Por que Crianças Matam

Gitta Sereny · Capítulo 27 de 27

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Por que Crianças Matam

Conclusão

 

A credito que as experiências da infância de Mary Bell, da maneira como você leu sobre elas aqui, são a chave para a tragédia que ocorreu em Scotswood em 1968. Acredito também que, se devidamente investigados, traumas infantis semelhantes serão encontrados no histórico de casos muito similares onde quer que ocorram da Grã-Bretanha, da Europa ou da América. Acredito ainda mais no fato de que crianças com menos de 12 anos de idade não têm necessariamente o mesmo discernimento que adultos com relação ao bem e ao mal, a verdades e inverdades e, certamente, à morte. Penso que a primeira responsabilidade

pelo comportamento e pelas atitudes de crianças mais novas seja dos pais, dos tutores e, até certo ponto, dos professores. Com isso, não tenho a intenção de oferecer uma desculpa para crianças que cometem crimes violentos: mesmo que não saibam de fato a gravidade do erro que cometem, elas sempre sabem que estão fazendo algo de errado. Assim, ainda que precisem ser auxiliadas imediatamente para entender tal “gravidade”, também precisam ser punidas muito rapidamente, pois causa e efeito é a lógica do mundo e elas devem aprender isso. Se escrevo isso, não é por ser

indulgente nem austera, mas sim porque – como se esquece com frequência – estamos falando de crianças, não de adultos em miniatura.

Acredito, como muitas outras pessoas na Inglaterra e em outros países, que, em uma sociedade civilizada, crianças com menos de 14 anos devem ser responsabilidade de uma autoridade formal quando cometem crimes, mas não podem ser consideradas criminalmente responsáveis e, mais certamente, não deveriam ser julgadas em um tribunal para adultos ou por um júri.

Conforme afirmei em minha introdução, meu propósito ao assumir este livro tinha vários aspectos. Ressaltei que, embora a história de Mary Bell, com seus muitos elementos trágicos, possa justificar um livro, meu propósito ia além disso: era usar Mary e sua vida.

Meu objetivo era mostrar como uma história terrível assim pode acontecer, com todas as muitas falhas que ela revela – primeiramente dentro

da família, mas também dentro da comunidade. E isso a partir do fato de que os parentes, mantendo afastados aqueles que estão fora do núcleo familiar, tendem a proteger os seus, sem se importar ou sem se dar conta das consequências; que vizinhos fecham os olhos para os graves problemas manifestados na casa ao lado; que os policiais sobrecarregados subestimam o perigo potencial dos conflitos entre pais e filhos e, quase invariavelmente, ficam do lado dos pais contra a criança (a não ser que elas, nas raras ocasiões em que fazem isso, denunciem abuso sexual); que assistentes

sociais protegem sua relação com os pais às custas das crianças; e que professoras e professores do ensino básico, com excesso de trabalho, não são treinados para detectar perturbações naqueles que estão sob sua responsabilidade. No mundo anglo-saxônico, nós da Grã-Bretanha não somos apenas discretos: fazemos da privacidade um fetiche. Não olhamos com atenção para as crianças de nossos vizinhos. Acima de tudo, não as escutamos; não – perdoem-me por repetir isso ainda mais uma vez – ouvimos seus gritos.

Foi fundamental para a minha determinação em escrever este livro o interesse que desenvolvi pela garotinha que vi naquele tribunal de Newcastle trinta anos antes, bem como minha inquietação quanto a ela naquela época e nos anos que se seguiram. Foi a primeira vez que vi crianças sendo julgadas em um tribunal para adultos e achei aquilo chocante. E, mesmo horrorizada pelos pais dos dois garotinhos que foram vítimas, achei assustadora a raiva cega, o medo irracional e a reação curiosamente impensada em relação a Mary que percebi tanto dentro quanto

fora do tribunal. Como disse nas páginas anteriores, eu estava familiarizada com o mal: havia visto seu efeito em crianças das quais eu cuidava em campos de concentração na Alemanha ao final da Segunda Guerra Mundial, e o havia presenciado ao ver e ao ouvir os julgamentos dos acusados de crimes de guerra 22 anos depois – um ano antes de eu sentar no tribunal de Newcastle.

Lá, naquela garotinha, não percebi maldade, mas um certo tipo de angústia escondida e profunda. O tribunal, porém, com seu ritual, seu juiz de toga vermelha e seus advogados de peruca, não estava preparado e capacitado – nem era esperado dele que estivesse – para lidar com uma

criança que, acima de todas as outras coisas, tinha que proteger os terríveis segredos de sua mãe.

Na Grã-Bretanha, colocamos repetidamente crianças sob julgamento em tribunais de adultos nos últimos trinta anos. Desde o caso de Mary Bell, houve três outros casos de crianças que mataram crianças (cujos nomes não foram tornados públicos) e dois outros em que os nomes foram revelados: o de Sharon Carr, que foi julgada aos 17 anos em 1997, quando confessou voluntariamente ter cometido, aos 12 anos de idade, o atroz assassinato de

Katie Rackliff, de 18 anos; e depois o dos dois garotos de 10 anos que mataram James Bulger, cujos nomes não precisam ser mencionados novamente. Recentemente, houve também o horrorizante caso dos garotos, um de 11 anos e três de 10 anos, acusados de estuprar uma garota de 9 no banheiro da escola, que foram julgados (e então absolvidos) no Old Bailey – uma experiência vergonhosa, de qualquer ângulo que seja examinada, para todos aqueles que lá compareceram.

Mas embora a Grã-Bretanha tenha um número crescente de casos de

crimes graves cometidos por crianças e seja, como vimos, particularmente ineficiente em lidar com eles, não estamos sozinhos nisso. Crimes juvenis nos Estados Unidos, incluindo muitos casos de estupro e assassinato, têm se tornado uma epidemia, e a maioria dos estados norte-americanos tem sido muito mais ineficiente em lidar com crianças e jovens do que nós. Mas os países do oeste europeu, com os sistemas mais progressistas em relação às crianças, tais como Holanda, Suécia, Noruega, Alemanha e França, também estão vivenciando um número sem precedente de crimes cometidos por

elas, entre eles crianças pequenas que matam outras crianças.

Há, obviamente, uma diferença entre a elevação meteórica na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos e no resto da Europa de crimes juvenis, como estupro e furto, e os exemplos, ainda raros se comparados aos primeiros, de crianças que cometem assassinato. Há também uma diferença entre crianças que matam e podem não saber o que estão fazendo e aqueles adolescentes mais velhos que fazem isso declaradamente. Há outra diferença importante entre o ato mais frequente de crianças que matam um irmão ou irmã, um dos pais ou um parente adulto devido a raiva, ciúme ou medo, e aqueles casos mais raros e mais impressionantes de crianças de qualquer idade que

matam um estranho, e o pior de tudo, uma criança mais nova.

Enquanto estou escrevendo isto em 1997, os Estados Unidos estão arrasados, mas, mais que isso, confusos, tal qual a Inglaterra em 1968, por causa do massacre ocorrido na cidadezinha pacata e próspera de Jonesboro, Arkansas, onde dois garotos de 11 e 13 anos, carregando um verdadeiro arsenal, mataram quatro garotinhas e uma professora, e feriram outros onze jovens no pátio de uma escola.

Embora a associação desse caso com a cultura de armas dos Estados

Unidos indique que ele apresenta características ainda não dominantes na Grã-Bretanha, há algumas semelhanças perturbadoras com os casos de Mary Bell e dos garotos que mataram James Bulger. Agora, como naquela época, o comportamento dos dois garotos norte-americanos tornou-se mais suspeito do que nunca ao longo da semana que precedeu o crime. Como em Scotswood, em 1968, os garotos anunciaram sua intenção em alto e bom som, chegando até mesmo ao ponto de escrever em letras enormes, passando o dedo sobre a poeira no vidro de um ônibus escolar, que iam

cometer assassinato. Os Estados Unidos (segundo meu editor norte-americano me contou por telefone) estão “clamando pelo sangue deles”, exatamente como aconteceu em Scotswood, em 1968, e em Liverpool, em 1993. E o promotor do Arkansas, tão ciente das possíveis consequências políticas caso não respondesse ao furor público como o secretário do interior britânico que estava no “caso Bulger”, tem buscado caminhos para julgar ao menos o mais velho dos garotos como adulto, o que traria uma pena de prisão perpétua automática.

Esses casos, como já afirmei, são raros e, como a história de Mary Bell demonstra claramente, são consequência de pressões sofridas por muito tempo que acabam por levar a criança a um ponto de ruptura. A crescente frequência, porém, não pode ser desvinculada de mudanças ocorridas na sociedade.

As incertezas quanto aos nossos valores morais e – sim – espirituais têm causado uma quebra da redoma de segurança com a qual gerações anteriores protegiam as crianças de um crescimento prematuro. Agora, muito poucos pais aceitam a necessidade de as crianças crescerem “lentamente”, ou percebem sua importância fundamental para o

desenvolvimento da autoimagem da criança, a qual cabe a eles alimentar. São, penso eu – e a história que você acabou de ler demonstra isso –, a interferência na criação ou, pior ainda, a corrupção e a destruição dessa autoimagem nos primeiros anos da infância que plantam as sementes de graves problemas.

Mas há mais sobre o que ponderarmos: a cruel competitividade de nosso tempo leva a maioria de nós, adultos, a nos disciplinarmos em esforços crescentes, mas não disciplinamos nossas crianças. Temos medo delas. Sua

aparente autoconfiança (que, na maioria das vezes, é somente um meio de disfarçar suas necessidades) nos desconcerta. Para compensar a resultante lacuna em nosso entendimento, nós as cercamos de vantagens materiais, mas não podemos dar a elas, e não temos energia para oferecer-lhes, muito mais de nós mesmos além de nossa presença ocasional, numa espécie de estado de coma, na poltrona em frente à televisão.

Não desejo me unir ao coro dos que condenam a televisão, que se tornou parte da vida de todos nós. Mas o que deve nos preocupar é que, em

milhões de lares, a televisão representa para milhões de crianças não apenas o único alimento aceitável para a mente, mas também a única ocasião para o “estar junto” em família. Muito mais que a reação perturbadora de anestesia produzida pela abundante violência visual, uma mudança radical como essa na vida familiar pode afetar todas as crianças, mesmo se apenas inconscientemente. Pode-se argumentar que talvez seja esse isolamento dos adultos mais próximos que leva muitos jovens a buscarem ideais dentro de grupos e de gangues, a buscarem entusiasmo e valentia em drogas.

O crescimento da criminalidade juvenil é tal que, em muitos estados norte-americanos, casos de crimes graves cometidos por crianças de 13 anos são agora automaticamente transferidos para tribunais de adultos; crianças são mandadas para a prisão com idade cada vez menor, e até mesmo os países europeus mais preocupados com a criminalidade e o bem-estar social estão considerando um retrocesso o passo tomado para diminuir a idade de responsabilidade criminal. Somente os países escandinavos mantiveram até agora a idade de 15 anos como a do início de responsabilidade; na Alemanha, é 14 anos; na França, 13 anos e na Holanda, 12 anos, embora em todos esses países as crianças sejam até agora

de responsabilidade das autoridades que lidam com jovens e raramente terminem em tribunais para adultos. Em Ontário, Canadá, onde a lei é especialmente punitiva em relação a jovens, as crianças tornam-se criminalmente responsáveis aos 12 anos e são amplamente tratadas como adultas. Nos Estados Unidos, a idade de responsabilidade criminal varia, segundo os estados, entre 11 e 14 anos; em alguns estados norte-americanos, jovens podem ser – e são – condenados à morte com 16 anos.

Aqui não é o lugar apropriado para analisar com mais detalhes as causas

desse aumento global da criminalidade juvenil, mas é assustador pensar que outros países estão tentados a adotar os três piores aspectos da justiça britânica, que, em outros sentidos, tem sido um modelo para o resto do mundo: a responsabilidade criminal na Inglaterra a partir da idade de 10 anos (na Escócia é a partir de 8 anos); o julgamento de crianças que cometem crimes graves por tribunais para adultos; e o fato de mandar para a prisão jovens a partir de 16 anos (embora recentemente, no caso de algumas garotas, para quem não há outros estabelecimentos adequados, essa idade

seja de 15 anos). O que devemos fazer?

No que diz respeito à aplicação da justiça para crianças, é na Grã-Bretanha que elas têm pior sorte, e é a Grã-Bretanha que agora é acusada perante a Comissão Europeia de Direitos Humanos. Mas a Grã-Bretanha ainda é considerada uma força moral, tanto nos Estados Unidos quanto em grande parte da Europa.

Considero urgente a adoção na Inglaterra, na Europa e nos Estados Unidos do que poderia ser chamado de um novo estatuto para crianças.

Deveria começar com a indicação há muito atrasada de um ministro para Crianças e o restabelecimento em cada autoridade local do país de um departamento dedicado a elas: o Relatório de Seebohm de 1968, que recomendava a unificação dos departamentos de Crianças, do Bem-Estar Social e da Saúde Mental, foi provavelmente a reorganização menos aconselhável na história dos serviços públicos.

Mas é claro que isso não basta: recursos precisam ser disponibilizados e instituições, estabelecidas para o treinamento e o retreinamento intensivo em psicologia infantil e em patologias da relação mãe/filho e pai/filho, tanto para assistentes sociais que desejam se especializar em crianças quanto para

professores da educação infantil ao ensino fundamental. O governo, por meio de seu recém-indicado ministro das Crianças, precisa encorajar e apoiar uma maior disciplina nas escolas e encontrar novos meios de lidar com o absenteísmo. Aqui, de novo, abordagens distintas precisam ser utilizadas para diferentes grupos etários. Por exemplo, por mais difícil que seja, e independentemente das medidas que possam ser necessárias para colocar isso em prática, os pais devem continuar a ser considerados responsáveis pela frequência regular de seus filhos durante os ensinos

fundamental e médio (como, de fato, seguindo os modelos europeus, eles já são responsabilizados quando as crianças cometem contravenções). Mas não é razoável esperar que jovens acima de 15 anos, que faltam à aula habitualmente, de repente aceitem o controle dos pais. É preciso encontrar maneiras diferentes não para controlar, mas sim para fornecer alternativas educacionais e de treinamento a jovens que, talvez mesmo aos 14 anos, simplesmente não querem estar na escola.

O cerne da questão é que a responsabilidade individual precisa ser

imposta aos adultos e alimentada nos jovens. O caminho principal para isso é dar voz à criança ou ao jovem; dar uma consciência de que vamos tratá-los como indivíduos, não como pedras no sapato de professores e assistentes sociais. Em vez de presumir que a criança ou a pessoa jovem que se comporta explicitamente mal quer ser má, precisamos primeiro confrontá-la com a pergunta “Por quê?” e trabalhar com ela até que seja respondida. Conforme podemos ver na história de Mary Bell, nada disso aconteceu então, nem está de fato acontecendo agora: nenhuma dessas

perguntas é levantada, acredita-se automaticamente nos pais e a criança é posta de lado. Essas medidas e muitas outras decorrentes delas podem trazer mudanças, se não nessa geração de jovens adultos (um termo ainda aplicado a jovens entre 18 e 21 anos) ou mesmo no grupo dos que agora têm 16 ou 18 anos, certamente nos mais jovens.

Eu sugeriria que agora, em nosso mundo, rapazes e moças entre 18 e 21 anos, que podem votar e se casar, não se consideram mais, emocional e psicologicamente, como jovens, e nós – ou os tribunais – também não deveríamos. Então, como veremos, enquanto sugiro mudanças de longo prazo no sistema legal no tratamento de crimes graves cometidos por

crianças de 10 a 14 anos e de 14 a 16, sou mais rígida com os grupos mais velhos: acredito que jovens de 17 e 18 anos, e jovens adultos de 18 a 21 anos, que cometem crimes graves nessas idades,deveriam ser julgados e punidos como adultos. Para tal propósito, seus casos continuariam a ser ouvidos em tribunais para adultos. As instituições para jovens transgressores – ainda há uma grave deficiência para garotas nesse setor – deveriam ser reservadas a jovens entre 16 e 18 anos a fim de distanciá-los da influência de transgressores mais velhos. Qualquer um acima de 18 anos

deveria ir para a prisão, e qualquer um abaixo de 15 anos deve ser considerado, julgado e condenado como uma criança.

Os dois casos que mais citei aqui, o de Mary Bell e o dos dois garotos que mataram James Bulger, têm feito muitas pessoas nas comunidades legal, médica e penal repensarem o modo como nosso sistema atual lida com crianças que matam ou que cometem crimes graves. Em 1996, um grupo de seis especialistas, membros da famosa equipe de reforma legal

Justice,31 produziu um relatório intitulado “Crianças e homicídio” sobre

procedimentos a serem utilizados com jovens em casos de homicídio doloso ou culposo, que incluía em suas recomendações que a idade de responsabilidade criminal deveria ser reavaliada em vista da situação de outros países europeus (possivelmente para 14 anos); que crianças com idade inferior a 14 anos não deveriam ser levadas a julgamentos públicos em tribunais para adultos; que seus casos deveriam ser ouvidos por um grupo constituído de um juiz e dois magistrados com experiência e treinamento relevantes, sem um júri; que a sentença obrigatória

determinando prisão perpétua para pessoas entre 10 e 18 anos de idade condenadas por assassinato deveria ser abolida; que crianças consideradas culpadas de homicídio deveriam ficar detidas em uma unidade de segurança ou uma instituição para jovens transgressores, e não ser automaticamente transferidas para uma prisão de adultos.

Tais recomendações fazem eco às minhas próprias opiniões. Contudo, tenho propostas adicionais, com algumas das quais os membros desse grupo não concordarão, uma vez que, à primeira vista, elas entram em certo conflito com os princípios vigentes da Justiça britânica.

O sistema de tribunais juvenis foi consideravelmente reestruturado em decorrência da Lei da Justiça Penal, de 1991, e agora protege razoavelmente os jovens réus: os procedimentos não são abertos ao público; os nomes dos réus não podem ser revelados; e a cobertura midiática é restrita.

Contudo, tribunais da juventude, como eles agora são chamados, não lidam com casos de crimes graves ou homicídio. É pensando nesse grupo – cujos casos, no sistema vigente, são julgados em tribunais para adultos – que proponho o estabelecimento, em conjunto com os tribunais da

juventude existentes, de um novo tipo de Tribunal Criminal Infantil. Para o banco dessa corte (de maneira muito parecida com o grupo especialmente

convocado sugerido pelos autores do relatório Justice), o lorde chanceler32 apontaria um juiz sênior e de dois a cinco magistrados com conhecimento e treinamento especiais.

Mas daqui em diante minhas ideias são diferentes. Como sabemos, sob o sistema vigente, as experiências da infância e possíveis explicações para o crime não são consideradas relevantes em um julgamento. Porém, sugiro

que a função desse Tribunal Criminal Infantil seja averiguar não apenas se a criança cometeu o ato ou não, mas também, se sim, por quê. É fundamental para a compreensão do motivo que o tribunal seja informado sobre as experiências da infância e a dinâmica familiar dos jovens réus antes de o julgamento começar.

Portanto, sugiro que, assim que a criança seja presa ou acusada, os magistrados desse novo tribunal solicitem imediatamente uma profunda investigação a ser realizada por assistentes sociais sobre o histórico da

criança (como é o procedimento padrão em todos os países europeus que mencionei) e recomendem que ela seja colocada, durante o período de custódia, em instituições de detenção com orientação psiquiátrica, onde possa ser observada e cujos relatórios possam ser submetidos ao tribunal. Tais medidas não existem atualmente nem na Grã-Bretanha, nem nos Estados Unidos porque se considera que qualquer coisa além do mais rotineiro exame psiquiátrico de uma criança acusada traz o risco de adulteração de evidências. Há o medo adicional de que, caso jovens réus conversem com psiquiatras para qualquer outro propósito que não permitir aos profissionais formar uma opinião sobre a habilidade da criança de

diferenciar o certo do errado, eles possam perder seu (já muito contestado) direito ao silêncio. Para além disso, como o sigilo profissional de psiquiatras e terapeutas não é protegido por lei como ocorre com os advogados e eles podem ser chamados como testemunhas pela promotoria, isso poderia levar as crianças a se incriminarem antes de serem julgadas no tribunal.

Embora eu esteja ciente desses riscos, minha experiência com Mary e outras crianças convenceu-me de que colocá-las em uma instalação quase

punitiva durante muitos meses de custódia é prejudicial e que, a fim de evitar a ignorância dos membros do tribunal, conforme demonstrado nas páginas anteriores, é essencial que eles tenham ao seu dispor relatórios sociais e psiquiátricos abrangentes antes do julgamento.

Contudo, de maneira contrária à informalidade que geralmente é adotada por muitos tribunais juvenis europeus, o Tribunal Criminal Infantil que proponho deveria manter um considerável traço de formalidade. Estou ressaltando esse ponto porque penso que é importante para as crianças que a

aparência do tribunal enfatize a gravidade da ocasião – experiências na França têm mostrado que com informalidade demais corre-se o risco de o crime e a forma como ele é condenado pela sociedade serem minimizados na cabeça da criança. Não há razão para perucas ou togas vermelhas. O juiz poderia se destacar usando uma toga preta e os advogados, ternos escuros, possivelmente mantendo o colarinho e as faixas brancas do traje costumeiro do Tribunal da Coroa, a fim de enfatizar a solenidade da ocasião.

Na hora do julgamento, a forma judicial britânica costumeira seria

seguida, com um promotor para apresentar o caso e a criança acusada sendo defendida por um advogado. Mas o procedimento nesse tribunal seria diferente em dois aspectos principais: primeiro, a criança acusada teria o apoio de um novo oficial do tribunal, um advogado de infância que, especialmente interessado nesse aspecto do trabalho tanto com os tribunais quanto com as crianças, seria recrutado dos serviços sociais ou da área legal e treinado em psicologia infantil e procedimentos legais. Proporcionando à criança o que se poderia chamar de um amigo no tribunal, ele ou ela permaneceria em contato com a criança durante o julgamento, fornecendo-lhe explicações, dando apoio quando necessário, e possivelmente sendo

convocado para falar pela criança.

Em segundo lugar – tomando-se emprestado do sistema de interrogatórios do continente europeu –, as crianças não seriam interrogadas pela acusação e, tornando o processo mais fácil e mais compreensível para elas, seriam questionadas somente pelo juiz. O sistema de debates seria mantido pelo promotor e pelo Conselho de Defesa, discutindo o caso entre si e com o juiz.

De resto, testemunhas e especialistas seriam ouvidos como em qualquer

julgamento; os procedimentos (assim como proposto pelo relatório Justice) aconteceriam a portas fechadas, com acesso limitado para membros da mídia, que não poderiam publicar nomes que identificassem a criança. Concordo mais uma vez com os autores do relatório quanto à abolição da sentença obrigatória de prisão perpétua para crianças e adolescentes condenados por assassinato, e com sua proposta de que o juiz do tribunal tenha poderes absolutos para determinar a sentença em cada caso. Concordo também com a ideia geral de que, quando tais crianças ainda estão detidas

aos 16 anos (momento em que, atualmente, os detentos de unidades especiais são transferidos para prisões ou instituições destinadas a jovens transgressores), elas não devem ser automaticamente transferidas para uma prisão de adultos.

Tudo que eu acrescentaria é que qualquer unidade especial para onde tal criança fosse mandada – que poderia combinar muitas das melhores qualidades de Red Bank – deve ser “especial” não apenas em sua segurança, mas também no treinamento de seus funcionários, na sua

orientação terapêutica, na disponibilidade de aconselhamento psiquiátrico e, quando necessário, também de tratamento para as crianças. Do mesmo modo, porém, é parte essencial de qualquer tratamento às crianças que também se trabalhe com os pais simultaneamente.

Negar a importância das experiências da infância para lidar com crianças gravemente perturbadas (conforme foi declarado oficialmente antes da chegada de Mary Bell a Red Bank) é pouco inteligente, assim como representa uma atitude mais ideológica que protetora ou de compaixão. E privar as crianças que passaram pelo trauma de cometer crimes graves e frequentemente horripilantes da oportunidade de compreender o que

fizeram me parece equivalente a uma punição “cruel e não usual”.

Poderia parecer que, em toda essa discussão, esqueci-me das famílias das vítimas desses crimes. Não é esse o caso. Como eu disse várias vezes ao longo deste livro, elas têm estado sempre em meus pensamentos. Sei que o mais profundo desejo delas deve ser o de nunca precisar reviver as lembranças daqueles dias terríveis e nunca mais ouvir o nome de Mary Bell. Mas enquanto escrevia me perguntei se de alguma maneira, de modo sobre-humano, essas famílias que se viram tão terrivelmente roubadas de suas

crianças poderiam vir a compreender meu propósito e encontrar alguma migalha de conforto nessa compreensão. Penso que a maioria de nós agora aceita que Mary Bell não era uma “assassina”, ela era uma criança gravemente prejudicada que ninguém ajudou: nenhum mal foi percebido, nenhum mal foi pretendido, somente o desespero extremo de uma criança levou a essa tragédia.

 

***

 

Três questões ocuparam meus pensamentos desde que Por que crianças matam foi publicado.

Uma que me foi colocada muitas vezes é: uma vez que existem muitas crianças que tiveram infâncias terríveis, o que faz com que algumas poucas delas cometam crimes tão extremos em tão tenra idade?

Não é fácil explicar o quase inevitável “ponto de ruptura” em seres humanos que, quando criança, foram privados de amor, rejeitados e seriamente abusados, principalmente por um pai ou uma mãe. É preciso tomar cuidado para não generalizar. Mas, enquanto a violência que pessoas adultas cometem – como genocídio ou outros assassinatos ideológicos ou políticos, crimes passionais e também assassinatos sádicos – pode levar (e leva) a tendências e motivações sem relação com qualquer trauma de infância, a maioria dos especialistas em traumas na infância concordaria

que, vendo no sentido contrário, nenhuma criança ou adulto passa incólume por rejeição e abuso na infância. Porém, a natureza desse “ponto de ruptura” e o momento em que ele resulta em um ato de violência ou em um crime sério – não necessariamente assassinato, é claro, mas vandalismo, incêndio, assalto, hoje em dia frequentemente à mão armada, e mesmo

estupro – podem variar radicalmente; pode ser no comecinho da infância ou adolescência, mas também muito mais tarde, na vida adulta.

Essa ruptura também pode se manifestar bem cedo, e frequentemente o faz, em violência ou crueldade com animais, mesmo que a criança os ame. Pode – e com muita frequência acontece – se voltar contra parentes, mas também contra estranhos, tanto crianças quanto adultos. Se, porém, a criança não receber qualquer ajuda durante a infância, essa ruptura pode igualmente se inflamar como uma ferida aberta, a raiva e a dor crescendo

com o tempo até arruinar quaisquer chances de que o adulto mantenha relacionamentos normais, e, novamente com muita frequência, se tornar um ciclo vicioso de rejeição e abuso dos filhos desse adulto.

O segundo aspecto das primeiras reações a este livro, que julguei serem muito significativas, foi a rejeição por parte de alguns comentadores das lembranças de Mary Bell sobre ser abusada sexualmente dos 4 anos e meio aos 8 anos de idade na presença de sua mãe pelos clientes dela. A razão pela qual eu acho isso significativo é porque mostra que existe um número

pequeno, mas altamente expressivo de especialistas e um grande número de pessoas boas e decentes que simplesmente não conseguem encarar a existência da pedofilia. Dada a quantidade de provas da existência dessa terrível perversão, que devasta continuamente a vida de milhares de crianças, essa reação me parece ser quase tão assombrosa quanto a pedofilia em si.

Qualquer um que tenha trabalhado com crianças abusadas sexualmente sabe quão difícil é para elas falar sobre isso. E como existem riscos reais em

fazer suposições sobre abuso dentro de famílias, e como crianças pequenas (frequentemente levadas a pensar, pelo pai ou pela mãe que abusa, que isso acontece com todas as crianças) essencialmente não compreendem o horror que acontece com elas, ainda estamos no escuro quanto a maneiras de detectar e, assim, prevenir o abuso de crianças pequenas, assustadas e incapazes de se expressar antes que elas sejam emocionalmente feridas – com frequência, de modo permanente.

Eu tive dificuldades consideráveis para ajudar Mary a lidar com o desespero enquanto, sem ser conduzida nem influenciada, ela me contava

sobre o que fizeram com ela. Mais tarde, me dei conta, pelas reações de alguns críticos que levantaram o fantasma das “memórias falsas”, que é somente considerando o que Mary nos contou no contexto dos outros muitos eventos na sua história que podemos perceber quão terrivelmente verdadeiras são suas lembranças. Existem quatro pontos relatados no livro que precisam ser conectados às recordações de Mary.

Primeiro, o fato de que a mãe de Mary, Betty, em um dos momentos de desespero que ela claramente tinha, contou ao funcionário responsável pelo

setor infantil do Serviço Social de Newcastle, Brian Roycroft, em 1970, que sua especialidade era “chicotear” os clientes. “Mas eu sempre escondi o chicote das crianças”, ela acrescentou.

O segundo fato – como eu relato no livro – aconteceu cerca de quinze anos mais tarde, quando Mary, soluçando desesperadamente, contou à sua agente de condicional, que se envolveu profundamente em ajudá-la, sobre se lembrar de chicotadas quando ela tinha 4 ou 5 anos na presença de homens que ela se lembrava de terem pênis eretos.

O terceiro fato relevante é que, na única ocasião em que Mary foi levada pela diretora de sua unidade especial para ver uma psiquiatra em um hospital de saúde mental, aos 14 anos, porque havia começado a se machucar (ou seja, a se cortar), a entrevista aconteceu, estranha e incompreensivelmente, na presença de sua mãe. E quando Betty Bell falou irritadamente para a psiquiatra que Mary era “pequena demais para se lembrar de qualquer coisa do passado”, Mary a contradisse e pode-se pensar que até mesmo fez uma ameaça velada à mãe. Ela se lembrava, disse à

psiquiatra. “Eu me lembro de um homem de três dedos e... Brancura... Eu me lembro de cabra-cega.”

“Cabra-cega” é como a mãe dela chamava o ato sexual em que às vezes ela punha uma venda em Mary, e o “homem com três dedos” e a brancura do pênis, ou a ejaculação que emergia dele, apareciam constantemente nas lembranças de Mary do abuso sexual quando ela falou comigo.

E por fim, apesar de não ser em si mesmo uma prova, há ainda um outro ponto que me parece marcante e que, mesmo não sendo evidência factual, pode ser considerado significativo dentro das circunstâncias. É o fato de que a amorosa avó materna de Mary, assim como sua tia mais nova, me

contou, também em momentos de desespero em 1969, como Betty, aos 13 anos de idade, cercou-se de crucifixos e rosários, pendurando-os no teto e nas paredes de seu quarto em Glasgow (“Todos nós pensamos que ela seria freira, de tão [devota]”, disse a mãe de Betty).

A fim de proteger a relação entre Betty e sua família em 1969, eu não citei essa fala e outras de seus parentes no meu livro anterior. Exceto por algumas visitas de seu “pai” quando ela estava na unidade especial, e claro que, mais tarde, de sua mãe, Mary não teve praticamente nenhum contato

com sua família desde que foi presa aos 11 anos de idade. Portanto, não há como Mary saber (ou seja, terem contato a ela) sobre a obsessão de Betty quando criança. Mas (como pode ser visto neste livro, na página 343), 27 anos depois, com o rosto pálido e coberto de suor, Mary me contou aos soluços sobre seu claro horror quando crucifixos e rosários dependurados a tocavam quando sua mãe a segurava contra a cama onde homens a machucavam (“...e era tão terrível, com os rosários batendo em mim; eu me sentia muito mal, muito mal”). Foi apenas muito mais tarde, quando o livro

já havia sido publicado, que eu me lembrei daquilo de que Mary não sabia – a posição idêntica em que sua mãe, aos 13 anos, colocara aqueles objetos religiosos.

Há aqueles que duvidam que a história do sofrimento, do crime e da punição de uma só criança e jovem pode nos ajudar a chegar a quaisquer conclusões gerais, seja sobre outras crianças transgressoras, seja sobre mudanças na sociedade que protegeriam crianças em risco antes que elas cheguem a esse “ponto de ruptura”, ou reformas na aplicação da justiça que

podem levar crianças que cometem crimes sérios a receber ajuda e tratamento, em vez de serem apenas punidas ou encarceradas.

Esses mesmos céticos duvidam da veracidade de um relato como esse, basicamente, creio eu, porque não conseguem deixar de lado a convicção de que essa criança – já adulta ao relatar a história e que cometeu, por duas vezes, o pior dos crimes – era uma “assassina”, ou seja, não uma criança que matou, mas sim, com todas as implicações de um mal imperdoável, uma “criança assassina”, como todas as manchetes de tabloides anunciaram na última primavera. Não importa o fato de que ela era uma criança de 11 anos machucada, nem que ela levou uma vida inocente desde que foi

libertada aos 23 anos. Para eles, ela continua sendo aos 41 o que eles acreditavam (erroneamente) que ela era aos 11: não progrediram de sua convicção medieval de um mal intrínseco; não acreditam em crianças traumatizadas.

Finalmente, a questão mais importante levantada pelo escândalo midiático britânico é: até que ponto nós acreditamos que uma pessoa, criança ou adulto, que comete um crime pelo qual é condenada e punida, pagou por esse crime quando é libertada da prisão? Acreditamos em

reabilitação? Acreditamos que um prisioneiro libertado – acima de tudo, alguém condenado a prisão perpétua, cuja libertação é, em qualquer lugar ou momento, acompanhada por regulamentações especiais – recuperou o direito a uma vida normal, com trabalho e família? Acreditamos, de fato, em redenção?

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