Quero fazer mestrado em História!

Bruno Leal Pastor de Carvalho · Capítulo 13 de 37

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Quero fazer mestrado em História!

3. Entrevista

 

 

A ENTREVISTA, por vezes também chamada de prova oral, é certamente a etapa do processo seletivo do mestrado que mais assusta os candidatos e candidatas. E pudera: ser inquirido/a por três, quatro ou cinco avaliadores academicamente experientes sobre os seus conhecimentos em História e seu projeto de pesquisa é receita para provocar frio na espinha e borboletas no estômago. Mas vamos com calma: a entrevista não precisar ser fonte de sofrimento.

São dois os objetivos fundamentais da entrevista, ao meu ver: saber

um pouco mais sobre sua trajetória acadêmica e tirar dúvidas sobre o seu projeto de pesquisa. É possível haver perguntas sobre determinados conteúdos historiográficos? Sim, mas desde que sejam questões fundamentais para o seu projeto. Se você escolhe como metodologia micro-história, você deve estar apto a responder perguntas sobre essa abordagem. Não espere perguntas sobre história em geral ou questões factuais – não é esse o tipo de prova ou entrevista que te espera no mestrado. Então, minha sugestão de preparação para esta etapa é: estude o seu projeto de pesquisa, reveja suas escolhas metodológicas, saiba apontar quais são as suas fontes, domine o seu aporte teórico, conheça bem as obras e conceitos dos autores e autoras que você mobiliza no projeto, identifique os pontos fracos e fortes da sua proposta e como poderá compensar essas “fraquezas”, tente antecipar críticas e perguntas, formulando formas de responde-las. Conhecer bem a bibliografia da prova escrita é importante, mas a entrevista não foca nisso e sim no seu projeto.

Se o seu trabalho envolve micro-história, estude, como eu disse,

micro-história; mas se o seu projeto tem uma perspectiva marxista, saiba responder perguntas sobre a metodologia do materialismo histórico. Se você está usando Michel Foucault ou Pierre Bourdieu no quadro teórico, saiba defender bem a pertinência destes autores. Se você vai se debruçar sobre a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos às vésperas da Segunda Guerra Mundial, você precisa explicar para a banca quais são as fontes que irá examinar, em que arquivos elas estão, como você vai ter acesso a elas e, neste caso, que você sabe ler inglês.

A entrevista, como você já pode perceber, tem muito a ver com a

relevância do seu projeto e com a sua factibilidade. Por exemplo, se seu projeto, ou algo muito próximo dele, já foi desenvolvido inúmeras vezes antes por outros autores e autoras, então por que seria relevante desenvolver um projeto similar novamente? Se você tem um bom projeto, mas não sabe onde estão as fontes históricas ou sequer sabe se elas de fato existem, esse projeto não é factível e, portanto, não poderá ser aprovado. Tudo isso é considerado pelos avaliadores. Além disso, é na entrevista que a banca tem a oportunidade de verificar a autoria do projeto – se não foi você quem o escreveu, isso vai ficar muito evidente.

A banca pode explorar inúmeros caminhos na entrevista. Alguns são

mais previsíveis e, por isso, você deve estar pronto para eles, dando boas respostas. É comum, por exemplo, que os membros da banca peçam ao candidato ou candidata que explique porque escolheu determinados autores e autoras no quadro teórico e não outros; a escolha da metodologia também podem ser outro objeto de dúvidas. Outras perguntas possíveis: como você se posiciona em relação à historiografia existente sobre o seu tema? Qual a pergunta central do seu trabalho e porque você a acha relevante?

Dominar o projeto é fundamental, como podemos ver. Mas acontece

que a entrevista nem sempre se resume a isso. Há algo que muitas pessoas simplesmente esquecem e que é super importante nesta etapa do processo: conhecer bem o mestrado pra o qual o está se aplicando. A banca pode te perguntar porque você escolheu este determinado programa de pós-graduação, tal linha de pesquisa e/ou área de concentração. Pode querer saber se você tem algum orientador ou orientadora em mente e por quê. Então, tire um dia para estudar os professores e professoras do programa, suas pesquisas, entenda bem a linha de pesquisa que lhe interessa e a área de concentração, pense na relação de ambas com o projeto que você está defendendo. Todas essas informações vão constar no site da pós. Jamais force uma relação que não existe.

Muitos alunos e alunas me perguntam sobre a possibilidade de

apresentar o mesmo projeto de pesquisa em programas de pós diferentes. Eles têm medo de que isso os prejudique, de que os professores e professoras que fazem parte da banca vão achar ruim e, portanto, que se fizerem isso, não vão passar. Eu respondo com a maior tranquilidade: tudo minhocas da sua cabeça. Você pode aplicar seu projeto a vários programas de diferentes instituições, inclusive na mesma cidade. Não tem problema. Se o seu projeto de pesquisa guardar relação de pertinência com esses programas e se neles você tiver boas possibilidades de pesquisa e orientação, por que não? Nada impende. Isso não é ilegal e nem imoral. As bancas, além disso, não saberão que você está aplicando para vários programas – mas acho que o candidato ou candidata precisa ser sincero caso lhe perguntem se está participando de outro processo seletivo. E sugiro fortemente que você não se inscreva em vários programas só por aplicar: somente tente um programa de mestrado se tiver certeza que ele lhe cai bem. Caso contrário, melhor continuar apenas com um processo seletivo. 

A banca certamente vai perguntar sobre sua disponibilidade para

cursar as disciplinas e desenvolver as demais atividades acadêmicas do mestrado. Por mais que se subentenda que, uma vez mestrando ou mestranda, você assume a suas novas responsabilidades, sabemos que, às vezes, as pessoas avaliam de forma equivocada sua disponibilidade. O momento no trabalho está muito atribulado? Você não tem horas livres? Talvez não seja o momento do mestrado. Eu já tive ótimos orientandos, mas que por trabalharem de segunda à sexta, intensamente, sem dispensa de seus locais de trabalho, simplesmente não conseguiram terminar o mestrado ou fizeram uma dissertação que ficou muito aquém de suas próprias expectativas. Não pense em “eu não tenho tempo, mas vou dar um jeitinho”, porque o mestrado é daquelas coisas que não se resolvem com um “jeitinho”. Nesta pegada todos vão sair perdendo: você, o orientador e o programa. Portanto, se necessário, faço planos de longo prazo, organize sua vida para encaixar essa nova atividade com tantas demandas. E se você já está executando seu planejamento, mostre como você se organizou para dar conta do recado.

Que roupa devo usar? Não existe uma regra de vestimenta em

entrevista de mestrado. E qualquer coisa nesse sentido poderia ser tolo e até mesmo elitista. Mas eu diria o seguinte: use uma roupa com a qual você iria para um trabalho em ambiente corporativo. Esqueça o terno ou um vestido longo! Você não está indo para um casamento ou para uma festa de formatura. Eu também não usaria um chinelo, pois você não está indo simplesmente à padaria comprar pão e leite.

Outras rápidas dicas para a entrevista: certifique-se de que o seu

celular está desligado; fale pausadamente e de forma clara; olhe nos olhos da banca; demonstre confiança, mostre que você confia muito no seu trabalho. Não tente decorar discursos, nem pontos, nada de repostas ensaiadas, procure ser espontâneo. Devo ou posso preparar uma apresentação de Power Point? De forma alguma! Não cabe. A entrevista é uma conversa olho no olho, pergunta e resposta, jogo bem rápido mesmo.

Você pode levar uma cópia impressa do seu projeto com você, mas

não distribua nenhum material para a banca. Não leia nenhum material, no máximo algum trecho pequeno do seu projeto de pesquisa, caso seja necessário expor alguma ideia. Se receber alguma crítica ou questionamento, cuidado com a sua reação, não retruque, não é pessoal. Se não souber algo, diga simplesmente que não sabe – melhor do que inventar alguma coisa.

As respostas do candidato ou candidata devem ser objetivas, sem

muita enrolação. Sua pesquisa não foi feita ainda, então, não tente responder coisas como se ela estivesse pronta. Se for pego de surpresa com alguma pergunta que não esperava, mas que você sabe responder, respire fundo e responda devagar, ganhe tempo para organizar as ideias. Se estiver muito nervoso e se enrolar no meio da fala, não se preocupe. Peça desculpas, diga para a banca que você está nervoso ou nervosa e que vai reiniciar a sua fala. Você é humano e a banca não vai te punir por isso. Do outro lado, há pessoas com empatia e que também já passaram por isso, pessoas que já estiveram onde você está agora. Não chegue atrasado, não “puxe saco” dos membros da banca, seja sincero.

Na maioria dos programas, a etapa da entrevista é eliminatória e

classificatória. Para ser aprovado, a maioria dos programas exige 7 como nota mínima do candidato ou candidata. Uma entrevista pode durar entre 5 e 15 minutos. Se a sua entrevista durar 5 ou 15, isso não quer dizer nada, nem que você foi aprovado e nem que foi reprovado. A mesma coisa vale para caso os professores ou professoras façam poucas perguntas ou “perguntas demais”. Lembre-se: em um mesmo dia, a banca pode fazer mais de 10 entrevistas!

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