Quero fazer mestrado em História!
Introdução: Meu Primeiro Dia de Aula
INTRODUÇÃO: MEU PRIMEIRO
DIA DE AULA
EU ESTAVA MUITO NERVOSO no meu primeiro dia no mestrado. Lembro bem daquele dia. Era uma manhã chuvosa no Rio de Janeiro e havia na sala de aula umas 15 pessoas. Eu não conhecia ninguém e estávamos todos esperando a professora chegar para apresentar aquele mundo novo e um tantinho aterrorizante. Eu olhava para o lado sem saber o que fazer e sem coragem para conversar. Não fazia ideia do que esperar: não sabia se ia gostar das aulas e das leituras, não tinha noção de como os professores e professoras agiam na pós-graduação, eu temia não estar à altura do desafio.
Depois que a aula começou, as coisas foram pouco a pouco se
acertando; os dias passaram e fui entendendo como funcionavam os ritos, os prazos, as atividades e as dinâmicas da pós-graduação. Fiz ótimas amizades (algumas duram até hoje) e desde o início me dei super bem com a minha orientadora. Mal percebi quando o mestrado acabou. Quando me dei conta, estava defendendo a minha dissertação diante de uma banca.
Durante o mestrado, contei com a ajuda de muita gente bacana para
sanar várias dúvidas. Acho que poucos mestrandos e mestrandas foram mais do que eu à secretaria para perguntar sobre disciplinas, histórico escolar, participação em congressos, entrega de relatórios etc. As pessoas me tranquilizavam quando eu pedia desculpas pela frequência: “olha, as coisas são assim mesmo, não se preocupe, a gente fica um pouco perdido, mas vai entendendo como funciona o mestrado durante o processo, no dia a dia”. Na época, eu aceitei que era assim mesmo, mas hoje, tendo acumulado uma boa experiência acadêmica, vejo que as coisas podem ser um pouco menos complicadas. É possível conhecer mais sobre a pós-graduação antes de entrar nela. Na verdade, eu diria que é altamente recomendável que você saiba o que é um mestrado e o que é a vida de um mestrando ou mestranda antes de se tornar um/uma! Isso pode evitar um monte de frustrações e inseguranças desnecessárias.
Na graduação, os professores e professoras costumam conversar
muito pouco sobre pós-graduação. Responda rápido: quantas vezes alguém lhe explicou alguma coisa sobre o mestrado quando você ainda era aluno ou aluna de graduação? Isso não é papo frequente de sala de aula entre os estudantes, nem professores e professoras têm o hábito de falar sobre mestrado e doutorado com os graduandos e graduandas, exceto em alguns poucos casos. Por exemplo, quando o aluno ou aluna acabou de defender o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e vem aquela pergunta do orientador ou orientadora: “e aí, vamos fazer mestrado?”. As pernas chegam a ficar bambas, não só porque é um grande passo na vida profissional, mas porque em geral se tem pouca ou nenhuma informação sobre o mestrado. Como é o processo seletivo? Eu preciso pagar mensalidade? O que é uma dissertação? Como são as aulas? É muito diferente da graduação? O que é esse negócio chamado “qualificação”?
Para muitos graduandos e graduandas, o mestrado, ou melhor, a pós-
graduação em História, é aquela outra sala dentro do Departamento de História. Dela, estudantes mais velhos e docentes entram e saem o tempo todo, sempre depois de aulas longuíssimas, carregados de livros e diversos papéis. Aquela é a sala onde são desenvolvidas atividades acadêmicas desconhecidas, superimportantes, mas aparentemente indecifráveis. Para quem ainda está na graduação, o programa de pós-graduação é quase um mundo à parte, inacessível, apartado do seu universo cotidiano de estudante. “Sei nem que roupa devo vestir para entrar ali!”
Quando eu me tornei professor universitário, passei a conversar com
os meus alunos e alunas de graduação sobre mestrado e doutorado, não só para ajuda-los em decisões futuras, mas também para desmistificar a pós-graduação. Percebi, ao longo dos anos, que muitos deixavam de fazer mestrado – e até mesmo o doutorado – porque pensavam: “aquilo não é para mim”. Isso não é verdade. Durante muito tempo, de fato, a universidade foi interditada àqueles que não faziam parte da elite econômica do país. Mas o perfil da universidade mudou bastante nos últimos 20 anos, para melhor – e ainda vai mudar mais. A universidade, hoje, é mais plural e inclusiva do que no passado. Segundo levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), o número de alunos e alunas negros/as e pardos/as saltou de 41% do total de matrículas na rede federal, em 2010, para 52%, em 2020. No que diz respeito a presença de indígenas, ocorre algo parecido: os índices passaram de 42% para 53% nesse mesmo intervalo de tempo. E segundo a 5ª Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos Graduandos das Instituições Federais de Ensino Superior (2018), 70,2% dos estudantes universitários possui renda mensal familiar per capita de até um salário mínimo e meio. Ainda há muito o que fazer, mas as conquistas são enormes. O elitismo acadêmico não pode ser mais aceito.
Levar esse papo para as minhas aulas foi muito bom, mas eu sempre
quis falar sobre isso para uma audiência maior do que a da minha sala de aula. Por isso, eu resolvi escrever este livro. Meu propósito aqui é “conversar” com você sobre o mestrado em História, explicar como ele funciona, de que forma você pode se preparar para um processo seletivo em História, como são as aulas, quais são as atividades acadêmicas de uma pós-graduação e muitas outras coisas que você sempre quis saber sobre o mestrado na área, mas teve medo de perguntar. O livro vai muito além de um “guia do processo seletivo”. Eu até falo bastante sobre isso, mas eu diria que o diferencial da obra é outro: nos próximos capítulos eu tento explicar, por exemplo, como é o dia a dia de um mestrado e o que fazemos com o título depois da defesa. Falo ainda sobre as disciplinas e as avaliações, sobre bolsas e as diferenças entre o mestrado acadêmico e o mestrado profissional. Acho que não existe nada no mercado editorial neste sentido. É possível encontrar ótimos livros que ajudam a montar um bom projeto de pesquisa (com todos os passos bem explicadinhos), mas poucos são aqueles que falam sobre o mestrado em si mesmo.
Se você é estudante de graduação e quer, desde já, entender o que é
um mestrado e uma dissertação, esse livro vai te ajudar bastante. Mas esse livro também é voltado para professores e professoras do Ensino Básico que se formaram há algum tempo e querem voltar a frequentar a universidade como estudantes. Esse livro pode ajudar igualmente àqueles que não possuem graduação em História, mas que desejam ter o mestrado nesta área. Também conheço essa realidade, pois além de historiador, sou jornalista, e tenho vários colegas jornalistas (e alguns que são advogados) que sempre foram apaixonados por História e querem se aprofundar na área, só não sabem como – na minha opinião, o mestrado é realmente uma belíssima oportunidade para fazer isso.
O foco do livro é a área de História e os historiadores de ofício, mas
se o leitor vem de áreas correlatas das Ciências Humanas ou Ciências Sociais Aplicadas, como Sociologia, Direito, Filosofia, Comunicação Social ou Antropologia, esse livro também pode ser muito útil, porque os processos seletivos nas Ciências Humanas costumam sem bem parecidos. E é por isso também que este livro pode auxiliar quem busca, na grande área das Humanidades, mestrados interdisciplinares.
Há muitos programas de pós-graduação em História no Brasil e eles
são diferentes. Cada programa possui sua autonomia e suas regras, logo, as experiências dos mestrandos e mestrandas também serão diferentes. Mas há muita coisa em comum entre eles. Por isso, esse livro existe. Esteja você interessado em fazer o mestrado em Maceió ou no Rio de Janeiro, esse livro vai poder te ajudar a entender onde você está prestes a chegar.
Eu gostaria muito de ter lido algo assim nos últimos semestres da
minha graduação em História, lá no início deste século, pois isso poderia ter evitado alguns passos em falso no início da minha carreira. O maior deles ocorreu no final de 2006. Eu ainda cursava História, mas tinha me formado em Comunicação Social. Assim que coloquei as mãos no meu diploma de jornalista, decidi que tentaria o mestrado em História. Eu trabalhava na época no mercado corporativo, mas já tinha certeza de que queria ser professor universitário, e isso não seria possível sem o mestrado. Fiz a inscrição no Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ. Eu tinha uma relação afetiva com a universidade e o curso de lá sempre foi conhecido por sua excelência – era o programa em que atuavam Carlos Fico, José Murilo de Carvalho, Manoel Salgado, Marieta de Moraes Ferreira, João Fragoso, Maria Paula Nascimento, Monica Lima, Manolo Florentino e tantos outros pesquisadores que nós historiadores e historiadoras aprendemos a admirar. Além disso, o IFCS está localizado no centro da cidade, sendo, portanto, de super fácil acesso para mim na época. Acontece que as coisas não saíram como eu esperava. Eu não passei nas provas e fiquei desolado. Vários pensamentos vieram à minha cabeça: “eu escrevia mal”; “não estudava direito”; “mestrado não era para mim”. Duvidei da minha capacidade. Só depois de alguns anos eu fui realmente entender o que tinha acontecido: eu adorava estudar e era ótimo em História, eu apenas tinha sido afoito. Na pressa de ingressar num mestrado, escrevi um projeto que não ficou legal e, sem saber como funcionavam as provas e a entrevista, acabei não me preparando bem para elas. No ano seguinte eu reelaborei o projeto, me informei melhor sobre o mestrado e o seu processo seletivo. Desta vez, deu certo. Curiosamente, fiz o mestrado em uma área “irmã” da História chamada Memória Social.
Se esta é a ironia deste livro – ele é escrito por uma pessoa que não
fez mestrado em História – talvez aí esteja precisamente o motivo pelo qual esse projeto tenha surgido e martelado minha cabeça por tanto tempo. E agora, com a experiência e conhecimentos acumulados, eu posso falar com propriedade deste assunto que me é tão próximo, embora não esteja no meu currículo. Afinal, eu construí toda a minha vida acadêmica em torno da História: tenho graduação em História, especialização em História, doutorado em História, pós-doutorado em História, sou professor do departamento e da pós-graduação em História da UnB e, portanto, oriento mestrandos, mestrandas, doutorandos e doutorandas em História. Além, claro, de participar de seleções de mestrado e doutorado na área. Vem dessa trajetória e vivências a maior parte das dicas que você encontrará adiante.
O que eu digo nos próximos capítulos vão te ajudar bastante, mas
atenção: o livro não pode ser visto simplesmente como o “mapa da mina”, especialmente no que diz respeito ao processo seletivo. Bancas são subjetivas e programas de mestrado possuem editais e regulamentos próprios, que mudam de tempos em tempos e de instituição para instituição. Em outras palavras, ler este livro não vai assegurar a sua aprovação no mestrado, mas vai te ajudar a planejar o próximo passo da sua carreira e também a se preparar melhor, tanto para o processo seletivo quanto para a vida de mestrando e mestranda. Então, tenha isso mente durante a leitura do livro, combinado? Espero que você goste de ler os capítulos a seguir, tanto quanto gostei de escrevê-los. No mais, mãos à obra e boa sorte!
Bruno Leal Pastor de Carvalho
Brasília, 20 de dezembro de 2022.
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