Por que Crianças Matam
A investigação policial: agosto a novembro de 1968
A investigação policial
Agosto a novembro de 1968
N os dois casos fundamentais da Grã-Bretanha desde a Segunda Guerra Mundial – o caso de Mary Bell, como ficou conhecido, e o assassinato de “Jamie” Bulger (cuja imagem de mãos dadas com um de seus raptores, filmada pela câmera de segurança de um shopping, dominou as telas de TV e as primeiras páginas durante semanas na Grã-Bretanha em 1993) –, não havia dúvida desde o início de que crianças estavam envolvidas nas mortes. Enquanto escrevo, tenho à minha frente uma cópia do relatório que o detetive inspetor-chefe James Dobson escreveu em 15 de agosto de 1968. O documento formaria a base das evidências para o julgamento após acordo com o Departamento de Polícia.
É estranho lê-lo agora, tantos anos depois, pois seu fraseado oficial o faz parecer bem diferente do homem profundamente humano que vim a conhecer. Alto, com olhos azuis brilhantes e uma mente incisiva, seu jeito durão era uma fachada necessária, como ele logo me contou, para um coração “de manteiga” sempre que se tratava de crianças. De todas as pessoas envolvidas na investigação, James Dobson foi o único que logo suspeitou de que havia nesse caso algo mais do que uma “criança maligna”, uma “aberração da natureza”, como a imprensa a chamou.
“Digamos que percebi que havia alguma coisa terrivelmente errada”, ele contou-me logo após o julgamento, quando (tal como aconteceria com muitos dos policiais com os quais eu falaria 25 anos mais tarde, durante o julgamento do caso Bulger em Liverpool) senti grande depressão e muito desânimo nele. “Mas minha função era determinar quem havia cometido o crime e como ele fora cometido. Em nosso sistema, não é função da polícia descobrir por que crimes são cometidos. Mas como vimos aqui, infelizmente, quando quem comete crimes são crianças, parece que não é
trabalho de ninguém.”
Ele estava dormindo em casa quando o telefone tocou à 1 hora da manhã de quinta-feira, 1º de agosto de 1968, para contar-lhe que Brian Howe, de 3
anos, fora encontrado morto, esfaqueado, como se acreditava. Ele vestiu as calças e um suéter por cima do pijama, calçou os sapatos sem as meias e “voou” até Scotswood.
“Estacionei na estrada e, enquanto descia a pé para Tin Lizzie, pensei em Martin Brown de repente. Eu não tinha nada a ver com aquele caso e não tinha ideia do que encontraria em Tin Lizzie. Mas eu havia parado o carro exatamente em frente à casa onde Martin tinha sido encontrado e, de alguma maneira, ele ficou na minha cabeça ao longo dos dias seguintes.”
Quando Dobson chegou a Tin Lizzie, holofotes já tinham sido colocados, recorda. “A área toda estava muito iluminada. Tinha um monte de gente por lá”, ele se lembra, “mas tudo estava, de alguma maneira, muito quieto”. Ele sentia que era uma primeira indicação do choque que logo tomaria conta de Scotswood, Newcastle e todo o país. “Assassinato é sempre especial, quem quer que seja a vítima; mas há algo muito diferente para nós, algo muito pessoal, quando o crime é com uma criança”, disse. “O que mais ouvi foi o barulho da estrada de ferro. É muito alto à noite. Nossos companheiros”, ele
repetiu, “estavam quietos”.
A primeira suposição, imediatamente após o corpo ter sido encontrado, foi de que um tarado estava à solta. Mas após examinar o corpo do pequeno Brian in loco, o legista Bernard Tomlinson concluíra que ele havia sido estrangulado, não esfaqueado, e provavelmente havia morrido entre 3h30 e 4h30 da tarde anterior. As tênues marcas de pressão em seu pescoço e em seu nariz e a leveza dos ferimentos à faca – havia seis feridas pequenas e pontuais nas coxas e nas pernas dele e uma pequena área sem pele no meio
de seu saco escrotal – eram muito mais hesitantes do que seriam se tivessem sido causadas por um adulto e indicavam claramente a ação de uma criança ou de crianças.
“Não havia raiva, ninguém conseguia ver, ninguém conseguia sentir”, disse o Sr. Dobson. “Havia um terrível ar de brincadeira em tudo aquilo, uma terrível delicadeza, se você preferir, e de alguma maneira esse ar de brincadeira tornava aquilo mais, e não menos, aterrorizante. Era incompreensível. Como poderia ter ocorrido? E por quê?”
Cem oficiais da Scotland Yard foram chamados e estavam reunidos em grupos. “Falei com eles que trabalharíamos sem parar até resolvermos
aquilo”, disse o Sr. Dobson. “Tomamos depoimentos preliminares das famílias e dos vizinhos naquela noite e produzimos centenas de questionários mimeografados para distribuir na manhã seguinte. Começamos em Scotswood às 8 horas da manhã e, exceto por breves pausas para dormir, não paramos por oito dias.
Durante as primeiras 24 horas, mil casas em Scotswood foram visitadas e 1.200 crianças com idade entre 3 e 15 anos, bem como seus pais, receberam questionários para preencher. Houve muita inconsistência nas respostas e
cerca de doze crianças foram convocadas a dar depoimentos adicionais,
entre elas Norma Bell e Mary Bell.13
As diferenças entre as famílias das duas garotas foram comentadas desde o primeiro dia da investigação, quando o detetive Kerr chegou à casa de Norma para pedir esclarecimentos sobre uma parte do questionário. Havia dez perguntas na ficha e, no caso de Norma, a resposta para a pergunta 8 – “Você conhece alguém que brincava com Brian? Se sim: nome e endereço” – não estava clara. “Aquela era uma família em que pelo menos sete das
onze crianças caíam na faixa entre 3 e 15 anos de idade”, o detetive Kerr me contou mais tarde. “Claro que tinha gente demais lá. Mas eles me deram a impressão de ser uma família unida. Conversei com a mãe e com várias das crianças. Elas eram simpáticas e educadas, e limpas também, o que me pareceu uma vitória, sendo tantas.”
“Achei mesmo que Norma era peculiar”, ele acrescentou. “Quero dizer, eu estava fazendo perguntas sobre algo muito terrível e o pequeno Brian era uma criança que todos eles conheciam bem, mas ela ficava lá, sorrindo sem
parar como se tudo fosse uma grande piada. A mãe dela – e eu achei que, sob tais circunstâncias, isso era estranho também – foi muito ríspida com ela: ‘Você não ouviu o que ele perguntou? Responda à pergunta!’.”
Norma acabaria por dar ao detetive Kerr o primeiro de vários depoimentos que ela faria ao longo dos dias seguintes (os quais, ao final, seriam parte das evidências que o júri poderia ver no tribunal). Examinado em retrospecto, para uma criança que foi considerada abaixo do normal em termos educacionais e que, no semestre seguinte, começaria a frequentar uma escola especial, ele se mostrou uma inteligente e instigante mistura entre verdade e invenção.
A família Howe mudou-se para nossa rua há cerca de um ano e o pequeno Brian Howe começou a brincar com meus irmãos John Henry e Hugh Bell [...] Nunca vi nenhum deles perto dos trilhos, atrás do pub Delaval Arms. Só desci até lá duas ou três vezes e a última foi há meses. A última vez que vi Brian Howe foi por volta de 12h45, quarta-feira, 31 de julho de 1968, quando ele estava brincando com seu irmão e duas garotinhas na esquina da Whitehouse Road com Crosshill Road... Entre
1 e 5 horas da tarde daquele dia eu estava brincando na minha rua com Gillian e Linda Routledge, no número 59 da Whitehouse Road. Estávamos fazendo pompons [próximo a essa última frase aparece a observação da polícia “verificado”].
Até esse ponto, a polícia não tinha conectado Norma e Mary. Quando o detetive Kerr foi à casa ao lado, no número 70 da Whitehouse Road, era apenas para esclarecer a resposta de Mary à pergunta 6 – “Quando você viu
Brian pela última vez?” – e à pergunta 9 – “Você esteve brincando atrás do pub Delaval Arms perto dos trilhos entre 1 e 5 horas da tarde na quarta-feira, 31 de julho?”.
“A atmosfera era bem diferente lá”, o detetive Kerr me contou. “Não parecia um lar de qualquer espécie, apenas uma concha: muito peculiar, silencioso, mobília surrada e escassa; e não era arejado, mas abafado, escuro, mesmo naquela tarde ensolarada de verão. O único sinal de vida era o latido de um cachorrão, um pastor alemão que parecia feroz.”
“Mary era a criança mais evasiva que já encontrei”, ele disse. “E o pai dela era muito estranho. Perguntei a ele: ‘Você por acaso é o pai dela?’, e ele disse: ‘Não, sou tio dela’. ‘Onde estão os pais dela?’, perguntei. E ele respondeu: ‘Ela só tem mãe e ela está fora a trabalho’.”
Muito depois descobri que os Bell haviam se mudado para Whitehouse Road um ano e meio antes, e Betty Bell havia notificado a prefeitura de que seu marido havia lhe abandonado. Ela, então, reivindicou o pagamento do auxílio social a que tinham direito as pessoas nessa situação, e as crianças foram instruídas para chamar o pai de “tio” quando qualquer estranho estivesse ouvindo.
“Em todas as perguntas que fiz a Mary”, o detetive Kerr continuou, “ela ficou olhando para ele [Billy Bell] sem parar em busca de direcionamento”. Ele finalmente anotou a seguinte declaração de Mary, mais curta do que a de Norma, mas em acordo com ela:
Vi Brian Howe pela última vez em Whitehouse Road por volta das 12h30 da tarde, na quarta-feira, 31 de julho [...] Quando ele estava brincando com seu irmão. Não cheguei perto dos trilhos nem do aterro
próximo de lá nem uma vez na quarta-feira [...] Estive lá embaixo antes, mas faz pelo menos dois meses.
Quando o detetive Kerr voltou à casa de Norma, às 7h05 daquela primeira noite, após os depoimentos das duas garotas terem sido estudados pelo Sr. Dobson na delegacia de West End, ela fez uma correção para acrescentar que havia “se encontrado” e “brincado” com “Mary Flora Bell” no quintal delas, na manhã daquela quarta-feira até a 1h30 da tarde. Ela disse também que a havia reencontrado às 2h30, e que ambas foram brincar durante meia hora com “Elaine, a filha do proprietário da Davy’s [na esquina da rua delas]”. Voltando para as suas respectivas casas “por cerca
de dez minutos”, ela disse, as duas se reuniram novamente às 3h15 e “brincaram na rua [Whitehouse Road] até às 5 horas daquela tarde”. Claro que isso era mentira: conforme eu descobriria em minhas conversas com Mary em 1996, Norma estava, ainda nesse ponto, mantendo um “pacto” que as duas garotas haviam feito. “Então, fui para a casa de Gillian e Linda Routledge e sentamos na escada da frente fazendo pompons. Pelo que sei, Mary Flora Bell simplesmente foi para a casa dela. Não a vi de novo até às 7 horas da noite, na rua atrás da nossa casa, quando ela estava sozinha. Não
sei onde ela esteve.”
A confecção de pompons – que realmente aconteceu de forma intermitente naquela tarde – serviria até o final como a garantia de Norma: a prova de que estivera na presença de outra pessoa. Como tinha acontecido em seu primeiro depoimento, entretanto, a maior parte das horas indicadas não era verdadeira.
No dia seguinte, sexta-feira, 2 de agosto, outro policial, o detetivesargento Docherty, visitou Mary novamente por causa de mais
algumas inconsistências em suas respostas. Ela havia se lembrado de outra coisa dessa vez, contou a ele. Na quarta-feira após Brian Howe ter sido morto, ela viu um garotinho (que a polícia chamou de “A”) em pé sozinho na Delaval Road e “ele estava coberto de grama e pequenas flores”. Ela o vira brincando sempre com Brian e também o vira bater sem motivo no menino na cabeça e no pescoço. E, montando uma armadilha para si mesma em uma tentativa de tirar ela e Norma de encrenca por meio de mentiras, acrescentou:
“Vi [A] brincando com uma tesoura meio cor de prata e tinha algo errado com [ela], uma lâmina estava quebrada ou entortada. Eu o vi tentando cortar o rabo de um gato com essa tesoura”.
“Essa tesoura que Mary Bell mencionou, que fora encontrada sobre a grama próxima ao corpo de Brian Howe”, o Sr. Dobson disse, “não tinha sido fotografada ou descrita em nenhum jornal. ‘A’ tinha 8 anos de idade; ele foi a primeira criança que visitei, e gastamos dois dias com ele. Sua história, do jeito como ele contou claramente por diversas vezes, foi
confirmada não apenas pelos seus pais, que, é óbvio, poderíamos esperar que encobririam o filho, mas por um monte de outras pessoas”. “A” havia, de fato, brincado com Brian Howe de manhã, mas saiu com a família à tarde e não voltou a Scotswood até às 10 horas da noite.
“Tudo que ‘A’ disse foi provado”, o detetive continuou. “Mas Mary Bell tinha dito que viu ‘A’ com aquela tesoura. Como ela sabia sobre a tesoura, que poderia ter sido usada para fazer as marcas no corpo de Brian? Como ela poderia saber o suficiente para descrever exatamente como era a
tesoura? Aquelas duas garotas, Mary Bell e Norma Bell, já tinham mudado seus depoimentos duas vezes. Àquela altura, já tínhamos eliminado todos os outros. Eu não as tinha visitado ainda, mas elas ficaram em algum canto da minha cabeça: tinha que ser elas, ou uma delas.”
No domingo, 4 de agosto, um terceiro policial, o detetive Thompson, interrogou Norma novamente em casa. Ele a confrontou com o fato de ter sido vista por várias pessoas com Mary Bell e o cachorro dela naquela quarta-feira em horários diferentes daqueles que ela havia declarado. Nesse momento, Norma começou a chorar. Estava claro que ela, então, estava sob muita pressão por parte da família. Ela pediu para falar com o policial sem a
presença do pai, e ele saiu do quarto antes que o policial Thompson pudesse impedi-lo (a polícia não tem permissão de entrevistar uma criança exceto na presença de outro adulto).
“Desci até a Delaval Road com Mary e o cachorro”, ela disse depressa. “Mary me levou para ver Brian...”
O policial Thompson a interrompeu, chamou o pai dela de volta e disse que estava levando Norma para a delegacia. A menina voltou a dizer que não queria que o pai estivesse junto e, novamente, o Sr. Bell concordou,
mas foi levado até lá pouco depois em outro carro da polícia.
Quando o detetive Dobson conversou com Norma às 8h10 daquela noite, ela estava pálida e nervosa. “Seus olhos saltavam de um de nós para o outro e ela tinha um sorriso nervoso que se transformava em lágrimas de repente”, ele disse. “Eu sabia que não era a hora da verdade, mas era quase...”
Após ter sido advertida pelo detetive, ela contou que havia descido para os “blocos” – os blocos de concreto em Tin Lizzie – com Mary Bell: “E eu
tropecei na cabeça dele”.
Brian estava morto, ela disse, e alegou que Mary tinha contado que “apertou o pescoço dele e empurrou os pulmões”, e que tinha dito a ela “Fique fora de encrencas e não conte a ninguém”. Ela então descreveu como o pequeno Brian parecia e como estava deitado, e que Mary, após mostrar uma “lâmina” e onde tinha “cortado a barriga dele”, escondeu a lâmina embaixo de um bloco, mandando que Norma não contasse para o pai ou teria problemas. Ao ser questionada se poderia mostrar ao detetive
Dobson onde a lâmina estava escondida, ela respondeu que sim e, quinze minutos depois, após ser levada para o local em Tin Lizzie onde Brian fora encontrado, apontou para um bloco de concreto sob o qual a polícia encontrou a lâmina. Quando o Sr. Dobson pediu que ela mostrasse como estava o corpo de Brian, Norma deitou-se no chão na posição exata em que Brian havia sido encontrado.
Menos de meia hora depois, de volta à delegacia, o detetive perguntou a Norma, na presença do pai, se ela queria fazer outra declaração por escrito. “Deram chá e um sanduíche para ela”, ele me contou. “Ela estava muito cansada àquela altura. Mas não havia outra saída. Tínhamos que fazer
aquilo.”
Norma havia começado a dar sua declaração de maneira nervosa, mas então parou, olhando ansiosamente para o pai. O Sr. Dobson perguntou se ela queria que ele saísse. Ela disse que sim, e uma policial veio se sentar com ela.
De acordo com esse terceiro depoimento, Norma não sabia nada sobre a morte de Brian até que, caminhando com Mary, deparou-se com o corpo dele, e depois disso Mary contou-lhe que o havia matado. Em seu segundo
depoimento, ela já estabelecera uma série de horas e nomes, além de Mary, que mostravam que ela poderia estar em qualquer lugar menos em Tin Lizzie naquela tarde. Nessa terceira declaração, ela admitiu ter “caminhado” com Mary e o cachorro e ter ficado “dez minutos” nos blocos antes que voltasse para fazer “pompons” às 4 horas da tarde: horas exatas e os “pompons” continuariam a aparecer. Depois disso, ela afirmou que “não viu [Mary] por muito tempo”. Às 6h45 da noite, afirmou dessa vez, que se juntou a Pat Howe, a irmã de Brian, e a Mary para procurar o garoto, mas as
deixou às 7 horas da noite e voltou para brincar com Linda até 8h30, quando foi para casa e lá ficou.
Muito pouco dessa declaração era verdade, exceto o fato de ela ter saído com os outros à procura de Brian (ainda que mais cedo que o declarado) e os pompons. Mas, cansada demais para manter a sequência lógica que conseguira até aquele momento, ela terminou com o que James Dobson chamou de “a grande mentira”. Ela não contara a ninguém sobre o que vira, disse, “porque eu estava assustada e, se tivesse dado com a língua nos
dentes, Mary poderia mexer com o filho de alguma outra pessoa. A última vez que vi Brian”, ela mentiu, “foi por volta da hora do almoço [meio-dia], quando ele estava brincando com Norman [irmão dele]. Esqueci de dizer que, quando deixamos Brian, May colocou algumas flores no tufo de grama que estava sobre ele”.
Às 10h30 da noite, com o pai dela já tendo concordado, Norma foi levada para Fernwood, o lar de acolhimento de crianças da prefeitura, onde quatro meses depois Mary passaria as duas semanas do julgamento no sótão ou no último andar, sendo vigiada 24 horas por uma equipe de quatorze policiais femininas (“Eu nunca soube até muito depois”, contou-me ela,
“que minhas duas irmãzinhas e P. [irmão dela] estavam lá o tempo todo 14 em que estive trancada, lá em cima”).
Enquanto isso, o policial Kerr foi novamente bater à porta do número 70. “Mary atendeu. Perguntei se poderia entrar. Ela disse que não e perguntei por que; ela disse ‘Meu tio não está aqui’. Perguntei onde ele estava e, quando ela disse que estava no pub, mandei que ela fosse buscá-lo. Billy Bell estava muito hostil quando eles voltaram. Mary ficava olhando para ele continuamente mais uma vez. Claro, eu acreditava que ele fosse tio dela.
Não tinha motivos para não acreditar. E tive a sensação de que aquele tio estava só de passagem, sabe, que não morava lá. Não consegui mais informações deles naquela noite.”
O policial Kerr estava correto em suas impressões: Billy e Betty Bell, àquela altura, já não viviam juntos: ela exercia sua profissão quase totalmente em Glasgow e, como Mary bem disse, estava “fora” a maior parte do tempo. Sempre que ela saía, Billy vinha. Se ele também estivesse fora, na prisão ou exercendo seu próprio negócio de arrombamentos e
crimes menores, a irmã dele, Audrey, que morava praticamente em frente, levava todas as crianças ou, pelo menos, as duas mais novas, deixando Mary e o irmão dela perambulando entre a casa dela e a deles.
À 0h15 da segunda-feira, 5 de agosto, apenas duas horas depois que Norma deu seu terceiro depoimento, o Sr. Dobson foi à casa de Mary com dois policiais. A casa estava às escuras, exceto pela lareira acesa na sala de estar e a televisão, que estava no volume máximo.
“Em um inquérito de assassinato”, disse James Dobson, “você tem que
ignorar se é dia ou é noite”. Billy Bell estava assistindo à televisão. Sua esposa tinha saído, disse ele (esquecendo-se da história do “tio”) ao atender à porta sem abri-la totalmente, de modo a impedir que eles entrassem. As quatro crianças estavam dormindo no segundo andar. “Expliquei que queria interrogar Mary na delegacia. Quando Billy se recusou a acordá-la, falei com ele que estávamos prontos para subir e pegá-la, mas que seria mais fácil para ela se ele fosse.” Billy Bell então disse-lhes para esperar do lado de fora e atravessou a rua para buscar a irmã. Audrey veio depressa, vestiu Mary e foi com ela no carro para a delegacia.
“A tia ficou conversando com ela de maneira muito sensível no banco de trás do carro, dizendo para ela contar a verdade. Eu as levei direto para minha sala e mandei alguém trazer chá e biscoitos”, o Sr. Dobson disse. “Mas Mary não parecia estar incomodada. Ela tinha um rosto tranquilo, alegre e confiante. Estava completamente alerta, apesar de ter sido acordada daquele jeito.”
Durante as três horas seguintes, disse James Dobson, Mary fez uma performance extraordinária. Ela afirmou saber sobre a morte de Brian,
porque ajudara a procurar por ele quando tinha desaparecido. Onde ela estava na tarde de quarta-feira, 31 de julho? Brincando com Norma. Não, ela não descera até os trilhos perto dos blocos. “Nunca vou lá.” Ela esteve lá uma vez, muito tempo antes. E ela desceu até o estacionamento com Pat Howe e Norma “quando estávamos procurando por Brian”. Ela havia visto Brian naquele dia? “Sim, cerca de 12h30. Ele estava brincando com o irmão dele em Whitehouse Road.”
O Sr. Dobson disse que tinha motivos para acreditar que ela fora aos
blocos de concreto às 3h45 daquela tarde com Norma e que vira Brian Howe lá.
“Nunca”, disse ela. Mary havia ido ao parque com seu cachorro, sozinha. Ela tinha certeza de que estava sozinha? Ela cedeu em parte: “Não, eu lembro, eu estava com Norma”. Elas teriam voltado às 4h30 da tarde.
Testes forenses tinham encontrado fibras de tecido cinza nas roupas de Brian e marrons em seus sapatos. “O que você estava vestindo naquele dia?”, o detetive perguntou. O vestido preto que estava usando naquele
momento, disse ela, e uma blusa branca. Outro dos policiais presentes, o detetive inspetor Laggan, disse que tinha motivos para acreditar que ela estava usando o vestido cinza.
“Não, eu não estava. Não o visto há semanas.” E não, ela nunca brincava com Brian: “Ele é muito pequeno”.
“Tenho motivos para acreditar que, quando você estava perto dos blocos com Norma, um homem gritou com algumas crianças e vocês duas fugiram correndo de onde Brian estava caído. Esse homem provavelmente vai te reconhecer”, disse o detetive Laggan.
“Ele teria que ter boa visão”, respondeu ela.
“Por que ele precisaria de boa visão?”, o detetive Dobson perguntou depressa, e ela retomou o controle de si imediatamente:
“Porque ele teria que ser...”, ela fez uma pausa por alguns segundos, “...esperto para me ver onde eu não estava”. Ela se levantou. “Vou para casa.”
O Sr. Dobson disse que ela ainda não poderia ir para casa.
“Então vou telefonar para alguns advogados”, ela disse. “Eles vão me
tirar daqui. Isso é lavagem cerebral.”
“Tenho motivos para acreditar que”, o Sr. Dobson prosseguiu, “quando você esteve nos blocos com Norma, você mostrou a ela um objeto com o qual você disse que tinha feito algo a Brian. Aí você escondeu esse objeto.”
“De jeito nenhum”, ela disse.
“Norma me mostrou onde esse objeto estava. Estou com ele agora”, disse o detetive.
“O que é?”, Mary disse. “Vou matar Norma.”
James Dobson perguntou se ela queria dar um depoimento por escrito dizendo onde esteve naquele dia.
“Não vou dar depoimento nenhum. Dei um monte de depoimentos. É sempre em cima de mim que você vem. Norma é mentirosa. Ela sempre tenta me colocar em encrenca.”
Tudo isso aconteceu muito lentamente, o Sr. Dobson me contou. Muitas vezes ela ficava em silêncio por longos momentos e as perguntas tinham que ser repetidas.
“Ou então ela ficava se remexendo, pulava dizendo que estava indo embora, que não ia ficar lá. Em certo momento recebi um telefonema, e ela disse: ‘Este lugar está grampeado?’. Parecia que ela se via em um tipo de cenário clichê de um filme de tiras e bandidos: nada a surpreendia e ela não admitia nada. Fiquei com a menina lá durante três horas, e ela apenas manteve a história: ela não sabia de nada.
“Claro que poderia ser verdade. Eu não estava, de forma alguma, seguro de que não fosse. Certamente aquelas duas garotas estavam envolvidas, tinham estado lá. Mas quem fez o quê? Eu não tinha ideia. Nós ainda não havíamos feito a ligação com o assassinato de Martin Brown e francamente,
mesmo depois que a fizemos, não fomos tão mais espertos.”
Às 3h30 da madrugada, eles mandaram Mary de volta para casa.
“Era extremamente preocupante”, o detetive Dobson disse. “Qualquer uma delas que tivesse feito aquilo era uma criança muito, muito perturbada e, nesse estágio de perturbação, muito perigosa.”
Na tarde seguinte, Norma, que tinha estado com a polícia durante todo o dia, disse que queria dar outra declaração. Disse também que era para contar ao Sr. Dobson o que ela não havia dito na noite anterior. Ela foi
novamente advertida e, mais uma vez, disse que não queria o pai dela lá: “Quero só você”.
“O detetive Thompson vai ter que ficar lá”, disse o Sr. Dobson.
“Tudo bem”, ela respondeu. “Ele é um de seus homens.”
“Deveria ser engraçado”, o detetive me disse mais tarde, “mas não era”. Questionei se ele sentira que Norma estava tentando enganá-lo. “De caso pensado, não. Instintivamente, talvez”, ele respondeu. Ele sabia por que ela não queria que o pai estivesse presente? Ela parecia ter medo dele? Dobson
disse que não tinha certeza, mas era certo que ela tinha contado e, provavelmente, pretendia continuar a contar mentiras e não queria que o pai ouvisse.
“Acho que era especificamente de seu pai que ela tinha medo. Mas era mais complicado do que isso. Ela estava muito, muito eufórica, e nunca tive certeza se era essa curiosa euforia que ela não queria que seu pai visse.”
Eufórica porque tinha feito algo?
“Eu não sabia se ela fizera ou não, mas eufórica, sobretudo, porque se
sentia importante.”, explicou o detetive.
Perguntei também se ele teve a sensação de que Norma mentiu e Mary não; ou de que ambas mentiram, ainda que uma mentisse mais que a outra.
“Não sei. Não sabíamos dizer. Norma era muito, muito mais infantil do que ela. Mary estava mentindo também, é claro. Mas, para dizer a verdade, ela era um mistério para mim. O que me preocupava muito era que havia, em relação às duas, uma curiosa propensão à fantasia a qual eu não conseguia compreender. Eu sempre soube que deveria ter compreendido, mas claro que tinha o garotinho morto, e não podíamos ficar pensando em ‘fantasia’. Não era nossa função. E seja lá o que pudesse parecer, a conduta
de Mary era excepcionalmente sofisticada, de maneira perturbadora para uma criança de 11 anos de Scotswood. Não sabíamos o que fazer com ela na época e, como você sabe, ninguém jamais soube depois.”
Norma estava muito nervosa naquela segunda-feira, disse o Sr. Dobson, “inquieta, balançando na cadeira, olhando em volta da sala mesmo sem ter ninguém nem nada para olhar. Não sei o que se passava na cabeça dela, mas a garota estava morrendo de vontade de ser útil”.
O quarto e mais longo depoimento de Norma, ainda que alguns dos
detalhes estivessem errados e sua descrição acusasse especificamente Mary de ter matado Brian, não a inocentava completamente, de modo algum. Pois nesse depoimento ela não apenas admite ter estado presente quando o ato foi cometido, como também não faz nenhuma afirmação de que ela própria tenha sido forçada ou que tenha ficado com medo, admitindo ter retornado voluntariamente à cena do crime duas vezes depois de a criança estar morta.
Por volta de 1 hora da tarde daquela quarta-feira, Norma estava brincando com May, disse ela, e por volta das 3 horas elas viram Brian
Howe brincando com o irmão dele, que havia lhe dado uma tesoura. “Nós duas fomos com Brian. May disse que íamos levá-lo... Passamos pelos trilhos. Peguei a tesoura de Brian na rua e a levei.”
Elas desceram para a margem do rio e passaram por duas cercas – “Eu subi primeiro, e May passou o garoto por cima”; caminharam ao longo dos blocos de concreto até que chegaram a um velho tanque. “Tinha um buraco num dos lados do tanque”, Norma disse. “May entrou primeiro. Eu levantei Brian para May, aí entrei. Cheirava mal, então nós saímos. May então disse:
‘Para os blocos, Norma’; e fomos para junto dos blocos. Aí May disse para Brian: ‘Levante a cabeça’”.
Foi nesse momento que alguns garotos apareceram e Lassie, a cadela de Brian Howe, que os seguira, começou a latir, e Mary disse:
“Vão embora ou vou soltar o cachorro em vocês.” Os garotos foram embora. May disse outra vez para Brian: “Levante a cabeça”. May colocou as duas mãos no pescoço dele e disse que tinha dois caroços que
ela tinha que apertar. Ela disse que queria fazer mal a ele. Ela o deitou
na grama e parecia que estava ficando esquisita, dava para ver que tinha algo errado com ela. May ficou lutando com ele, que também lutava,
tentando afastar as mãos dela. Ela o soltou e eu pude ouvi-lo tentando respirar. Ela apertou o pescoço dele de novo, e eu disse: “May, deixe o menino em paz”. Mas ela não deixou. E disse para mim: “Minhas mãos estão ficando inchadas, vem você agora”. Aí eu fugi correndo.
Norma voltou para Whitehouse Road, disse ela, onde brincou por cerca de vinte minutos até que Mary reapareceu e pediu que ela voltasse lá para baixo. “Esqueci de te dizer”, ela contou, “que quando fugi e deixei Brian e May, eu deixei a tesoura na grama. Demos a volta no estacionamento. Não levamos o cachorro dessa vez. Foi aí que tropecei na cabeça de Brian como te falei no outro depoimento. No caminho até lá embaixo, May achou a
lâmina”.
Isso não era verdade: a lâmina veio da casa de uma das garotas, embora, como uma acusasse a outra, nunca tenha ficado claro de qual casa ela veio. “Não te contei antes”, Norma acrescentou, “quando eu levantei a cabeça e os ombros de Brian e dei tapinhas nas costas dele, a mão dele caiu de um lado e eu o deitei de novo; senti o pulso dele, mas não estava subindo e descendo. May apertou a lâmina na barriga de Brian algumas vezes no mesmo lugar. Ela levantou o suéter dele e foi aí que ela fez aquilo. Não vi
sangue nenhum. Foi aí que ela escondeu a lâmina e disse: ‘Não conte a seu pai ou vou ficar de castigo’”.
Foi em decorrência desse depoimento de Norma, que não tinha como saber que não existe sangramento depois da morte, que o corpo da criança foi reexaminado e o legista descobriu na barriga dele o desenho apagado da letra N, ao qual uma quarta linha vertical havia sido acrescentada, em outra caligrafia, como achou o legista, mudando a letra para um “M”.
Norma disse que ela deixou a tesoura “no canto perto dos blocos ao lado
dos pés de Brian” e que as duas voltaram para casa. Por volta de 5 horas da tarde, ela viu Mary novamente depois do chá, e elas levaram o cachorro para o estacionamento “para ver o garoto de novo. May disse que iria deixá-lo careca”, Norma explicou, “e cortou uma mecha do cabelo dele na frente, colocou o tufo na grama, acima da cabeça dele. Ela apertou a tesoura na barriga dele algumas vezes, mas de leve”.
Foi nesse ponto que o homem gritou ao ver as garotas, e Mary, disse Norma, “não teve tempo de cortar mais o cabelo antes de sairmos correndo.
O cabelo que ela colocou na grama estava um pouco separado. Ela colocou a tesoura na grama em algum lugar perto dele, no lado onde estava a mão suja dele”. Então, elas subiram de volta para Whitehouse Road. “Vi May de novo por volta de 6h45 da noite quando fomos procurar Brian com Pat.”
Uma hora depois, o Sr. Dobson confrontou Norma com oito tesouras e perguntou se ela reconhecia a que Brian carregava na quarta-feira em que elas o levaram para os blocos. Ela imediatamente apanhou a correta, jogou-a na mesa e disse: “É esta”.
“Eu conversei com ela diversas vezes no dia seguinte, 6 de agosto”, ele me contou. “Fiz as mesmas perguntas, repetidamente. Ela não voltou atrás nem um pouquinho. Ou ela era uma mentirosa hábil, ou estava dizendo a verdade”.
O funeral de Brian Howe, na manhã de 7 de agosto, aconteceu em meio às investigações. “Era um dia brilhante e quente de verão. Havia montes de flores”, disse o detetive. “Tinha pelo menos duzentas pessoas lá. Um monte delas que não tinha nada a ver com a família Howe chorou. Foi muito
triste.”
Ele disse que Mary estava em pé perto da casa quando o caixão foi levado para fora. “Quando a vi lá, soube que não arriscaria perder outro dia. Ela estava lá em pé, rindo. Rindo e esfregando as mãos. Pensei: ‘Meu Deus, tenho que buscá-la, ela vai matar outro’.” Uma sargento da polícia foi mandada para pegar Mary às 4h30 da tarde.
“Ah, meu Deus”, disse Mary para mim quando eu li isso para ela trinta anos depois. “Isso soa tão terrível, tão duro, tão insensível.” Ela chorou. “É
verdade”, ela disse, “eu geralmente começo a rir quando estou nervosa, mesmo agora. Mas eu poderia não ter... Sabe... Ficado rindo do jeito que ele disse. Poderia?”
Mary estava muito apreensiva quando foi levada para o escritório do Sr. Dobson naquela tarde de 7 de agosto. “Ela estava pálida e tensa”, ele disse. “Me deu a impressão de que sabia que a hora da verdade tinha chegado.”
Ele perguntou primeiro sobre o vestido que ela usava em 31 de julho, e ela disse que era o cinza numa parte do dia, mas que mudou para o preto à tarde. E acrescentou: “Quero lhe dizer a verdade, mas vou ser castigada”.
O detetive questionou se ela dizia isso porque não era verdade que tinha
trocado de vestido. “Não”, ela disse. “Quero dizer sobre eu estar lá quando Brian morreu.”
Ela ditou seu depoimento assim que a freira enfermeira requisitada pelo detetive Dobson chegou do Hospital Geral de Newcastle, perto dali, para lhe servir de companhia.
Brian estava na rua, em frente à casa dele; eu e Norma estávamos andando na sua direção. Passamos por ele, e Norma disse: “Você está indo até a loja, Brian?”. E eu disse: “Norma, você não tem dinheiro, como você vai à loja. Onde você arrumou dinheiro?”. “Fique longe de encrencas”, ela disse. O pequeno Brian nos seguiu e Norma disse: “Vai andando na frente”. Eu queria que Brian fosse para casa, mas Norma ficou tossindo alto para Brian não nos ouvir. Descemos a Crosshill Road com Brian ainda à nossa frente. Tinha um garoto negro e Norma tentou
arrumar briga com ele. Ela disse: “Escurinho, vá se limpar, é hora de você ficar branco”. O irmão mais velho dele veio e bateu nela. “Vamos, punhos para cima!”, ela gritou. O cara se afastou e a olhou, como se ela fosse uma idiota. Passamos do lado da Dixon’s e subimos nos trilhos, quero dizer, passamos por um buraco e fomos para os trilhos. Aí eu disse: “Norma, onde você está indo?”; e Norma respondeu: “Sabe aquela piscininha onde tem girinos?”. Quando chegamos lá, tinha um tanque grande e comprido com um buraco grande e arredondado com
buraquinhos em volta dele. Norma disse para Brian: “Você vem para cá porque tem uma senhora vindo lá da casa do número 82 e ela tem caixas de doces e tudo mais”. Todos nós entramos. Aí Brian começou a chorar, e Norma perguntou se ele estava com dor de garganta. Ela começou a apertar o pescoço dele, e ele voltou a chorar. Ela disse: “Não é aqui que a senhora vem, é lá, nos blocos grandes”. Fomos lá para os blocos e Norma disse: “Eh, você vai ter que deitar”, e ele se deitou do lado dos blocos onde foi encontrado. Ela continuou: “Levante a cabeça”, e ele
levantou. Aí ela agarrou o pescoço dele e disse: “Abaixe”, começando a deslizar a mão pelo pescoço dele. Ela apertou firme, dava pra saber porque as pontas dos dedos dela estavam ficando brancas. Brian estava
lutando e eu estava puxando os ombros dela, mas ela ficou doida. Eu estava puxando o queixo dela, mas ela gritou comigo. Nessa hora, ela
tinha batido a cabeça de Brian em alguma ponta de madeira e ele perdeu os sentidos [a necropsia provaria que isso não era verdade]. O rosto dele estava todo branco e roxo e os olhos estavam abertos. Seus lábios estavam arroxeados e tinha saliva por cima, parecendo com borbulhas. Norma o cobriu, e eu disse: “Norma, não tenho nada a ver com isso, eu deveria te entregar, mas não vou fazer isso”. A pequena Lassie estava lá e ficou chorando, e ela disse: “Não comece ou faço o mesmo com você”. A cachorra continuou chorando e Norma foi para pegar o
pescoço dela, mas Lassie rosnou para ela. “Vamos, vamos, tenha calma”, ela disse.
Então, segundo Mary, elas voltaram para casa e levaram a cachorra de Brian com elas:
Norma estava agindo de um jeito meio engraçado, fazendo caretas e esticando os dedos. Ela disse: “este é o primeiro, mas não será o último”. Fiquei com medo nessa hora. Peguei Lassie no colo, coloquei-a nos trilhos e subimos para Crosswood Road. Norma foi para casa, pegou uma tesoura e a escondeu nas calças. Ela disse: “Vai pegar uma caneta”.
Eu falei: “Não, para quê?”. Ela respondeu: “Para escrever um bilhete na barriga dele”; mas eu não peguei a caneta. Ela tinha um barbeador com lâminas. Nós voltamos para os blocos e Norma cortou os cabelos dele. Ela tentou cortar a perna e a orelha dele com a lâmina. Tentou me mostrar que estava afiada, tirou uma parte do vestido dela que estava rasgada e cortou, fez um talho [exames dos vestidos, entretanto, refutariam essa declaração]. Um homem desceu por perto dos trilhos com uma garotinha de cabelo loiro comprido, ele usava uma camisa
xadrez vermelha e calça jeans. Eu me afastei. Norma escondeu a lâmina embaixo de um bloco grande e quadrado de concreto. Ela deixou a tesoura do lado dele. Saiu antes de mim pela grama em direção a Scotswood Road. Eu não conseguia correr na grama porque estava com meus chinelos pretos. Quando a alcancei, ela disse: “May, você não devia ter feito isso porque você vai estar encrencada”. E eu não tinha
feito nada, eu não tive coragem [isso era tão, tão absurdo que, quando ela repetiu isso mais tarde no julgamento, causou um burburinho de
risos nervosos no tribunal]. Eu não conseguia matar um passarinho pelo pescoço ou fazer qualquer coisa desse tipo, isso era horrível. Subimos a escada e fomos para casa. Eu estava quase chorando e disse: “Se Pat descobrir, ela vai te matar, não importa que você conseguiu matar Brian, pois Pat é durona. Ela está sempre subindo nos prédios velhos e tudo mais”. Depois eu estava ajudando a procurar Brian e tentava mostrar para Pat que sabia onde ele estava nos blocos, mas Norma disse: “Ele não vai estar lá, ele nunca vai lá”, convencendo Pat de que ele não
estava lá. Me gritaram às 7h30 para entrar e eu fiquei em casa. Acordei às 11h30 daquela noite e estávamos em pé, na porta de casa, quando Brian foi achado. No outro dia, Norma queria ser colocada num lar para delinquentes. Ela perguntou se eu fugiria com ela, e eu disse que não. Ela me disse que “se você for colocada num lar para delinquentes e ficar cuidando dos pequenos e os assassinar, então fuja de novo”.
O tribunal não percebeu, quando isso foi lido em voz alta mais tarde, que tal relato era uma clara referência aos Contos de Fadas dos Irmãos Grimm, páginas que a mãe de Mary, Betty, havia colocado no “livro” que ela carregava por todo lado e que a menina leu escondido.
“Você sabe que é errado apertar o pescoço de um garotinho?”, perguntou o detetive Dobson.
“Sim. É pior que Harry Roberts. Ele apenas roubava trens.”
Não era apenas o fato de ela ter misturado Harry Roberts, que matou três policiais em Londres, em 1966, e que se tornou uma figura lendária na Grã-Bretanha com o assalto ao trem pagador, em 1963, que deu aos criminosos (a maior parte dos quais foi capturada) muitos milhões de libras. O mais impressionante era que ambas as crianças pareciam não estar cientes da natureza ou da gravidade do crime: o caráter definitivo da morte. Norma, que tinha demonstrado sobretudo “euforia” antes e durante seu principal depoimento, estava mais preocupada com a lâmina e a tesoura, e sua
rejeição desesperada a esses itens ou ao que tinha sido feito com eles continuaria ao longo do julgamento. Mas no depoimento de Mary o assassinato e a morte da criança também quase não apareceram.
“Ela não sentiu nada”, a freira enfermeira que tinha ficado encarregada de acompanhar sua declaração me disse mais tarde. “Nunca vi nada assim.
Ela disse todas aquelas coisas horríveis que tinha feito, mas não sentiu nada. Eu a achei uma criança muito inteligente. Mas ela sequer parecia uma criança. Tenho um menino de 11 anos, mas ele não conseguiria usar as palavras como ela usava. Naquela noite inteira repeti para mim mesma o que eu ouvi. E ainda assim não conseguia acreditar...”
Tanto Mary quanto Norma foram acusadas na noite de 7 de agosto pelo assassinato de Brian Howe. Mary respondeu: “Tudo bem por mim”. E Norma disse: “De jeito nenhum. Vou descontar isso em você”, e chorou.