Quero fazer mestrado em História!

Bruno Leal Pastor de Carvalho · Capítulo 23 de 37

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Quero fazer mestrado em História!

6. O Papel do Orientador ou Orientadora

6. O PAPEL DO ORIENTADOR OU

ORIENTADORA

 

“EU PRECISAVA ESCOLHER UM TEMA, mas também um orientador. É de praxe. Uma tese deve ser ‘orientada’, exigência que consta dos próprios regulamentos administrativos”. Assim escreveu o famoso medievalista francês Georges Duby em seu delicioso “A história continua”, um livro que mistura método e autobiografia.

Orientadores e orientadoras, como vemos, são necessários, e ainda

bem que as coisas são assim, porque isso demonstra que a escrita acadêmica não é uma atividade tão solitária quanto se possa pensar – ou, pelo menos, não precisa ser dessa forma.

O orientador ou orientadora é figura chave no processo de escrita de

uma dissertação de mestrado. Quando se entra no mestrado, geralmente o mestrando ou mestranda pode indicar quem gostaria que fosse responsável por sua orientação, cabendo à pessoa indicada aceitar ou não. Mas pode acontecer de o programa de pós-graduação, partindo do projeto de pesquisa e da disponibilidade de seu corpo docente, designar um orientador ou orientadora. Em geral, a pessoa que assume essa função conhece bem o tema e a bibliografia de referência dos temas a serem orientados. Em alguns casos, um mestrando ou mestranda pode ter um ou mais coorientadores ou coorientadoras. Isso acontece quando a figura principal não domina tanto o objeto de estudo do projeto ou quando domina apenas uma parte e acha que a participação de um/uma colega na orientação pode ser muito relevante.

Aqui na UnB, eu sou procurado por pessoas que desejam estudar

História Pública ou História Contemporânea, com foco em Segunda Guerra Mundial e Holocausto. São as “minhas áreas”. Mas isso não quer dizer que eu só oriento pessoas que estudam esses assuntos. Por vezes, recebo estudantes que pesquisam outros temas de História Contemporânea, como a ditadura argentina ou o Apartheid na África do Sul, ainda que essas não sejam minhas especialidades – nem sempre o programa de pós-graduação tem em seu corpo docente alguém especializado em todos os temas, objetos e recortes dos projetos de pesquisa aprovados. Nos exemplos citados, eu já li muita coisa a respeito, gosto dos temas e não tenho dificuldade em me movimentar nestes campos, pois domino minimamente o vocabulário e as questões que gravitam em torno deles. Porém, em situações mais raras, recebo alunos ou alunas com temas que não tenho nenhuma familiaridade, e aí tenho que estudar muito mais, e o orientando ou orientanda precisa também se adequar ao que eu tenho que oferecer. Neste momento, tenho uma orientanda de doutorado que pesquisa o inventário das comidas do bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Não conheço muita coisa sobre História da Alimentação, mas fui atrás, li, aprendi, fiz a minha parte. A doutoranda, por sua vez, aceitou incorporar a perspectiva de patrimônio imaterial e os debates sobre memória, identidade e cultura, que eu já domino – e a pesquisa tem avançado com qualidade.

A orientação na pós-graduação envolve uma dinâmica muito rica e

intensa. Cabe ao orientador ou orientadora indicar leituras importantes, sugerir arquivos e bibliotecas para a realização da pesquisa. Cabe também ao orientador ou orientadora sugerir eventos, envolver orientandos e orientandas em grupos de estudo, dar dicas de escrita e ajudar na gestão do tempo e da produção. Talvez nem seja preciso falar o óbvio, mas o orientador ou orientadora é quem lê tudo o que o orientando ou orientanda escreve. É a pessoa que faz incontáveis revisões, que propõe mudanças no texto, cortes; que aponta acertos, falhas, possibilidades e riscos. Orientadores e orientadoras não corrigem os trabalhos das disciplinas que os seus orientandos e orientandas estão cursando no semestre, mas podem ser consultados/as quando houver dúvidas ou qualquer tipo de dificuldade.

O orientando ou orientanda, por sua vez, precisa ser sempre o/a

grande protagonista do seu próprio processo de aprendizagem e pesquisa. A escrita da dissertação é a sua maior responsabilidade. O orientador ou orientadora pode corrigir, sugerir mudanças, editar e reeditar o texto, mas quem escreve é sempre o mestrando ou mestranda. São as suas ideias, o seu planejamento, as suas decisões. Cabe também ao orientando ou orientanda resolver as questões burocráticas que vão aparecendo ao longo do curso, devendo prestar atenção aos prazos, às demandas por relatórios e pedidos de assinaturas de documentos. Na graduação, alunos e alunas têm o costume de esperar a iniciativa do professor ou professora. No mestrado, as coisas são diferentes. É preciso ter inciativa e exercitar a autonomia. Isso não significa estar só. Quando houver dúvidas, problemas, quando houver necessidade de conselhos, deve-se procurar o orientador ou orientadora imediatamente. Um dos principais ruídos na comunicação entre orientadores e orientandos é quando uma das partes simplesmente fica incomunicável. Para um bom trabalho de orientação, ambos precisam estar se comunicando com regularidade.

Já tive orientandos de mestrado que me enviavam seus rascunhos de

dissertação no início da manhã e esperavam retorno no final da tarde daquele mesmo dia. Eu entendo a ansiedade, mas o retorno deve demandar um pouco mais de tempo e paciência. A leitura do texto de uma dissertação precisa ser feita com calma, então, ela vai demorar. Não fica pronta de um dia para outro. Minha sugestão: dê ao seu orientador ou orientadora pelo menos duas semanas (e considere esse tempo em seus prazos e planejamentos). Depois disso, volte a lembrá-lo/a que você espera um retorno sobre seu material. Antes, eu não recomendaria, pois o seu trabalho pode estar numa fila de trabalhos, por exemplo, ou pode estar exigindo leituras complementares do seu orientador ou orientadora, talvez até mesmo a troca de ideias com colegas de outras instituições.

Cada processo de revisão editorial do texto da dissertação tem

particularidades. Eu, como orientador, peço aos meus orientandos e orientandas para elaborarem um roteiro em tópicos para cada capítulo que pretendem escrever, para depois estabelecermos um cronograma de entrega para cada tópico. Uso sempre o “modo de revisão” do Word e peço para que os orientandos e orientandas também o usem, pois isso me ajuda a deixar bem claro o que foi mudado no texto. Também tenho começado a utilizar uma metodologia em que formo duplas de trabalho entre os meus orientandos e orientandas: quem está no doutorado acompanha estudantes de mestrado e que também estão no doutorado, enquanto que quem está no mestrado acompanha estudantes de graduação que estão produzindo seus trabalhos de conclusão de curso (TCC). A ideia é aproveitar ao máximo a inteligência coletiva do nosso grupo.

A orientação é uma parte fundamental na formação profissional e no

amadurecimento da pessoa. Orientador/orientadora e orientando/orientanda devem, por isso, manter contato estreito e constante – sem essa de sumir por um tempão. É um processo de mão dupla e que precisa envolver confiança. Por mais que possa ser difícil, eu sempre sou muito direto, ainda que educado, quando preciso dizer que um texto não está bom. Isso é importante, não só porque vai ajudar a construir um trabalho sólido e protegido das críticas – é melhor eu, como orientador, apontar os erros do que isso só aparecer na sabatina da banca! –, mas porque, quando faço um elogio, meus orientandos e orientandas também sabem que ele é sincero. 

Orientadores e orientadoras não são psicólogos. Mas, ao meu ver,

precisamos ter uma boa escuta ativa e saber receber as angústias de fundo emocional de nossos orientandos e orientadas que decorrem dos processos de pesquisa e escrita. Quando sentirmos que não conseguimos dar conta do problema, devemos, ao meu ver, encaminhar nossos alunos e alunas aos serviços de ajuda psicológica que a universidade possui. Lá, as pessoas encontrarão ajuda especializada. Saúde mental é algo muito importante, mas constantemente subestimado no meio acadêmico. Precisamos escutar os medos e tensões de nossos orientandos e orientandas, entender o momento que eles e elas estão vivendo, e buscar compreensão, sem que isso, claro, comprometa os valores que o orientador ou orientadora considera fundamentais na produção da pesquisa. A vida não para quando estamos no mestrado. Pessoas continuam sendo demitidas, ficam doentes, casamentos acabam e os boletos a serem pagos continuam chegando. É evidente que a nossa capacidade de produzir uma dissertação pode ser afetada por todas essas (e tantas outras) variáveis.

Orientadores e orientadoras precisam lembrar também que são

humanos e não máquinas regidas por metas de produtividade. Somos sujeitos a falhas, temos problemas e frustrações, o cansaço é real. Tal qual nossos orientandos e orientandas, também somos afetados pelo entorno. A vida social e familiar, para todos nós, não deixa de acontecer. Eu odeio dizer “não” no trabalho, mas tive que mudar essa postura, sobretudo depois que me tornei pai de gêmeos! Hoje, estabeleci um limite no volume de trabalho, um limite bem razoável, e aprendi a dizer não. E tudo bem. E esses limites precisam ser contemplados nos combinados sobre entregas, retornos e prazos.

Em um bonito livro sobre orientação, Débora Diniz diz que

“orientar é comunicar-se por histórias, saberes e experiências” (Diniz, 2013, p.12). Eu gosto dessa síntese, acho que ela é verdadeira. Quando orientamos, nós partimos sempre de nossa experiência, de nossas memórias de quando fomos, também, orientandos e orientandas, de quando tínhamos medo ou coragem infinitas. Quando nos tornamos orientadores e orientadoras, tudo isso começa a se articular, a fazer ainda mais sentido. Orientar e ser orientado é escrever a muitas mãos.

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