Por que Crianças Matam
Introdução
Amaioria de vocês que estejam virando esta página pela primeira vez não
deve saber o que aconteceu na cidade de Newcastle upon Tyne na primavera de 1968. Vocês podem ter esquecido; talvez fossem jovens demais ou nem tivessem nascido. É possível, ainda, que morassem em
outros países, os quais estavam em meio aos seus próprios problemas no final dos anos 1960.
Rapidamente, então: em um período de nove semanas, dois garotinhos, de 3 e 4 anos, foram encontrados mortos. Alguns meses depois, em 1968, duas crianças, ambas meninas, foram a julgamento pelos assassinatos. Norma Bell, de 13 anos, foi absolvida; Mary Bell (elas não são parentes) foi declarada culpada e condenada à prisão perpétua. O caso gerou um alvoroço, o julgamento foi amplamente publicizado, e Mary Bell foi
demonizada pelo país inteiro como a “semente ruim”, inerentemente má.
Escrevi outro livro sobre a tragédia que aconteceu em Newcastle3 naquele ano. Em The Case of Mary Bell [O caso de Mary Bell], publicado pela primeira vez em 1972, descrevi os principais fatos daquela história baseando-me na investigação da polícia e nos registros das sessões em que
compareci do chamado Tribunal Itinerante4 de Newcastle ao longo de nove dias. Nesse livro, eu também relatei tudo o que pude descobrir nos dois anos seguintes a partir de depoimentos da família, de amigos e de
professores sobre a menina de 11 anos que foi declarada culpada naquele julgamento e sentenciada à prisão perpétua.
Mais de trinta anos depois, esse livro ainda pode ser encontrado em livrarias tanto na Grã-Bretanha quanto em outros países europeus, e está disponível em bibliotecas públicas e universitárias. Para os propósitos deste livro, The Case of Mary Bell ainda constitui uma importante fonte de documentação desse caso e, para este novo trabalho, tomei emprestadas do livro anterior algumas descrições e depoimentos originais indispensáveis
para a história. Meu relato ali já refletia fortemente minhas dúvidas sobre um sistema judiciário que expunha crianças pequenas aos desconcertantes processos dos tribunais, planejados para o julgamento de pessoas adultas, e
que considerava irrelevantes sua infância e as razões para terem cometido o crime que cometeram. Mas aquele relato também assinalava de maneira clara minha suspeita de que havia elementos da história de Mary Bell que me eram desconhecidos ou que me tinham sido ocultados. No prefácio da
nova edição de The Case of Mary Bell, publicada pela Editora Pimlico,5 em 1995, manifestei a esperança de que um dia Mary Bell e eu pudéssemos conversar. Ao descobrir não a partir de outras pessoas, mas a partir dela mesma o que aconteceu em sua infância, assim como o que foi feito com
sua infância, eu sentia que poderíamos dar um passo no sentido de quais pressões internas ou externas podem levar crianças a ultrapassar um determinado ponto de ruptura para acabar cometendo crimes graves e assassinatos. Além disso, ao conversar com Mary sobre seus doze anos de detenção e sobre sua vida desde que foi libertada, poderíamos descobrir qual é o efeito do encarceramento sobre crianças à medida que elas se tornam adultas e de que forma a maneira como a sociedade lida com elas as prepara para o futuro.
Assim, esperei por dezoito anos para escrever o livro que agora lhes apresento, no qual fala conosco Mary Bell, uma criança excepcionalmente inteligente aos 11 anos, libertada do cárcere, em 1980, aos 23 e agora com 40 anos. Ela nos conta o que fez e o que sentiu, o que fizeram a ela e por ela, e em quem ela se transformou. Ela descreve os meses que antecederam as duas mortes, sua amizade com a vizinha e também acusada Norma Bell, e a vida de fantasia das duas, que resultaria na trágica morte de duas crianças que mal haviam aprendido a andar. Ela relembra as vozes de todos
os homens diplomados que participaram de seu julgamento, os quais falavam de uma maneira incompreensível, o que para ela pareceu durar anos; e revive sua horripilante certeza de que eles a mandariam para a forca.
Ela nos conduz por seus doze anos de encarceramento, tendo passado os primeiros cinco (dos 11 aos 16 anos) em uma unidade de segurança na qual não tinha qualquer assistência psiquiátrica, mas onde encontrou no diretor, um ex-oficial da Marinha, o primeiro adulto decente a quem ela podia respeitar e amar. Observe-se de passagem que, durante a maior parte desse tempo, ela foi a única menina em um grupo de mais ou menos vinte garotos. Aos 16 anos, todavia, a despeito dos apelos de seu tutor, fez-se
valer a regra de que jovens condenados, ao completar essa idade, devem cumprir sua pena na prisão. Dessa forma ela foi afastada da segurança afetiva e de uma estrutura educacional à qual estava reagindo bem e mandada para uma prisão feminina de segurança máxima. Recusando-se, por sete anos, a se submeter ao sistema carcerário, rebelando-se e utilizando sexo para manipular o ambiente que a cercava, ela perdeu praticamente tudo o que conquistara nos cinco anos anteriores. Como a maioria dos adolescentes mandados para instituições penais destinadas a adultos, ao ser
colocada em liberdade condicional, ela emergiu como uma adulta caótica de 23 anos de idade, emocional e sexualmente confusa.
Mary Bell fala sobre os anos que se passaram desde que saiu da prisão, quando voltou a ficar sob a influência da mãe, a quem sempre esteve ligada por laços de amor e ódio. Em 1984, ela tem uma filha e, com a ajuda de sua
agente de condicional, Patricia Royston,6 passa a lutar pelo direito de ficar com a guarda da criança. Pela primeira vez na vida, ela sente um amor absoluto e, por meio daquela criança, consegue dar um propósito e uma
direção à vida. Mas com seu amor pela filha vem também a terrível compreensão do que ela fez, e essa nova e dolorosa consciência apenas contribui para intensificar sua confusão interior.
Finalmente, volto ao início de sua infância, que, à medida que conversávamos, começava a emergir lentamente de sua mente, que havia bloqueado essas memórias por tanto tempo. Nessa parte do livro, ela fala com dolorosa dificuldade do abuso sexual ao qual foi submetida quando criança – testemunhados e dirigidos por sua mãe. Hesitantemente, ela
vasculha a memória durante meses em busca do que aconteceu em sua vida no período que vai dos 8 anos de idade até a véspera do dia em que completou 11 anos, quando matou Martin Brown. Ela acaba por falar, de forma indecisa e desesperada, sobre aqueles quinze minutos do dia 25 de maio de 1968, ao fim dos quais a criança de 4 anos de idade estava morta, bem como sobre as nove semanas seguintes, que culminariam na morte de uma criança de 3 anos de idade, Brian Howe. Escrevo sobre esses atos apenas na extensão em que eles me parecem necessários.
Há diferentes formas de escrever sobre os acontecimentos. É possível relatá-los, descrevê-los, citar as testemunhas, as vítimas e, às vezes, os
heróis. E mesmo que, pelo fato de sermos humanos, não possamos nunca esperar sermos inteiramente objetivos, devemos fazer tudo isso com uma grande dose de imparcialidade. Em um outro nível da narrativa, devemos também comentar esses eventos, avaliar sua importância e, se pudermos, colocá-los no contexto da vida que vivemos, das regras e dos princípios que, por nossa escolha, governam nossa existência.
Sob todos esses ângulos, este livro foi extraordinariamente difícil de ser escrito. Uma coisa é escrever, como fiz em outros livros, sobre homens e
mulheres que, parcialmente como consequência de uma infância infeliz, tornaram-se adultos delinquentes. É uma coisa inteiramente diferente escrever sobre uma pessoa que cometeu quando criança não só uma, mas duas vezes a pior das maldades, e que contra todas as expectativas e sem a ajuda de recursos hoje muito difundidos – como terapias pós-trauma e tratamento psiquiátrico – parece ter se tornado uma adulta moralmente consciente.
Ao longo de toda esta jornada, a grande dificuldade foi acreditar nisso
tudo. Isso exigiu de minha parte rever e renovar continuamente um gesto de fé quanto à possibilidade da transformação, isto é, quanto à integridade de um adulto que eu sabia que havia sido, em determinado momento, uma criança patologicamente perturbada e, depois, uma adolescente assustadoramente manipuladora. Por diversas vezes, fui tentada a olhar para ela como se fosse duas pessoas: a criança e a adulta. E isso, obviamente, não é verdade: ela é uma pessoa só, tal como todos nós, desde o momento em que nascemos até o momento em que morremos.
Quando enfim me dei conta de que não podia ceder àquela tentação, tive que aceitar o fato de que o mistério inicia-se com a questão de saber o que, consciente ou inconscientemente, pode ser instilado em uma criança por outro ser humano para acabar produzindo ações inteiramente incompatíveis com a bondade intrínseca que o ser humano tem ao nascer. São apenas os pais que podem afetar uma criança dessa forma, ou isso pode ser causado pelo comportamento de outros adultos próximos à vida dela? Uma criança, por exemplo, reagiria de maneira igualmente forte se fosse emocionalmente manipulada ou abusada por adultos encarregados de sua supervisão em orfanatos ou casas de acolhimento? E podemos ainda perguntar: é possível
que crianças causem um colapso moral como esse umas nas outras?
Trata-se de uma pergunta que surge não apenas sobre este caso e sobre o caso em Liverpool dos dois garotos de 10 anos que mataram um outro menino, James Bulger, em 1993. Ela também pode ser feita sobre o que ocorreu em março de 1998, em Jonesboro, Arkansas, no momento em que eu terminava este livro, quando dois garotos, com idades respectivas de 11 e 13 anos, cometeram um massacre no pátio de sua escola, matando quatro meninas e uma professora.
O segundo mistério, no caso de Mary, é como uma criança pode reagir de uma forma inteiramente impensável para aquele mesmo ser humano quando adulto. E, portanto, surge a pergunta: o que, na mente humana, no seu espírito, no seu coração, destrói ou paralisa a moralidade e a bondade num primeiro momento e pode mais tarde recriá-las ou reinstalá-las? São questões amplas demais para serem respondidas pelo exame da vida de apenas uma criança. Respondê-las, entretanto, foi e continua sendo minha esperança.
Assim, o livro que apresento a vocês precisa ser lido com todos esses pontos em mente. Durante os dois anos em que trabalhei nele, não houve nem um dia em que as famílias dos dois garotinhos – que agora teriam 34 e 35 anos de idade – não estivessem em meu pensamento. E não houve tampouco um único dia em que não me perguntei se escrever este livro era o certo: para aqueles que o publicariam; para aqueles que o leriam; para Mary Bell, cuja vida, de forma difícil e dolorosa para ela, tentei captar; para as famílias das crianças que ela matou; e para sua própria família, sobretudo
para a sua filha, que é, agora, sua vida.
Não cometo nenhuma indiscrição quando menciono sua filha, pois a mídia, tanto a britânica quanto a estrangeira, que durante anos perseguiu Mary Bell com uma obsessão proporcional ao esforço de Mary para evitá-la, sempre soube de sua existência. Foi para proteger o interesse da criança que ela foi colocada sob a guarda do tribunal quase na hora em que nasceu. Ninguém – inclusive eu, obviamente – pode identificá-la ou escrever qualquer coisa que leve a sua identificação.
Assim, essa criança, a quem Mary ama com cada fibra de seu ser e a quem ela está determinada a dar uma infância feliz, não aparece no livro.
Ainda assim, ela é essencialmente sua razão de ser. Espero que o livro mostre o porquê disso.
É muito raro que uma escritora possa guardar uma história por mais da metade de sua vida, e ainda mais raro é que tenha, após trinta anos, a oportunidade de aplicá-la a um propósito maior. Pode parecer à primeira vista que a história em si, como uma crítica à natureza anacrônica do sistema jurídico britânico da segunda metade do século XX, é o propósito do livro. Mas, mesmo que o lamentável fracasso de sucessivos governos
britânicos em reformar o sistema judiciário no que tange a crianças seja motivo de uma profunda preocupação para muitos de nós, e mesmo que a história de Mary Bell, com seus diversos elementos trágicos, possa realmente justificar um livro, meu propósito é mais abrangente.
O meu propósito – e não hesito em dizer isso – é o de usar Mary e sua história. Os insights que conseguimos a partir das recordações de sua infância, de seu julgamento e de sua punição precisam ser usados como contribuição em favor de reformas jurídicas que são tão necessárias na Grã-
Bretanha quanto em grande parte da Europa e na maior parte dos Estados Unidos, onde a crescente criminalidade infantil está levando a medidas punitivas cada vez mais rigorosas. Mas ela também deve nos levar a examinar com muito cuidado a natureza da comunicação que mantemos com nossas crianças, tanto no interior da família quanto na sociedade como um todo. Sinto que reside aí a resposta à pergunta do título deste livro, a explicação para as milhares de crianças desconhecidas que estão em prisões na Europa e nos Estados Unidos por crimes cometidos não em razão
daquilo que elas são, mas daquilo que foram levadas a ser por não serem ouvidas quando, em sua infância, elas gritaram por socorro.