Por que Crianças Matam
1995: o norte da Inglaterra
1995
O norte da Inglaterra
A primeira vez que vi Mary Bell foi no dia 5 de dezembro de 1968, no
Moot Hall, em Newcastle, onde aconteciam os tribunais itinerantes. Ela,
então com 11 anos, e sua amiga Norma Bell, dois anos mais velha, eram acusadas do assassinato de dois garotinhos. Mary era pequena naquela época – bem menor que a garota mais velha – e era, de fato, excepcionalmente bonita, com cabelos curtos e escuros e olhos de um azul intenso. Eu voltei a vê-la diversas vezes nos anos seguintes enquanto ela ainda era criança. A última vez foi quando tinha 13 anos, no verão de 1970, dois anos após o início de sua detenção.
Vinte e cinco anos e meio depois, em novembro de 1995, quando
sentamos em uma pequena sala no norte da Inglaterra para discutir a viabilidade deste livro, ela me disse que se lembrava da última ocasião – não por minha causa, mas porque a mãe dela tinha ficado zangada ao vê-la conversando comigo. “Muito zangada”, ela disse.
Ela estava muito nervosa naquele dia. Suas mãos estavam geladas e um tanto úmidas; havia suor em seu rosto e sua voz estava não rouca, mas áspera. Ela era esbelta, como pensei que seria, e estava vestida de maneira inadequada para a época do ano: usava algo bege, com enfeites e desenhos
de flores coloridas, meias de lã escura até o joelho e sapatos barulhentos (“Compro tudo em brechó”, ela disse quase de imediato). E seu longo cabelo era encaracolado, brilhante e cheirava a xampu. De fato, ela toda cheirava não a perfume, mas a algo como um sabonete delicado. Conforme eu notaria com frequência mais tarde, e também como me confirmaram todas as pessoas sob cujos cuidados ela ficara ao longo dos anos, ela toma banhos constantes e é muito asseada. Coloquei meus braços ao redor dela e a abracei por um momento, num gesto inteiramente impulsivo, não porque
fosse esperado ou mesmo adequado, mas porque de repente eu tive vontade de fazê-lo.
Ela tinha sido parte de minha memória por tanto tempo, e a razão de nosso encontro, agora, era tão complexa; as motivações dela, tão
embaralhadas e meus sentimentos acerca da ética deste projeto, tão ambivalentes, que a tensão dentro do pequeno escritório cedido a nós por sua agente de condicional, Pat Royston, era tangível, quase elétrica.
É claro que na época de seu julgamento, em 1968, eu não podia falar com Mary, bem como – agora eu sei – ela não era capaz de “enxergar” qualquer pessoa, traumatizada pelos eventos e pelo julgamento formal.
“Foi como um borrão”, ela diria mais tarde. “Como um redemoinho... Eu não entendia um monte de palavras... Alguém me disse: ‘Este é o júri’. E eu
perguntei: ‘O que é isso?’, e eles disseram: ‘São as pessoas que decidem o que vai acontecer com você’. Eu disse: ‘Como?’, e eles mandaram eu me calar. Disseram que o juiz era o homem com manto vermelho, sentado na cadeirona, e que era o homem mais importante, então eu sempre me virava para ele para responder quando alguém me perguntava alguma coisa. Então, meu advogado disse que aquilo era grosseiro e que eu deveria olhar diretamente na cara das pessoas que me faziam perguntas – que eu tinha que tentar conseguir ‘passar uma boa impressão’. E minha mãe, que estava
sentada atrás de mim, ficava chiando ‘Trate de ficar quieta’ toda vez que eu me mexia. E me dava um tapa com a mão aberta atrás da cabeça ou no meio das costas cada vez que eu me mexia de novo. Doía, mas eu não conseguia não me mexer.” De repente, ela sorriu para mim, interrompendo seu fluxo de palavras: “Meu bumbum estava cansado”.
Isso era uma das coisas que eu viria perceber durante os meses em que conversamos: em seu vocabulário e em seu tom de voz, ela soa inteiramente como uma criança ao falar de sua infância – discursivamente, às vezes,
como fazem crianças imaginativas, mas com mais frequência de maneira inteligente; às vezes com humor, mas com mais frequência em desespero. A razão para isso, eu viria a entender, não se trata de uma reação ao ato de vasculhar sua memória, nem é de modo algum atuação ou fingimento (nem se trata, eu me apresso em dizer, de um sintoma de um transtorno dissociativo de identidade – “personalidade múltipla” –, conforme alguns psiquiatras especularam). É, creio eu, porque se trata de alguém que não teve infância e que fala como a criança que nunca foi, mas que dentro de si ainda é ou precisa ser. Seu “ser criança” – não uma infantilidade –, enfim, vem a ser menos surpreendente que aquelas vezes em que ela age
exatamente como o que é: uma adulta madura em profundo conflito consigo mesma.
Após o julgamento, ao final do qual Norma foi inocentada e Mary, declarada culpada de homicídio culposo – devido à atenuação de responsabilidade – e condenada à prisão perpétua, eu tinha passado meses em Newcastle investigando os antecedentes do julgamento e as consequências futuras do caso dela. E, com a ajuda de algumas pessoas de sua família, buscava traçar, tanto quanto elas estavam dispostas ou eram
capazes de me auxiliar, os eventos passados de sua infância – os primeiros dez anos com sua mãe, Betty Bell.
Mary nasceu no dia 26 de maio de 1957, quando Betty McC. tinha 17 anos. Dez meses depois, em março de 1958, Betty, então grávida de dois meses de seu segundo filho, casou-se com Billy Bell, de 21 anos de idade, que ela havia conhecido alguns meses antes. Em setembro de 1966, quando Billy e Betty Bell já tinham três filhos juntos, o nascimento de Mary foi registrado de novo, com o nome de Billy Bell. Esse é um procedimento de
certa forma raro que pode substituir a adoção formal e que fornece à criança uma certidão de nascimento com o nome do marido da mãe, cancelando-se a certidão original, na qual o nome do pai estava em branco.
“Tirem essa coisa de perto de mim!”, Betty Bell tinha gritado quando tentaram colocar o bebê recém-nascido em seus braços. E de acordo com o que eu descobriria durante meus meses de pesquisa em 1969 e 1970, foi isso que Betty gritou silenciosamente repetidas vezes desde então, audível o bastante, porém, a qualquer um que soubesse escutar.
Eu não tinha como saber à época do julgamento o que os parentes de
Mary (seus tios e tias, seu “pai”, Billy Bell, e sua frágil avó, a Sra. McC 7), todos aterrorizados e desnorteados pela tragédia, se esforçariam para me contar muito depois sobre a rejeição que Betty tinha por Mary. Mas o que descobri foi que, nos primeiros quatro anos da vida de Mary, sua mãe havia tentado repetidamente se livrar daquela criança indesejada. Por diversas vezes, tentou dá-la a parentes e, por duas vezes, até mesmo a estranhos. Por quatro vezes, tentou matá-la. Em três ocasiões, sua irmã mais velha, Cath, e Jack, o marido dela, ficaram tão preocupados que pediram para adotá-la ou, pelo menos, para ter permissão de cuidar da jovem até que terminasse a
escola. O que eu não sabia até que Mary, com enorme dificuldade, me contou no ano anterior era que quando ela tinha entre 4 e 8 anos de idade sua mãe, que trabalhava então como prostituta, submeteu-a a um dos piores casos de abuso sexual infantil com que já me deparei. O irmão de Mary, um ano e meio mais jovem, teria sido muito novo para entender e falar disso, e estou certa de que nenhum dos parentes estava ciente dessa parte do início da vida de Mary. Antes de conversar comigo, eles nunca haviam falado a ninguém sobre Betty – e, pelo que sei, nunca mais falaram de novo.
Em 1968, nem o Serviço Social de Newcastle, nem as autoridades de educação e saúde, nem a polícia, nem – o que é mais importante – qualquer um dos psiquiatras que examinaram a garota de 11 anos antes do julgamento (portanto, ninguém no tribunal) sabiam absolutamente nada sobre a infância de Mary. Essa ignorância quase total sobre os traumas que ela sofreu deixou um grande ponto de interrogação em minha cabeça sobre opinião de dois psiquiatras designados pelo tribunal, mesmo antes de eu saber a totalidade dos problemas dela. Eles, sem dúvida na falta de uma
explicação melhor, rotularam-na com aquele diagnóstico versátil (considerado altamente questionável pela maioria dos especialistas quando aplicado a crianças) de “psicopata”.
Assim rotulada, o promotor descreveria Mary como “perversa”, “cruel”, “aterrorizante”; até mesmo o juiz deixaria a palavra “maléfica” escapar em um de seus discursos. Era de se surpreender que a mídia – respondendo ao tom estabelecido pelo tribunal e ao medo e clamor públicos, mais do que os criando – chamasse Mary de “aberração da natureza”, “nascida do mal” e
(sem dúvida, em referência ao livro e ao filme popular nos anos 1950)
“semente ruim”?8
Mas eu não conseguia acreditar naquilo: tornou-se claro para mim, mesmo em meu primeiro ano de pesquisa, que de uma maneira ou de outra a patologia da mãe de Mary tinha que ter sido a causa de seu desequilíbrio mental muito antes de ela matar os dois garotos, e essa convicção permeou todos os meus escritos sobre ela e sobre o caso. Dois longos artigos no Daily Telegraph Magazine em dezembro de 1969 foram seguidos, dois anos mais tarde, por meu livro The Case of Mary Bell, que trazia a investigação da polícia sobre o caso, transcrições ipsis litteris de partes do julgamento e
tudo o que me foi permitido revelar sobre os primeiros anos da detenção de Mary. Dado que o objeto de ambos os artigos e do livro era uma criança, e que seus familiares estavam vivos, esses escritos foram, é claro, submetidos a muitas limitações legais. Mas os artigos e o livro abririam muitas portas para mim, permitindo-me acompanhar a vida de Mary e, quando parecia útil, comentar sobre ela ao longo dos doze anos em que ficou detida.
O caso de Mary e sua vida desde a libertação têm despertado um grande – e, para ela, perturbador – interesse midiático. Não posso culpar meus
colegas da mídia, dado o quanto eu mesma tenho tido interesse por ela nesses trinta anos. Ela era e é excepcional, com uma vida excepcional e dons excepcionais de expressão. Nunca escrevi sobre ela após sua libertação e nunca repassei informações que tinha sobre seu paradeiro e suas circunstâncias, nem para colegas e nem mesmo para amigos. Achei que ela precisaria de anos de readaptação e senti que ela deveria ter a possibilidade de viver no anonimato por muito tempo. Mas eu também acreditei por muitos anos que, se alguém pudesse ajudar-nos algum dia a
entender, primeiro, o que leva uma criança a cometer assassinato e, depois, o que precisa ou pode ser feito com tal criança ou em prol dela, então, com aquela sua curiosa inteligência que presumi fosse perdurar, essa pessoa seria Mary. Sempre pensei que chegaria o dia em que ela mesma, sem pressão externa, desejaria contar sua história.
Isso começou a acontecer, de modo bem inusitado, no outono de 1995, em Londres, na noite da festa de lançamento de meu livro sobre Albert Speer, quando Hilary Rubinstein, que tinha sido meu agente literário para
The Case of Mary Bell, perguntou-me discretamente se eu ainda estaria interessada em escrever sobre Mary. Na manhã seguinte, ele me disse que a mãe de Mary havia morrido no último janeiro e que esse poderia ser o momento para ela encontrar uma maneira de contar sua história.
Desde sua libertação em 1980, ela tinha recebido inúmeras ofertas de enormes somas em dinheiro por sua história, tanto de revistas britânicas quanto estrangeiras (a revista alemã Stern ofereceu aproximadamente 250 mil libras), todas as quais ela recusou. Rubinstein havia sido contratado para representar os interesses dela pela primeira vez em 1983, quando aquele que era então seu companheiro e que via para si um futuro cheio de
ouro tinha persuadido Mary a tentar escrever ela mesma sobre sua vida. Mas, apesar de ter um distinto dom para as palavras e de ter produzido um rascunho de cem páginas, o qual uma editora pensou que poderia ser transformado em livro com a ajuda de um profissional. O projeto foi abandonado porque não se chegou a um acordo sobre as condições.
Rubinstein acreditava que Mary se sentia diferente agora. Antes de encontrá-la de novo, ele havia conversado por muito tempo com sua agente de condicional e seu advogado, que juntos, ele disse, haviam feito com que
Mary se recuperasse de muitas reviravoltas, ajudando-a a se libertar daquele primeiro relacionamento e protegendo-a da mídia nos quatorze anos anteriores. Ele havia lhes sugerido e, mais tarde, à própria Mary que, se o que ela estava pensando por ora era um livro sério, então ela deveria se encontrar comigo. Após alguma persuasão, ela concordou em fazer isso.
“Ela é extraordinariamente desconfiada, particularmente em relação a você, por mais estranho que isso possa parecer.” Eu não achava aquilo estranho. Ninguém havia exposto Mary e, é claro, sua mãe tanto quanto eu.
Algo que me surpreendia era sua disposição agora, depois de relativamente pouco tempo desde a morte da mãe dela, se encontrar comigo.
“Para minha mãe, você era o diabo, sabe”, Mary disse quase no instante em que nos sentamos naquela pequena sala, no escritório da agente de condicional. “Ela disse que você tinha escrito aquele livro cheio de mentiras; que você saiu revirando latas de lixo para achar os podres das pessoas; que você tinha interpelado meu primo de 5 anos, filho de minha tia Cath, para saber informações sobre ela; que você a chamou de prostituta.
Ela disse que foi a todas as livrarias de Newcastle e virou seu livro de costas para que as pessoas não olhassem para ele. Ah, eu acho que ela odiou você até o dia em que morreu. E, bem, eu era só uma criança, não era? Então por anos eu acreditei nela.”
Eu perguntei sobre quando sua mãe havia lhe prevenido contra mim pela primeira vez.
“Ah, eu lembro muito bem”, ela disse. “Foi muito antes de me falar sobre o livro. Foi no inquérito... Sabe... Sobre aquele tutor. Lembra? Você apareceu para conversar comigo.”
Na verdade, havíamos nos encontrado cara a cara duas vezes antes do dia
mencionado por Mary, mas ela havia esquecido. No início de 1970, pouco depois de o Daily Telegraph Magazine ter publicado meus artigos e novamente quando eu havia começado a trabalhar no livro alguns meses
mais tarde, o Ministério do Interior9 permitiu que eu fosse a Red Bank – a unidade especial para onde Mary havia sido mandada depois de ser condenada – para vê-la e conhecer a equipe da unidade. Em ambas as vezes, eu conversei brevemente com ela, tendo aquelas conversas que se tem com crianças, sobre seus desenhos, sobre o que ela escrevia, sobre quais esportes
mais gostava (natação).
Ela tinha chegado a Red Bank havia dezesseis meses quando, em junho de 1970, com apenas 13 anos, acusou um tutor de molestá-la sexualmente. O inquérito a que ela agora se referia fora realizado para determinar se havia um caso a ser investigado. Eu havia dado uma saída para conversar com ela sobre isso durante um intervalo – conversamos sobre uma jovem professora de quem ela gostava, segundo me disse – não porque eu quisesse saber sobre qualquer coisa (isso seria impensável), mas porque, de forma
incompreensível, ela havia sido deixada sozinha, sentada, e parecia perdida. Escreverei mais à frente sobre o episódio do tutor, mas em 1995, quando nos encontramos novamente, fiquei surpresa de saber que ela conseguia se lembrar daquele breve encontro. Ela me contou, na verdade, que havia se lembrado disso só após a libertação, ao ver uma fotografia minha na orelha do meu livro.
“Naquele dia, eu não tinha ideia de quem era você”, ela disse. “Mas minha mãe estava lá e viu você conversar comigo. Ela correu e gritou
comigo, dizendo que era para eu nunca, nunca falar com você. Ela estava sempre furiosa, mas daquela vez ela estava... Simplesmente enlouquecida. Eu fiquei tão assustada.”
Mary falou bastante sobre a mãe nas horas seguintes, sem dizer qualquer coisa real sobre ela. A mãe era como uma sombra, surgindo ou desaparecendo do fundo de sua memória: uma figura à qual ela se referia repetidas vezes como “esperta”, mas com a mesma frequência de “doente” e “triste”; ela aparecia continuamente nesse relato sem se tornar, mesmo que por alguns instantes, uma pessoa. Ia e vinha em meio à torrente de palavras que jorrava de Mary, como se aquele fosse – e como se tivesse que
ser – o momento em que ela me contaria tudo: sobre Red Bank, onde ela ficou por cinco anos, e sobre o tutor de lá, o Sr. Dixon, que instilou nela uma primeira, ainda que pálida, noção da diferença entre certo e errado.
“Não dava para não entender aquilo com o Sr. Dixon como tutor. Eu o amava”, ela disse. “Vou amá-lo até eu morrer.” Ela falava sem parar sobre o Sr. Dixon e também sobre seus anos de rebeldia na prisão: “Eu não ia me entregar. Eu não ia me tornar uma criatura deles. Eu não iria me deixar ser institucionalizada”.
Então, ela aprendeu sobre jogos de poder e corrupção durante aqueles anos, praticamente incontrolável para a equipe da prisão; utilizou-se do sexo (com colegas detentas) e de seus dotes de manipulação (junto às colegas e à equipe) em suas tentativas de dominar o ambiente que a cercava. Mary falou sobre sua vida depois da libertação e sobre sua filha: repetidas vezes sobre a filha, mas nunca, sequer uma palavra, sobre sua própria infância.
Finalmente perguntei se ela havia lido The Case of Mary Bell (que tanto
traz sobre sua infância). Em 1981, ela disse, um ano depois de sua libertação e vivendo agora com um nome diferente, ela disse que havia se inscrito para cursos em uma faculdade em West Yorkshire – à qual ela se refere como “uni” [de “universidade”] – e foi na biblioteca de lá que uma aluna conhecida, passando com um livro, havia lhe perguntado se já o tinha lido. “É tão triste”, a garota tinha dito, “tão triste o que eles fizeram com aquela garotinha Mary Bell”.
Depois disso, Mary havia lido “não ele todo, apenas partes”, ela disse.
“Não era nem um pouco como minha mãe tinha dito. Eu não conseguia acreditar que havia alguém que sentia compaixão por mim. Minha mãe sempre falava que ninguém tinha, ninguém poderia ter, porque eu era muito má... Um motivo de vergonha na vida dela. Quando fui solta, ela disse que não era para eu falar com ninguém que ela era minha mãe, que não poderia viver com essa vergonha, e me apresentava para as suas companheiras, nos pubs, como irmã dela, e outras vezes como prima dela.” Agora, Mary queria falar sobre aquilo tudo, mas, mais ainda, queria ajudar a pensar sobre aquilo tudo: chamava isso de “colocar as coisas em seus devidos lugares”.
Eu perguntei o que precisava ser colocado no seu devido lugar. Ela estava alegando ter sido injustamente condenada? Ela balançou a cabeça em negativa.
“Não é isso”, disse, visivelmente incapaz de se aprofundar no assunto naquele momento. Já haviam se passado quase cinco horas. Tínhamos almoçado sanduíches e tomado infinitas xícaras de café e chá; ela parecia pálida e muito cansada.
“Não foi assim tão... Simples”, ela disse. “Quero falar sobre como
aconteceu... Como aquilo foi feito... E... E... Você sabe, passar pelas recordações daquilo, por mim mesma. Como aquilo aconteceu? Como eu me tornei aquela criança?”
Ela estava ciente, eu perguntei, que tal livro estava fadado a ser polêmico? Que as pessoas certamente pensariam que ela estava fazendo aquilo por dinheiro? Que nós duas seríamos acusadas de insensibilidade em relação às famílias das duas pequenas vítimas por trazer a lastimável tragédia de volta aos holofotes e, quase inevitavelmente, de
sensacionalismo, por causa do material do livro? Acima de tudo, ela entendia que os leitores não aceitariam quaisquer sugestões de uma possível atenuação de seus crimes? E ela havia confrontado a realidade de que, se colaborasse com tal livro, seria exposta a novos massacres da mídia, caso eles a encontrassem?
Nos meses que viriam, sua habilidade de ponderar por longos momentos sobre perguntas feitas a ela se tornaria muito familiar. Em tais ocasiões, ela se sentava imóvel, as mãos levemente entrelaçadas, quase em posição de
meditação, com uma curiosa aparência de introspecção em seu rosto. Eu nunca me cansava de observar esse esforço de concentração, essa manifesta busca dentro dela mesma não por uma resposta “adequada”, como se poderia suspeitar – e eu suspeitei naquele primeiro dia –, e sim por algo que fosse importante tanto para ela quanto para mim.
Foi a pergunta sobre as famílias de Martin Brown e Brian Howe que ela respondeu primeiro. Ela os havia feito sofrer tanto, disse, que não queria fazê-los sofrer mais... E, de repente, ela estava chorando.
“Mas... Mas... Há coisas que eles não sabem... Não vai mudar nada para eles, eu sei, mas ainda assim...”
“Que tipo de coisas?”, perguntei.
“Ah, não sei. Apenas coisas...” Era óbvio que ajudá-la a organizar seus pensamentos e trazer à tona o que quer que ela queria dizer demandaria, como eu sempre suspeitei, um ambiente adequado, conversas cuidadosamente estruturadas e, sobretudo, tempo.
O contínuo interesse da mídia, ela disse pouco depois, era uma das principais razões pela qual havia se decidido. Ela pensava que ao me contar toda a sua história, respondendo a todas as minhas perguntas da forma mais
honesta possível, talvez eles a deixassem em paz. “Afinal”, ela sorriu com o canto da boca, “quando você tiver terminado seu interrogatório comigo, não vai sobrar muito para os outros perguntarem, vai?”.
Eu tentei dissuadi-la desse otimismo. Os jornais, falei para ela, particularmente aqueles que a haviam perseguido por tanto tempo, eram um meio muito diferente de um livro, com um público diferente, e repórteres sempre achariam perguntas a fazer. E o dinheiro que eu mesma proporia que ela recebesse se decidisse ir em frente (com a esperança de que fosse
depositado em benefício de sua filha) – porque eu pensava que isso era correto, já que sem Mary o livro não poderia ser escrito – seria um verdadeiro problema moral, não apenas para a mídia, mas também para as famílias dos garotos mortos e para muitas pessoas sensíveis.
Discutir sobre dinheiro seria sempre difícil para ela. Apesar de o querer desesperadamente para mudar o estilo de vida instável da família, Mary estava ciente das possíveis objeções morais; e ao falar no assunto, sua voz era tensa, como se repetisse argumentos que não eram seus, parecendo
excepcionalmente defensiva, teimosa e não totalmente sincera.
Ela e seu companheiro, também seu principal apoio emocional há onze anos, tinham vivido uma vida de mera subsistência por longos períodos. Sendo Mary uma prisioneira notória em liberdade condicional e caçada pela mídia, eles raramente conseguiam manter empregos por qualquer duração de tempo e, com frequência, recorriam a viver às custas do Estado – exceto por um período de vários anos quando, vivendo no próspero sul da Inglaterra, ambos haviam tido empregos regulares. O parceiro de Mary ficou longas temporadas sem trabalhar e a própria Mary, que teve muitos empregos desde sua libertação, precisou desistir de todos eles após alguns
meses ou até mesmo semanas, seja porque o Serviço de Liberdade Condicional considerava o emprego inadequado para ela, seja porque tinha sido reconhecida ou estava com medo de ser.
Seu companheiro, Jim, é um homem interessante. Quando eu o conheci, me senti um tanto irritada com sua filosofia esotérica e new age. Mas há outros aspectos da personalidade dele que são admiráveis, como sua total rejeição a qualquer tipo de racismo, sua oposição a drogas pesadas e álcool, e sua profunda crença na tolerância e nos valores familiares. Acima de tudo,
é preciso reconhecer sua lealdade a Mary, com cujos profundos sentimentos de culpa, carência e falta de autoconfiança é irrefutavelmente difícil de conviver. Ele também é, como fiquei sabendo por aqueles que o conhecem, um excelente pai.
Porém, havia desde o começo uma diferença radical entre eles nas atitudes com relação ao dinheiro que ela receberia. Ele sentia, e me dizia sempre, que a despeito dos crimes que havia cometido quando criança ela era agora, e tinha sido durante anos, uma “pessoa bem diferente”. Dado o
que ela havia sofrido nas mãos desse “sistema capenga” que, ele alegava, estava estagnado na idade da pedra em seu entendimento sobre crianças, qualquer dinheiro que Mary pudesse vir a ganhar não seria nem presente, nem caridade: Jim achava que ela o “merecia”; Mary não sentia o mesmo (nem eu, é claro). E durante muito tempo ele reagiu com ceticismo quando uma de nós tentava explicar que as prioridades para o projeto do livro nada tinham a ver com dinheiro. “Parem com essa bobagem”, essa era sua reação automática, uma atitude à qual, eu percebi, Mary estaria exposta – e contra
a qual teria que brigar – durante quase o projeto inteiro. Com o passar do tempo, porém, Jim veio a compreender por completo a verdadeira importância dessa empreitada. Além disso, nos dois anos desde que Mary e eu iniciamos o projeto, ele se estabilizou em um emprego satisfatório e seguro, e está agora sustentando a família.
Quando conversamos naquela primeira ocasião, o que ela disse sobre dinheiro me pareceu razoável. “Não vou dizer que não quero dinheiro”, ela disse. “Isso seria desonestidade: todo mundo quer dinheiro. Mas o que eu mais quero é uma vida normal. Quero sair da rotina da assistência social e trabalhar naquilo que gosto. Quero criar raízes e proporcionar uma vida
normal, estável, para a minha filha”, repetia.
Muito mais do que dinheiro, Mary disse, ela começara a sentir que precisava falar... Sobre o que havia feito, sim, mas também (ela balançou a cabeça devagar, um outro gesto, de susto e de desespero, que se tornaria familiar para mim) sobre o que tinha acontecido com ela. Quando eu sugeri, e eu repetiria essa sugestão muitas vezes ao longo dos meses seguintes, que um psiquiatra pudesse ser uma solução melhor do que conversar comigo para um livro, fiquei surpresa com a veemência de sua reação.
“Não”, ela disse. “Não. Eu não vou conversar com psiquiatras, não vou. Não vou. Nunca.” A voz dela tinha se tornado quase estridente devido à tensão. “Se você não quer fazer isso, eu vou encontrar outra pessoa.” Ela se levantou de um jeito brusco. “Vou fumar um cigarro”, Mary disse e saiu.
No início daquela manhã, eu havia conversado por um longo tempo com Pat Royston. Surpreendentemente, ela foi a favor do projeto do livro desde o início. Dado que suas próprias experiências com a mídia ao representar Mary tinham sido amplamente desfavoráveis, questionei a ela sobre o que a
fez concordar com a decisão de Mary em colaborar com este livro.
“É porque eu acho que alguém precisa descobrir e explicar como acontecem crimes terríveis como o de Mary, o das duas crianças de 10 anos que mataram James Bulger, e um grande número de outras transgressões graves de crianças mais novas.” Ela disse também que está fora de questão desculpar ou, ao compreendê-los, legitimar atos como esses. “Mas no justificado horror do público a esses acontecimentos e na pronta aceitação do mau como explicação [para eles]”, ela continuou, “as pessoas tendem a
esquecer que essas são, ou foram, crianças. Trata-se de crianças que, antes de chegarem ao ponto de ‘explodir’ em tais atos de violência, traziam uma bagagem de experiências infantis desconhecidas ou ignoradas por qualquer adulto responsável”.
Pat explicou que sua experiência havia lhe ensinado que, se tais crianças eram tão jovens quanto Mary e, de fato, quanto os dois garotos que mataram James Bulger, a razão para tal bagagem de experiências na infância – “se é que se pode utilizar a palavra ‘razão’”, ela disse com amargor – teria sido incompreensível para as próprias crianças.
“Talvez tenhamos progredido desde 1968. Talvez, apesar de eu ter minhas dúvidas, aqueles dois jovens [agora cumprindo sentenças de prisão perpétua, como Mary] estejam recebendo ajuda para entender o que os levou ao ponto de matar o pequeno James. Mas, no que diz respeito a Mary, as experiências na infância que ela viveu antes de cometer os crimes ainda não foram digeridas, elas ainda não foram nem realmente compreendidas, nem aceitas. Ela teria precisado de ajuda psiquiátrica ao longo de sua detenção. Porém, exceto basicamente pela gentileza que lhe foi
demonstrada quando criança pelo diretor e pela equipe de Red Bank, e um pequeno período de terapia em grupo uma vez por semana na prisão – um privilégio pelo qual teve que lutar –, ela não recebeu nenhuma atenção ou acompanhamento profissional de qualquer espécie por doze anos de ‘amadurecimento’.” Agentes de condicional na Inglaterra não costumam ser terapeutas treinados; não é a função deles.
“Acontece de eu ter bastante interesse nisso”, Pat Royston acrescentou, “e ter desenvolvido esse estilo de trabalho com a ajuda de treinamento
adicional. Por causa disso eu pude, dois anos após Mary sair da prisão, ajudá-la a começar o longo processo para desembaraçar suas confusas emoções, o que tornou possível para ela criar uma família e começar a ter algum tipo de vida”. Havia quatro razões, Pat disse, pelas quais, depois de longa ponderação, ela aceitara a decisão de Mary de cooperar com o livro. Duas aplicavam-se especificamente a Mary e duas às muitas outras crianças em dificuldades.
“A primeira é que, para que Mary consiga um dia tornar-se um ser
humano funcional, ela precisa de ajuda para entender não o que ela fez – pois isso ela já entende e lhe causa uma culpa esmagadora –, mas sim o que foi feito a ela quando criança. E isso significa que Mary deve se dar conta disso e receber ajuda para aceitar quem era sua mãe e o que ela fez com a filha no passado, e aceitar seus próprios sentimentos em relação à mãe.” Em segundo lugar, Pat Royton tinha esperanças, assim como Mary, embora com menos otimismo, que uma vez que sua história estivesse registrada a mídia a deixaria em paz para ela poder, enfim, começar a levar uma vida normal.
Sua terceira razão originou-se de sua preocupação pessoal com as graves deficiências no treinamento de assistentes sociais, professores primários e
também de agentes de condicional, o que resultou na falta de sensibilidade e cuidado em relação a crianças em sérias dificuldades. “Sem dúvida nenhuma”, ela disse, “isso contribui para o aumento catastrófico de crimes graves cometidos por crianças e, como pudemos ver no caso de Mary, no qual muitos gritos por ajuda permaneceram ignorados, do risco de resultados trágicos em tais casos”.
“Por fim”, disse Pat, “minha quarta razão é minha própria angústia, e da maioria das pessoas do meu ramo, com o modo pelo qual o sistema judicial
lida com crianças e adolescentes que cometem crimes graves. Vim a compreender que, mesmo se tratando de uma estratégia muito pouco convencional – e, normalmente, uma estratégia nem desejável, nem aceitável para profissionais como eu –, permitir que Mary, que se expressa muito bem oralmente, problematize a si própria ao ponto de falar em público talvez seja um meio legítimo de demonstrar, em primeiro lugar, a extensão do fracasso da sociedade no cuidado com as crianças e, em segundo, como fracassamos duplamente na maneira como lidamos com as
tragédias resultantes. Eu cheguei à conclusão de que, nessa era da comunicação, esse pode ser o único meio de alertar as pessoas para a necessidade gritante por mudanças em atitudes públicas e na lei”.
Quando Mary retornou, murmurando um “desculpa” – pedir desculpas nunca foi fácil para ela –, eu tentei explicar por que eu estava, de certo modo, fazendo o papel de advogada do diabo contra meu próprio desejo de fazer este livro ao questioná-la se ela deveria mesmo aceitar a difícil empreitada. Porém, ainda levaria muito tempo para fazê-la compreender
como um livro desse teria que ser; o que ela teria que dar de si mesma para que fosse possível que eu o produzisse. E enquanto não começássemos a trabalhar juntas, eu a adverti, não teríamos certeza de que ele poderia funcionar e que não acabaríamos tendo que abandonar o projeto. Eu também lhe disse que não tinha como saber antecipadamente como ela reagiria às minhas perguntas, nem em que medida ela iria não apenas conseguir, quanto mais querer, ser sincera consigo mesma ou comigo a respeito de coisas sobre as quais, com toda certeza, seria insuportável falar. Disse-lhe também que sequer estava segura de ser a pessoa certa para fazer isso com ela, tampouco de que era certo que eu fizesse, e que fora por isso
que eu sugerira, antes, que poderia ser preferível para ela consultar um psiquiatra.
Ao longo de nosso tempo juntas no ano seguinte, ela resistiria a essa ideia. Logo que começamos a conversar, Mary me contaria uma de suas primeiras lembranças.
“Acho que eu tinha 6 ou 7 anos”, ela disse. “Nós, minha mãe e eu, estávamos indo ver os pais do meu pai, que moravam do outro lado da ponte sobre o Rio Tyne. Lembro que estava escuro, porque havia luzes na
ponte e nos carros. Estávamos andando pela ponte. Minha mãe estava furiosa. Eu não me lembro por quê. Ela agarrou meu braço e apontou para uma guarita à frente, sabe, uma daquelas coisas de concreto, e disse que, se eu contasse mentiras para qualquer pessoa, era lá que eu seria colocada. ‘Isso é o que fazem com crianças que não ficam de boca fechada quando mandam’, ela disse. E me deu um safanão.”
Mas naquele dia teria sido não apenas impossível, mas também errado trazer à tona sua infância, a qual eu sempre tive certeza de que foi ainda
pior do que a família tinha admitido para mim, e que tinha que ser não uma desculpa, mas sem algo que poderia levar a uma explicação para seus terríveis atos em 1968. Isso, porém, precisaria de um desenvolvimento lento. Quanto aos atos em si, seria claramente essencial que ela confrontasse o que havia feito. Ela havia sempre negado, até aquele dia, que matara Martin Brown e havia sempre minimizado, acreditava eu, a extensão de sua responsabilidade na morte de Brian Howe. Antes que fosse possível procurar pelos motivos com ela, seria necessário que ela encarasse o fato de
que havia cometido aqueles atos, não importando se alguma outra pessoa estava presente ou não. Todas essas eram questões a serem abordadas com muito cuidado, deixando para ela a iniciativa de quando e como falar sobre elas na maior parte do tempo e protegendo-a do choque que quase certamente seguiria essas revelações, caso um dia ela fosse capaz de abordá-las.
Conforme eu perceberia com frequência no futuro, sua atenção havia se desviado logo depois que eu começara essa discussão longa e difícil, e seus pensamentos estavam tão mergulhados em outro lugar que ela provavelmente não havia ouvido metade do que eu dissera.
“...Norma,” disse ela, como se respondesse a uma pergunta. “Não quero dizer nada contra ela... Mas...”. Ela parou e, então, recomeçou: “Pobre Norma...”.
Muitos pensamentos permaneceram não declarados entre nós naquele primeiro dia, mas uma quantidade de assuntos sobre os quais ela se sentia incansavelmente amarga surgiria por diversas vezes ao longo dos dois anos seguintes. O fato de que o tribunal de Newcastle declarou Norma inocente e a absolveu talvez seja a recordação mais amarga de Mary em relação àquele
dia, em dezembro de 1968, em que o julgamento terminou, embora ela não sinta mais qualquer animosidade pessoal contra a amiga de infância.
“Lembro bem claramente o sentimento de saber o que aconteceria. Eu não sei como sabia. Deve ter sido a partir do que eles disseram... Sobre ela? Para ela? Não sei.” Eu poderia ter-lhe dito, embora não o tenha feito naquele dia, que, sim, estava bem claro, dias antes de o julgamento terminar, que aquele tribunal, com aquele júri, jamais condenaria ambas as garotas e que Norma sairia livre.
“Como eles puderam?”, ela perguntaria diversas vezes depois, e frequentemente acrescentaria, como naquele primeiro dia: “Pobre Norma...”. E meses depois de iniciarmos nossas conversas, ela disse não uma, mas diversas vezes: “Talvez o que aconteceu com ela tenha sido, afinal, pior para ela do que o que aconteceu comigo foi para mim”.
O maior medo de Mary é o da mídia, e da imagem de monstro que se criou dela em 1968. Em sua percepção, esse “mito”, como ela sempre o chama, perdura a despeito do fato de que, desde aquela época, houve grande
quantidade de casos “similarmente terríveis” (palavras dela) e mesmo mais visíveis no Reino Unido e em outros lugares. Esse mito a manteve isolada de seus tios, tias e parentes, os quais amava, e dos filhos deles, a quem ela ansiava conhecer. Quanto ao público que, segundo ela sente e com certa razão, não a esqueceu, o mito de sua maldade inata e singular continua intacto, como confirma a absolvição de Norma. Outro ponto de amargura é que ela era lembrada – ainda é e sempre será, ela acredita – como mentirosa e manipuladora.
“Mas, pelo amor de Deus”, ela disse. “Eu era uma criança; que outra coisa eu podia fazer, senão mentir?” Outra questão, que não deixa de estar
relacionada à anterior, é seu ressentimento por ser considerada excepcionalmente inteligente. Em suas lembranças do julgamento, toda menção a sua “inteligência” é entremeada por sugestões de manipulação. “E isso quer dizer que as pessoas pensam que eu nunca sou honesta. Mas sou, eu sou...”, ela diria repetidas vezes, e começaria a chorar.
Se acreditei em suas lágrimas, naquele dia e depois? Se pensei, quando Mary foi embora no final daquela tarde, que poderia confiar nela, que seus motivos eram aqueles que ela havia descrito, e que sua história, qualquer
que fosse, seria verdadeira? Não sou dada a ilusões. Pensei que os motivos dela eram confusos e suas descrições não eram sinceras, mas que isso era resultado da insegurança e da inexperiência mais do que da manipulação. Ela não me conhecia, nem havia jamais conhecido alguém como eu ou o mundo em que vivo. E o que Mary estava propondo fazer, mesmo que ainda não tivesse compreendido as dimensões daquilo (e não tinha), era um grande passo para fora dos limites muito específicos de sua vida, e isso demandava coragem.
Mas sim, pensei que ela tentaria me manipular, como tentaram outros muito mais sofisticados do que ela. Da mesma maneira, eu sabia que haveria mentiras – como pode não haver quando seres humanos concordam em abrir, uns aos outros, o que existe de pior dentro deles? Ainda assim, eu tinha certeza ao final daquele dia de que quaisquer mentiras deliberadas que ela pudesse contar seriam mais sobre pequenas coisas do presente do que sobre coisas importantes do passado. Pois eu acreditava em sua infelicidade sobre o que havia feito e isso era decisivo para mim. Eu
acreditava em sua tristeza em relação às famílias cujas crianças ela havia tirado, e eu acreditava em sua necessidade de conhecer a si mesma.
Contudo, já naquele primeiro dia eu sabia que trabalhar com Mary jamais seria fácil. Eu havia contado a ela, ao final de tudo, como visualizava o tempo que passaríamos juntas: que, embora eventualmente fosse fazer arranjos para trabalhar em locais próximos a sua família, eu acreditava que a melhor coisa seria se ela concordasse em vir até Londres e ficar conosco durante a primeira semana, quando poderíamos começar a trabalhar e nos conhecer melhor.
Percebi que, exceto pela supervisão do Serviço de Liberdade Condicional, uma exigência para sua libertação, sua vida anterior a havia deixado quase obsessivamente resistente a ser contida. Eu havia lhe avisado que, a partir do momento em que os contratos de publicação fossem assinados, nós estaríamos sujeitas a suas condições, tanto no que dizia respeito às datas especificadas quanto à discrição absoluta que seria demandada de nós. Pois eu sabia a priori – Pat Royston havia me avisado e o advogado de Mary havia confirmado – que o tribunal responsável pelo
bem-estar da filha de Mary, ainda que não se opusesse a tal projeto,
requereria absoluta discrição a fim de proteger a criança. 10
Tal necessidade de sigilo foi enfatizada, mesmo enquanto nós esperávamos os seis meses que advogados, agentes e editores levaram para chegar a um acordo. Pat Royston recebeu um pedido de entrevista com Mary de um de seus perseguidores da imprensa mais persistentes e, por duas vezes, houve evidências de que um carro estranho estava passando pelas ruas próximas ao local onde Mary vivia e que alguém estava fazendo
perguntas na vizinhança. Ficou claro, como em numerosas ocasiões anteriores, que ela teria de se mudar. Ainda que isso tenha sido feito, e uma carta tenha sido enviada para lembrar o editor do jornal em questão sobre a liminar do tribunal, isso intensificou nossa atenção e nossa obrigação para com ele.
Essa preocupação com o segredo não apenas sobre o paradeiro de Mary, mas também sobre todo o projeto se tornaria um peso tanto para Mary quanto para mim. Do lado dela, ninguém sabia do nosso arranjo, exceto seu
companheiro, Jim; dois parentes próximos dele; o padrasto dela, George; quatro antigos professores de Red Bank e os advogados de Mary (o Ministério Público foi informado desde o início, bem como, no fim das contas, a unidade de prisão perpétua do Ministério do Interior). Pat Royston e outra agente de condicional de Mary, Samantha Connolly, trabalharam comigo do começo ao fim e corroboraram essencialmente com a maior parte de sua história. Para Mary, isso significou a separação praticamente total por três anos dos poucos amigos que havia feito.
Do meu lado, além de minha família e de meu editor, apenas duas pessoas sabiam desde o começo: uma amiga (uma antiga assistente social)
que me auxiliou com parte da papelada, e um amigo advogado (especialista em crimes cometidos por crianças ou contra elas) que me aconselhou. Posteriormente, eu consultaria algumas outras pessoas, psiquiatras na Grã-Bretanha e fora dela, assistentes sociais e dois de meus amigos mais próximos, ambos escritores, ambos no exterior. Tudo isso me levou a um isolamento estranho e bem perturbador, mesmo em relação a meus amigos e meus colegas mais próximos.
A intensidade da preocupação de Mary quanto ao projeto do livro e às
condições que ele exigia tornaram-se aparentes logo na primeira vez que combinamos de trabalhar juntas. Nós não sabíamos a que horas ela chegaria a Londres, mas ela havia telefonado da estação no início da noite e dito que tinha dinheiro, preferindo tomar um táxi a esperar que a apanhássemos. Essa foi a última coisa que ouvimos dela até sua chegada às 11 horas da manhã do dia seguinte, num estado lastimável, carregando uma mala pesada e quatro sacolas plásticas abarrotadas de jornais e fotografias.
“Desculpe”, ela repetia de novo e de novo. “Desculpe mesmo, mas eu
precisava ficar sozinha.”
“Mas onde você esteve? O que você fez?”, eu perguntei.
“Caminhei”, ela disse.
“A noite toda?”, perguntei, incrédula, e ela confirmou com a cabeça.
Depois descobri que ela havia tomado inúmeras xícaras de chá e descansado em soleiras até o amanhecer. Por fim, não querendo tocar nossa campainha muito cedo e também, àquela altura, terrivelmente relutante quanto a todo o projeto, ela havia se sentado numa lanchonete próxima e
bebido um café após outro enquanto buscava coragem para se aproximar da rua em que moramos.
Naquela manhã, tudo o que eu podia fazer era preparar um banho para ela e colocá-la na cama. Quando acordou, seis horas depois, dei-lhe o telefone para que ligasse para casa. Ao entardecer – para mim uma indicação tanto do nervosismo quanto do caos dentro dela – ela havia coberto todo o espaço livre do meu escritório, onde dormiu, com jornais, cosméticos, maquiagem e um resto de roupas mal separadas, empacotadas de maneira visivelmente caótica.
Mas, muito mais indicativo de seu estado de espírito, tudo o que ela queria naquela noite e no dia seguinte era falar sobre sua filha – quase como se quisesse estabelecer para mim sua identidade no presente antes de dizer qualquer coisa sobre o passado. E para Mary ela é, mais do que qualquer outra coisa, a mãe de sua filha. Levou vários dias para que eu entendesse que havia nela duas partes completamente distintas. Uma é a mãe jovem, atraente, calorosa e de amor incondicional que, com talento, imaginação e inteligência, está dedicando uma grande parte de sua mente e de sua
personalidade a criar uma infância ideal para a filha. Nesse aspecto de sua vida ela é calma, organizada, disciplinada e feliz. A outra parte – com a qual eu me tornaria mais familiarizada (embora não houvesse um dia sequer, naqueles cinco meses, que não surgisse o assunto da filha) – é caótica, praticamente incapaz de organização e disciplina e, apesar de um esperto senso de humor à espreita, sempre muito triste.
Uma das coisas que eu descobriria apenas semanas depois de termos começado a conversar é que ela desenvolveu uma dependência parcial a
analgésicos, que foram dados a ela pela primeira vez na prisão e ainda são receitados devido a enxaquecas frequentes. Quando ela teve um desses ataques durante a semana que passou conosco e eu fiz uma observação sobre a óbvia severidade da dor, Mary disse que tinha tanto medo de que ela viesse que tomava os comprimidos, que tinham efeito calmante até soporífero, antes que dos ataques, e tomava uma dose muito maior que a receitada. Foi mais tarde que percebi – e, claramente buscando ajuda, ela admitiu – que a fala arrastada que eu havia notado ocasionalmente era
causada por essas doses preventivas que ela tomava. Ela me contou mais, então, sobre a quantidade de drogas que havia sido receitada para ela na prisão: uma das consequências positivas de nós termos discutido esse problema foi que ela o admitiu para seu médico e recebe ajuda para reduzir a ingestão desse remédio.
Os meses durante os quais conversamos, prolongados porque ela faltava frequentemente – uma vez, passei duas semanas esperando por ela em vão às 9h15 de todas as manhãs –, foram dominados pela necessidade imediatamente óbvia não apenas de dar-lhe tempo para que chegasse ao cerne de muitas de suas lembranças, mas também de checar a autenticidade
de muitas de suas recordações repetindo várias de minhas perguntas semanas ou meses mais tarde. Ao longo dos meses, contudo, eu ficaria totalmente convencida de sua sinceridade e da realidade de sua dor.
“Como me tornei aquela criança?” Essas são as palavras que ficaram em minha mente durante a noite em claro que se seguiu àquele primeiro encontro em novembro de 1995. E elas permaneceriam comigo enquanto trabalhávamos juntas quando, dia após dia, ela trazia à tona o fantasma sempre presente de sua mãe, Betty, que quase teve sucesso diversas vezes
em matar e certamente em prejudicar emocional e psicologicamente sua filha. Mary só foi libertada da mãe, de fato, quando Betty morreu, em janeiro de 1995.