotinho robusto, loiro, com olhos azuis e um rosto arredondado e travesso. Morava em uma casa de dois andares de tijolos vermelhos e quintal, no número 140 da St. Margaret’s Road, com sua mãe, June, que chamava de “mamãe”, seu pai, que chamava de “Georgie”, e sua irmã

Linda, de 1 ano, com quem dividia o quarto. A irmã mais velha de June, Rita Finlay, morava com seus cinco filhos numa casa próxima, no número 112. June trabalhava; então, sua mãe tomava conta de Linda durante a semana e Rita ficava com Martin; ele a chamava de “Fita”.

Naquela manhã de sábado, como sempre acontecia nos finais de semana quando seus pais demoravam a se levantar, Martin levou um pouco de leite e um pedaço de pão para a irmãzinha, segurando a xícara com cuidado enquanto Linda mastigava a torrada.

“Ele sempre fazia isso”, June me contou mais tarde. “Eu ouvia quando ele a encorajava: ‘Vamos, Linda, beba seu leite’.” Depois disso, ele vestia o bebê e o entregava para June, antes de tomar seu próprio café da manhã na cozinha.

“Pirulitos eram os favoritos dele”, disse June. “Ele vestiu sua capa de chuva – eu estava lavando louça na cozinha – e ouvi quando ele disse: ‘Estou indo, mamãe. Tchau, Georgie!’. Foi a última vez que eu o vi e o ouvi.”

Inimaginável, não é? Mas foi a última coisa que June Brown viu ou ouviu de seu Martin. Outras pessoas viram-no naquela manhã: ele ficou por algum tempo olhando dois trabalhadores da Companhia Elétrica de Newcastle que desconectavam cabos de tensão de casas abandonadas na St. Margaret’s Road – eles lhe deram um biscoito. Rita o viu quando ele a acordou no final daquela manhã; ele chorou quando ela o mandou embora.

“Minha mãe estava passando quando ele chorava e deu pão com ovo para ele. Eu não me lembro de vê-lo sair – você sabe, não nos

preocupávamos em vigiá-los quando eles andavam para lá e para cá – todas as crianças estavam por todos os lados; todo mundo era amigo de Martin.”

Seu pai, Georgie, foi o próximo a vê-lo, quando Martin apareceu logo antes das três da tarde, quando a Dixon’s estava abrindo, para comprar um pirulito. O filho de Dixon, Wilson, deu uma bronca nele por estar com os dedos na boca e as mãos imundas quando Wilson lhe entregou o pirulito. Rita o viu mais uma vez quando ele entrou e pediu pão com manteiga. Ela lhe disse que a manteiga era para a hora do chá, mas que tinha margarina.

“Ele estava bravo”, contou-me ela. “‘Eu não volto mais para sua casa de jeito nenhum. Não vou voltar...’ Mas ele não conseguia ficar zangado por

muito tempo. ‘Ah, não faz assim, Fita’, ele disse e saiu; essa foi a última vez que o vi.”

Às três e meia da tarde, não mais de vinte minutos após Wilson Dixon ter vendido a ele o pirulito, três garotos que procuravam lenha nas casas abandonadas para construir uma gaiola de pombos encontraram Martin no quarto dos fundos do número 85 da St. Margaret’s Road. Ele estava deitado de barriga para cima em meio aos destroços no chão, com os braços estendidos e sangue misturado a saliva saindo de sua boca. Não havia sinais

de luta ou queda, sua roupa não estava rasgada nem danificada, não havia ossos quebrados nem ferimentos externos, exceto por um esfolado trivial em seu joelho. Entre os destroços havia vidros vazios de comprimidos, o que fez a polícia pensar brevemente na possibilidade de envenenamento acidental.

Gordon Collinson, um dos trabalhadores da Companhia Elétrica, correu para chamar uma ambulância; John Hall, outro trabalhador, tentou fazer respiração boca a boca. Havia gritaria nas ruas. Rita e June vieram correndo

e a ambulância chegou em minutos.

“Eles tentaram reanimá-lo”, contou-me June. “Eu assisti, mas já sabia.” Martin morrera, eles acreditaram durante meses, por causa de um inexplicável acidente. “Tudo o que eu queria”, me disse June, “era deitar e morrer também”.

Noves semanas depois, no dia 31 de julho de 1968, Brian Howe estava com 3 anos e 4 meses de idade. Tinha belos cabelos encaracolados e bem loiros, um rosto branco e rosado, e ainda não tinha saído de sua fase de

bebê. Morava no número 64 da Whitehouse Road com seu pai, Eric; seu irmão de 7 anos de idade, Norman; sua irmã de 14 anos, Pat; seu irmão mais velho, Albert, que estava flertando com uma garota chamada Irene; e sua cadela de pelo preto e branco, Lassie. Sua mãe os havia abandonado quando ele tinha apenas 1 ano e meio, mas, entre Albert e Pat, que cuidava da casa quando não estava na escola, Irene, que frequentemente estava com eles, e Rita Finlay, cujo filho de 3 anos de idade, John, era seu melhor amigo, Brian era bem cuidado.

“Eu amava o pequeno Brian”, disse Rita, “de um jeito diferente de como eu amava nosso Martin, mas o amava. Eu amava Pat também – ela estava

sempre por aqui. Eu costumava ir acordá-la quando ia levar John para o maternal; eu levava Brian também...”.

Naquela manhã, entretanto, eram férias escolares e ninguém respondeu quando Rita bateu à porta da casa número 64. “Eu disse para mim mesma: Pat deve ter resolvido ficar na cama até mais tarde. A mulher da creche perguntou onde Brian estava.”

Na hora do almoço, porém, Brian e John tinham se encontrado e saíram para brincar. Quando Rita saiu para procurá-los por volta da uma e meia da

tarde, ela os achou sentados no chão, assistindo aos trabalhadores derrubarem uma das velhas casas de St. Margaret’s Road.

“Fiquei fora de mim”, ela me contou. “Gritei com os homens e disse que eles não tinham consideração por deixarem os garotos se sentarem ali onde podiam se machucar. E então bati tão forte nas crianças, uma por uma, que minhas mãos ficaram ardendo. Coloquei John para dormir e dei alguns biscoitos para Brian e disse para ele contar à Pat de suas idas às casas velhas, mas que não era para ela bater nele porque eu já tinha batido nos

dois. Foi quando o vi pela última vez.”

Não sabemos se Brian foi para casa, porque Pat, sabendo que Irene estava lá, decidiu ir com amigas até a cidade. Quando voltou, às 3h20 da tarde, e perguntou por Brian, Irene disse que ele estava “brincando lá fora, nos fundos” e de fato algumas crianças disseram mais tarde que o tinham visto brincando aqui e ali no começo da manhã com seu irmão Norman e duas garotinhas de bicicleta que todos conheciam. Lassie, todos eles disseram, estava com ele. Ninguém estava preocupado. Todas as crianças

estavam sempre por toda parte e, de qualquer maneira, Lassie estava com ele. Somente às 5 horas da tarde, quando Pat havia preparado o chá, que ela saiu para a rua, gritando pelo nome de Brian.

Mary Bell, que tinha 11 anos, a mais velha de quatro crianças, morava com seu pai, Billy, e sua mãe, Betty, no número 70 da Whitehouse Road, e estava sentada na porta da casa de número 66, conversando com Maxine Savage. Era com a irmã mais nova de Maxine, Margaret, que Pat Howe tinha saído naquele dia. Pat perguntou a May – era assim que todos chamavam Mary – se ela tinha visto Brian. Ela disse que não, mas que iria com Pat procurar por ele. Norma Bell, a melhor amiga de Mary, que vivia

com os pais e mais dez irmãos no número 68, também saiu para caminhar por algum tempo.

Elas procuraram por Brian na Davy’s, um chamariz para todas as crianças, e depois desceram a colina até o estacionamento da Vickers Armstrong, outra grande atração. Então, subiram de volta até a ponte da ferrovia, de onde podiam ver toda a região de Tin Lizzie, mas não viram criança alguma. Mary Bell sugeriu que Brian poderia estar brincando atrás dos “blocos” (enormes placas de concreto) lá embaixo, ou entre eles, mas

Norma, que conhecia muito Brian porque frequentemente ficava como babá de John para Rita, disse: “Ah, não, ele nunca vai lá”, e Pat também achou que ele não iria, não sozinho. Pat decidiu que dariam mais uma olhada no Parque Hodkin e ao longo das ruas e, se não o encontrassem até as 7 horas da noite, ela chamaria a polícia.

Usando holofotes de busca, a polícia encontrou Brian às 11h10 daquela noite.

“Nós todos procuramos por ele durante horas”, Rita me contou.

“Centenas de nós, ao que parecia, até escurecer. Estava muito quente naquela noite. Acho que todo mundo ainda estava acordado quando ouvimos os carros da polícia correndo com todas as sirenes ligadas. As pessoas gritavam umas às outras de dentro das casas... Eu não sei quem soube primeiro – veio de rua em rua e de casa em casa.”

Mary Bell, que tinha sono leve, desceu as escadas às 11h30 e foi para junto de seu pai, que estava em pé, à porta, olhando a comoção na rua.

“Então, o que está acontecendo?”, ela perguntou.

“Eles encontraram Brian Howe”, respondeu Billy Bell, “lá em Tin Lizzie”.

“Ah”, disse Mary.

Brian estava deitado no chão entre duas placas de concreto em Tin Lizzie. Seu braço esquerdo se estendia para fora do corpo e a mão estava escura de sujeira. Deixada na grama próximo a ele estava uma tesoura com uma lâmina quebrada e a outra entortada para trás. Seu corpo, todo vestido e aparentemente sem ferimentos, estava coberto com um tapete de grama alta e ervas daninhas de cor púrpura, que cresciam por toda parte em Tin Lizzie. Havia, contudo, arranhões em seu rosto, traços de bolhas de saliva

manchadas de sangue em sua boca, seus lábios estavam azuis e havia marcas de pressão e arranhões em ambos os lados de seu pescoço, o que afastara a possibilidade de acidente. Mais tarde, outros pequenos e inexplicáveis ferimentos seriam descobertos. Ele estava morto.

É estranho como as famílias dessas crianças que mal começaram a andar – talvez uma reação inconsciente de autoproteção – lembraram-se delas mais tarde como sendo muito maduras.

“Um monte de gente adorava Martin”, June disse muito tempo depois.

“Ele era aquele tipo de garoto com quem adultos podiam conversar”.

“Eu sinto falta dele”, disse Eric Howe sobre o pequeno Brian. “Eu sinto tanta falta dele. Ele era minha vida. Era apenas um moleque, mas costumávamos conversar, você sabe, conversar de verdade. Eu não penso em nada a não ser nele. Isso nos destruiu”, ele disse, com lágrimas escorrendo pelo rosto. “Já não somos mais uma família.”

“Nós conversamos...”, disse Pat, com o rosto enrijecido. À época, ela tinha 16 anos, era casada e tinha um filho bebê; mas a maior casa de uma

rua agradável, para onde a prefeitura os realocou, não exibia nenhuma cor, era quase estéril em sua tristeza. “Mas nós não dizemos nada.”

Ao escrever sobre seres humanos cujos atos trouxeram destruição à vida de outros, não se pode jamais esquecer a dor que eles causaram e a amargura que, inevitavelmente, permanece junto àqueles que foram feridos, não importando há quanto tempo isso tenha acontecido. Ao escrever sobre tais tragédias em busca de explicações para esses fatos e para as deficiências do sistema que contribuíram para elas, autores estão sujeitos a

se esquecerem, por sua conta e risco, de que existem feridas que nunca se curam. Essa possibilidade paira como uma enorme nuvem em uma empreitada como essa. Nenhuma palavra que Mary Bell tenha dito para mim, nenhuma palavra que eu tenha escrito, pode ser interpretada como uma desculpa para o que ela fez.