Quero fazer mestrado em História!
2. Prova Escrita
A PROVA ESCRITA costuma ser a primeira fase dos processos seletivos do mestrado em História. Essas provas são eliminatórias e, para quem passa por elas, são ainda classificatórias. Então, você deve se preparar bem antes de fazer esse tipo de avaliação.
Esse tipo de prova tem vários objetivos, dentre os quais eu
destacaria dois: (1) avaliar o conhecimento historiográfico do candidato ou candidata e (2) avaliar sua capacidade de comunicar ideias com clareza por meio da concatenação das ideias e do desenvolvimento de argumentos lógicos. Mas é preciso dizer (uma vez mais) que os programas possuem autonomia para definir seus critérios de avaliação, que podem ser mais ou menos amplos. Esses critérios geralmente são descritos nos editais de seleção – fique atento a eles. A UFBA, por exemplo, assim definiu os seus critérios avaliativos no processo de 2022: “correção no uso da língua portuguesa; estruturação do texto com introdução, desenvolvimento e conclusão; correlação eficiente entre a bibliografia indicada e as questões propostas pela banca; demonstração de conhecimentos sobre a historiografia”.
Os programas de pós-graduação costumam divulgar uma lista
bibliográfica junto do edital, o que auxilia candidatos e candidatas em seus planejamentos de estudos. Essa bibliografia pode ser obrigatória (quase sempre é), e aí o candidato deve se ater a esses autores e autoras citadas, ou pode ser de referência, sendo permitido citar autores e autoras não presentes nesta bibliografia. O mais comum hoje é encontrar uma lista bibliográfica obrigatória. Seja como for, o programa não tem qualquer dever de fornecer as obras indicadas na bibliografia do edital, cabendo isso ao candidato ou candidata. No entanto, na maioria das vezes, essas obras são livros que se encontram em bibliotecas universitárias com relativa facilidade ou são artigos que podem ser facilmente encontrados e baixados legalmente na internet. No edital de 2022 aqui da UnB, o texto diz que “a prova escrita versará sobre a bibliografia listada”. Essa lista compreende cinco referências. Repare que todas são artigos publicados em periódicos científicos com download gratuito:
CURTO, Diogo R.; DOMINGOS, Nuno; JERÓNIMO, Miguel B. A Europa e a Ásia: histórias e historiografias comparadas. História da historiografia, Ouro Preto, n. 15, p. 148-167, 2014.
MBEMBE, Achille. O tempo que se move. Cadernos de Campo, São Paulo, n. 24, p. 369-397, 2015.
NASCIMENTO, Álvaro Pereira. Trabalhadores negros e o “paradigma da ausência”: contribuições à História Social do Trabalho no Brasil. Estudos Históricos, vol. 29, n. 59, p. 607-626, 2016.
SETH, Sanjay. Razão ou Raciocínio? Clio ou Shiva? História da historiografia, Ouro Preto, n. 11, p. 173-189, 2013.
SUBRAHMANYAM, Sanjay. “Em busca das origens da História Global: Aula Inaugural proferida no Collège de France, em 28 de novembro de 2013”. Estudos Históricos, vol. 30, n. 60, p. 219-240, 2017.
Como são as provas em si? Mais uma vez, isso vai variar, mas quase
sempre as provas escritas do mestrado em História são elaboradas por uma banca formada por docentes do próprio programa. As questões dessas provas devem ser respondidas através de um texto dissertativo e argumentativo. A PUC-Rio tem tradição de uma prova escrita com três questões, uma para cada linha de pesquisa de seu programa de pós, devendo o candidato ou candidata escolher apenas duas para responder. Para ser aprovado e convocado para a prova de entrevista, etapa subsequente do processo seletivo, a pessoa deve tirar nota igual ou superior a 7 (até onde eu seu, essa é a nota mínima de todos os mestrados em História no Brasil que possuem a etapa da prova escrita, mas vale a pena verificar no edital do processo no qual você optar por se inscrever).
É comum os programas de pós-graduação não permitirem consulta e
nem uso de anotações nesta fase, mas é possível que alguns permitam, durante toda a duração da prova ou apenas em parte (no início, por exemplo) – as regras constam no edital. A prova escrita costuma ser feita presencialmente (embora a pandemia tenha provocado mudanças em certos processos) e o candidato ou candidata dispõe de duas, três ou até quatro horas para fazê-la. Ela deve ser escrita à mão e, quase sempre, em papel timbrado do programa de pós-graduação. Muitos programas pedem que se chegue com uma hora de antecedência, portando documento de identidade e caneta esferográfica azul ou preta.
A maioria dos programas opta por não permitir nenhuma forma de
identificação destas provas para que a correção seja feita “às cegas”. Cada programa tem sua estratégia, mas usualmente se usa como identificação apenas o número de inscrição ou um código a este relacionado. Quem corrige as provas é a banca examinadora, e isso pode levar alguns dias, a depender da quantidade de provas. Essa banca tem composição heterogênea (docentes de diversas linhas a integram) e pode ter três, quatro ou mais pessoas. Toda a banca faz parte do quadro permanente da instituição e é formada por docentes credenciados em linhas de pesquisa do programa em questão.
O que pode ser considerado uma boa prova? Não existe uma fórmula, mas a minha experiência me faz acreditar em boas práticas que podem aumentar as suas chances de ser aprovado em uma prova escrita. Em primeiro lugar, use a norma culta da língua. Evite gírias, expressões ou construções frasais muito coloquiais. Adote como referência a linguagem usada por você na sua monografia ou no TCC da graduação. Você deve evitar notas de rodapé, mencionando no corpo do texto os autores e autoras, os seus conceitos e as suas principais ideias e posições. Por exemplo: “Segundo Eric Hobsbawm, em A Era dos Extremos, o ato de matar se tornou impessoal nas guerras modernas”. Se houver consulta ao material bibliográfico, o candidato ou candidata pode citar, entre parênteses, o número da página de onde tirou uma citação direta, mas evite fazer muito esse tipo de citação. Atenção! Mais do que citar autores e autoras desenfreadamente, dialogue com eles/elas. Isso mostrará à banca que você não apenas conhece um determinado autor, como também sabe o que fazer com ele. Cuidado para você não se perder e sua resposta se tornar um “copia e cola” da produção de outros autores e autoras ao invés de reflexões, ponderações e argumentos seus. Não perca de vista o seguinte: a banca está mais preocupada em avaliar a capacidade de análise e reflexão do candidato ou candidata e como se ele ou ela se posiciona em um debate historiográfico, do que ler uma coletânea de citações (sejam diretas ou indiretas).
Na elaboração do texto, é importante ter clareza nos argumentos.
Para isso, orações curtas e objetivas costumam ser de grande valia. Eu acredito também que o candidato ou candidata deve buscar um equilíbrio na historiografia utilizada: tão importante quanto demonstrar conhecimento de obras clássicas é trazer para o texto novas discussões e novas obras. Isso fará com que sua prova se destaque em comparação às outras. Ficou complicado? Pois bem, vamos supor que uma questão da prova peça para você discutir um determinado aspecto da chamada História Cultural. Você pode ter certeza: a maioria dos candidatos e candidatas, se não todos, vai utilizar Roger Chartier e Peter Burke. Você também pode utilizar esses autores, que são ótimos, mas pode ser seu diferencial trazer outros e outras “para a conversa”. Por que não usar Beatriz Sarlo, Gilberto Freire e Hans Ulrich Gumbrecht? Outra coisa que pode contribuir para tornar a sua prova mais interessante aos olhos do examinador é mostrar que os seus conhecimentos vão além da historiografia europeia, incluindo autores e autoras latino-americanos ou africanos, por exemplo (se sua matriz é toda eurocêntrica, está aí uma meta de estudos para você começar já). Só tenha cuidado para não misturar autores e autoras que não tenham a menor sincronia em termos intelectuais e metodológicos – a não ser que você esteja fazendo um debate historiográfico e essas diferenças sejam objeto de suas observações.
Além disso tudo, eu diria: fique atento ao relógio, pois o aplicador
da prova precisa ser implacável quando der a hora. No início, no lugar de sair escrevendo sua resposta de primeira, faça um pequeno rascunho, rabisque algumas ideias, estabeleça alguns pontos que indiquem começo, meio e fim para o seu texto. Isso costuma ajudar na otimização do tempo. Jamais faça do seu texto um fichamento da bibliografia indicada, pois o que a banca quer é outra coisa: ela deseja saber sua análise crítica acerca desses autores e autoras e dessa historiografia. Uma outra dica: coloque uma roupa confortável e não dispense um casaco, mesmo que o dia esteja quente, pois muitos programas têm ar condicionado e você não precisa de um desconforto físico atrapalhando sua concentração.
Na graduação, os/as estudantes estão acostumados/as a fazer
avaliações de conhecimentos temáticos e muito específicos. Uma prova de mestrado costuma ser diferente. Dificilmente você encontrará uma questão, por exemplo, pedindo para explicar a eclosão da Primeira Guerra Mundial ou as principais características do fenômeno da santidade na baixa Idade Média. As provas de mestrado costumam girar em torno de questões de teoria da História, de historiografia e de metodologia. Questões transversais como memória, identidade, modernidade, gênero e raça estão em alta atualmente. Os editais são boas orientações quanto a isso, a partir da bibliografia indicada. Mas para além dessas orientações, estude o perfil dos professores e professoras que fazem parte do programa. Seus mais recentes livros ou artigos podem ajudar a imaginar que direção a prova pode tomar. Estudar a produção dos integrantes da pós-graduação na qual você pretende ingressar pode indicar quais enfoques de pesquisa e reflexão têm sido debatidos mais recentemente no âmbito daquele programa.
Até onde eu sei, a maioria dos programas de pós-graduação em
História no Brasil não tornam as suas provas de mestrado e doutorado públicas. Mas algumas fazem isso. É o caso da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), que disponibiliza gratuitamente na internet as provas de mestrado e de doutorado dos processos seletivos de 2013, 2014 e 2015. A prova de 2015, por exemplo, foi composta por quatro questões. Uma delas, a segunda, diz: “A obra Por uma história política, organizada por René Rémond, é um marco no campo da História Política. Em seus diversos textos apresentam-se novas propostas analíticas e abordagens sobre a temática. Através de um texto dissertativo relacione a nova História Política às eleições e aos estudos dos partidos políticos”. Já a questão 4 diz: “Roger Chartier, em A História ou a leitura do tempo (2009), reflete sobre as dimensões e narrativa que resultaram na chamada “crise da memória” nos anos 1980-90. Nesse texto, Chartier apresenta seu posicionamento a respeito da concepção da história transformada radicalmente em texto literário. Descreva a discussão expressa pelo autor e seus argumentos a respeito das leituras que colocam em dúvida o estatuto da verdade na história”.
Em setembro de 2017, eu produzi uma matéria para o Café História
sobre dicas para a prova escrita do mestrado. Professores e professoras de diferentes programas de pós-graduação em História deram valiosas contribuições. Nesse especial, há uma dica que vale a pena reproduzir aqui na íntegra, pois pouca gente pensa nisso por achar que é “besteira”. Mas eu acho uma ótima última dica para encerrar este capítulo. Segundo André Lemos Freixo, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), “reserve o dia anterior à prova para relaxar, dar um passeio, ir ao cinema, à praia, ao parque etc. Na hora da prova, em geral de quatro horas, leve um pequeno lanche para comer quando sentir necessidade e uma garrafinha de água. Dizem que a sorte sempre sorri para os preparados, de modo que… preparem-se! E boa sorte!”
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