Quero fazer mestrado em História!

Bruno Leal Pastor de Carvalho · Capítulo 18 de 37

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Quero fazer mestrado em História!

1. Como São as Disciplinas?

PARTE III - FAZENDO O

MESTRADO

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1. COMO SÃO AS DISCIPLINAS?

 

PRIMEIRO, vamos a um panorama geral. O mestrando ou mestranda tem um número mínimo de créditos ou de horas a cursar, da mesma forma que na graduação, e tudo isso deve ser cumprido por meio de disciplinas. Há disciplinas optativas e disciplinas obrigatórias, e cada uma possui seu próprio programa e cronograma, que costumam ser distribuídos no primeiro dia pelo professor ou professora.

Na graduação, o fluxo das disciplinas é fortemente caracterizado

pelas periodizações clássicas da História: começamos com História Antiga e terminamos com História Contemporânea. No mestrado não funciona desta forma. As disciplinas são mais específicas, bem parecidas com as optativas da graduação. Você não verá, por exemplo, “História Moderna”, mas poderá ver “Bruxaria na Itália do século XVI”. Tanto quem está no mestrado, como quem está no doutorado faz parte das mesmas turmas – não há separação entre turmas de mestrado e turmas de doutorado. A rotatividade das disciplinas é grande, pois de semestre para semestre muitos professores e professoras entram e saem da oferta. Então, se você encontrou uma disciplina que gostou, não deixe para depois!

Uma das dificuldades das disciplinas na pós-graduação é dar conta

da variedade de pesquisas em tela. Como ministrar uma disciplina que deve contribuir, ao mesmo tempo, com uma mestranda que pesquisa um autor da Antiguidade Clássica e outro, que estuda um batalhão nazista que atuou no front oriental durante a Segunda Guerra Mundial? Essa missão é ainda mais difícil porque, diferente do que ocorre na graduação, na pós a oferta de disciplinas é muito mais modesta. Eis uma grande questão!

Para driblar este desafio, há alguns caminhos possíveis. Quero me

deter em três deles. O primeiro é inscrever-se em disciplinas externas, isso é, disciplinas que são ministradas em outras pós-graduações, sejam da sua universidade ou de outras instituições, quer da sua cidade ou de outras cidades. Aliás, em muitos mestrados em História, é uma exigência que o mestrando ou mestranda curse disciplinas externas. Com a adoção do regime remoto ou híbrido por várias universidades durante a pandemia, isso se tornou ainda mais interessante, pois as possibilidades são enormes. Com disciplinas externas à disposição, é mais fácil encontrar uma disciplina que tenha mais a ver com o seu projeto de pesquisa. É preciso verificar em cada caso específico a compatibilidade dos programas de pós, da forma de se contabilizar horas e créditos etc.

O segundo caminho é cursar disciplinas mais “gerais” da linha

(“História Política”, por exemplo), ou aquelas de teoria e historiografia. Nessas disciplinas, o que está em jogo é a discussão sobre conceitos e metodologias, que valem para uma ampla gama de trabalhos. Cada linha de pesquisa costuma ter sua própria disciplina obrigatória. Por exemplo: a linha de História Social terá sua disciplina de História Social, e nela serão abordados aspectos deste tipo de historiografia que pode beneficiar a todos.

O terceiro e último caminho é: determinadas disciplinas podem

parecem muito específicas, mas, no fundo, oferecem entradas transversais. Então, analise a oferta de disciplinas com muito cuidado. Suponha que o seu programa ofereça uma disciplina sobre o papel das mulheres na Revolução do Porto de 1820. Essa disciplina pode parecer interessar somente a quem estuda Portugal oitocentista, mas, por enfatizar o papel das mulheres, o professor ou professora certamente tratará de questões de conteúdo e metodológicas envolvendo as questões de gênero e História das Mulheres, o que pode contribuir para muitas pesquisas fora do escopo restrito da disciplina.

A maioria das disciplinas em programas de pós-graduação em

História é oferecida em português, mas há algumas que podem ser oferecidas em outras línguas, principalmente em inglês, por professores e professoras estrangeiros ou brasileiros. Você não precisa fazer disciplinas ministradas em outras línguas, mas esta pode ser uma boa forma de você treinar uma língua estrangeira que está meio enferrujada.

No momento em que escrevo este texto, o programa em História

Social da USP oferta 15 disciplinas para mestrado e doutorado. Dentre estas disciplinas, estão “The United States and South Africa in comparative perspective”, “Historiografias Atlânticas” e “História da família e História Social da População: São Paulo, séculos XVIII e XIX”.

Quantas disciplinas são necessárias? Dou novamente um exemplo

da minha pós, na UnB, que conheço melhor: para obtenção do título é necessário que os estudantes tenham um total de, no mínimo, 270 horas em disciplinas, que são distribuídas da seguinte maneira: 120 horas nas duas disciplinas obrigatórias da Área de Concentração, nomeadamente “Teoria e Metodologia da História” e “Seminário de Pesquisa”; 120 horas em disciplinas oferecidas por qualquer uma das Linhas de Pesquisa do PPGHIS/UnB; 30 horas em disciplinas optativas ou Monitoria II. Há programas de mestrado que oferecem “créditos especiais” para publicação de artigos, participação em congressos e outras atividades acadêmicas. Mas esse cálculo vai sempre variar de programa para programa.

É muito comum que as disciplinas do mestrado sejam cursadas no

primeiro ano, sendo o segundo ano dedicado exclusivamente à pesquisa e à escrita da dissertação. Em geral, as aulas acontecem duas vezes por semana, em encontros de 4 horas. Uma disciplina costuma ter 30 ou 60 horas. Com isso, você pode fazer as contas de quantas disciplinas, em média, se cursa em um mestrado. Não é muito, sobretudo quando comparamos com a graduação ou mesmo com especializações. No entanto, a carga de leitura no mestrado é muito maior do que na graduação. É comum que um professor ou professora não passe um texto para a próxima aula e sim um livro inteiro. Então, é preciso se dedicar bastante, organizar a semana, planejar o semestre. Também é provável que você precise ler textos em língua estrangeira, geralmente inglês ou espanhol. Mas não se preocupe se você não tiver pleno domínio dessa língua estrangeira. Caso tenha dificuldade, faça um grupo de estudos, procure colegas que conheçam bem o idioma e que possam ajudar você. Fique de olho nos cursos gratuitos que as universidades públicas oferecem todo semestre. Agarre cada oportunidade. Lembre-se sempre de uma coisa muito importante: no mestrado, você precisa desenvolver sua autonomia ao máximo.

Um erro muito comum de quem acabou de se formar ou ainda é

graduando é imaginar que em um mestrado em História Social, por exemplo, só se estuda o conceito de História Social, e que ao fim do mestrado, a pessoa sai sabendo tudo sobre História Social. Não é bem assim que as coisas funcionam. Se você entrou em um mestrado deste tipo, História Social será apenas a abordagem predominante. Você até vai ter uma disciplina focada em História Social, e vai aprender muito sobre ela, bem mais do que aprendeu durante a graduação, mas não vai estudar apenas isso. Você vai poder cursar disciplinas sobre períodos e temas diversos, muitas das quais dentro da sua linha de pesquisa.

O estudante ou a estudante tem liberdade para escolher que

disciplinas deseja cursar, mas eu diria que é recomendado que se divida essa decisão com o seu orientador ou orientadora. Quando eu fazia mestrado, lembro de ter feito uma reunião de orientação apenas para discutir quais disciplinas eu iria fazer. Minha orientadora respeitou minhas decisões, mas como ela vivia a pós-graduação há bastante tempo, pôde sugerir disciplinas que tinham mais a ver com os conceitos e metodologias presentes em meu projeto de pesquisa. Eu segui todas as recomendações e valeu muito a pena. Além disso, ela me deu ótimas sugestões de disciplinas externas que estavam acontecendo. 

As disciplinas em um mestrado são muito importantes. Mas não

perca de vista o seguinte: o mais importante na pós-graduação é a sua troca acadêmica, a sua pesquisa, a produção do conhecimento. Tudo é voltado para este fim – até as disciplinas. Na pós, você está sendo formado para ser um pesquisador ou pesquisadora. Ao fim do mestrado, o diploma vai dizer que você é mestre ou mestra em História Social ou em História da Ciência, por exemplo, mas você será mesmo especialista na sua pesquisa, no tema e no objeto sobre o qual se debruçou.

Aliás, isso é algo que precisamos deixar claro: no mestrado, o

estudante e a estudante não necessariamente vão aprofundar os conhecimentos gerais da graduação. O foco está no desenvolvimento de uma pesquisa de excelência. É claro que, em determinado ponto, o pesquisador ou pesquisadora aprofunda seus saberes, mas aprofunda seus conhecimentos dentro do universo que estuda. Se você tem um projeto sobre o a política antidrogas da Colômbia, por exemplo, você vai se tornar um especialista na história contemporânea colombiana e entender mais, por tabela, sobre a da história da América Latina.

Em alguns mestrados, a prática de “estágio de docência” conta

também como disciplina. É uma experiência bem interessante. Nela, o aluno ou aluna acompanha seu orientador ou orientadora na graduação, dando aulas supervisionadas ou participando de outras atividades de docência. A ideia é preparar esse mestrando ou mestranda para uma possível vida acadêmica como docente. Se você projeta se tornar um professor ou professora universitário/a, é muito importante que você faça estágio de docência. Falarei mais sobre estágio docência mais adiante, pois muita gente tem curiosidade sobre esse ponto.

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