Por que Crianças Matam
O ponto de ruptura: 1968
O ponto de ruptura
1968
D urante esse ano, Mary tornou-se a melhor amiga da vizinha da casa ao lado, Norma Bell. Mary estava se aproximando das semanas antecedentes ao primeiro incidente que a colocaria, junto com Norma, sob a atenção da polícia: o empurrão no pequeno John Best para baixo de um “aterro” próximo ao Delaval Arms.
Após os assassinatos, na histeria causada por eles, pessoas de Scotswood apareceram declarando ter visto Mary cometer todo tipo de atitudes violentas: estrangular um passarinho, matar um gato, colocar as mãos em volta do pescoço de um bebê – nada disso comprovado; tudo isso rejeitado no tribunal.
Tudo de que Mary se lembra é uma enorme carga de tensão dentro dela durante aquelas semanas. Sabemos, a partir do relato de vizinhos, que naquela ocasião ela chamou atenção de várias pessoas, que, porém, a ignoraram por considerarem seu comportamento como típico de sua má-criação.
Porém, esteja certa ou errada, ela passou a associar “o dia de Martin Brown”, como ela o descreve, a uma briga específica com a mãe.
“Ela me mandou ir até a loja naquela manhã para comprar uma escova
de vassoura. Quando cheguei, não sabia se era a ponta com a parte da escova ou uma vassoura [inteira], fiquei com medo demais para voltar e perguntar, e achei que era uma vassoura que ela queria. Então, voltei levando isso mas ela tirou o cabo que se encaixa na vassoura e me bateu com ele. Fugi para o andar de cima, para o quarto de P., para me esconder embaixo da cama, e ela ficou me cutucando com o cabo. Eu o agarrei e ela me puxou para fora, e eu ainda estava agarrada nele.
“E eu diz: ‘Sua puta’; dei um soco na barriga dela, e ela me bateu e bateu
enquanto eu descia as escadas em disparada; aí eu saí. Aquela foi a primeira vez que a enfrentei, a primeira vez que xinguei ou descontei uma pancada.”
Contudo, Mary deve ter pensado que era seguro voltar na hora do jantar, porque, de acordo com a história contada à polícia tanto por ela mesma
quanto por Norma Bell, após o jantar Betty mandou que ela fosse novamente à loja, dessa vez para comprar comida de cachorro e creme de ervilha. Mas aí suas recordações sobre aquele mês, aquele dia e tudo o que envolvia o que ela fez com Martin Brown são fragmentadas e confusas – não, acredito eu, porque ela estivesse mentindo nesta e em outras ocasiões quando tentava falar comigo sobre o que havia feito, mas porque o trauma estava inexplorado e não resolvido.
“Eu nem mesmo lembrava, até você me contar, que isso aconteceu na
véspera do meu aniversário”, ela disse com uma voz desanimada.
Nos anos que se passaram, ela apresentou diversas versões para a morte de Martin Brown. Em duas delas, em Red Bank e em Styal, quando tinha 14 e 18 anos, ela a descreveu como um acidente. Em outra, contada a Pat Royston em 1983, ela a descreveu como um ato cometido junto com Norma (que não estava presente). Em 1985, no rascunho para um livro que ela escrevia a pedido do ex-marido, ela disse que fizera apenas “na raiva”.
Onze anos depois, com terrível dificuldade, ela me daria quatro
diferentes versões, a última das quais eu decidi que provavelmente é o mais próximo da verdade que a memória dela consegue chegar. Venho citando trechos dessa versão em capítulos anteriores, mas devo agora apresentá-los em seu contexto. Cada um dos relatos seguintes foi intercalado por outras recordações – sobre Norma; sobre ver o caixão de um bebê em Westmoreland Road; sobre ter chorado até as lágrimas secarem ao ler o livro da mãe; sobre poema de Betty para o pai, In memoriam.
“Dá para acreditar?”, Mary disse novamente, com o mesmo tom enojado
de antes. “Um poema assim para o pai dela?”
No primeiro relato, Mary admitiu de imediato que estava sozinha. Ela fora para a casa abandonada em St. Margaret’s Road, onde encontrou Martin Brown, que ela conhecia, brincando no quintal. Ele a havia seguido Mary, que havia subido “como um macaco” pelas “vigas em cima de um quarto sem teto”, mas mandara que ele não a seguisse.
“É irônico... Eu mandei que ele tivesse cuidado, mas ele veio assim mesmo, então segurei na sua mão e nós dois caímos.”
A segunda versão foi um relato mais completo e, desta vez, ela estava em prantos.
“Martin já estava no quintal, mas pensei em brincar de morto...”
Um jogo?
“Não, não achei que fosse um jogo. Eu só pensei: ‘Não estou machucando você de verdade. Vou deitar com você’. E deitei. Eu não o agarrei. Não houve gritos nem escândalo, senão todo mundo ouviria. Eu falei: ‘Não vou machucar você, não de verdade’. E continuei: ‘Vamos para o Céu...’. Eu mandei que ele colocasse as mãos no meu pescoço e coloquei as minhas no dele... Caímos das vigas. Não sei se ele caiu em cima de mim
ou eu em cima dele... Tinha entulhos no chão, o tipo de coisa que você encontra em casas abandonadas... Já tinham agarrado meu pescoço várias vezes, minha mãe, alguns clientes dela. Quando minha mãe costumava puxar minha cabeça para trás, com o pescoço esticado, ela costumava dizer ‘não vai doer...’, e quando eu perdia a consciência e aí acordava eu ouvia quando ela ou eles diziam ‘vai ficar tudo bem...’.”
Perguntei se Mary alguma vez associou o que aconteceu a ela com o que ela fez com Martin naquele dia.
“Não até muito depois... Alguns anos... Alguns meses atrás.”
Então por que ela não disse isso para Pat, por exemplo, ou mais tarde para mim?
“Eu nunca quis dizer isso. Nem mesmo hoje... Parece muito... Muito que...” Aguardei. Ela não conseguia, não iria dizer a palavra. “Nada pode justificar o que eu fiz”, ela disse por fim. “Nada.”
Na terceira descrição, quase idêntica à segunda, Mary citou seu companheiro, Jim, que lhe perguntou como ela sabia estrangular alguém, e
a resposta foi que ela não sabia de verdade. Anos antes, ela supostamente teria dito a Norma que viu isso em um filme de James Bond.
“Mas eu sabia que ele estava inconsciente. Eu reconhecia aquele estado de a pessoa não se mexer, não querer mexer. Aí deitei ao lado dele e me cobri de tijolos.”
De todas as fantasias e as associações que ouvi dela, essa foi uma das mais estranhas. Logo no início, primeiro em suas descrições dos abusos sexuais cometidos pela mãe, depois das mortes das duas crianças, eu perguntei a Mary o que ela havia lido sobre abuso sexual infantil, ou sobre assassinato de crianças. Ela me assegurou que não havia lido quase nada e
que “nunca lia jornais”. Eu soube desde muito cedo que isso não era verdade. Em Styal, uma grande quantidade de mulheres havia conversado com ela sobre Myra Hindley, inclusive a ex-freira, Tricia, que havia sido amiga íntima de Hindley, e todas elas teriam falado sobre os terríveis assassinatos de crianças que Brady e Hindley cometeram. Eu também sabia que Pat Royston, uma vez que se deu conta de que Betty Bell havia abusado sexualmente de Mary, havia emprestado a ela livros sobre abuso infantil, embora Pat tivesse certeza de que nenhum deles continha descrições como
aquelas que Mary fez para nós duas. Como eu, ela achava que as recordações de Mary eram detalhadas demais, específicas demais e, até mesmo, estranhas demais para permitirem dúvidas. Contudo, nesse ponto Mary não havia contado a verdade sobre duas coisas, e isso era algo que eu tinha que discutir com ela.
Desde o início, eu havia notado que suas histórias sobre a morte de Martin, aquelas que ela contou para as outras pessoas e as primeiras versões que contou a mim, haviam sido inventadas em parte ou no todo. Era
evidente que não se tratava de uma questão de exagero ou fantasia, mas de uma incapacidade de encarar a verdade. Essa descrição de “cobrir-se” de tijolos – também não verdadeira – parecia significar algo mais. Era possível, apesar da declaração dela de que nunca lia jornais, que isso tivesse sido acrescentado às imagens confusas em sua cabeça pelos relatos que diziam que os dois garotos que mataram James Bulger, em 1993, haviam coberto o corpo dele com tijolos, mas eu suspeitei que houvesse outros significados possíveis e relevantes para essa associação que eu não tinha
treinamento para interpretar. Quando perguntei a Mary novamente, ela ainda disse que havia resistido a ler qualquer coisa sobre o assassinato de Bulger.
“Fiquei... Pareceu... Durante horas”, ela continuou. “Por tanto tempo, não sei, eu poderia ter dormido, mas ninguém apareceu... Não me lembro de vozes.”
Ela se lembrava de voltar a si? Perguntei.
“Não. Não. Só me lembro de estar do lado de fora. Não demorou muito para que tivesse muita comoção. Me lembro de pensar ‘se eu tivesse ficado
mais um pouco, eles teriam me achado... E Martin, e eu teria saído viva... E teria sido levada, e todos teriam entendido’.”
Mas você sabia que você não estava morta de verdade. Você sabia que Martin estava morto?
“Morto, não, não morto de verdade; só inconsciente, como eu ficava... Eu não entendia o conceito de morte ser para sempre... Acho que para mim era ‘você vai voltar à consciência a tempo para o chá’.”
É extremamente difícil descrever a extensão da angústia de Mary durante
os dez ou doze dias na primeira etapa de nossas conversas, na qual ela falou primeiro sobre o abuso que sofrera, depois sobre a morte dos dois garotinhos. Durante a primeira semana, quando ela ficou conosco em Londres, eu tinha certeza, a cada noite, de que ela não conseguiria continuar com aquilo na manhã seguinte. Na segunda semana, quando Mary já estava em casa e meu marido e eu nos hospedamos em um lugar próximo, eu duvidava a cada dia que ela fosse aparecer, porque não achava que Mary conseguiria se submeter àquilo outra vez. Embora soubesse que muito do
que ela dizia era fantasia e evasão, eu havia cuidadosamente limitado minhas expressões de dúvida e formulado perguntas da maneira menos agressiva possível. Ainda assim, cerca de cinco meses depois, quando nos aproximávamos do fim de nossas conversas, fazer com que ela encarasse a realidade da morte de Martin tornara-se inevitável.
Falei com Mary que pensava haver alguma verdade em tudo o que ela havia dito sobre o assunto, mas as evidências apresentadas no julgamento demonstravam que a maior parte do que ela afirmara não poderia ter
acontecido. Eu disse que ela não conseguia se lembrar daquilo como de fato aconteceu, mas que era importante tentar. Ela precisava fazer mais um esforço, um último esforço para contar com sinceridade. No fim das contas, eu disse a ela, somente a verdade serviria ao propósito deste livro: que era, por um lado, contar sua história do modo mais completo possível e, por outro, utilizar o que acontecera com ela, e as reações dos outros, como um exemplo e uma advertência.
“Não sei como fazer isso”, ela disse. “Não sei se consigo.”
Eu já sabia disso, é claro, havia meses. E, ao tentar fazer com que Mary encarasse sua lembrança mais difícil e contasse a verdade, eu havia
discutido se deveria ou não continuar tentando com as poucas pessoas que sabiam sobre o livro, entre elas dois amigos psiquiatras, a Dra. Virginia Wilking, nos Estados Unidos, e o professor Dan Bar-On, em Israel. A Dra. Wilking, que trabalhava no Harlem havia anos, com crianças tão severamente traumatizadas quanto Mary, aconselhou-me a desistir de qualquer esforço: estava preocupada com a intensidade contínua daquelas sessões, que normalmente, sob as condições de um tratamento terapêutico, teriam provavelmente se estendido ao longo de anos.
O professor Bar-On não concordava: “A principal razão [para continuar] é que ela precisa urgentemente falar sobre isso”.
Assim, algumas semanas antes do Natal, falei com Mary que a perguntaria mais uma vez sobre o dia em que matou Martin Brown e que ela deveria se concentrar como nunca. Eu havia desligado o telefone, a janela estava fechada e as cortinas, meio puxadas – não para tornar a atmosfera excessivamente dramática, mas para enfatizar para ela, que achava se concentrar muito difícil, a necessidade de buscar por esse dia no
fundo de sua memória e relatar o que havia acontecido o mais detalhadamente possível em uma sequência de acontecimentos.
Mary sentou-se com os olhos cerrados e as mãos fechadas no colo, e, novamente, tudo veio muito devagar, com longas pausas entre as palavras e com choro. E mais uma vez, à medida que as frases se embaralhavam, ela mudou para frases no tempo presente.
Como dissera antes, você estava no quintal da casa abandonada.
“Martin está lá. Eu subo lá dentro para olhar o primeiro andar, e ele me
segue.” Mary parou. Eu a incentivei. “Eu diz: ‘Vai para casa’. Ele não vai... Ele não vai... Eu pego a mão dele e o puxo na minha direção para cima das escadas... Escadas quebradas... Ele está chorando. ‘Não quero’, ele diz, ‘quero descer... Descer... Descer...’ Ele para em um degrau meio quebrado, que balança.” Em seguida, ela disse asperamente: “Pare de chorar!”.
Eu a interrompi.
“Mary”, eu disse, “isso não está acontecendo agora, você apenas está vendo isso na sua cabeça”.
Ela parou por um longo tempo e pensei que talvez isso fosse tudo o que ela diria. Mas, então, mantendo os olhos fechados, Mary balançou a cabeça
duas vezes e falou de novo, dessa vez no passado.
“Ele não parava de chorar...” Então, ela se deteve novamente. “Quando chegamos ao alto... O choro dele tinha virado soluços... O nariz dele estava escorrendo. ‘Quero descer’, ele disse. Não sei por que o levei para cima. Eu disse: ‘Tudo bem, vou te descer’... Mas eu não consigo carregá-lo... Eu sabia que não conseguiria descê-lo por aquela escada quebrada. Havia um buraco onde tinha sido o assoalho do segundo andar, o teto do quarto de baixo, um buraco pequeno, mas grande o suficiente. Eu disse a ele: ‘Está
vendo aquele buraco?’. Então, ele parou de chorar. ‘Vou te descer por aquele buraco; segure a minha mão, não vou deixar você cair.’ E fiz isso. Deitei de barriga para baixo, segurei a mão dele e o passei pelo buraco até não conseguir esticar mais meu braço, e aí ele se soltou. Mas não era alto. Ele caiu, mas não se machucou. E eu desci as escadas correndo...”
Sua concentração se dissipou.
“Ele podia ter fugido de mim nessa hora”, ela disse em uma voz bem mais alta, soando defensiva pela primeira vez. “Também havia uma abertura
onde tinha sido uma janela; ele poderia ter gritado... Chamado alguém, mas não fez isso, não fez. Ele não estava com medo de mim.”
Perguntei o que aconteceu em seguida e disse a ela para fechar os olhos de novo. Mary recomeçou, a tensão aparecia em seu rosto.
“Ele está no quarto, perto da janela, em pé com as costas contra a parede. Não sei como ele chegou lá.”
Ele está chorando?
“Não, não. Estou ajoelhada na frente dele. Acho que estou ajoelhada em
cima de um tijolo. Eu digo...” Mary começou a chorar. “‘Coloque as mãos em volta do meu pescoço’, e ele coloca e... Eu coloco minhas mãos em volta do pescoço dele [as mãos dela estão abertas sobre o colo] e aperto, aperto, aperto...”
Mary havia se inclinado para a frente até que estivesse quase toda dobrada sobre a própria cintura, o rosto afundado nos joelhos, o corpo tremendo.
Perguntei se ela sabia por que fizera aquilo. Ela estava com raiva? Ela podia tentar me contar o que sentiu quando apertou o pescoço de Martin?
“Com raiva?” A voz de Mary estava abafada enquanto ela falava com o rosto sobre as pernas. “Não estou com raiva. Isso não é um sentimento... É um vazio que vem... Acontece... Abre... É um abismo... Está além da raiva, além da dor, é como um tecido de algodão preto...” Ela parou; o choro também havia parado.
É alguma espécie de empolgação?
“Não, não, não é. São como sentimentos sendo drenados.”
Existe uma compulsão?
“É como uma lâmpada sendo apagada sem que você soubesse que ela estava acesa. É como um trem atrás de você. E você tem que andar, você tem que continuar andando, mas não tem barulho, nem mesmo o das batidas do seu coração... Às vezes, se você está assustada, como eu estava antes, você sente seu coração bater muito forte, mas nem mesmo isso... Águas turvas...”, ela disse, de forma incompreensível. Ela estava sentada de novo, inclinada para trás novamente. Sua voz ficou monótona. “Te falei sobre quando eu pulei numa piscina e quase me afoguei, mas era diferente agora,
porque daquela vez tinha luz – me lembro de olhar para cima e conseguir ver luz [e] por eu não saber que estava me afogando não senti apreensão nem medo. Embora fosse diferente com Martin, era de alguma maneira a mesma coisa, mas eu só posso igualar os dois até determinado ponto, porque não tinha luz nenhuma, nenhum impulso físico, nenhuma sensação...” Ela fez uma pausa.
Não havia nenhum sentimento do tipo “eu tenho que parar”?
“Não”, ela disse. “Existe um ponto em que aquele caminhar na frente do
trem fica mais sufocante na sua cabeça.”
O que é que sufoca?
“Estou tentando... Tentando...” Às vezes eu sentia como se ela estivesse dizendo “Estou tentando por você”. “Mas é um tecido de algodão preto, é preciso atravessá-lo... A pessoa morreria [se não atravessasse]... Estou dizendo isso agora. Agora que estou... Olhando para trás, sabe, sinto um traço de pânico dentro de mim que não estava lá, mas que, como adulta, eu consigo imaginar que estivesse.”
“Você acha agora que deve ter tido pânico”, eu disse. Mas o que havia de fato? O que você sentia?
“Silêncio”, ela disse. “Tudo estava muito silencioso, muito quieto. Eu não tinha consciência de barulho em lugar nenhum, dentro da minha cabeça, fora, nem de ninguém. Martin... Ele... Tudo estava... Muito quieto.” Ela parou.
Mary ficou imóvel pelo que pareceu um longo tempo antes de olhar para cima, seus olhos agora me vendo, não – como ela havia dito antes – olhando para o passado como se olha através de uma cortina.
“Em Styal, o Dr. Geoffrey me disse que eu jamais entenderia até que eu
tivesse filhos, e ele estava certo. Eu não entendia, mas agora entendo.” Agora, a voz dela soava cansada, mas clara, de um modo inusitado. “Eu não queria... Não pretendia machucar Martin; por que iria querer? Ele era apenas um menino pequeno que pertencia a uma família ali perto...”
Desde o início de nossas conversas sobre as duas mortes, houve uma grande diferença no modo como ela falava sobre a morte de Martin e sobre a de Brian, e levaria muito tempo até que eu compreendesse o motivo. A partir do momento em que ela foi presa em diante, durante o julgamento,
sua detenção, e nos quinze anos que se seguiram – 28 anos ao todo –, ela havia negado ter matado Martin Brown, mas havia admitido primeiro um papel passivo na morte de Brian Howe e, depois, o menor e mais inofensivo ato de tê-lo coberto de flores. O motivo, que agora pareço compreender, é que matar Martin foi sua própria decisão, ou necessidade. Ela estava sozinha quando sentiu aquilo, sozinha quando fez aquilo e, desde aquele momento, tem estado sozinha quanto a ter feito. Embora Mary tivesse escondido isso de si mesma, do mesmo modo como escondeu a lembrança
daquele terrível abuso, em algum lugar dentro de si, a criança em crescimento sabia que havia feito algo terrivelmente errado e que somente uma pessoa poderia explicar para ela o que e o porquê, e essa pessoa era sua mãe.
Mary havia tentado uma vez, em Red Bank. E foi impedida com tal veemência – “Jamais fale sobre isso com ninguém” – que isso a havia impedido de perguntar de novo.
Matar Brian foi diferente em vários sentidos. Não apenas, ou não tanto, porque ela não estava sozinha – qualquer que tenha sido o papel que Norma
possa ou não ter desempenhado, ela estava presente. O principal motivo é que, apesar de ela não ter tido um desejo ou uma necessidade consciente de matar Martin Brown, e, mais que isso, de deixar sua “marca” nele, nove semanas depois – seja porque ninguém havia prestado atenção, seja porque ninguém havia entendido – houve uma urgência de mostrar o que ela havia feito.
Chamei a atenção de Mary por diversas vezes para o fato de que, no caso de Brian, ela não podia mais se convencer de que a morte não significava
para sempre. Era uma questão que coloquei para ela repetidas vezes: se ela entendia que havia assassinado Martin Brown, por que continuou com Brian Howe? Tive que concluir que ela não iria nem conseguiria responder.
Suas descrições da morte de Brian, tanto no julgamento quanto para mim, foram quase todas sobre Norma. Mary afirma que não sente raiva ou mesmo amargura em relação a ela, mas isso não é verdade, nem se pode esperar que seja. Independentemente do que a jovem garota fez ou não fez naquele dia de julho de 1968, sua própria presença servia como
encorajamento e confirmação de um propósito para Mary.
Eu disse a Mary que sabia que ela tentou negar aquilo, mas sempre tive certeza de que naquele momento, também, Mary foi mais forte e, portanto, certamente desempenhou um papel na morte de Brian. E isso não levava em conta o quanto eu condenava o que o tribunal fez em relação a Norma.
“Sim, aceito isso”, Mary disse. “Apesar de que quando alguém é o mais forte e o outro, o mais fraco, o mais fraco torna o outro mais forte por ser fraco...”
É possível que nunca saibamos exatamente o que aconteceu naquela tarde de verão, exceto por duas coisas que Mary me contou por fim. Foi logo após ela ter descrito o que eu acreditava ser inteiramente verdade – como Norma, vendo a criança deitada lá, havia começado a gritar: “Toquei o rosto dele [ela tocou o próprio rosto enquanto falava], os olhos dele não estavam abertos, ele não se levantava. Então, usei minha mão e fechei o pescoço dele”.
Então, de fato, foi você quem o matou?
Mary não respondeu. Ela havia dito e não iria, não conseguiria, dizer novamente.
“E aí”, ela disse, “Norma começou a rir histericamente... E tinha aquelas ervas daninhas e aquelas flores compridas... Eu cobri Brian todo com as ervas...”
Em seguida, Mary contou como elas voltaram mais tarde, com uma lâmina e uma tesoura. Em seus depoimentos, Norma havia dito uma coisa e Mary, outra; e provavelmente nunca saberemos quem cortou o cabelo do pequeno Brian, ou quem desenhou a letra N alterada para M na pele da sua barriga.
Então, você teria cortado o cabelo dele?
“Sim, e...”
Isso foi depois que vocês voltaram?
“Sim... E... Para cortar, tentar, tentar cortar... Cortar o pênis dele.”
Assustada, eu perguntei: quem queria cortar o pênis dele? Norma ou você?
“Eu.”
Mas isso não aconteceu, aconteceu?
“Não, não tive sucesso.”
Perguntei se ela pensava alguma coisa sobre aquilo.
“Como adulta, penso, sim”, ela disse. “Posso ver todos os motivos, todos os indicadores, todos os... Os... Tudo, sabe, sim, o que aconteceu comigo e blá, blá, blá. Mas talvez fosse apenas... Acho que foi apenas porque... Não foi como um troféu. Foi... Eu consigo falar agora, mas não naquela época, consigo usar as palavras que eu não conhecia então: uma espécie de castração simbólica, como tirar o órgão agressor.”
Então, algumas semanas depois, quando pedi que Mary me contasse novamente o que aconteceu com Brian, como eu havia perguntado sobre Martin, ela contou toda a história exatamente como havia feito antes – no julgamento e, depois, para mim – acrescentando, como fez em nossa primeira conversa sobre isso alguns meses antes, que foi ela quem “fechou o pescoço dele”. Mas não mencionou a tesoura.
Pontuei que, quando ela me contara sobre isso antes, ela disse que tentou cortar o pênis dele.
“Não disse isso.”
Disse, sim.
“Não, não, não, ela... Eu... A lâmina e as marcas na barriga dele e minhas iniciais, você sabe...”
Mas você dissera que foi Norma quem fez isso...
“Sim, sim, sim, sim.”
Relatei que, em seguida, eu perguntara sobre o que ela fez com a tesoura e, depois de longa hesitação, ela dissera: “Tentei cortar o pênis dele, mas não tive sucesso”. Ela se lembrava disso?
“Não”, ela disse. “Não, não lembro, não lembro, não lembro.”
“Vou te mostrar”, eu disse.
“Quando, quando eu disse isso?”
“Há algumas semanas; está na fita. Deve ter acontecido, senão você não teria dito isso.”
E pouco depois – após um cigarro – ela disse: “Não, está certo, eu não teria inventado, Deus, não. Eu devo ter feito isso...”.
“Você estava muito nervosa.”
“Quero dizer, lembrar... Sentar aqui e dizer, sim, eu disse isso. Estou tão
chocada por esquecer de ter dito algo tão repugnante quanto isso, tão repugnante para mim.”
Mas, eu pontuei, repugnante como é, em conexão com o que havia acontecido com ela anos antes, isso era na verdade uma explicação para seu estado de espírito.
Ainda em óbvio estado de choque, ela perguntou se poderia telefonar para Jim, seu companheiro. “Ele sabe de tudo. Se eu disse isso, ele saberá.”
Após uma longa conversa ao telefone com Jim, ela voltou, parecendo
exausta. E com a voz quase sem entonação, ela disse: “Sim. Ele está dizendo que está certo. Eu disse”.