Quero fazer mestrado em História!
6. Escolhendo o Mestrado
NÃO TEM MUITO SEGREDO. A escolha de qual mestrado em História fazer depende basicamente: de suas pretensões profissionais, da região em que você mora e do seu projeto de pesquisa. Vamos pensar primeiramente em tipos de mestrado, isto é, se acadêmico ou profissional. Neste caso, a sua atuação profissional tende a ter um peso bem grande. Se você é professor ou professora de História no Ensino Básico, seu plano de carreira é na área de Educação e seu interesse é refletir academicamente sobre a prática docente, o mestrado profissional em ensino de História, o ProfHistória, me parece a melhor opção. Se você não é docente, mas o seu foco de pesquisa está voltado para sua atuação profissional que envolve a área de História, outro mestrado profissional da área pode ser a escolha certa para você. Mas isso não é uma regra fechada, claro! Não há nenhuma obrigatoriedade de seu projeto de pesquisa estar diretamente vinculado à sua atividade profissional atual. Você pode focar sua escolha no seu interesse de pesquisa.
Vamos pensar agora na diversidade dos mestrados acadêmicos. Se
você tem um projeto de pesquisa sobre a escravidão no século XVII, no Peru e no Brasil, talvez um mestrado em História Comparada seja a melhor pedida – como vimos, a UFRJ oferece um mestrado deste tipo. Agora, se você pesquisa a política patrimonial brasileira, pode ser que um mestrado com uma linha sobre bens culturais seja o mais apropriado. Se você examina a participação de uma determinada empresa no golpe civil-militar de 1964, talvez o mestrado em História Política faça mais sentido.
Caso a sua cidade não ofereça um mestrado com um domínio ou
área de concentração que coincida muito com o seu projeto, não há motivos para desistir. Verifique sempre as linhas de pesquisa que o mestrado oferece. Veja o caso do PPGHIS/UFRJ. Ele é um mestrado em História Social, mas possui três linhas de pesquisa que ampliam bastante o seu escopo: “História das relações de poder, das instituições e das territorialidades”; “História da cultura, da cultura científica e historiografia”; “História das práticas e das culturas políticas”. Uma delas pode acolher muito bem o seu projeto de pesquisa.
Alguns alunos e alunas costumam me perguntar se vale a pena
conversar com algum professor ou professora do mestrado pretendido antes de fazer o processo seletivo, sobretudo para perguntar se ele ou ela teria interesse em orientá-los ou até mesmo para dar uma “olhadinha” no projeto de pesquisa que será usado no processo seletivo. Não existe unanimidade quanto a isso. Alguns professores ou professoras não veem problema algum nesse tipo de abordagem e até a encorajam – muitas vezes conseguem ajudar quem está iniciando uma proposta de pesquisa em sua área de expertise. Outros preferem não fazer isso, talvez porque receiam que a pessoa possa interpretar equivocadamente que a “olhadinha” no projeto e qualquer sugestão de alteração seriam algum tipo de garantia de aprovação no processo seletivo. Aliás, um docente manifestar interesse em orientar sua pesquisa significa que ele ou ela gostou ou tem afinidade com sua proposta, tema e/ou recorte, e não que você vai ter vantagem no processo seletivo.
Caso você queira ser docente de História no Ensino Superior, existe
uma questão estratégica muito importante que deve ser levada em consideração na hora de escolher o mestrado: se ele deve ser mesmo em História ou em outra área. Não entendeu? Eu explico com o meu próprio exemplo. Como falei na Introdução deste livro, eu fiz o meu mestrado em Memória Social, que é uma área interdisciplinar muito próxima da História. Depois do doutorado, comecei a fazer concursos para Departamentos de História. E eis que comecei a me deparar com um grande problema: boa parte dos editais de concurso exigiam graduação, mestrado e doutorado em História. Eu tinha graduação, especialização, doutorado e pós-doutorado em História, mas não podia sequer me inscrever nesses concursos, porque simplesmente eu não tinha mestrado na área. Eu não pude fazer cerca de 50% dos concursos que gostaria por isso. Esta é uma realidade, quer você goste ou não. Então, se você quer ser professor ou professora de História em universidade, fazer o doutorado ou o mestrado em outra área pode tornar seu sonho mais ou menos fácil.
Outra forma de escolher um mestrado em História é levar em conta
a nota que o programa de pós-graduação obteve na última avaliação quadrienal da CAPES. Como o próprio nome diz, a CAPES faz, a cada quatro anos, uma avaliação dos programas de pós-graduação no Brasil. Essa avaliação leva em conta dezenas de aspectos: internacionalização, produção discente, produção docente, impacto econômico, inovação, qualificação dos docentes, número de formandos, entre outros. Essas notas vão de 3 a 7. A nota 3, a mais baixa, significa recomendação de descredenciamento, o que, na prática, significa proibição de entrada de novos alunos e alunas no programa. Programas de nota 6 e 7 são considerados os de excelência. Quanto maior a nota da CAPES, maior o número de bolsas e maior tende a ser o orçamento do programa. Não é uma avaliação perfeita, longe disso, pois nenhum ranking acadêmico é plenamente seguro, justo ou mesmo neutro, mas ele nos oferece algum parâmetro de qualidade.
A avaliação referente ao período 2017-2020, a última disponível até
agora, mostra que a área de História é formada por 82 programas de pós-graduação (vou chamar de PPGHs), entre profissionais e acadêmicos, dos quais 80 foram avaliados pela área de História da CAPES nesta mais recente avaliação quadrienal (dois programas novos, da UECE e da UNIR, tiveram início apenas em 2021). Esses 80 programas foram avaliados da seguinte forma: 6 PPGHs nota 7, todos acadêmicos; 5 PPGHs nota 6, todos acadêmicos; 22 PPGHs nota 5, sendo 20 acadêmicos e 2 profissionais; 30 PPGHs nota 4, sendo 25 acadêmicos e 5 profissionais; 17 PPGHs nota 3, sendo 12 acadêmicos e 5 Profissionais. Quer saber quais são os seis PPGHs avaliados com nota 7? São os da: UFF, UFMG, USP, UFRGS, UFRJ e da UNICAMP. Como os programas profissionais ainda são relativamente jovens no Brasil, é compreensível que nenhum ainda tenha conseguido nota 7.
Por fim, nada de desanimar por causa da idade. Não há idade limite
para (voltar a) estudar. Você pode ser recém-formado ou recém-aposentado, não importa. Se você reúne condições para fazer a pós-graduação, ou mesmo a graduação, vá em frente. Em 2018, li uma reportagem no G1-RJ que contava a história de um idoso que se formou em História aos 79 anos. Valdir de Lima trabalhou como lapidador, foi supervisor de gráfica, motorista profissional e carregador no cais do porto. Perdeu a esposa ainda cedo e enfrentou vários problemas de saúde. A educação formal, por isso, sempre acabou ficando de lado. Mas quando a vida deu uma brecha, ele foi atrás. Aprendeu a ler e a escrever com mais de 65 anos, após assistir às aulas do Telecurso 2000 pela televisão. O diploma do Ensino Médio saiu em 2004. No dia 22 de março de 2018 ele recebeu o seu diploma em História pela Universidade Estácio de Sá. “Eu estava muito emocionado. Levantei o canudo como se estivesse levantando uma bengala, foi libertador, uma grande satisfação”, disse Seu Valdir a reportagem do G1.
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