Por que Crianças Matam
Rebeldia: Styal, Moor Court, Risley, 1977 a 1978
Rebeldia
Styal, Moor Court, Risley, 1977 a 1978
Q uando Mary tomou providências para que eu visitasse Chammy e os G., disse que eu podia falar qualquer coisa a eles; ela confiava neles. Também mandou um bilhete para os G. e outro para Chammy, dizendo que podiam me contar qualquer coisa e mostrar cartas ou poemas que tivessem dela.
Com o maravilhoso Chammy, conversei principalmente sobre Styal e sobre como um sistema ideal, capaz de reconhecer a diferença entre uma criança gravemente perturbada e uma personalidade “má” ou “criminosa”, teria lidado com uma criança como Mary. Na primeira vez que conversei com ele, por telefone, ele me corrigiu – bem acertadamente – quando falei
que Mary estava apenas começando a confrontar a realidade de ter assassinado duas crianças.
“Assassinado não”, ele disse. “Ela matou. E é terrível que essa criança de 11 anos tenha matado, mas, para qualquer um que trabalhe com May, é absolutamente essencial ter em mente a diferença entre esses dois termos.”
No caso de uma criança como Mary, segundo ele, “a primeira coisa que deveria ter sido feita era encontrar alguém que pudesse estabelecer uma relação de confiança com ela, em vez do encarceramento punitivo. Sim,
seria uma tarefa incrivelmente difícil, por isso todos aqueles psiquiatras com quem você conversou durante e após o julgamento disseram que não teriam sido capazes de assumir essa responsabilidade. Ela demandaria um compromisso enorme. Porque é claro que a resposta para os terríveis problemas dela era – talvez ainda seja – sua mãe. Então, você vê que tipo de coisa um terapeuta teria que pedir para ela fazer, uma criança de apenas 11 anos? Teria que pedir para ela trair a mãe, o laço mais profundo que existe. Claro que a mãe havia rompido esse laço, quase desde o nascimento da
criança, mas, como você está descobrindo, isso é precisamente o que May tem escondido de si mesma por – quanto tempo faz agora? – mais de trinta anos para ser uma pessoa funcional. E qualquer um que trate de tal criança teria que ajudá-la a abandonar esse esconderijo.
“Quando eu estava começando a análise – que significava ir retirando camadas –, seguia o método a rigor. É verdade que é diferente agora, e muitos dos novos métodos terapêuticos funcionam”. Mas o tratamento de crianças gravemente perturbadas, na opinião dele, permite poucos atalhos: “A máxima ‘é de menino que se torce o pepino’ ainda se aplica. Mas é verdade que isso demanda muita energia, muita fé e, para que seja feito adequadamente, muitos recursos – e como podemos ver do que foi feito com May no bem-intencionado Red Bank, não há razão para não fazer de
forma adequada. Não tenho como dizer o quanto eu te apoio em seus esforços para que esse livro cause mudanças no sistema, tanto em relação à maneira como crianças que cometem crimes devem ser julgadas quanto a como lidar com elas posteriormente”.
Infelizmente, afirmou Chammy, as autoridades estão apenas começando a compreender – muito lentamente – que, a longo prazo, o custo-benefício de descobrir o que deu errado com a vida de uma criança e consertar isso antes que ela se torne um adulto antissocial é muito maior.
“Toda a experiência da vida de May prova a necessidade gritante de crianças com problemas receberem terapia, sim, mas mais do que isso: de que os adultos responsáveis estejam dispostos a acreditar nelas, dispostos a acreditar...”. Ele parou, procurando sinais de ceticismo no meu rosto quando percebi a sua mão repousando sobre a Bíblia, como se por acaso. “Não se preocupe”, ele disse, rindo. “Não vou dar sermão. Dispostos a acreditar”, disse então, “na capacidade do indivíduo humano, por mais jovem que seja, de superar adversidades impossíveis. Dispostos a acreditar na bondade
intrínseca à criança”.
Passei muitas horas enriquecedoras com Carole e Ben G., que devotaram sua vida profissional a ajudar crianças como Mary, mas fiquei surpresa ao descobrir que já fazia quatorze anos desde que eles haviam tido contato com ela.
“Quando ela nos telefonou agora”, Carole disse, ainda parecendo surpresa, “foi bem do nada”.
“Como posso explicar?”, Ben disse. “À primeira vista, parece muito errado não ter mantido contato com ela.” Ao longo de sua carreira,
provavelmente houve até agora cerca de quinhentas crianças com problemas semelhantes – juntando as dele e as de Carole, próximo de mil. “Tudo que podemos fazer”, ele disse, “é dar o melhor de nós enquanto estamos com elas e acreditar, contra todas as probabilidades, que independentemente do caminho que seguirem elas vão continuar se beneficiando do nosso trabalho”.
“Você está nos apresentando uma questão moral sobre a qual refletimos juntos inúmeras vezes”, a esposa disse. “Mas temos que considerar nossa
autopreservação, nosso lar, nossa filha, tudo que é de importância vital para nós.”
“Pode soar como uma desculpa”, Ben disse, “mas na verdade é por isso que saímos do trabalho residencial com essas crianças: a intensidade desse trabalho se tornou impossível caso quiséssemos ter nossa própria vida, ter uma família. Para manter nossa sanidade, temos que aprender a desligar, a virar a chave, a nos afastarmos e dizer ‘certo, este sou eu, estes somos nós, é nossa vida também’”.
“Mas aquela carta de May consegue fazer chorar”, Carole disse. “Ela é muito reveladora, não é? Você quase consegue ouvi-la pensando sobre a necessidade de ficar sozinha e, ainda assim, não estar sozinha; sobre aquela garota bonita, Alicia; sobre como sentir amor a está tornando mais branda... E talvez como consequência disso, e por causa do seu primeiro contato com um psiquiatra de verdade, um que obviamente continuou humano, ela confrontou pela primeira vez a enormidade do seu crime.”
O que Carole quis dizer por psiquiatra “de verdade” – ao contrário de
todos aqueles perfeitamente verdadeiros cuja tarefa era avaliar Mary em prol do Ministério do Interior – é um psiquiatra que, como Chammy, trata das pessoas, mesmo em terapia de grupo.
Contei a eles que Mary, com sua voz lúcida de Red Bank, falou-me sobre Alicia e a curiosa moralidade que aplicava ao seu relacionamento com ela: que a havia amado tanto que deitavam na mesma cama às vezes e se aconchegavam: “Nós nos abraçávamos”, ela disse, mas não fizeram sexo. “Eu queria, mas não seria correto. Ela estava indo embora. Ia ter uma vida normal. Eu não podia ser... Eu tinha que não ser... Parte da vida dela, nem mesmo como uma recordação.”
Essa visão altruísta me pareceu uma espécie de vitória. Contudo, como falei com Carole e Ben, apesar da determinação de Mary em não se tornar institucionalizada em Styal, embora externamente parecesse ter alcançado esse objetivo, internamente – o que talvez era inevitável – ela sucumbiu ao pior aspecto da institucionalização.
“O que acontece em Styal”, Mary disse, “é que a cada doze meses, ou talvez dezoito – eu não sei direito mais –, eles revisam seu caso e você vai para o Comitê de Revisão Local, composto de membros importantes da
comunidade, como um magistrado, um juiz aposentado, um médico ou o que for. Antes de te receberem, eles olham os chamados relatórios de progresso semestral, feitos de contribuições de todos os funcionários da prisão – eles escrevem relatórios diários sobre cada uma de nós, dá para imaginar? Costumavam nos ameaçar com isso. E aí a diretora das diretoras do Ministério do Interior, a Sra. Perry, fazia perguntas idiotas, como se eu sabia o preço do pão – como diabos eu saberia o preço do pão? – [e] o que eu pretendia fazer. O que eu faria quando saísse? Completa idiotice, já que
eu não estava sendo treinada para fazer coisa alguma. Eu não tinha permissão para fazer cursos vocacionais e não tinha nenhuma esperança de estudar para nada que eu pudesse querer fazer, como ser veterinária, estudar biologia, química, psicologia, porque a lei diz – e eu sabia disso – que qualquer um em liberdade condicional não tem nem nunca vai ter permissão para trabalhar com gente. Então, qual era o propósito?”.
Perguntei se não era possível conversar com as pessoas no Comitê de Revisão. Ela não podia explicar seus interesses e pedir para estudar? Ela
certamente era articulada o bastante para isso.
Ela me disse pacientemente que eu não tinha entendido a parte de “qual o propósito?”. Se em Red Bank ela havia, sim, aprendido a ser “articulada”, em Styal ela tinha sido forçada a desaprender tudo.
“Red Bank me tirou do ambiente em que cresci e o substituiu por algo que acabei aceitando como sendo melhor. Mas Styal me colocou de volta naquele ambiente de palavras chulas. Não estou dizendo que é assim que todos em Newcastle ou Scotswood falavam, mas meu mundo falava, e o que se tornou meu mundo em Styal também – tudo reduzido a ‘foda-se isso’, ‘foda-se aquilo’. Seria preciso ser incrivelmente forte – muito mais
forte do que eu era – para se opor verbalmente, em vez de se entregar e retornar ao que tinha sido, afinal de contas, a linguagem familiar da infância. Ah, às vezes, uma ou outra amiga e eu decidíamos parar com todos esses xingamentos e de acrescentar um palavrão em toda frase, por exemplo, ‘a porra do hospital’... Quero dizer, dá para acreditar nisso?
“Mas era assim e [aqui, novamente, ela fez aquela rápida e estranha mudança de recordação para análise] a linguagem afeta o comportamento mais do que o contrário. Eu vejo isso nas pessoas que agora têm a idade que
eu tinha na época, em filmes, nas ruas – elas não falam como se comportam, mas sim se comportam do jeito que falam, um segue o outro. E o que eu acabei entendendo e aceitando em Styal foi que, por mais que eu pudesse me rebelar contra o sistema e por muito tempo tirar forças dessa revolta, eu não podia continuar sendo, ou talvez fingindo ser, uma pessoa socialmente diferente daquelas ao meu redor, que eram... Que tinham que se tornar minhas amigas.”
O fato de Red Bank aceitar Mary como um indivíduo e de ela ter adotado
a “diferença” em comportamentos sociais como um modo de vida apropriado e mais feliz lhe deu um senso de autovalorização pela primeira vez. Sua remoção forçada desse novo estilo de vida e a reinserção nesse mundo que ela havia aprendido a rejeitar levou Mary em uma trajetória saindo do que ela chamou de “revolta honesta” rumo à resistência “vigarista” e, por fim, à exaurida falta de propósito do detento institucionalizado – preparando o terreno, como veremos, à maior das explorações prisionais.
Ela sabia perfeitamente bem – assim pensava – que não haveria esperança alguma de liberdade condicional durante anos. “Então todos esses comitês de revisão não eram nada exceto oportunidades para a comissão de diretores se sentir importante”, ela disse, “e eu estava de saco cheio daquilo. Por isso, decidi que não ia mais a nenhum dos comitês. Styal seria minha vida e eu não queria a maldita libertação. Por quê?”, ela repetiu minha pergunta. “É como se eu te perguntasse por que você não quer viver em Marte.”
E ela me contou sobre o dia em “1977 ou 1978, não tenho certeza, mas sei que ainda tinha 20 anos”, quando ela estava pintando e chamaram-na
para comparecer ao comitê, mas ela disse que não iria de jeito nenhum. “A Srta. Kendall chegou e eu disse ‘não, não, não. Não vou comer cenoura nenhuma. Não sou um jumento’. Ela me pegou pela orelha e me arrastou para a audiência de liberdade condicional, coberta de tinta como eu estava. ‘Se você acha que vou passar o resto do meu trabalho aqui com você, está muito enganada’, ela falou. ‘Entre já’, e abriu a porta, me empurrando para a sala com tinta e tudo.”
O sistema, como vimos, está preocupado em um primeiro momento em
proteger a sociedade, ao mesmo tempo em que trata os detentos com humanidade. Inevitavelmente, porém, dado o número de detentos envolvidos, a capacidade do sistema de se adaptar às suas personalidades individualmente é limitada. Em meados de 1978, dez anos depois de Mary ter sido condenada por seus crimes, as autoridades se deram conta de que era preciso dar um primeiro passo no sentido de sua libertação. O que eles não sabiam (e, como podemos ver agora, não poderiam saber) era que a aparente aceitação da disciplina por parte da garota apenas cobria
superficialmente sua frustração intelectual – que eles reconheceram e, bastante ingenuamente, esperavam aliviar transferindo-a da noite para o dia para um ambiente mais estimulante e exigente –, além de camuflar sua profunda confusão emocional e seu ressentimento.
Dois dias após sua aparição suja de tinta perante o Comitê de Revisão Local, a diretora chamou Mary e lhe disse que ela seria transferida para Moor Court, em Staffordshire, no dia seguinte. O motivo de não alertar Mary quanto a quaisquer mudanças antecipadamente era porque as
autoridades sabiam das costumeiras indiscrições de sua mãe junto à imprensa.
“A Srta. Fowler”, Mary disse, “que também estava lá, me disse que era um grande passo à frente”.
“Ah, sim, eu sabia que era uma prisão aberta”, ela disse. “A gente sabe todas essas coisas. Eu sei te contar sobre todas as prisões do país. Eu falei com a Srta. Fowler que não queria ir. Se eles tivessem dito Holloway ou Durham, eu ficaria muito feliz. Mas eu nem sabia a data estimada para a minha libertação e ainda não tinha 21 anos, por isso sabia que não ia conseguir. Então eu não queria estar em uma prisão aberta. Não era um
‘passo à frente’, como ela disse. Era crueldade pura. Eu sentia que Styal era minha vida, meu estilo de vida, e ser mandada para uma prisão aberta era como ser mandada para a prisão, porque você está mais na prisão quando ela é aberta.”
Perguntei se ela queria dizer que tinha medo de Moor Court porque era aberta.
“Não era questão de estar com medo”, ela respondeu depressa; Mary não permitia nunca que pensassem que ela tivesse medo de coisa alguma. “Era
um processo desnecessário porque, de qualquer jeito, eu não queria ser solta; a pressão para fugir seria grande demais. De qualquer jeito”, ela mudou a direção da conversa, “eu não queria deixar Diane. Bom, tanto faz... Claro que eu tinha que ir. Não me lembro da data, mas sei que ainda comemorei meu aniversário em Styal: lembro porque Diane preparou um bolo para mim e muitas garotas me deram presentes. Antes de eu ir embora, Diane e eu escrevemos juntas um apelo à Sra. Perry, da diretoria, pedindo permissão para trocarmos correspondência. Achamos que eles não iam dar
permissão, mas deram”.
Mary chegou a Moor Court em junho de 1977. “Uma mansão do século XVII”, ela disse. “Ridícula para uma prisão.” Mas ela descobriu que conhecia muitas das garotas lá e todas pareciam saber sobre ela – principalmente sobre sua posição de butch. Ao contrário do que aconteceu em Styal, porém, esse aspecto de sua “identidade” parece ter sido evitado em vez de bem recebido.
“Era um mundo diferente”, Mary explica. “Tinha mais detentas de curto
prazo que de prisão perpétua, e o que todas queriam era seus namorados, seus homens.”
Em Moor Court, ela disse, as detentas em prisão perpétua e as de curto prazo não eram separadas. “Foi a primeira vez que estive com pessoas de 19 anos que conversavam sobre boates, namorados, como se vestir e como sair à noite, ficar bêbada, dar risada – você sabe, luzes estroboscópicas e todo tipo de coisa que eu nunca tinha visto.”
A prisão, localizada em um vale no meio das montanhas de Staffordshire, era muito bonita, bonita demais para o seu propósito. “Era
uma bela construção com escadas em espiral e uma vista adorável para os campos e as árvores. Tinha dormitórios muito confortáveis, por volta de cem camas, quatro em cada quarto, com cortinas de chita, boa mobília, salas de estar com cadeiras de braço, uma sala de jantar onde lindas mesas de madeira eram postas para as refeições e a comida era preparada pelas cozinheiras. Era um desperdício ser uma prisão”, Mary disse.
“Pense sobre o mundo para o qual a maioria das pessoas de lá vai voltar: apartamentos em andares bem altos, casas geminadas. É uma vergonha usar
lugares bonitos assim para pessoas que pegam pesado. Prisão é prisão – não estou dizendo isso num sentido punitivista, mas não se deveriam estabelecer ideais que não são realistas. Red Bank era bastante agradável, com paredes coloridas e tudo o mais, mas mesmo assim era institucional. Por ser para garotos de até 18 anos, tinha um tanque de peixes, mas não era para parecer um lar artificial nem aconchegante, e eu acho que isso é certo. Styal era um horror, e isso também é certo. Mas Moor Court, você teria que ser milionário para viver num lugar como aquele: isso estabelece padrões nada
realistas, deixa as pessoas com um sentimento de descontentamento, de que estão melhor na prisão do que fora dela.”
Perguntei se ela não achava que, se alguém fica num lugar assim por anos, isso não cria padrões de vida aos quais a pessoa pode aspirar, mesmo que em um nível menos extremo.
“Sim”, ela disse. “Mas o triste é que, a não ser que você tenha recursos internos para alcançar esses padrões, tudo que vejo e que via isso criar é pessoas muito infelizes.”
A Srta. Leichner era a diretora de Moor Court. “Não tinha nada de errado com ela”, disse Mary. “Era uma mulher simpática e eu gostava dela. No instante em que a conheci, e que falei que não queria ficar lá, queria ficar em Styal; que não queria ser solta e que fugiria. Era tudo que eu podia fazer, ser sincera com ela, avisar.”
Perguntei o que a Srta. Leichner disse.
“O que ela podia dizer? Disse que eu devia experimentar. Que, em Moor Court, ‘aberto’ significava aberto: que o fato de eu ser transferida para uma prisão aberta significava que meu caso seria revisto regularmente pela Comissão de Liberdade Condicional; ser solta era então uma possibilidade
real dentro de dois ou três anos. Ela disse que tudo dependia de mim: que eu estava vivendo em condições de detenção havia mais de dez anos e que agora tinha que descobrir se eu conseguia aguentar a pressão de ganhar um voto de confiança. Porque, ela disse de novo, ‘aberto aqui é aberto: você pode sair para caminhar, pode deitar na grama, pode ficar sozinha ou com outras pessoas. A única coisa que você não pode fazer é sair dos perímetros da prisão. O que estamos fazendo é pedir que você tome suas próprias decisões’. Ela perguntou se eu entendia isso.
“Balancei a cabeça afirmativamente, mas não entendia nada, exceto que eles estavam pedindo o impossível de mim, e que eu não queria aquilo. Não conseguiria. Como eu poderia de repente, sem qualquer, qualquer...”
Adaptação?
“Sim”, ela disse, parecendo agradecida. “Adaptação. Como eu poderia tomar minhas próprias decisões sem qualquer adaptação – e não apenas qualquer decisão, como ser obediente ou desobediente, que eu já tinha tomado centenas de vezes, mas a decisão de estar na prisão ou em liberdade
– se durante dez anos eu tinha passado cada noite da minha vida trancada?
“A Srta. Leichner disse enfim que era para eu fazer um curso de gerência de escritório, datilografia e tudo o mais, para me preparar para um emprego. Bem, eu já sabia datilografar sem olhar, desde Red Bank – o Sr. Dixon me colocou em um curso muito cedo.” Ela parecia estar com raiva: “Não é de se imaginar que eles saberiam disso? Eles não se importavam, entende: eles não sabiam nada sobre mim porque eles não se importavam comigo”.
Mas, com certeza, deveria haver algo que ela aceitaria aprender.
Perguntei se, novamente, não havia livros, nada para entreter sua mente.
“Eles tinham o que chamam de ‘livros inspiracionais’; eu estava tão desesperada que li alguns desses. Lembro que tinha um chamado Da prisão para o louvor. Depois de algumas semanas disso eu pensei que, se esse cara consegue, então também consigo. E aí fui para a capela – eles tinham uma boa capela – e me atirei no chão dizendo: ‘Por favor, me deixe sentir alguma coisa’.”
E não sentiu?
“Nada”, ela disse. “Só me senti inútil, morta, como se um ônibus de dois andares pudesse atravessar minha barriga. Tudo que eu queria era sentir,
apenas sentir... Talvez fossem os comprimidos.”
Em Moor Court, quase todo mundo fazia uso de medicamentos, Mary me contou. Embora em Styal ela própria e os médicos tivessem conseguido mantê-la livre de drogas, em Moor Court Mary se entregou a elas.
“Não demorou, acho que algumas semanas, até que eu fosse chamada pela Srta. Leichner. Ela me disse que a Comissão de Liberdade Condicional havia revisto meu caso e que, naquele ponto, haviam se recusado a me dar uma previsão da data de libertação. Ela disse que era normal, que isso
sempre acontecia, mas eu achei muito anormal. As pessoas iam embora todo dia, e detentas de prisão perpétua no meio delas que... Ah, eu não estava fazendo julgamento ou comparações, mas elas já eram crescidas quando fizeram o que fizeram: eu era uma criança.
“A Srta. Leichner disse que meu comportamento tinha que melhorar. Eu precisava terminar meu curso de datilografia, e aí iriam rever meu caso. Mas para mim era uma espécie de encerramento: tudo era inútil; eu estava preparada para nunca ser solta. Se eu fosse solta algum dia, o que eu ia
fazer? Onde iria me encaixar? Não conseguia me ver com pessoas normais. Eu sentia que não conseguia mais me conectar com as pessoas que tinham vidas comuns, como a filha do Sr. P. em Red Bank, de quem eu tinha ficado amiga. Me lembro de pensar sobre o que eu diria para ela, mesmo se me pedisse uma coisa boba como fazer maquiagem ou sair para fazer compras ou almoçar em um restaurante... O que eu faria?
“Foi depois disso que me deram o primeiro medicamento: Clometiazol, um sedativo; eles dão isso para alcoólatras, viciados em drogas. Eu sabia
que era mera questão de tempo antes de eu fugir. Sabia qual seria a publicidade, a repercussão se eu fugisse, então pedi para tomar essa droga – eu queria ficar chapada. Falei com o médico ‘eu sou uma detenta de prisão perpétua, fui transferida, odeio isso e vou fugir’. Aí ele disse ‘você vai tomar meio litro de leite por dia e vou te dar algo que vai te ajudar a dormir e se acalmar’. Tomei e aquilo me derrubou. Fui para longe dali e fiquei com uma fome louca, aí eu lembro que estava sentada em frente à máquina de escrever, ouvindo música quando era para eu estar ouvindo a voz de alguém, e lá estavam Jerry e Trudi me levando para dar umas voltas. Logo que sentei de novo, caí no sono. Acho que tomei aquilo por alguns dias.”
Eu iria me deparar com a mesma imprecisão vinte anos depois, quando tentei conversar com Mary sobre drogas. Não tenho quaisquer dúvidas de que lhe deram mais drogas na prisão do que ela quer admitir agora; não há dúvidas, também, de que é difícil romper esse condicionamento de detentos a analgésicos e tranquilizantes depois que eles são soltos.
Três meses depois de sua chegada em Moor Court, em setembro de 1977, Mary fez o que havia prometido à diretora que faria ao chegar. “Não foi muito difícil”, disse ela. “Nós só pulamos uma cerca e seguimos para
além dos campos.” Alguns dias antes Mary havia começado a conversar com uma garota que não conhecia. “O nome dela era Annette e era apenas uma detenta de curto prazo – uma jovem que havia feito uma bobagem e agora queria ir para casa. Ela disse que estava de saco cheio e eu disse que odiava aquilo e que ia fugir. E ela disse ‘não seja boba, não falta muito para você’. Mas eu disse que tinha que sair, e ela respondeu: ‘Ok, então vou com você’.”
Mary contou que, na época, ela provavelmente se via como uma grande
organizadora de fugas: foi atrás de algumas amigas e pediu uma coisa aqui, outra ali, uma calça jeans aqui, sapatos de plataforma ali. “Só para eu não ser vista com minhas coisas ‘lá fora’. Disse a elas que, se alguém perguntasse, eu tinha roubado aquilo. Todas elas me disseram para não ser burra, mas eu já tinha passado daquele ponto. Só um terremoto me deteria.”
Elas planejaram a fuga para domingo, quando o período de visitas começava às 1h30 da tarde, com muitas pessoas andando pelos pátios, e a contagem não aconteceria antes das 6 horas da noite.
“Chegamos em uma estrada bem depressa”, Mary disse. “Eu tinha um penteado afro com galhinhos pendurados no cabelo. Pegamos uma primeira carona e o cara me deu um mapa; claro que eu não sabia nada sobre ler mapas e estava lendo de cabeça para baixo. Ele virou do lado certo e disse: ‘Acho que vou deixar vocês no primeiro cruzamento’. Acho que ele era da região e sabia o que estávamos fazendo.”
O próximo motorista que parou e perguntou aonde elas queriam ir disse que não estava indo para lá. No fim, foram três rapazes que as levaram. “A polícia nunca soube que foram três”, Mary ainda sussurrava para falar. “O terceiro deve ter suspeitado de algo, porque ele mandou os outros pararem,
dizendo que estava fora. Eu disse ‘ok’, e nunca o mencionei quando me interrogaram – Annette também não o mencionou. Os outros dois, Clive e Keith, disseram que estavam indo para Blackpool, para a feira.”
As garotas haviam notado que os rapazes tinham muitas tatuagens e as conversas giravam em torno da prisão. Por fim, elas admitiram que estavam fugindo e Mary disse que estava cumprindo prisão perpétua. Pouco depois, contou-lhes quem ela era. “Clive disse: ‘Jesus, li um livro sobre você’, e meu coração afundou. Eu disse: ‘E aí, o que você vai fazer?’, mas ele
respondeu ‘nada’, e Annette me deu uma cotovelada e falou que eles queriam algo, mas eu nem prestei atenção – estávamos indo para a feira. Annette sussurrou de novo que eles não nos ajudariam a troco de nada e que estariam esperando algo em troca. Mas eu estava frenética, eufórica e depois, quando estava na montanha-russa, olhei para baixo e vi a feira espalhada lá embaixo e o mar lá longe e pensei: ‘Não estou nem aí. Se eu for assaltada agora, pelo menos pude viver isso’.”
Àquela altura eles tinham bebido um pouco. “Com exceção de
Babycham,23 foi a primeira bebida alcoólica que tomei, e fiquei bêbada como um gambá bem rápido. Não sei como conseguia ficar de pé. Fomos para uma boate e ficamos até muito tarde, e eu era a única pessoa dançando, ainda com os galhinhos no meu cabelo.
Perguntei se ela se sentiu atraída por Clive.
“Você está brincando”, ela disse. “Os caras nos levaram para uma pousada de frente para o mar. Eles ficaram em um quarto, Annette e eu no outro. Eu estar bêbada não é uma desculpa, isso é um fato. Ouça, não sou
puritana, nem hipócrita. Mas me entregaria assim? Sexo era a última coisa que passava pela minha cabeça, se é que passava alguma coisa. Sexo para mim... Bem, você sabe o que sexo era para mim: em Styal, com as pessoas com quem eu tinha mais intimidade, eu não fazia sexo. Tudo que lembro é que estava na cama e de repente Clive estava ali também. Eu levantei e tinha sangue nos lençóis. Não senti nada e não tinha sentido nada. Se era isso, não era muito. Eu estava completamente paralisada.”
Perguntei se ela não havia dito “não”.
Ela riu. “Provavelmente acabou antes que eu pudesse dizer não. As pessoas podem dizer que é bobagem, que é conveniente para mim dizer
agora que eu não lembro. Mas não. Não me lembro. A segunda noite – ficamos na casa da mãe dele, em Derby. Ela era muito simpática [Mary diria depois à polícia que nunca a vira, para proteger a mãe de Clive]. Ele veio de novo. Eu mandei ele cair fora, e ele caiu.”
Annette havia ido embora àquela altura e, no café da manhã do dia seguinte, Mary percebeu que sua fuga estava estampada nas primeiras páginas dos jornais.
“Eles tinham comprado para mim um grande chapéu de sol no dia
anterior e eu o puxei sobre o rosto. Os rapazes foram comprar outras roupas para mim e tinta para cabelo, e me levaram até a casa de uma amiga de Clive; pintei meu cabelo de ruivo no banheiro dela. Clive saiu dizendo que precisava ver alguém. Depois descobri que ele tinha saído para visitar uma assistente social que conhecia para perguntar o que fazer.”
O Sunday Times me pediu para investigar a fuga de Mary e, logo depois, conheci Clive, então com 31 anos. Também conheci a assistente social a quem ele recorreu em busca de aconselhamento. Ela o conhecia bem e falou
dele com gentileza. Não há dúvidas de que, no fim das contas, com as ofertas dos tabloides de quantias absurdas de dinheiro, ele sucumbiu à tentação e as aceitou e, assim – como sem dúvida parece a Mary –, ele a traiu, a vendeu exatamente como sua mãe vinha fazendo durante anos. Mas minha impressão era que ele era um rapaz muito vulnerável que estava fazendo um verdadeiro esforço para “se endireitar” quando conheceu Mary por acaso, e ela despertou algo nele – compaixão? amor? Não sei. Certamente o relacionamento era inadequado naquele momento, ou talvez
em qualquer momento. Embora Mary – muito envergonhada em relação ao que acontecera naqueles três dias ou à pessoa com quem tudo ocorrera – alegue agora que as cartas supostamente dela que ele vendeu aos jornais eram invenção, algumas frases e mesmo sentimentos atribuídos a ela parecem-me muito familiares.
Sobre a amiga de Clive, Mary comentou: “A mulher era simpática. Ela me deu café, conversamos e eu brinquei com sua filha, que tinha um macaco que dobrava os braços. Quando Clive voltou, disse que tinha uma balsa onde eu podia ficar, e eu falei que não, que estava indo para Londres. Ele disse que tudo bem, mas que podíamos sair para dar uma volta primeiro
e me levou para outra cafeteria, onde tinha barcos.
“Estávamos lá, no carro, e vi um policial passando de moto; ele virou a cabeça para olhar o carro e, sei lá, alguma coisa em mim clicou e eu disse ‘Bem, estou indo’. Clive respondeu: ‘Tudo bem, te dou uma carona até a estação, mas temos que comprar uma coisa no caminho’. Aí foi como em
Chumbo grosso,24 e Keith sussurrou para mim ‘ele te dedurou’. Um policial apareceu dizendo para abaixar o vidro do meu lado e disse: ‘Mary’.
“Eu disse: ‘Não sei o que...’, e antes que eu pudesse terminar a frase ele
tirou meus óculos escuros e me algemou. Eu disse: ‘Não sei do que você está falando, só tenho 17 anos’, e ele falou: ‘Tudo bem, vamos até a delegacia’.
“Lá eles acharam em mim marcas que provavam minha identidade. Estava tudo registrado. Eu disse: ‘Ah, Deus, o que vai acontecer comigo agora?’, e o policial explicou que tinham falado com eles, e havia sido anunciado na televisão também, que eu não era perigosa; que na verdade eles não tinham procurado por mim em todo o país, mas colocaram os
avisos habituais de fugitiva; e que só me encontraram porque alguém me entregou. Ainda assim eu só tinha esperança e rezava para que ninguém tivesse cometido qualquer tipo de crime que pudesse ser atribuído a mim.”
“Estávamos trabalhando em Wiltshire nessa época”, Carole G. disse, “e no domingo à noite ouvimos no noticiário das seis que Mary Bell havia fugido”.
“Ficamos horrorizados”, Ben disse.
“Não conseguíamos acreditar”, Carole continuou. “Não sabíamos nem
que ela tinha sido transferida. Tínhamos recebido um telefonema, algumas semanas ou alguns meses antes, em Dorset, onde estávamos na época, perguntando se estaríamos preparados para hospedar Mary, para que ficasse conosco. Não entendemos muito bem o que eles queriam dizer: em visitas, ou quando ela fosse solta, ou o quê? Mas nossa primeira reação foi simplesmente que não podíamos, sabe. Estávamos trabalhando, fazendo pesquisas, vivendo em campo [no terreno de uma escola].
“Mas então Ben e eu ficamos nos perguntando se não poderíamos de alguma maneira fazer aquilo dar certo. Então, queríamos telefonar,
conversar e descobrir mais. Mas é claro que não dá para telefonar e falar direto com quem você quer. Enquanto ainda estávamos pensando sobre o assunto aconteceu isso e, no início da noite, recebemos um telefonema da polícia do norte para dizer que May havia sido vista pegando carona em direção ao sul. Tinham achado nossas cartas com ela com nosso endereço, e queriam nos dizer que ela poderia estar vindo em nossa direção. Bem, ouvimos todos os noticiários e enfim fomos para a cama. Tínhamos um cachorro novo, um pastor alemão, e ele começou a latir de repente.”
Ben disse: “Carole ainda estava vestindo a camisola quando eu abri a porta e os policiais entraram e a seguraram. Nós perguntamos que diabos eles achavam que estavam fazendo e, por fim, descobrimos que eles pensaram que Carole fosse May. E quando eles perceberam que não era, começaram a revistar por todo lado. Ficaram tranquilos quando viram que não tinha nada lá; pediram desculpas e deram explicações”.
“A polícia de Derby foi muito simpática”, Mary disse. “Falei com eles que eu pretendia ir para Londres e arrumar um emprego, e que, depois de
um tempo, por volta de dois meses, eu iria telefonar para o Ministério do Interior ou para quem quer que fosse e dizer ‘Estou aqui. Só queria provar para vocês que eu conseguiria’.”
Perguntei se era verdade, se ela realmente havia planejado aquilo.
Ela riu. “Bem.. Na verdade, não. Eu só queria fazer festa, acho – ser normal. Mas aí, sentada nas celas da polícia com a imprensa cercando o prédio, pelo que me falaram, de repente me senti muito velha e muito cansada. Antes que a noite acabasse, eu estaria em outra cela em uma prisão
ou outra e lá não teria sorrisos, policiais compreensivos, só o furioso sistema que eu havia chutado na cara. E aí duas agentes prisionais de Moor Court chegaram e me disseram que agora eu tinha passado dos limites. Que levaria anos até eu sair da ala de alta segurança. ‘Garota boba’, disse uma delas, acho que com muita tristeza, e perguntou que diabos eu tinha feito ao fugir. E quando, não sei por que, contei o que havia acontecido, ela disse: ‘Jesus, espero que você não esteja grávida’. Isso me deixou enjoada. Eu nunca tinha pensado nisso. Aí me disseram que eu estava indo de volta para Risley, Grisly Risley como é conhecido, o mais pavoroso e notório centro de detenção na Inglaterra. Nunca pensei que acabaria lá.”
Foi enquanto eu trabalhava no artigo sobre a fuga de Mary para o Sunday Times que conversei com uma jovem – vou chamá-la de Joan – que havia cometido um delito de menor gravidade e cumpria uma pena curta em Moor Court quando Mary chegou lá. Joan tinha 20 anos quando nos conhecemos, uma garota linda com modos agradáveis que trazia consigo seu bebê de 1 ano. Havia sido libertada recentemente, mas não fora infeliz durante seus poucos meses em Moor Court.
“Era como um acampamento de férias”, ela disse. “Não era nada ruim. A
única coisa ruim, ruim mesmo, era se você tivesse um bebê, como eu tive, e fosse separada dele. Isso era terrível.”
Perguntei se ela achava que a prisão ensinara alguma lição. “Ah, sim”, ela respondeu com veemência. “Nunca mais.”
Haviam falado para as detentas que Mary estava para chegar?
“Sim, falaram”, ela disse.
Perguntei se ela sabia quem Mary era.
Joan riu. “Não, não antes de ela chegar. Eu só tinha 19 anos [dois anos
mais nova que Mary].”
Mas as outras detentas falavam sobre Mary, sobre o que ela havia feito?
“Ah, sim, falavam muito.” E havia muita expectativa quanto à possibilidade da chegada de Mary, ela contou. Perguntei se ela havia conhecido Mary logo que ela chegou. “Sim, logo em seguida. Ela era inteligente, uma garota muito inteligente. Costumava ir à biblioteca toda semana e pegar quatro ou cinco livros.”
Mas Joan não havia gostado de Mary. “Ela era diferente. Os funcionários
a tratavam como alguém diferente.” Falava bastante sobre a criança que matara, disse Joan, “mas dizia que tinha matado só um deles, não dois, como falavam. E que ele tinha 8 anos, só dois anos mais jovem que ela na época, e que estava brincando com ele em um playground, e o empurrou de cima de um banco ou algo assim...”. Joan disse que mantinha distância de Mary porque não queria ouvir sobre o assunto. Ele a deixava assustada.
Perguntei se Mary tinha amigas.
“Ela estava sempre dizendo que era muito sozinha, mas não precisava ser. Havia garotas simpáticas lá com quem dava para fazer amizade.” Então,
Joan acrescentou com repentina sabedoria: “Acho que ela queria ficar sozinha”.
“Ela estava sempre tomando remédio”, Joan disse. Não havia psiquiatras em Moor Court, somente um médico uma vez por semana, e Mary o visitava constantemente. “Ela tinha dores de cabeça e de estômago. Tomava Diazepam ou qualquer outro tranquilizante três vezes por dia. E ficava sempre dizendo que não iria ficar lá, que iria fugir; que iria mostrar a eles.”
Quando Mary chegou em Risley, eram duas da madrugada.
“Fiquei tranquila porque conhecia a policial da recepção, a Srta. Ogden, de Styal. ‘Ah, Deus, tinha que ser você, não tinha?’, ela disse e me mandou tirar a roupa. E depois de se certificarem de que eu não tinha piolho e de me supervisionar enquanto eu tomava banho, me colocaram na ‘caixa’. Era um cubículo estreito onde tinha uma tábua de madeira colocada a alguns metros do chão para sentar, mas eu não conseguia esticar os braços, nem para a frente nem para os lados. Acho que foi a única vez na vida que tive o que mais tarde eu entenderia como um ataque de pânico; tremi toda, o suor
escorrendo por todo o meu corpo. Mas, graças a Deus, a ‘caixa’ demorou apenas uma hora ou por volta disso, aí uma inspetora ou enfermeira, não lembro, me levou para a cela. Fiquei muito aliviada; só deitei no beliche e caí no sono.”
Depois de tudo isso, os três meses dela em Risley tornaram-se relativamente benéficos. “Eu conhecia a diretora-assistente de lá, a Srta. Harbottle; ela era boa praça. Me contou pela manhã que eu não teria nenhuma ‘associação’ [contato com outras detentas] antes de ser recebida
pelo Tribunal de Magistrados Visitantes, e que era para eu escrever uma declaração explicando meu comportamento. Fiz três tentativas; as duas primeiras voltaram para mim – a diretora disse que não estavam boas o bastante. A Srta. Harbottle disse que escrever apenas que estava a fim de fugir não ajudaria. ‘Você tem que fazer alguma coisa para ajudá-los a te entender’, ela disse. Aí eu escrevi a declaração que você viu...”
Essa declaração, que Mary escreveu em uma máquina datilográfica, descreve tanto os acontecimentos da fuga quanto seus motivos para ter fugido. Começa assim:
Desde que minha liberdade condicional foi rejeitada em julho-agosto de 1977 e não me deram nenhuma data de libertação, fiquei muito deprimida, pois vejo garotas chegando e saindo e me sinto isolada. Eu queria provar para as autoridades que estou estável e, se tiver a oportunidade, posso levar uma vida normal como qualquer um. O que aconteceu dez anos atrás, embora a verdade não tenha surgido por
completo no tribunal, é algo com que vou ter que conviver pelo resto da minha vida, e nenhuma quantidade de anos na prisão vai apagar isso da minha cabeça. Tirei uma vida, mas não do jeito selvagem que a imprensa fez parecer. Aos 10 anos de idade eu não compreendia o sentido da morte. O que aconteceu comigo poderia ter acontecido com qualquer outra criança da minha idade nas minhas circunstâncias [...] Na semana passada, por acaso, vi na recepção [em Moor Court] um cartão de Natal do meu pai que nunca recebi e também a notícia de que minha
avó [Bell] tinha morrido. Todas essas coisas começaram a se acumular e pensei que estava isolada e sem ter experiência nenhuma na vida. Nem mesmo sei sobre o que as outras garotas estão falando quando elas chegam, porque eu nunca estive em lugar nenhum nem fiz nada...
Ela então descreve sua fuga com Annette, o encontro delas com Keith e Clive, e sua subsequente prisão:
Eu [...] falei com a polícia que Clive e Keith não sabiam nada sobre o assunto. Não queria que eles ficassem encrencados por minha causa. Eles me mostraram que eu podia ser normal, me divertir e passar horas
agradáveis [e] me misturar com as pessoas como todo mundo faz. Fico triste por ter atrapalhado a vida deles porque só estavam tentando me ajudar. Sou grata aos dois. Estou pedindo agora que as circunstâncias e a situação do meu caso sejam revistas sob uma luz diferente, e que eu possa ter a chance de viver uma vida normal. Porque com esses três dias, soube que posso lidar com a vida lá fora e me sentir tranquila em relação às pessoas comuns. Só espero que a imprensa não comece a desenterrar o passado e tentar me fazer parecer uma pessoa terrível.
Talvez vocês não acreditem que eu mereça minha liberdade,
especialmente depois de ter fugido, mas não quero passar o resto da minha vida na prisão. Imploro por clemência e espero que vocês
consigam entender isso vendo do meu ponto de vista. Sinto por ter criado confusão, mas só queria ser livre. Me deem uma chance para isso.”