Quero fazer mestrado em História!

Bruno Leal Pastor de Carvalho · Capítulo 2 de 37

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Quero fazer mestrado em História!

Prefácio

 

HOUVE UM TEMPO em que muitos acreditaram que os historiadores poderiam reservar para si o monopólio do conhecimento e da produção historiográfica. E, pior, que esse conhecimento deveria ser apresentado da forma mais obscura possível, como se a falta de inteligibilidade fosse um sinal inequívoco de inteligência – e quantas gerações não foram prejudicadas ao crerem serem profundas águas rasas que apenas estavam turvas!

Entretanto, essa exclusão deliberada não se restringia ao conteúdo

do conhecimento produzido: não raro os métodos e maneiras de ingressar nessa comunidade de historiadores eram igualmente enigmáticos, de modo a favorecer aqueles que já estavam bem-posicionados nas redes pré-existentes (o que implica, claro, reprodução das desigualdades de classe, raça e gênero). Nessa época, quase toda forma de divulgação científica era vista como rebaixamento do saber, quase toda preocupação com o público não acadêmico era chamada de superficialidade e vista como desvio de função, e quase todo trabalho em prol de um futuro público para o passado recebia a pecha de “vaidade”.

Mas a verdade é que muita coisa vem mudando nos últimos anos.

Há um movimento de historiadoras e historiadores cada vez engajados na democratização do conhecimento. E, para nossa sorte, Bruno Leal é uma das pontas de lança desse movimento. Desde 2008, o portal Café História, que conta com artigos sobre os mais variados assuntos do campo historiográfico, é uma das principais referências em divulgação científica no Brasil; em 2019, com o lançamento do pioneiro História Pública e Divulgação de História, da editora Letra e Voz, organizado por Leal e Ana Paula Tavares, o próprio caráter da História Pública e da divulgação científica em História tornou-se objeto de reflexões. Cabe ainda destacar sua contribuição historiográfica ímpar, especialmente O Homem dos Pedalinhos (2021, FGV Editora), importantíssima obra para pensar o pós-guerra e o nazismo no Brasil.

Este livro, entretanto, difere dessas produções precedentes. Assim,

vale lembrar aqui uma máxima de Bertrand Russel: para aperfeiçoarmos a democracia, é necessário que sua própria defesa se torne, por assim dizer, democrática, isto é, acessível igualmente ao maior número possível de pessoas. De forma análoga, se, como nos ensina o historiador Paolo Rossi, a ciência pressupõe (1) uma certa universalidade da crítica em contraposição a um corpo saber “imemorial” inquestionável e (2) a ideia de uma relativa igualdade das inteligências em contraste com a noção de um corpo de “eleitos” ou “iluminados”, a própria cientificidade em sua versão mais democrática e democratizante se realiza também por meio da clareza quanto aos meios socioinstitucionais para ingressar e persistir no mundo da pesquisa.

Por isso, dentro dos trabalhos de Bruno Leal, este livro completa

uma espécie de tripé da História Pública: além da necessidade de tornarmos o conhecimento histórico acessível e termos uma robusta reflexão sobre o caráter da divulgação científica, é preciso também possuirmos clareza sobre os meios de introduzir-se e permanecer na pós-graduação, estando conscientes de todos os problemas e desafios que fazem parte desse processo em nosso país. Parafraseando Russel, é preciso que a própria prática profissional do cientista se torne, por assim dizer, científico-democrática, o que significa buscarmos transparência quanto aos nossos critérios, exigências e limites. Afinal, quantas pessoas jovens altamente capazes não são reprovadas nos exames de mestrado não por falta de conhecimento, mas tão somente por não dominarem elementos técnicos básicos da linguagem de um projeto de pesquisa? E quantas não se frustram (ou não conseguem se planejar adequadamente) apenas por não entenderem no que consiste um trabalho de mestrado (e como ele difere de uma especialização ou de uma outra graduação)?

O livro, vale ainda destacar, preenche uma importante lacuna: se já

existem bons trabalhos sobre a formulação do projeto de pesquisa em História, este toma a dianteira ao discutir também o próprio percurso do mestrado, isto é, o que é uma dissertação, no que constitui banca de defesa, quais as peculiaridades da orientação, como conseguir uma bolsa, entre outros fatores. Como pude acompanhar pessoalmente, a formulação do livro envolveu uma minuciosa pesquisa a respeito dos programas de mestrado que existem no Brasil, com suas peculiaridades e desafios. Em resumo: para mim, este livro teria sido um excelente parceiro de caminhada quando iniciei minha própria trajetória de mestrado em História. Por isso, estou seguro de que será um bom amigo para todas as leitoras e leitores que gentilmente aceitarem sua companhia.

Dado que este livro será lido majoritariamente por aspirantes ao

mundo da pesquisa, creio ser pertinente aqui uma derradeira palavra. Bronislaw Baczko, em A Responsabilidade Moral do Historiador, dizia que escrita da história não existe somente para atender às nossas expectativas cognitivas, mas para uma necessidade mais ampla, qual seja, a apreensão do passado pelo presente. As questões formuladas por historiadores e historiadoras, afinal, são histoire vivante, inseparáveis das questões de nossa época. Se poucos hoje têm ilusões a respeito da aptidão moralizadora da história, na qualidade de magistra vitae, em contrapartida a reflexão a respeito do aspecto histórico de nossos problemas contemporâneos, bem como de suas possíveis soluções, contribuem para formar a consciência de nossa responsabilidade sobre o futuro, isto é, nossa imaginação e nosso horizonte axiológico.

Contrariamente ao que se pensa, portanto, a consciência da

historicidade de nossos bons valores e princípios não é motivo para não os defender – pelo contrário, seria precisamente seu caráter inerente, eterno ou absoluto que nos induziria à imobilidade, dado que, se possuíssem essa qualidade, eles haveriam de triunfar uma hora ou outra. No cerne desse paradoxo reside a “responsabilidade moral do historiador”: cônscios da relatividade dos valores e de sua variabilidade no tempo, bem como da própria transitoriedade de suas conclusões de pesquisa, a historiadora e o historiador mesmo assim não podem “escolher a mentira” e não têm qualquer “direito à falsificação.” A pesquisa séria em História nos revela que o relativo não autoriza o arbitrário, e que uma certa consciência de nossos próprios limites não implica qualquer direito à manipulação. Em tempos de fake news e hiper informação, essas são boas lições que podemos oferecer à sociedade. Boa leitura!

Daniel Gomes de Carvalho

Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e

professor de História Contemporânea na Universidade de Brasília (UnB).

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