Quero fazer mestrado em História!

Bruno Leal Pastor de Carvalho · Capítulo 7 de 37

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Quero fazer mestrado em História!

4. Mestrado Acadêmico e Mestrado Profissional

4. MESTRADO ACADÊMICO E

MESTRADO PROFISSIONAL

 

HÁ DOIS TIPOS de mestrado em História: o mestrado acadêmico e o mestrado profissional. Os títulos são equivalentes. O mestrado acadêmico é o modelo mais antigo e comum no Brasil, que surgiu no início da década de 1970 no Rio de Janeiro, em São Paulo e no Paraná. Em geral, quem faz mestrado acadêmico deseja seguir carreira acadêmica. Se o seu desejo é ser professor ou professora do Ensino Superior, por exemplo, esse é o primeiro passo. Se você quiser se candidatar a uma vaga de pesquisador em um centro de pesquisa histórica, o mestrado acadêmico também é um pré-requisito. Mas ele pode ser procurado por pessoas que não têm a pretensão de seguir a carreira acadêmica. Profissionais de diferentes áreas que buscam qualificação de uma forma geral, por meio de pesquisa histórica, são muito bem acolhidos em um mestrado acadêmico, sem qualquer tipo de discriminação.

O mestrado profissional é muito parecido com o acadêmico, mas

com uma diferença fundamental: ele é focado na prática profissional. Isso não quer dizer que não haja pesquisa ou produção de conhecimento. Tudo isso está lá, mas sempre a serviço da atuação profissional. Hoje, como vimos, há mestrados profissionais voltados para professores e professoras do Ensino Básico e para quem atua na área de bens culturais. Assim como o mestrado acadêmico, o profissional também é feito em dois anos, existe a figura do orientador ou orientadora, há bolsas de estudos, diferentes linhas de pesquisa, processo seletivo e várias disciplinas que deverão ser cursadas. Ao final do curso, a depender do mestrado profissional, o mestrando ou mestranda deverá escrever uma dissertação ou texto dissertativo (algo entre um projeto e um relatório técnico), além de outros produtos possíveis: guias, oficinas, relatórios, canais audiovisuais, documentários, dentre outros.

O mestrado profissional em História nos incentiva a colocar nossa

atividade profissional no lugar de objeto de pesquisa: um de seus objetivos, com isso, é consolidar a relação entre universidade e mercado, produzindo reflexão crítica dos processos e práticas profissionais cotidianas, de modo a desnaturalizá-las, analisá-las e a melhorá-las. Ele não se restringe às atividades na área de Educação, em especial na Educação Básica, onde atuam a maioria dos historiadores e historiadoras, sendo comum em muitos outros espaços e mercados, como arquivos, bibliotecas e empresas privadas. Na minha opinião, os mestrados profissionais ainda vão se expandir muito nos próximos anos, graças à Lei 14.038 de 2020, que regulamenta a profissão de historiador no Brasil.

No Brasil, o maior e mais conhecido mestrado profissional em

História é o Mestrado Profissional em Ensino de História, o ProfHistória, criado em 2014. O ProfHistória é um mestrado profissional bem peculiar do ponto de vista organizacional. Ele é oferecido em rede nacional. A coordenação nacional está no Rio de Janeiro, na UFRJ, mas o ProfHistória está espalhado em diversas universidades pelo Brasil. É como uma espécie de “franquia”. Atualmente, o ProfHistória é o maior projeto de formação continuada de docentes em História do país. Seu maior objetivo é proporcionar formação continuada de qualidade aos docentes de História. O ProfHistória prevê 420 (quatrocentos e vinte) horas de atividades didáticas, correspondentes a 28 (vinte e oito) créditos entre disciplinas obrigatórias, optativas, eletivas e a defesa da dissertação. A organização curricular deve observar rigorosamente o projeto acadêmico pedagógico do ProfHistória, estruturado nas seguintes Linhas de Pesquisa:

I. Saberes históricos no espaço escolar;

II. Linguagens e narrativas históricas: produção e difusão; III. Saberes históricos em diferentes espaços de memória. No momento em que escrevo este livro, a rede do ProfHistória conta

com 39 instituições de Ensino Superior associadas. Ele igual em todos os lugares? De forma alguma! Quando o projeto foi lançado, eu entrevistei para o Café História a professora Marieta de Moraes Ferreira, especialista em Ensino de História e que por muitos anos foi coordenadora nacional do ProfHistória. Ela explicou essa estrutura de rede do ProfHistória da seguinte maneira:

“O que embasa o nosso trabalho vai muito mais na linha da teoria da História e da historiografia: desnaturalizar o conhecimento histórico. Tanto que na prova de seleção nós não colocamos uma bibliografia. Nós colocamos temas: memória, identidade, História e temporalidade, etc. São temas básicos para se falar da construção do conhecimento histórico. As disciplinas obrigatórias também possuem uma orientação nessa direção, enquanto que as disciplinas optativas podem ser criadas pelos próprios núcleos regionais. Até porque a realidade é muito diferente. Imagine um grupo de professores da Universidade Federal de Santa Maria ou da Universidade Federal do Rio Grande ou da Universidade Federal de Tocantins. São realidades muito diferentes. Então, provavelmente, é fundamental para a Universidade Federal do Tocantins ter, por exemplo, um curso sobre cultura indígena. Enquanto isso, na região sul, é fundamental ter uma disciplina sobre imigração alemã. Essa diversidade temática das disciplinas optativas vai ficar a cargo de cada núcleo regional” (Moraes, 2014).

Pode se candidatar a uma vaga no ProfHistória quem possui

diploma de curso superior de Licenciatura em História devidamente registrado no MEC e que esteja ministrando aulas de História em qualquer ano da Educação Básica (Ensino Fundamental e Ensino Médio) e também na Educação de Jovens e Adultos. Além de uma dissertação, o mestrado do ProfHistória demanda o desenvolvimento de um produto, em geral a ser aplicado em sala de aula, especialmente com estudantes, professores e professoras. Esse produto pode assumir muitas formas a depender da criatividade e da prática do mestrando ou mestranda: documentário, exposição, material didático, programas audiovisuais, projeto de intervenção em escola, em museu ou outros espaços. Eu participei de várias bancas de defesa de dissertações do ProfHistória. Em uma, o produto final foi um canal no YouTube, enquanto em outras duas foram guias escritos que visavam ajudar docentes a trabalharem com memes históricos em sala de aula. Todas foram experiências riquíssimas.

Tabela 1. Quadro de disciplinas do PROFHISTORIA da UNIRIO. Fonte: reprodução do

site da Unirio.

Disciplinas e Seminários Créditos / horas

Teoria da História 4/60

História do Ensino de História 4/60

Optativa 4/60

Optativa 4/60

Eletiva 3/60

Seminário de Pesquisa 3/45

Seminário Tutorial 3/45

Defesa da Dissertação 3/45

Total 28/555

 

Como vimos, s professores não são os únicos contemplados por

mestrados profissionais em História. Vejamos o caso do Mestrado Profissional em Bens Culturais e Projetos Sociais, da FGV/RJ. Surgido em 2003, ele é o pioneiro no país dentre os mestrados profissionais na área de História. Segundo explica o seu site, o programa “pretende qualificar profissionalmente aqueles que, tendo concluído o curso de graduação, atuem ou queiram atuar no planejamento, elaboração, desenvolvimento, gestão, assessoramento, difusão, acompanhamento ou avaliação de atividades e propostas voltadas para bens culturais – como acervos, patrimônio, centros de memória e de cultura, exposições e eventos – ou para projetos sociais – em especial aqueles que tomam a cultura como via privilegiada para o desenvolvimento da cidadania.” Não só formados em História que atuam na área cultural podem se interessar por este mestrado, mas turismólogos, museólogos e produtores culturais também, só para citar alguns exemplos. Outro exemplo desta diversidade é o Mestrado Profissional em Patrimônio Cultural, Paisagens e Cidadania da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, que, segundo seu site, “visa formar profissionais capacitados para atuar como agentes ativos nos processos de preservação, conservação e difusão do patrimônio cultural e natural brasileiros”.

Desde 2019, a Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR)

oferece o Programa de Mestrado em História Pública (PPGHP), o primeiro do gênero no país, com duas linhas de pesquisa: “saberes e linguagens”, “memórias e espaços de formação”. Ele é um mestrado acadêmico, mas tem várias características que encontramos em um mestrado profissional, visto que o historiador público atua em diversos espaços não acadêmicos, promovendo a História para diferentes audiências e em diversos espaços sociais. Fui professor-colaborador deste programa entre 2019 e 2022. Durante esse período, dei aulas, conferências e orientei um aluno que estudava histórias em quadrinhos. É um programa muito original e que tem tudo para crescer nos próximos anos. Uma das coisas que mais me chamou a atenção durante meu período como colaborador do PPGHP da UNESPAR foi a diversidade dos trabalhos: em 2022,Renan Lourenço da Fonseca defendeu a dissertação “História Pública e Orientalismo: investigações sobre cultura oriental e Zen Budismo a partir da persona de Monja Coen”, e em 2021 Camila Onofre se tornou mestra ao apresentar o trabalho “Cinema de horror e História Pública: Um olhar sobre as representações das mulheres nos filmes Grave (2017) e Orgulho e preconceito e zumbis (2016)”.

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