Por que Crianças Matam

Gitta Sereny · Capítulo 2 de 27

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Por que Crianças Matam

Introdução à edição brochura

 

M uitas pessoas que pegam esta nova edição ouviram falar desse livro. Durante duas semanas, antes que Por que crianças matam começasse a ser publicado de maneira seriada no The Times em maio de 1998, três semanas antes da data de publicação do livro (e, portanto, sem que se tivesse a mínima ideia de seu conteúdo ou de seu propósito), uma explosão sem precedentes de ira dos tabloides foi descarregada durante seis semanas contra a pessoa cuja história este livro conta e, é claro, contra o livro e sua autora.

A essa altura, é claro, tudo isso já mudou: já houve muitas resenhas

sérias, inúmeros debates na TV e na rádio, muitas declarações de profissionais em apoio ao propósito do livro, bem como perguntas e respostas na Câmara dos Comuns e na Câmara dos Lordes. Ainda assim, quero ter certeza de que qualquer um que vire esta página saiba desde o começo qual é e sempre foi o meu propósito.

Por que crianças matam é sobre a vida de uma garota inglesa nascida em 1957 que, aos 11 anos, matou dois garotinhos de 4 e 3 anos. Condenada em um Tribunal da Corte por homicídio culposo, a jovem foi sentenciada à

prisão perpétua. Quando, em 1996, ela me conta a história de sua infância e adolescência sofridas, ela tem 39 anos. Mary Bell, pois esse é seu nome, é inglesa. Mas ela poderia também ter sido belga, francesa, alemã, norueguesa, sueca, japonesa ou norte-americana – em todos esses países jovens crianças foram machucadas de maneira similar e nos anos recentes, por sua vez, machucaram outros, acredito eu.

De fato, o crime juvenil – roubo, incêndio, agressão armada, estupro, homicídio culposo ou doloso (geralmente cometidos por crianças cada vez

mais novas) – aumentou de tal maneira em todo o mundo ocidental que pessoas esclarecidas estão fazendo perguntas duras. Temos alguma ideia, pergunta-se a sociólogos, psicólogos, advogados, juízes e jornalistas sérios, de por que as crianças estão ficando tão violentas? Elas compreendem as consequências de suas ações? Elas sabem que a morte é irreversível? E em que medida sua exposição ao sexo e à violência na sociedade, em que

medida as pessoas imediatamente próximas a elas, como pais ou responsáveis, são culpadas?

Escrevi Por que crianças matam como uma busca por essas respostas, baseando minha investigação na vida e nas experiências de uma antiga criança dessas, a qual, com seu consentimento, usei deliberadamente como exemplo e símbolo de várias outras. O relato central aqui, a história como Mary Bell me contou, não tenciona nem de minha parte nem da dela ser a história de seus crimes, mas sim um documento que pode servir como

incentivo para todos nós que nos importamos com o bem-estar de crianças para tornar suas vidas melhores. Sejam pais ou jovens pais em potencial, vizinhos, assistentes sociais, professores, juízes e advogados, policiais ou oficiais do governo; se as dolorosas revelações de Mary sobre uma infância sofrida e uma adolescência espantosamente mal administrada em detenção puderem nos persuadir a aprender como detectar a angústia de jovens crianças, por mais oculta que esteja, e ouvir seus gritos por ajuda, por mais fracos que sejam, podemos talvez ser capazes de evitar que crianças

cometam delitos, em vez de processá-las erroneamente e puni-las inabilmente quando elas os cometem – algo que ocorre na maior parte do mundo ocidental.

Mary Bell é uma mulher atraente e inteligente; enquanto escrevo este texto, três anos e meio após o início deste projeto, ela está no ápice da meia-idade. Como sua história deixa claro, quando cometeu o terrível ato de matar dois bebês trinta anos atrás, ela estava no limite após anos de abuso e sofrimento praticamente ininterruptos nas mãos da mãe. Isso não é uma

desculpa, no meu ponto de vista e no dela. Não há desculpa, mas pode e precisa haver explicações. Para ela, que sempre temeu haver algum defeito fundamental nela que fez com que sua mãe a odiasse, mesmo o relativo insight sobre os efeitos de sua infância desastrosa não é uma explicação boa o bastante. Mas é para mim, porque estou convicta de que crianças nascem “boas”, ainda que, assim como aconteceu com Mary em 1968, mais cedo ou mais tarde, possam ser levadas a esse “limite” em que o bem e o mal não têm mais qualquer significado.

Como regra geral, o objetivo é que crianças condenadas à prisão na Grã-Bretanha desapareçam no anonimato: cuidadores ou membros da equipe

prisional são proibidos de discutir o caso dessas crianças com pessoas de fora ou sequer divulgar sua presença onde quer que estejam. Essa regra excelente nunca funcionou no caso de Mary Bell, embora certamente se aplicasse a ela, porque sua mãe usou cada oportunidade e cada visita que lhe fez por anos para vender histórias sensacionalistas à mídia local, que muitas vezes as vendeu aos veículos nacionais. O resultado foi não apenas que o já difícil encarceramento de Mary se tornou imensuravelmente pior pelo medo dessas indiscrições que tanto a equipe quanto seus colegas

detentos sentiam, mas também que os tabloides e as revistas populares, britânicos e estrangeiros, estavam permanentemente de olho nela. Além do interesse óbvio dos jornais sensacionalistas em uma jovem prisioneira notável e excepcionalmente bonita, ela era uma fonte em potencial para uma história expositiva sobre prisões, diretores prisionais e detentos – um banquete para os tabloides. Assim, quando descobriram em 1979 sobre sua transferência para uma prisão aberta e sua designação para um programa de trabalho fora da prisão, organizado minuciosamente como preparação para a

libertação de um prisioneiro, teve início uma perseguição midiática que se tornaria um pesadelo para ela e, como vou demonstrar, poderia ter levado a uma tragédia se não fosse a gentileza de autoridades locais e do público britânico. Ao longo dos dezesseis anos seguintes, ela não apenas rejeitou todas as ofertas sobre sua história (a maioria delas chegando a seis dígitos) como também, a cada vez que chegaram perto de encontrá-la, mudou-se repetidamente de endereço ou mesmo para outras áreas do país, em um esforço para proteger o anonimato da família, acima de tudo da filha. Com

o apoio constante de agentes de condicional simpáticos ao seu caso e de liminares extraordinariamente fortes contra interferência da mídia

expedidas por um oficial do Ministério Público,1 órgão que detinha a custódia da filha de Mary desde seu nascimento em 1984, cuja proteção funcionou de fato até abril de 1998.

A liminar do tribunal se aplicava não apenas aos tabloides, mas também a mim. E o livro em que Mary e eu concordamos em trabalhar juntas em novembro de 1995 (uma decisão que cabia inteiramente a nós e poderia trazer problemas, os quais foram todos cuidadosamente avaliados) teria sido impossível de levar a cabo sem o conhecimento do Tribunal e da Unidade

de Prisão Perpétua do Ministério do Interior. Esse departamento é encarregado da libertação de prisioneiros em licença – sob a lei britânica, prisioneiros libertos que tenham sido condenados por assassinato ou homicídio culposo continuam sujeitos a serem chamados de volta até o fim da vida. Nenhum desses departamentos governamentais estava em posição para proibir Mary de trabalhar em conjunto em um livro: uma vez libertada, ela era em tese alguém sem impedimentos. Porém, do mesmo modo, nem eu nem meus editores britânicos teríamos ido em frente com esse projeto

sem um certo grau de segurança de que não havia nenhuma objeção legal. O Ministério do Interior, que já conhecia meu primeiro livro investigativo sobre o tema de levar jovens crianças a julgamento como se fossem adultos, The case of Mary Bell [O caso de Mary Bell], publicado em 1972, deixou claro que não estava feliz com a perspectiva, mas não podia fazer nada a respeito. Eles eram responsáveis tanto pelo Departamento de Crianças quanto pelo de Prisões e certamente tinham consciência de que Mary Bell relataria o tratamento recebido das autoridades desde seu encarceramento

aos 11 anos de idade, e que era improvável que muito desse relato fosse positivo. Obviamente, eles tinham sido informados sobre os termos do contrato proposto e sabiam que em março de 1996, por insistência minha, Mary receberia parte do adiantamento dos royalties que minha editora britânica, Macmillan, havia me oferecido.

Eu sabia que nosso trabalho em conjunto levaria vários meses; Mary e sua família teriam que se mudar, possivelmente muitas vezes, para se manterem seguros, e enquanto durasse nosso trabalho eles teriam que viver

em acomodações alugadas para que pudessem se mudar quando fosse necessário. Seria preciso que alguém cuidasse da filha de Mary, então com 11 anos, portanto seu parceiro não poderia trabalhar. E, além dessas considerações financeiras existenciais, como o livro não poderia existir sem a participação dela eu senti que ela tinha todo o direito de receber uma parcela da recompensa autoral. Legalmente não corríamos riscos, pois,

embora o Ato dos Rendimentos de Crimes2 da Grã-Bretanha torne ilegal que criminosos lucrem com seus crimes (escrevendo ou colaborando em trabalhos escritos sobre eles), isso se aplica apenas para delitos cometidos nos seis anos anteriores à publicação. Não só esse livro era sobre sua vida

inteira e as consequências de sua infância, em vez de seus crimes, como também trinta anos haviam se passado desde aqueles dois dias terríveis, e certamente ninguém – eu pensava, por mais que eu viesse a me provar errada – poderia pensar naquela menina de 11 anos como uma criminosa no sentido mais comum do termo, ou seja, um infanticida adulto como, por exemplo, as duas assassinas britânicas notáveis do nosso tempo, Myra Hindley e Rosemary West, que participaram na tortura e no assassinato de numerosas crianças e adolescentes.

Eu sempre soube, assim como meus editores, que o fato de Mary receber dinheiro seria um ponto complicado, especialmente para as famílias dos garotos mortos. Devido às regras que nos foram impostas, elas não podiam ser avisadas sobre a publicação do livro com mais de um ou dois dias de antecedência sobre o público geral, uma vez que, sem dúvida, a informação que lhes déssemos se tornaria pública. A única condição imposta pelo oficial do Ministério Público era que o assunto do livro fosse guardado em absoluto segredo até muito pouco antes da publicação – dias, nem mesmo

semanas – a fim de garantir que o anonimato da criança fosse preservado pelo maior tempo possível. Mesmo sabendo que esse era o certo, estávamos muito preocupados quanto a isso e, embora nada que realmente ajudasse as famílias pudesse ser feito, deixamos tudo arranjado para que elas fossem avisadas da publicação iminente o quanto antes e com a maior gentileza possível. Essa condição também significava que, por quase dois anos e meio, ninguém exceto os principais envolvidos – do lado de Mary seu parceiro, seus advogados, seus agentes de condicional; do meu lado minha

família, um conselheiro legal, meus agentes e eventualmente três psiquiatras, dois dos quais estavam fora do país; e os quatro executivos-chefes da Macmillan – sabia o que eu estava escrevendo.

Desde aqueles meses terríveis em 1968, quando os dois garotinhos morreram no intervalo de nove semanas, Mary não machucou um único ser humano. Libertada em 1980 e reabilitada após doze anos de detenção, sete dos quais, a partir dos 16 anos, em uma prisão feminina de segurança máxima, ela viveu uma vida completamente comum desde então. Apesar de viver há muitos anos em um estado de remorso devastador e imperdoável, ela conseguiu manter uma relação longa e estável com um homem

carinhoso e criar uma criança excepcionalmente feliz e bem ajustada.

Mas esses aspectos positivos não tiveram nenhum peso com a mídia populista britânica, que se empenhou por anos em uma amarga guerra de circulação. Tanto o The Observer, em 19 de abril de 1998, quanto o The Guardian, uma semana depois, publicaram artigos com informações jornalisticamente legítimas, ainda que sem credibilidade e apresentadas de maneira um tanto quanto sensacionalista. O The Observer revelou o tema até então desconhecido do livro e o The Guardian apontou (incorretamente)

uma quantia que Mary Bell supostamente teria recebido. O mais incomum foi que nenhum dos jornais apurou a informação nem com a editora, nem com a autora. Um comentário imediato e lamentável do primeiro-ministro, pego visivelmente despreparado por um repórter de TV e, claro, sem saber que estava comentando sobre algo feito por uma criança de 11 anos de idade trinta anos antes (no qual declarou não achar correto que “pessoas” que tinham cometido crimes sérios recebessem dinheiro por uma história sobre seus crimes), foi publicado em manchetes. O mesmo aconteceu um

dia depois com uma primeira reação igualmente improvisada (e infelizmente intensificada mais tarde pela pressão contínua dos tabloides) do secretário do interior, Jack Straw.

Isso deu início a uma competição de difamação de Mary Bell em tabloides, com manchetes diárias gritando sobre a “matadora de crianças” e o “monstro cruel” que estava sendo pago “por sua colaboração” na “história de seus crimes”. Depois de o The Times adiantar o início da publicação seriada e a editora antecipar a publicação do livro até então não impresso, a

maioria dos jornais de qualidade, salvando pelo menos um pouco da honra do jornalismo britânico, publicou vários artigos defendendo e elogiando a obra. Apesar disso, durante a primeira semana os ataques virulentos a Mary Bell e o debate amargo sobre meus métodos e meus motivos pautaram a discussão. No fim da primeira semana, com minha casa então sitiada pela mídia, faxes e ligações telefônicas começaram a chegar dos meus familiares e amigos nos Estados Unidos, na Suécia, na Áustria e no Reino Unido dizendo que estavam recebendo ligações de Londres perguntando o que eles sabiam sobre Mary Bell e qual era a conexão deles comigo. Foi assim que descobrimos que nossas contas de telefone tinham sido obtidas ilegalmente,

ou seja, compradas por tabloides, sem dúvida em um esforço para descobrir o paradeiro de Mary. E em 29 de abril, dez dias após o início do escândalo, eles a encontraram. Às dez e meia daquela noite, dezenas de repórteres e fotógrafos cercaram a pequena casa para onde Mary e sua família haviam se mudado apenas uma semana antes e bateram nas portas daquela rua, perguntando às pessoas, nenhuma das quais tinha sequer conhecido seus novos vizinhos ainda, se elas sabiam que uma assassina havia se mudado para perto delas. Quatro horas depois, com a multidão de jornalistas ainda

posicionada e raivosa, a polícia e os agentes de condicional, protegendo Mary e a criança com cobertores, removeram-nas da casa e levaram-nas a um lugar seguro. “O que foi tudo isso, mamãe?”, a menina de 13 anos perguntou no carro, e o agente de condicional disse que agora Mary precisava contar. Então, chorando e à beira de um colapso, ela contou.

“Eu sabia que havia um segredo”, a criança disse. “Mas, mamãe, por que você não me contou? Você era só uma criança, mais nova do que eu sou agora.” E elas se abraçaram.

Ao longo dos anos, desde o nascimento da criança em 1984 – quando, como é costumeiro para os filhos de prisioneiros libertos em licença, foi colocada sob custódia do tribunal –, o Ministério Público emitiu liminares extraordinariamente fortes contra as constantes ameaças da mídia de publicar revelações sobre a vida de Mary Bell. Já em 1987, quando um tabloide estava prestes a divulgar a localização da família, o tribunal decidiu que nada poderia ser publicado por qualquer mídia que interferisse em seu anonimato e sua privacidade. Seguindo o furor, na primavera de

1998, o tribunal emitiu mais uma liminar, única na história do sistema legal da Grã-Bretanha, proibindo qualquer um de se aproximar, ou de fotografar ou filmar a distância a família, seus amigos, seus vizinhos e os cuidadores da escola da criança; e Mary e a filha receberam alarmes móveis que podiam trazer a polícia para onde elas estivessem em minutos.

Os tabloides – não apenas na Grã-Bretanha, mas também nos Estados Unidos – justificavam o tratamento sensacionalista que davam a assuntos sérios alegando que estavam meramente refletindo os sentimentos e as opiniões dos leitores. Mas, como podemos ver claramente nesse caso, isso não é verdade. A previsão da mídia popular britânica era que a vida da filha

de Mary seria arruinada pela maneira como ela descobrisse sobre o passado de sua mãe, e que a própria existência de Por que crianças matam e a reação do público ao livro e à família de Mary os levaria a se esconder, longe de onde haviam escolhido viver.

A verdade é muito diferente: a menina, como podemos ver, ficou aliviada por não haver mais segredos. Além disso, aos 13 anos ela entendeu imediatamente que os atos de uma criança pequena, por mais terríveis que tenham sido, devem ser vistos exclusivamente no contexto da infância.

Afinal de contas, ela conhecia sua mãe como uma adulta havia 13 anos e sabia a diferença entre aquela criança e essa mulher.

Quanto ao público – que pode ser momentaneamente induzido ao erro por superstições, medo ou até mesmo má informação –, qualquer que seja sua bagagem educacional ou social, em última instância ele gosta de formar sua própria opinião. Ainda mais acertado, porém, é o fato de que seres humanos são essencialmente gentis, uma qualidade da qual Mary e sua família se beneficiaram no último ano, tanto das pessoas responsáveis por

cuidar deles – a polícia, o serviço de condicional e a escola da criança – quanto do público. Nem uma palavra de ódio sequer foi dita a nenhum deles por ninguém no local onde eles se estabeleceram e escolheram ficar.

Frente à oferta das autoridades de adotar uma nova identidade e se mudar para qualquer lugar que quisesse no Reino Unido, Mary não hesitou por um minuto. “Não vou deixar ninguém nos expulsar”, ela me disse. “É hora de encararmos a realidade e viver com ela.”

Janeiro de 1999