Por que Crianças Matam

Gitta Sereny · Capítulo 16 de 27

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Por que Crianças Matam

Lembranças: Red Bank, 1971 a 1973

Lembranças

 

Red Bank, 1971 a 1973

 

E m julho de 1971, Mary recebeu a visita do Dr. David Westbury em Red Bank. “Você se lembra”, ela disse, “ele foi um dos dois psiquiatras que testemunharam no meu julgamento e, pela primeira vez, eu pude falar, não... Profundamente, sabe... Mas de um jeito normal. Eu gostei muito dele”.

O relatório do Dr. Westbury para o Ministério do Interior dizia que, após “uma longa conversa com ela”, ele a achou “consideravelmente melhor” com “perda de quase todas as suas tendências agressivas [...] uma modificação de sua inclinação para manipulação [e] uma melhoria nas suas

relações com outras pessoas e [na] capacidade de pensar sobre o futuro”. Ele também sentia que ela tinha chegado a adquirir alguma compreensão sobre a instabilidade emocional e social de sua mãe e acrescentou, de modo significativo, que Betty poderia até mesmo “atrapalhar o progresso dela”. Ele concluiu sugerindo que se devia “começar a considerar 1975 [quando Mary tivesse 18 anos] como uma possível data de soltura [...] Ela será madura o bastante [então] para caminhar com as próprias pernas com alguma ajuda e, se progredir como vem fazendo, [será] capaz de comandar

a própria vida”.

Betty, a mãe de Mary, usou seu conhecimento sobre esse relatório para ganhar ainda mais publicidade. Em uma entrevista a um jornal dominical de Newcastle, ela disse que, quando a filha fosse libertada, as duas iriam trocar de nome e se mudar para outra região do país para recomeçarem juntas. Ela citou – e mostrou ao jornal – uma carta que afirmava ter recebido de Mary naquela manhã.

“Não importa o que acontecer, mamãe”, dizia a carta, “estaremos juntas.

Esses últimos cinco anos foram difíceis para nós e para todos. Eu só posso torcer e rezar para que as coisas acabem da melhor maneira, mamãe. Eu te amo e vou amar sempre. Enquanto puder contar com você, eu ficarei bem, porque te quero e preciso de você”.

“Foi essa a carta que me mostraram”, Mary recordou. “Fiquei embasbacada porque eu não a tinha escrito...”

Perguntei se ela ficou com raiva.

“Não lembro”, ela disse, parecendo cansada. “Acho que fiquei mais de saco cheio que com raiva. De qualquer jeito, o Sr. Dixon me disse que ela não teria permissão para me visitar mais.”

Perguntei se ela tinha conversado com o Sr. Dixon em algum momento sobre sua infância, sobre o que havia sido feito com ela ou sobre o que ela

havia feito. A resposta dela foi indireta; porém, no esforço de encorajá-la a falar, era sempre importante aceitar suas digressões, mesmo se elas parecessem se afastar da pergunta.

“Eu me lembro de ter contado à Sra. R., uma das professoras de quem eu gostava muito, que eu tinha uma irmã gêmea que morreu e que se chamava Paula, e eu costumava chorar quando falava sobre ela. Claro que a Sra. R. sabia que eu não tinha tido nenhuma irmã gêmea, mas ela nunca me falou que eu estava dizendo um monte de baboseiras – ela só escutava.”

Você sabia o que a fez inventar essa história?

“Não acho que eu soubesse por que fazia aquilo na época, mas tenho pensado sobre isso desde então. Acho que eu estava inventando uma gêmea que pudesse ter feito o que eu fiz... Talvez, embora eu não fosse capaz de lidar com isso conscientemente, fosse uma forma de admitir a culpa... De ‘testar’ como seria admitir a culpa, digamos assim.”

Perguntei o que ela queria dizer com não ser “capaz de lidar com isso conscientemente”. Ela me respondeu com impaciência, quase com raiva,

que eu sabia, porque ela havia me contado antes que nunca tinha lidado com aquilo...

Mas o que ela queria dizer exatamente com “lidar com aquilo”? Insisti. Ela curvou-se vagarosamente para a frente, enterrando o rosto nas mãos, os cotovelos ficaram sobre os joelhos, como se estivesse com dor de estômago.

“Eu penso sobre isso...”, ela disse, repetindo as palavras como fazia quando estava aborrecida, sua voz abafada por soluços, “mas não consigo... Não consigo, não consigo, não consigo botar isso em palavras, não o que fiz...”

Ela invariavelmente perdia o controle sobre suas emoções ao tentar conversar sobre as mortes em si. Nas primeiras semanas de nossas conversas, sua angústia diante de tais revelações era tão intensa que eu, às vezes, ficava com medo por ela e apressava-me em pedir para que se deitasse e descansasse, ou até mesmo que fosse para casa. Mas mais tarde, também, sua infelicidade era tanta que eu frequentemente sugeria um intervalo durante o qual eu preparava chá; ela fumava um cigarro ou, se estivéssemos no campo, saía para dar uma volta rápida. Sua recuperação

desses ataques de tristeza, contudo, era surpreendentemente rápida, e essas ligeiras mudanças emocionais despertaram dúvidas em mim no início. No entanto, depois de algum tempo percebi que elas eram parte do padrão interno que comanda todos os sentimentos e a conduta dela. Mary tem uma gama surpreendente de necessidades contrastantes, todas sempre agudas: sua necessidade de revelar e de ocultar, de socializar e de se isolar, de conversar e de ficar em silêncio, de rir e de chorar. Apenas uma única coisa supera tudo isso: a disciplina que ela desenvolveu dentro de si para dar à

filha uma vida normal.

Ela disse que uma das coisas mais difíceis em trabalhar comigo era a transição entre ser tão intensamente “Mary” comigo e, depois, ter que voltar para a sua família e a ser “mamãe”. Depois de nossas reuniões, ela ficava exausta, Mary disse, e tudo o que queria era não pensar mais.

“Eu não queria nem mesmo sair de casa para dar voltas”, ela disse. “Se eu desse voltas, eu pensaria. Tudo que eu queria era dormir. Por fim, era istoo que eu fazia: dormia.”

À medida que avançávamos em direção à mais difícil de suas confrontações, Mary gradualmente associava a existência da filha à lembrança das tragédias que havia causado. Desde que a filha nasceu, ela disse, não houve um único dia em que ela não pensou sobre os pais de Martin e de Brian (ela sempre se refere aos dois garotinhos individualmente e pelo primeiro nome, como se fosse para enfatizar a identidade deles como crianças e a sua aceitação disso).

“Especialmente em dias alegres, sempre tem alguma coisa que me faz parar quando penso no que roubei deles... A oportunidade de ter os filhos e

de criá-los. Esse pensamento não vai embora nunca. Nunca irá embora, e por que deveria? Eu pensava sobre isso antes também, mas desde que eu tive [minha filha] isso ficou, ah, tão, tão mais penoso.

“Antes, eu pensava neles somente como adultos que conhecia, não como pais e mães. Eu também ficava triste, mas não com essa tristeza insuportável que sinto agora. Eu olho para ela e penso... Ah, meu Deus... Nos pais deles.”

Houve uma ocasião em Red Bank, ela disse, em que chegou a conversar

ou escrever sobre o que havia feito.

“Foi numa aula de arte que o Sr. P. estava supervisionando, e... Não sei o que provocou aquilo. Talvez...”

Talvez o quê?

“Não consigo ter certeza, mas lembro mais ou menos que foi na época em que um dos garotos sobre quem eu estava falando... Sabe, que tinha sido abusado sexualmente... Acho que foi justamente quando aquele garoto começou a falar bastante comigo sobre aquilo.”

Perguntei se ela acha, agora, que aquilo pode tê-la feito pensar sobre si mesma.

“É isso que estou pensando. Ou, então, talvez eu só quisesse ter a atenção ou a aprovação do Sr. P. De qualquer jeito, eu estava sentada à mesa na sala de artes e era para estar trabalhando em um projeto artístico, mas parei e comecei a escrever em pedacinhos de papel...”

O que você quer dizer com pedacinhos de papel?

“Bem, não era... Uma folha de papel, papel de arte. Eu rasguei

pedacinhos de papel de folhas usadas, para jogar fora: um pedacinho daqui, um pedacinho dali e comecei a escrever...”

E o que você escreveu?

“Sobre Martin e Brian, e sobre Norma... Escrevi que eu tinha matado Martin, e aquela era a primeira vez que eu dizia isso.”

Perguntei se ela escreveu como matou Martin. Ela balançou a cabeça em negativa.

“Não, ah, não. Eu disse que tinha sido um acidente.”

E você disse que matara Brian?

Ela balançou a cabeça. “Não, não disse. Eu disse, como no julgamento,

que Norma matou. Eu estava escrevendo mais e mais depressa porque eu sabia que não tínhamos muito tempo para aquela aula...” Ela começou a perder a linha de raciocínio. “Era uma aula de artes, com todo mundo por lá, e eu não estava fazendo o que eu devia estar fazendo para começo de conversa...”

E o que aconteceu?

“O Sr. P. percebeu que eu estava escrevendo e me mandou mostrar o que eu estava fazendo. Eu mostrei, ele leu e foi muito amável...” Mary sempre

defendeu as ações das pessoas de quem gostava em Red Bank, sem se importar com o quão infelizes fossem as reações dessas pessoas. “Mas ele disse que eu não tinha escrito corretamente e que escreveria para mim do jeito que deveria ser...”

Ele queria dizer a forma da escrita ou o sentido?

“Eu tinha escrito tão depressa que estava confuso. Ele queria deixar mais claro”, ela disse. “E logo que ele começou a escrever em uma folha de papel adequada, o Sr. Dixon, que estava em uma reunião antes, entrou e

perguntou o que estávamos fazendo; então, o Sr. P. falou com ele e lhe entregou meus pedacinhos de papel, dizendo que iria escrever adequadamente para mim. O Sr. Dixon olhou para os pedacinhos.”

De repente ela soltou uma mistura de soluço e risada.

“Eu tinha a sensação de que o Sr. Dixon estava um pouco... Desapontado, porque o Sr. P. é que tinha lidado com aquilo. Eu só tinha uma sensação, sabe, mas não sei se foi mesmo o caso. Ele apenas ficou terrivelmente triste, de repente, e eu lembro de me sentir triste também e,

quando ele disse que era para eu ir com ele à sua sala, fiquei muito preocupada de ter feito alguma coisa errada.”

E o que aconteceu na sala dele?

“Nada, na verdade.” Mary agora parecia confusa com a recordação. “Não, nada. Ele só disse para eu não me preocupar e para sair dali e ficou com os pedacinhos.”

Perguntei se ela pensa, agora, que talvez o Sr. Dixon tivesse se dado conta de que aquele era um grande passo no desenvolvimento dela, mas que havia sido mal trabalhado pelo Sr. P. e que ele também não sabia o que fazer com aquilo.

“Ele era um grande homem”, ela disse. “Grande o bastante para admitir isso para si mesmo se fosse assim que ele se sentia, mas não sei se ele se sentia assim... De qualquer jeito”, ela continuou, dando pouca importância para esse passo singular no seu desenvolvimento – certamente para evitar qualquer diminuição do Sr. Dixon, da minha parte ou da dela –, “a maior parte era mentira, então não tinha importância, tinha?”.

“Claro que isso pode ter sido um choque considerável para o Sr. Dixon”, Ben G disse. quando lhe contei essa história, sobre a qual ele não ficou

sabendo na época. “Nós sentíamos que ele sempre teve dúvidas em relação à culpa dela.”

Perguntei a Mary quando ela achava que tinha começado esse processo consciente de lembranças.

“Quando eu tinha cerca de 14 anos. Minha mãe estava vindo me ver de novo, sabe, e ela disse que existia ‘aquele livro’ sobre mim – ela queria dizer o seu livro – e que era tudo mentira, mentiras sobre ela, ela, ela... Ela também disse que ia nas livrarias e virava as capas para que as pessoas não

o vissem...”

Você perguntou a ela sobre o que falava o livro?

“Não lembro, mas acho que não teria coragem depois que ela disse, não sei quantas vezes, que era tudo mentira; que foi escrito por... Eu honestamente acho que ela disse Marjorie Proops [famosa por responder às cartas dos leitores do correio sentimental do Daily Mirror], e que era para eu jamais ver o livro, nunca procurar por ele...”

Foi pouco antes da publicação de The Case of Mary Bell, em 1972, que

outro escândalo sobre Mary, bastante inesperado, explodiu na mídia. Durante um fim de semana de visita livre em Red Bank, no qual tanto familiares quanto funcionários eram convidados a visitar a unidade, Betty Bell e a mãe dela foram ver Mary. Elas foram ao quarto da menina e, na presença da supervisora – infelizmente, alguém cujo senso crítico deixava a desejar –, Betty vestiu Mary com roupas e peças íntimas que havia levado para passar o fim de semana e tirou fotografias da garota fazendo poses “sugestivas” – como diria a imprensa mais tarde – em frente ao espelho.

Quando o livro foi publicado de maneira seriada em um jornal dominical de Newcastle, Betty Bell – sem dúvida num esforço para reagir contra os

efeitos do livro em sua cidade natal e antes de essa última decisão ruim se tornar pública – concordou em dar uma entrevista sobre Mary ao programa Midweek, da BBC. Betty sabia parecer muito vulnerável e fazer com que as pessoas sentissem vontade de protegê-la, de modo que os produtores do programa, a princípio, simpatizaram muito com ela. Porém, eles me contaram mais tarde que ficaram chocados quando ela mostrou as fotografias para comprovar sua afirmação de que Mary era, então, uma criança normal e feliz.

É claro que as fotografias foram mostradas no programa quando ele foi ao ar e causaram um furor na imprensa. Eu achei as fotos de mau gosto, ainda que não fossem extremas, mas o fato de permitir que elas fossem tiradas levantava uma série de questões legítimas sobre a conduta da escola. O incidente acabou por se tornar tema de debate nas sessões da Câmara dos Comuns, durante as quais o ministro de Assuntos Sociais fez uma afirmação imprudente defendendo que se tratava de um episódio inofensivo.

Embora Mary perceba agora a estupidez daquilo, ela sentia-se obrigada a justificar o ocorrido, já que criticá-lo significava colocar em questão não apenas a capacidade de julgamento de sua amada avó, mas também a da administração de Red Bank. Ela deu de ombros.

“Me vesti como uma cigana”, ela disse, ecoando a explicação de sua mãe na televisão. “Era apenas encenação.”

Não muito depois disso, Mary disse, dois novos garotos chegaram na unidade, um logo após o outro.

“Eles eram garotos realmente terríveis e foi aí que eu comecei a ter uma espécie de... Suspeita, sabe, quando eles começaram [separadamente] a me chamar de nomes terríveis. O menino que era pior, ele era realmente um sujeito nojento. Estava sentado na minha frente no jantar logo que chegou e me chamou de assassina. Eu agarrei o cabelo dele e afundei sua cara no prato. E um pouquinho depois lá, estava o outro, que disse a mesma coisa, e eu bati nele. Tiveram que me arrancar de cima dele, e quanto mais eles tentavam, mais eu segurava. O lugar ficou uma baderna. O Sr. P., eu sempre tive medo dele e sempre quis sua aprovação; só de olhar para mim, ele podia me fazer sentir culpada mesmo se eu não tivesse feito nada. Ele me

pegou pela orelha e a torceu, parecia que ele a tinha torcido toda, e desceu o corredor comigo. E aí o Sr. Dixon conversou comigo.

“Veja bem, a coisa era que durante anos eu não tinha a mínima ideia do motivo de eu estar lá... Quero dizer, eu provavelmente tinha, no fundo, é por isso que inventei aquela gêmea, não é? É claro que nessa época eu tinha...”, ela sorriu de repente. “Eu acho que você diria que eu tinha ‘dado mais um passo’ ao escrever aquelas coisas para o Sr. P., mas mesmo aquilo era, acho, superficial de alguma maneira. De modo consciente, ou com minha

consciência, eu não sabia. Não sabia o que eu esperava que fosse acontecer. Mas não aconteceu nada. O Sr. Dixon disse apenas que eu tinha sido uma garotinha perturbada, uma garotinha raivosa, mas que eu estava crescendo e era esperta. O que eu poderia fazer se um dia amadurecesse, me livrasse daquela raiva e tentasse fazer o resto da minha vida uma vida boa? Você percebe, não é? O Sr. Dixon realmente tentou, mas eu estava muito, muito infeliz.”

Foi por volta dessa época, em 1972, que Mary se lembra de ter falado ao

Sr. Dixon que odiava Red Bank e que queria ir para outro lugar.

“Ele encarou aquilo como se fosse um simples capricho de minha parte”, ela disse. “Mas eu estava falando sério. Me sentia reprimida, como se eu estivesse usando um sutiã apertado demais. Parei de fazer ginástica e, como ficava menstruada, eu não podia nadar; todos os garotos sabiam, e, ah, Deus, eu estava engordando. Aí eu passei a provocar os garotos, sabe. Teve uma vez que enfiei alguma coisa na minha cama para parecer que eu estava nela, dei um jeito de sair do meu quarto e ir para o dormitório dos garotos, e

fiquei dando uns amassos com eles. Um professor, o Sr. L.... Viu... E eu vi o rosto dele pela janela, observando, e corri de volta. Então, o Sr. Dixon chegou e eu me senti horrível e disse para ele que eu era uma puta, uma vagabunda... E ele só disse que aquilo era perfeitamente natural. Ele estava muito calmo, eu é que me odiava. Eu dizia para mim, ‘Ah, sua vagabunda, sua prostituta’...”

Ela foi incapaz de explicar para mim como conseguiu sair de seu quarto trancado e entrar no dormitório igualmente trancado dos garotos.

Ocorreram muitas manifestações de infelicidade nessa época. Ela tomou uma imensa dose de Senakot (um laxante) e ficou muito doente; houve “os

amassos com os garotos” sobre os quais ela me contou e, por fim, ela descobriu um jeito de se ferir quando quebrou uma janela e provocou um monte de cortes em seu braço.

“Foi aí que o Sr. Dixon deve ter se alarmado de verdade”, ela disse, “porque ele me disse que eu tinha que ir a um médico no Hospital Winwick, e ele e o Sr. P. me levaram lá. Não acho que eu sabia que era um hospital psiquiátrico até que um homem que estava lá em pé agarrou meu pulso como se fosse uma presilha de ferro e eu entrei em pânico total. O Sr. P. o

afastou de mim: ele não tinha medo de ninguém, mas eu tinha. Eu estava aterrorizada”.

Mary não se lembrava exatamente do que aconteceu, mas quando perguntei se ela havia ido a uma psiquiatra naquele dia, ela respondeu afirmativamente e disse que a mãe dela esteve lá também. E que a psiquiatra fez perguntas a Betty.

“A médica perguntou ‘Por que você acha que sua filha está se sentindo assim?’, e ela disse: ‘O que você está tentando fazer? Entrar na minha

cabeça?’. Ela acabara de receber alta do North Gate, o maior hospital psiquiátrico da região”, Mary me contou. “Cath a tinha internado compulsoriamente.”

Parecia estranho para mim que Betty tivesse sido envolvida nisso e, sobretudo, que ela estivesse presente quando a psiquiatra conversou com Mary. Mas Mary não sabia como isso tinha acontecido.

“É engraçado, não é?”, ela disse. “Comecei a conversar com essa psiquiatra sobre o passado, e ela [Betty] disse: ‘Você não se lembra, você

era muito pequena’. E eu disse que me lembrava de um homem que tinha três dedos e... Da cor branca. Eu me lembro de cabra-cega...”

O que é isso? Perguntei.

Mas ela não queria, ou não conseguia, me explicar o que lembrava sobre o homem com três dedos e a brincadeira de cabra-cega.

“Não me lembro da psiquiatra perguntar, ou de eu dizer, qualquer outra coisa. Não acho que eu tinha alguma coisa a dizer, quero dizer, com minha mãe sentada lá, sobre eu ter me cortado. Eu só... Eu só... Me odiava, eu acho.”

Ela achava que havia se ferido para chamar atenção?

“Eu tinha toda a atenção do mundo, e o amor do Sr. Dixon”, ela disse, “e sim, eu sabia disso. Então, não era isso. Agora, em retrospecto, acho que era porque eu estava totalmente confusa como uma garota em crescimento com todos aqueles garotos, e acho que eu tinha sentimentos com os quais não sabia o que fazer. E claro, junto com tudo isso, minha consciência cada vez maior de que eu tinha feito algo terrivelmente, terrivelmente ruim”.

Aquele foi, segundo ela, o fundo do poço. “Dali em diante, não sei por

que, eu amadureci.”

Foi a partir dessa época que James Dixon começou a planejar o futuro de Mary.

“Algum tempo antes, havia um garoto apelidado de Sooty [fuligem], que estava mais ou menos na mesma situação que eu – ele havia matado um policial –, mas depois tinha se dado muito bem em Red Bank. E o Sr. Dixon conseguiu permissão para ele ir a uma unidade de treinamento [da escola de recuperação] e de lá para a faculdade. Ele conseguiu estudar e aprendeu

uma profissão. Morava com alguns outros garotos num apartamento próprio dentro do pátio da escola. Era muito bom mesmo. Eles eram supervisionados, mas tinham ajuda. O Sr. Dixon me contou que era alguma coisa desse tipo que ele tinha em mente para mim, se eu fosse realmente boa e tivesse boas notas.”

Mary passou nas provas de avaliação – de conclusão do ensino médio no verão de 1973.

“Eu fiz os exames em Town Hall”, ela disse. “Me inscrevi com o nome

‘Srta. Smith’. Era isso que eu esperava que fosse acontecer. Eu me mudaria da unidade de segurança para um albergue ou para um quarto na área dos funcionários da escola de recuperação, mas ainda sob a supervisão e os cuidados do Sr. Dixon. Passaria nos exames, iria para a faculdade e conseguiria uma profissão. Eu estava tão entusiasmada, tão feliz. Eu tinha um futuro.”

O otimismo de Mary durou cerca de dez meses.

“Até quarta-feira, 7 de novembro [de 1973], para ser exata”, ela disse. “Nas tardes de quarta-feira, os funcionários se reuniam para a discussão de

casos, então a regra era que almoçávamos mais cedo, às 11h30, e todos nós íamos para a sala comunitária e assistíamos a um longa-metragem com apenas um professor. A reunião dos funcionários ia até às 3 horas da tarde. Logo que terminou, os funcionários entraram e eu notei o Sr. Hume, um cara baixinho que tinha sido da marinha mercante: ele estava branco, o rosto dele estava branco mesmo. O clima estava muito estranho e a Srta. Hemmings estava enxugando os olhos. Eu falei comigo mesma que devia ter sido uma reunião cansativa e, intrometida como sempre, sussurrei para

ela: ‘O que está acontecendo? O que está errado?’. E aí, logo depois, o Sr. Dixon chegou e me disse: ‘Posso ter o prazer de sua companhia, madame?’, e me levou para fora da unidade, para a casa dele, que ficava a mais ou menos cinco quilômetros de distância.

“E lá, na sala de estar, ele disse: ‘Eu sempre fui direto com você, então: você vai embora amanhã e vai para a prisão. Droga’, ele disse, e a Sra. Dixon explodiu em lágrimas. Eu disse: ‘Não’, primeiro rindo, sabe? Quero dizer, aquilo simplesmente não podia acontecer. Não, não. E aí eu comecei

a chorar e disse: ‘Por que? O que eu fiz?’.

“E ele realmente não conseguia falar logo de cara, ele ficava engolindo em seco. E aí me contou que tinha tentado da melhor forma que podia, tinha tentado durante duas semanas mudar a opinião deles, tinha falado com eles dos seus planos para mim, mas simplesmente não adiantou. Ele disse que tinha esperado para contar aos funcionários até aquela tarde porque estava lutando por mim e, até então, ele ainda tinha esperança de conseguir. ‘Não tenho como te dizer o quanto estou espantado com a decisão e como meu

coração está partido’, ele disse para mim. E continuou: ‘Você escolhe a música que vamos cantar amanhã de manhã’. Era o que as pessoas faziam no último dia delas.”

“Tínhamos ouvido boatos de que Jim Dixon estava conversando com o Ministério do Interior sobre ela e que mudanças tinham que ser feitas porque a menina já estava com 16 anos, mas nada de definitivo”, Ben G. me disse quando conversamos. “E para ser franco, não conseguíamos acreditar que eles fariam uma coisa assim, não quando ela estava indo tão bem lá.”

Desse momento em diante, o relato de Mary sobre essas últimas horas em Red Bank está cheio de lembranças distorcidas. É como se seu trauma

fosse tal que ela não estava mais totalmente ciente de quem estava lá e do que fizeram com ela.

“Naquela noite”, ela disse, “a Sra. R. – Veronica, como eu a chamei mais tarde quando nos encontramos novamente – ficou comigo o tempo todo, mas todo mundo apareceu...”. Ela listou nomes de professores. “Nós cozinhamos uma panela de ratatouille... O Sr. Dixon ficava vindo até nós e disse que eu seria a ‘embaixatriz de Red Bank’. Ele disse: ‘Todos nós sabemos que as coisas não são justas, e eles tentaram me convencer de que

você não será capaz de lidar com as dificuldades que lhe esperam. Mas eu não acredito nisso’. E todos eles ficaram me dando presentes, eles não eram... Sabe... De pedra; eram pessoas, família.”

“As lembranças dela estão enganadas aí”, Ben G. disse “Dois dos professores que ela menciona já tinham ido embora havia muito tempo nessa época. Se ela preparou sua última refeição, tinha que ser com Barbara, a professora de culinária.”

“Veja, naqueles últimos meses em Red Bank”, Carole disse, “ela tinha

mudado muito – quero dizer, no sentido de se manter muito afastada dos garotos. Ela obviamente tomou uma decisão de não passar tanto tempo com eles como antes. Tínhamos notado o quanto, antes disso, ela tinha... Bem... Suprimido sua feminilidade. Ela tinha uma bela aparência, mas não queria mostrá-la”.

“Durante um certo tempo, eu usava faixas, apertava os seios, sabe, como fazem as mulheres chinesas, para ficar com o tronco reto como o de um garoto, e eu não fazia mais educação física nem natação”, Mary me contou.

“Nessa época, eu passava bastante tempo com as mulheres da equipe, cozinhando e tudo o mais...”

“Era bastante óbvio que ela não gostava de seu corpo”, Carole disse. “Dava para ver isso no jeito como ela o tocava ou não tocava, ou no jeito como ela andava, movimentando as pernas sem levantar os pés do chão. Era muito triste ver como aquela garota bonita, bonita mesmo, estava sempre cabisbaixa. Mas, dada a situação, sua decisão de – de certa maneira – se separar dos garotos foi sensata, não foi?”

Perguntei se eles achavam que a decisão do Ministério do Interior de transferi-la para a prisão teria sido, possivelmente, influenciada pelo

sentimento de que, aos 16 anos, ela não deveria continuar vivendo naquele ambiente masculino.

“Não acho que ‘sentimento’ tenha tido alguma coisa a ver com isso”, Ben disse. “Eles estavam simplesmente seguindo o sistema, aplicando as regras.”

Perguntei a Mary se sua mãe e Billy sabiam que ela estava sendo transferida.

“Não sei quanto à minha mãe. Acho que não, porque o Sr. Dixon sabia

que ela levaria isso à imprensa. Era o que ela sempre fazia, por dinheiro, embora eu não soubesse o quanto ela fazia isso até mais tarde. Mas acho que meu pai sabia, porque ele tinha ido me visitar no sábado anterior e tinha lágrimas nos olhos quando foi embora. E aí, sabe, não o vi de novo, porque ele nunca foi me visitar na prisão.”

“Havia um jovem norte-americano [em Red Bank] na época que era assistente de professor voluntário”, ela disse. “Ele era amigo de Ben G. – eles viajaram pela Europa juntos. Mesmo assim, ele devia ter o mesmo tipo

de trabalho nos Estados Unidos, senão não seria admitido. Me apaixonei um bocado por ele. Ele não era o que se pode chamar de bonito; usava óculos pequenos e redondos, era uma espécie de mistura de John Denver com John Hurt, um hippie... Uma pessoa do tipo ‘paz e amor’. Ele me escreveu por um longo período de tempo depois disso, e eu escrevi para ele também. Ele me deu uma camiseta e uma mensagem que vinha dentro de uma concha...”

“Em toda essa história sobre o último dia dela”, Ben disse, “ela parece estar condensando suas lembranças. Meu amigo Jeff esteve lá em 1972 [um

ano antes]. Ele deu esses presentes a ela no Natal; foi embora no início de 1973”.

“Um monte de garotos veio me ver antes de ir dormir”, Mary disse, “e todos eles me deram presentes também. Eu chorava muito toda vez que alguém olhava para mim, porque estavam me dizendo coisas inacreditavelmente gentis.

“Fiquei acordada a noite toda. Eles tentaram me fazer descansar, mas eu não conseguia. E muito depois o Sr. Dixon e a Srta. Hemmings vieram e me disseram o que eu deveria vestir, e eu disse que não, por favor, porque tinha calças jeans brancas justas que eu queria vestir. Mas ele disse que de jeito

de nenhum, que era para eu usar meu vestido azul-marinho e branco e meus sapatos das mesmas cores. E eu disse que elas ririam de mim, que elas estariam lá com cigarros pendurados na boca e cabelos oxigenados com as raízes aparecendo... E ele disse: ‘Que diferença faz para você? Você preferiria estar coberta de tatuagens para ser aceita? Não, você tem seus padrões. Você pode se relacionar com um lixeiro ou com um príncipe’.”

Então, o que aconteceu?

Mary riu. “Usei o vestido...”

Carole G. estava de plantão na tarde e no início da noite daquele último dia de Mary em Red Bank. Ben estava de folga. “Mas ele passou por lá para dar tchau.”

“Sim”, Ben disse a Carole, “e vocês estavam colocando aquelas coisas todas na mala, as coisas dela, os presentes; ela disse que precisava de algo para colocar aquilo tudo, e eu achei uma mala marrom para ela, com uma chave. Eu disse a ela que colocaríamos a mala no quarto de depósito, mas que ela ficaria com a chave.”

“A Srta. Hemmings estava perturbada”, Carole lembrou. “Não conseguia lidar com aquilo. Na verdade, ela estava nos deixando completamente loucas, porque, ao subir com as mesmas coisas e ver May e eu, ela se afastava com as roupas nas mãos e depois voltava outra vez, e ficava nesse vai e vem. Fazer essa mala levou muito tempo. E aí, em um determinado momento, Jim Dixon veio até mim com lágrimas nos olhos e disse, sem que Mary pudesse ouvir: ‘Deixe que ela pense que você está colocando isso na mala para ela levar, mas ela não pode levar nada’. Mary só podia levar uma

pequena sacola. Então, depois disso, ficou comigo a tarefa de botar a vida daquela criança na mala, cinco anos da sua vida.

“Depois, fomos para a sala de culinária e preparamos chocolate quente. Fiz com que ela fosse para a cama, coloquei um colchão no chão, ao lado da cama dela, e me deitei lá... Mas ela não dormiu, nem eu; ficamos conversando. E, em determinado momento, ela falou sobre a prisão e sussurrou: ‘Você não tem ideia de como é’, e chorou. Acho que ela me considerava muito inocente. Claro que eu tinha ideia de como seria e, quando ouvimos aqueles boatos [sobre a transferência de Mary] algumas semanas antes, Ben e eu ficamos imaginando como poderíamos prepará-la

para viver na prisão, depois da criação voltada para a liberdade – sim, liberdade – que ela teve em Red Bank. Não conseguíamos pensar como isso poderia ser feito, mesmo se houvesse tempo. Mas, de qualquer forma, não acreditávamos que isso chegaria a acontecer.”

“Pela manhã, a Srta. Hemmings me fez tomar banho”, Mary disse, “Ela fez a mala para mim e eu desci... Acho que não tomei café da manhã. Escolhi a música para cantarmos de manhã. Ela meio que cantou, meio que declamou a letra da música para mim: ‘Maravilhosa cruz na qual morreu o

Príncipe da Glória...’. E aí o Sr. Dixon se sentou e deu um discurso muito legal, me elogiando e falando da perda que seria a minha partida. E relembrou o meu começo lá, eu entrando pela porta pela primeira vez e as coisas que passamos juntos... Eu não aguentei, ninguém aguentou. E aí, fui levada para a prisão.”