Quero fazer mestrado em História!

Bruno Leal Pastor de Carvalho · Capítulo 26 de 37

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Quero fazer mestrado em História!

1. O que É uma Dissertação?

PARTE IV - A DISSERTAÇÃO

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1. O QUE É UMA DISSERTAÇÃO?

 

A DISSERTAÇÃO é um trabalho escrito, de natureza monográfica e fruto de pesquisa científica que o mestrando ou mestranda escreve ao longo do mestrado e que deve ser defendido ao final do curso, mediante uma banca composta por professores doutores e/ou professoras doutoras. Sem dissertação aprovada, não existe título de mestre ou mestra. A dissertação é o maior e o mais importante produto do mestrando ou mestranda.

A dissertação é um trabalho individual e autoral. Embora exponha

interpretações e concepções pessoais do autor ou autora, ela não é um trabalho de opinião, mas sim um produto de escrita historiográfica baseado em sólida pesquisa documental. A dissertação é uma “escrita controlada”: tudo precisa estar sempre devidamente referenciado, interpretado e construído com base em argumentos sólidos, fontes e problematizações.

Ela pode ser dividida de várias formas: em capítulos, em partes, com

intertítulos, sem intertítulos, com parágrafos introdutórios que resumem cada capítulo. Em termos estruturais, a dissertação é parecida com a monografia que entregamos ao final da graduação: ela tem capa, sumário, dedicatória, lista de siglas, lista de imagens, sumário, introdução, três capítulos ou mais, intertítulos, considerações finais e referências.

A dissertação precisa ser original? Particularmente, eu acredito que

tanto a dissertação quanto a tese de doutorado precisam ser trabalhos originais. Eu nunca vi uma dissertação de mestrado que fosse uma mera discussão bibliográfica ou a repetição de algo que já havia sido dito antes. Essa originalidade, é importante dizer, não é originalidade de tema necessariamente (algo que é muito raro atualmente); a originalidade pode se expressar de diversas formas, indo desde as fontes documentais utilizadas até as abordagens teóricas e escolhas metodológicas. É possível até que dois ou mais trabalhos usem as mesmas fontes, mas ao fazer perguntas completamente diferentes, resultem em dissertações também completamente diferentes. Tudo isso pode ser considerado a originalidade. O mestrado, tal como o doutorado, baseia-se em pesquisa; neste sentido, ambos devem oferecer contribuições originais para o campo, em nosso caso, a historiografia. A diferença, ao meu ver, é que a contribuição da tese de doutorado deve ser maior, mais robusta, mais significativa.

A dissertação será avaliada por uma banca. O trabalho não vai

ganhar uma nota de 0 a 10. Pelo menos isso não é pouco comum no Brasil. O mais comum é: aprovada ou reprovada e, dentro da aprovação, a banca pode aprovar com condições (pedidos de alterações), aprovar com louvor ou ainda aprovar e indicar para publicação. Em muitos casos, existe um campo no formulário de avaliação em que os membros da banca podem escrever um pequeno texto, um ou dois parágrafos, destacando os destaques e contribuições do trabalho. Se a banca pode aprovar a dissertação, mas solicitar alterações, o mestrando ou mestranda deve fazer as correções para a entrega final e o prazo costuma ser de até 90 dias para fazer isso – mas é preciso checar na secretaria da sua pós-graduação.

O ideal é que a dissertação comece a ser escrita desde o primeiro dia

de mestrado, afinal o mestrado é um curso “curto”. Dois anos passam muito rápido, então, não há tempo a perder! Mas não existe momento certo para se começar a escrita da dissertação – ela só precisa acontecer, claro, dentro do prazo de dois anos. Há pessoas que escrevem desde o primeiro dia de mestrado. Pegam um caderninho, começam a anotar ideias, inicialmente meio confusas, meio caóticas, e depois vão organizando tudo, entendendo que aquilo era uma versão bruta da dissertação; mas há pessoas que preferem escrever tudo de uma só tacada, nos últimos seis meses. Acho que as duas formas são legítimas – depende muito de qual é o seu perfil. Porém, tenha cuidado para não cair nas armadilhas da procrastinação. O orientador ou orientadora pode te ajudar nesse processo. Ele/ela irá acompanhar todo o processo de escrita, vai revisar seus textos, fazer perguntas, sugerir edições, mudanças de rumo, leituras, disciplinas, vai definir prazos e discutir com você caminhos e a divisão da dissertação. Essa parceria é muito importante, pois, não se engane, por melhor pesquisador que você seja, a escrita de uma dissertação é sempre um processo muito difícil, por vezes doloroso, pois precisamos sintetizar informações, interpretar documentos, dialogar com a historiografia, concluir coisas. Diferente do que se costuma pensar por aí, a dissertação, como qualquer trabalho monográfico, não é ponto de partida, mas de chegada. É preciso colocar na tela em branco do computador as nossas melhores ideias e interpretações sobre o passado que estudamos.

Você pode fazer as suas anotações e rascunhos em um caderno ou no

seu computador. Não importa o meio. Mas o faça de forma sistemática e organizada. Às vezes, ideias são como sonhos: nós as temos, mas as esquecemos logo em seguida. Então, pensou em alguma coisa legal para a dissertação, anote! Quando estiver em eventos sociais, controle-se quanto alguém perguntar “como vai a dissertação”, pois costumamos falar sem parar!

Quando estou desenvolvendo um projeto de pesquisa, eu mantenho

uma pasta online, na nuvem, onde guardo todos documentos, onde coloco todas as minhas ideias e onde escrevo meus primeiros rascunhos. Faço isso porque eu utilizo muitos dispositivos, em diferentes lugares: computador de casa, computador do trabalho, celular, tablet, etc. Então, se eu perder um desses dispositivos, tenho tudo salvo na nuvem. Na minha época de mestrando, eu escutava muitas histórias aterrorizantes de pessoas que eram assaltadas na rua e o ladrão levava o laptop onde a pessoa guardava a única cópia da dissertação, ou ainda, casos em que pessoas perdiam o equipamento por conta de uma sobrecarga elétrica ou enchente. São relatos realmente de cortar o coração. Hoje, felizmente, temos meios de evitar. Use a nuvem!

No passado, uma dissertação podia ter até 500 páginas,

especialmente quando o mestrado tinha 3 anos. Mas isso foi há muito tempo. Dissertações hoje costumam entre 100 e 200 páginas. Muito raro ver uma dissertação com mais do que isso. Como se divide uma dissertação? Depende de você e do seu orientador ou orientadora. Eu gosto sempre daquela estrutura clássica de Capítulo 1, Capítulo 2 e Capítulo 3. Ela costuma funcionar para qualquer ideia. Mas há quem prefira fazer Parte 1 e Parte 2, por exemplo. E eu não vejo qualquer problema nisso.

A dissertação é fruto de pesquisa. Quando você a terminar, essa será

a sua contribuição para a historiografia. Se você fizer um bom trabalho, as pessoas lerão a sua dissertação e vão citá-la em seus trabalhos. Então, leve muito a sério esse trabalho. A dissertação é o coração do mestrado, a razão pela qual escrevemos e pesquisamos. Capriche na redação, seja claro nas suas colocações, dê sempre os devidos créditos, tome cuidado com os plágios (especialmente os não intencionais, aqueles casos em que esquecemos uma aspa ou absorvemos uma ideia sem nos darmos conta de que ela não é nossa).

Se você tiver curiosidade para ver dissertações em História, você

pode visitar, na internet, o catálogo de teses e dissertações da CAPES. Este é um rico repositório com materiais de todo o país desde 2004, tudo de graça e de forma muito objetiva. É possível fazer buscas por ano, por tema por área e nome. Para teses e dissertações mais antigas, você deve consultar a Biblioteca Central dessas universidades.

Aliás, já pensou que, tudo dando certo, seu trabalho em breve será

um dos que estarão disponíveis para leitura – inclusive por pessoas que querem fazer mestrado e assim como você, estão buscando refer6encias e inspiração? E em meio a um mar de artigos, teses e dissertações digitalizadas e disponíveis na internet e em bancos de dados, o seu trabalho precisa ser achado. Para isso, você precisa se preocupar com a qualidade dos itens que chamamos de metadados – no caso: título, palavras-chave e resumo. Isso serve para dissertações e teses, e também para qualquer outra modalidade de estudo acadêmico, como os artigos científicos. Já era assim e será cada vez mais em um mundo completamente informatizado e com alto fluxo de circulação de informação.

Reveja o título e as palavras-chave que você utilizou na elaboração

do seu projeto. Ainda fazem sentido? Faça as alterações necessárias, lembrando que o leitor precisa entender rapidamente do que se trata sua dissertação. Se você fez um resumo para o projeto, é muito provável que precise reescrevê-lo integralmente. E se você não precisou fazer resumo para seu projeto, chega a hora de fazê-lo.

Não é fácil escrever o resumo, não só pela capacidade de síntese que

ele demanda, mas sobretudo porque costumamos escrevê-lo no final da dissertação, nos derradeiros dias, antes de enviar para a banca, justamente quando estamos esgotados física e mentalmente. Em cerca de uma dúzia de linhas o autor ou autora precisa ser capaz de sintetizar um trabalho que pode ter mais de 200 páginas. É um baita desafio.

Historiadores e historiadoras são treinados para escrever

longamente, mas não para escrever textos curtos. Nossa sorte é que esta habilidade pode ser desenvolvida. Minha primeira sugestão é que você leia muitos resumos de teses e dissertações. Não estou falando de 10 ou 20 resumos, estou falando de 50 ou 60. Pouco a pouco você vai perceber quais resumos são muito bons e quais, nem tanto. Outra técnica que pode ajudar: ler resumos publicados em periódicos científicos de altos estratos (que possuem notas altas segundo a classificação da CAPES). Digo isso, porque editores e editoras de periódicos científicos costumam ser exigentes com os resumos.

É possível que, em determinados momentos do mestrado, o

mestrando ou mestranda se sinta sem esperanças; muitos chegam a duvidar de si mesmos e acham que não deveriam ter entrado na pós, que aquilo “não é para eles” (procure agora no Google: “síndrome do impostor”). Não há nenhum problema caso você venha a sentir isso. Mas quando sentir, converse com seu orientador ou orientadora, troque uma ideia com amigos e, se preciso, procure a coordenação do seu programa de pós-graduação ou o setor que cuida da saúde mental de sua universidade. São pessoas que já passaram ou passam por isso, ou ainda são profissionais qualificados e qualificadas que podem te ajudar a fazer o mestrado de forma mais tranquila, sem que seja um processo apenas de dor e angústia. O prazer na pesquisa tem que estar lá.

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