Por que Crianças Matam
Uma decisão: 1966 a 1968
Uma decisão
1966 a 1968
D epois da experiência extraordinária de Mary – o “teste” que fez do caráter de Harry Bury –, ela disse que passou muito tempo andando atrás dele, ajudando-o a recolher trapos e quinquilharias, e de alguma maneira ineficaz Harry Bury provavelmente passou a se ver como o protetor da menina. Sem dúvida ele estava ciente da profissão de Betty – o fato de mulheres serem prostitutas e terem “especialidades” não era raro naquela parte da cidade –, mas tenho certeza de que ele não sabia como ela usava a filha.
Harry Bury, porém, não poderia proteger Mary da raiva que estava surgindo dentro dela e que, após a decisão de resistir à mãe, começou a se revelar em seu comportamento. Mesmo neste momento tardio, quando ela começou – de maneira inconsciente, mas deliberada – a se fazer visível, se alguém com bom senso ou compaixão tivesse se dado conta, as coisas terríveis que estavam prestes a ocorrer poderiam nunca ter acontecido.
É preciso imaginar o caos daquelas vidas. Betty e Billy; Betty e P., então com 6 anos e meio; Betty e Mary, de 8 anos; todos em relacionamentos
mutuamente destrutivos, cada um buscando sua própria saída: a prostituição de Betty; Billy envolvido mais e mais em pequenos crimes, por várias vezes tendo problemas com a polícia; P., de 6 anos e meio, com suas estripulias, pelas quais apanhava da mãe de maneira cada vez mais severa; Mary começando a realizar sua vingança, usando os homens em vez de ser usada por eles: “Eu ganhava moedinhas para ver os caras velhos se masturbando”.
Apenas um ano depois, quando eles se mudaram para Whitehouse Road, ela progrediria para provocar homens dentro de carros.
“Eu subia nas janelas e eles me chamavam para entrar. Eles se exibiam, alguns pediam para eu tocá-los e masturbá-los. Eu costumava odiá-los, ameaçá-los, apontava alguém e dizia ‘aquele lá é meu tio, ele sabe que estou neste carro’.” Àquela altura, obviamente, Betty havia mandado as crianças chamarem Billy Bell de “tio”, para que ela pudesse pedir assistência social como mãe solteira.
“Eles me mandavam sair do carro”, Mary continuou. “Mas eu ficava até eles ficarem assustados pra valer. Eles me faziam me sentir suja, mas eu continuava fazendo aquilo. Aí me ofereciam doces, e eu dizia: ‘Você deve estar brincando’; eles me davam uma moeda, e eu ria, e lembro das marcas roxas nas minhas pernas, da sujeira e do esperma...”
Perguntei se sua mãe não sabia disso. Mary riu com deboche.
“Se ela soubesse, teria me pedido o dinheiro.”
Você fazia isso com frequência?
“Fiz isso por cerca de um ano e meio”, ela disse, agora parecendo cansada. “Acho que talvez só umas quatro ou cinco vezes.”
Mas e quanto a Billy, seu pai? Você não poderia ter contado a ele?
“Ele os teria matado”, ela respondeu de imediato, em seguida acrescentou com impaciência: “Mas já te disse, ele nunca estava lá quando ela estava; ela sempre estava lá quando não estava em Glasgow”.
Após a mudança para Whitehouse Road, Betty começou a viver uma vida dupla. A nova casa, em uma rua muito melhor, logo em frente à casa
de sua cunhada, dava-lhe respeitabilidade. A partir daí, ela transferiu seus “negócios” para Glasgow, desaparecendo por vários dias de uma vez. As duas garotas mais novas viviam então quase permanentemente com a tia Audrey, na sua casa impecável.
“Audrey era imaculada”, Mary disse. “Eu tinha vergonha de ir para lá... Denise, a filha dela, estava sempre arrumadinha, de tranças no cabelo. Sempre achei que Audrey ficava incomodada achando que eu passaria piolho para Denise; [antes de nos mudarmos] a família toda costumava sair
de Westmoreland Road e ir para lá tomar banho de banheira.
“P. e eu ficávamos sozinhos durante dias; pareciam semanas para mim”, Mary disse. “P. ficava por todo lado da casa; tinha um monte de outras atividades. Ele era muito mais organizado do que eu. Sabia quando a padaria abria, e podíamos passar a mão em doces e pãezinhos e coisas assim – ele conseguia fazer as coisas sem confronto nem violência, entrava e saía rápido, ele era assim. Eu o segurava. Tinha que pagar para ficar com ele. Ele me pagava para ir embora. Eu dizia: ‘Te dou seis moedas para brincar comigo’; ele me dava seis moedas para não brincar comigo...
“Às vezes, quando ela [Betty] saía, meu pai vinha, mas não o contrário. E quando ele estava lá, Harry e ele traziam coisas para comer; ele cozinhava e comíamos juntos. Quando minha mãe estava lá, tinha tortas, pão com salsicha e peixe com batata frita que ela me mandava comprar. Ela nunca comia conosco e sempre tinha berros e surras. Ela machucava P. também. Era terrível com ele, ela o chamava de todo tipo de nomes, como ‘babaca retardado’ ou ‘babaca idiota’. Ele a odiava.”
Perguntei se a mãe alguma vez bateu nas garotinhas.
“Não, não bateu”, Mary respondeu. “Não deixaríamos. Ela só batia em P. e em mim. Eu amava minhas irmãzinhas. Nunca a deixaríamos encostar nelas.”
Billy alguma vez bateu em Mary? “Nunca”, Mary respondeu com firmeza. “Ele não conseguia bater em nenhum de nós. Eu lembro um dia que minha mãe mandou que ele me desse uma surra. Ele me levou para o segundo andar e me mandou ficar pulando na cama, fazendo barulho como se estivesse me batendo, mas ele nunca bateu, nem em P. Nunca.”
Apesar de estar “sempre fora”, Betty sempre retornava para Scotswood. Era como se ela não conseguisse suportar se separar do objeto de seu amor e seu ódio. Talvez, sob a pressão da vida que ela criara, tenha se tornado mais violenta em relação às duas crianças e especialmente bruta em relação a Mary, por causa da revolta cada vez mais clara da filha contra ela.
“Era domingo e ela tinha saído ou viajado, então pensei em tomar banho”, Mary disse. “Mas ela voltou quando eu estava na banheira. Eu tinha gastado toda a água quente; ela ficou enlouquecida e me fez encher a
banheira de água fria e afundou minha cabeça na água e ficou segurando. Eu achei... Em algum lugar... Eu encontrei...”
“Forças?”, perguntei a Mary, mas ela continuou, sem nexo, sem me ouvir.
“Talvez por causa da falta de oxigênio, eu prendi a respiração e coloquei minhas mãos para cima tentando agarrar algo; ela me bateu nas costas com alguma coisa e eu tentei pular para cima, mas ela me empurrou de volta para baixo. Mas aí eu consegui pular fora, coloquei meu pé em um buraco no chão, corri para fora e sentei, sem roupa, num degrau da escada que dava para o quintal. P. apareceu e entramos juntos, e ela foi para cima dele e para
cima de mim também com uma corrente de prender cachorro. A polícia apareceu naquela noite. Nessa hora, eu estava vestindo um velho baby-doll marrom dela, rasgado e furado, mas ela disse que não era nada, e eles simplesmente foram embora...”