Quero fazer mestrado em História!

Bruno Leal Pastor de Carvalho · Capítulo 4 de 37

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Quero fazer mestrado em História!

1. O que É Mestrado?

PARTE I - ENTENDENDO O

MESTRADO

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1. O QUE É MESTRADO?

 

O MESTRADO é um tipo de pós-graduação e pode ser feito por qualquer pessoa com um diploma de graduação devidamente reconhecido/expedido pelo Ministério da Educação (MEC). Para participar de um mestrado, no entanto, é preciso que o candidato ou candidata se inscreva em um processo seletivo e seja aprovado nele. Todo mestrado está inserido em um programa de pós-graduação, no nosso caso, em um Programa de Pós-Graduação em História, que também pode oferecer cursos de doutorado e de especialização.

Para que serve o mestrado? Para muitas coisas. Em primeiro lugar, o

mestrado tem a ver com produção de conhecimento científico. Quando entramos em um mestrado em História, a expectativa é que o nosso trabalho de pesquisa possa contribuir para o avanço da historiografia. Mas o mestrado é também uma qualificação profissional. Com ele podemos progredir em nossas carreiras. Várias empresas e instituições, públicas ou privadas, possuem planos de carreira em que há a chamada “retribuição por titulação”, isto é, o/a profissional, à medida que obtém títulos em sua área, assume novas funções, recebe aumento no seu salário e pode alcançar posições de chefia. Também é muito comum que diversos concursos públicos, principalmente para a área docente, atribuam pontos para os candidatos e candidatas que apresentem os títulos de metrado e doutorado.

O mestrado tem duração de dois anos (há muitos anos – bons

tempos – eram três), podendo ser prorrogado por mais alguns meses, desde que justificado e autorizado. Neste período de dois anos, o mestrando ou a mestranda (quem faz o mestrado) deve desenvolver uma pesquisa individual, que é o principal objetivo do mestrado, além de cursar algumas disciplinas em turmas – porém, costumam ser disciplinas bem diferentes da graduação (veremos isso mais adiante). O mestrando ou a mestranda deverá participar de congressos, poderá dar aulas na graduação (sempre de forma supervisionada) e, ao final do curso, precisará defender um trabalho escrito e de natureza monográfica, a famosa dissertação. Se tudo correr bem, o mestrando ou a mestranda se faz mestre ou mestra.

Há diferentes programas de pós-graduação em História. Alguns vão

ter exatamente este nome (Programa de Pós-Graduação em História), como é o caso da Universidade de Brasília (UnB), da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). As siglas adotadas para se referir a cada programa, porém, podem ser ligeiramente diferentes. Nos casos citados, a UnB adota a sigla PPGHIS, a UFPA usa PPHIST e a UFRGS, PPGH.

Outros programas são nomeados de acordo com o “campo” da

História em que estão situados ou com a abordagem/perspectiva historiográfica com a qual se identificam. É o caso da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR), com seu Programa de Pós-Graduação em História Pública (PPGHP); e também da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que possui dois programas de pós-graduação em História: um em História Social (PPGHIS) e outro em História Comparada (PPGHC). O que define o nome deles é a área, o campo ou a abordagem. Há ainda os programas de pós-graduação que oferecem mestrados profissionais que costumam ser identificados pela sigla ProfHistória. 

Todo PPGH vai contar com pelo menos uma “área de concentração”

e com pelo menos uma “linha de pesquisa”. Qual a diferença entre “área de concentração” e “linha de pesquisa”? A resposta para essa pergunta não é fácil. O pesquisador Jairo Eduardo Borges-Andrade (2003) aponta que no Brasil os dois conceitos não são muito claramente definidos. Mas nós podemos dizer, de forma didática e a partir do trabalho de Borges-Andrade, que a “área de concentração” tem um escopo mais amplo, delimitando um determinado domínio da História, enquanto a “linha de pesquisa” tem escopo um pouco mais restrito, indicando um foco ou abordagem de pesquisa.

Ficou difícil de entender? Confira então este exemplo. O PPGHIS

da UnB, onde eu sou professor, tem uma única área de concentração: “Sociedade, Política e Cultura”. Podemos dizer que esta área de concentração “abriga” quatro linhas de pesquisa: 1. “História Cultural, Memórias e Identidades”, 2. “História Social e suas múltiplas formas”, 3. “Ideias, Historiografia e Teoria” e 4. “Política, Instituições e Relações de Poder”.

Cada professor e professora do programa de pós-graduação se

vincula a uma única linha de pesquisa, de acordo com sua especialidade e foco acadêmico. E também é assim com cada pós-graduando ou pós-graduanda. Portanto, no seu planejamento de ingresso no mestrado, é fundamental observar a sintonia entre o projeto que você pretende desenvolver e as linhas de pesquisa do programa de pós-graduação no qual você pretende se inscrever. São elas que vão servir de parâmetro para a alocação dos projetos de pesquisa no programa. Vamos novamente a um exemplo: se um projeto de pesquisa discute disputas de poder no Ministério da Justiça durante o segundo governo Vargas, ele vai se encaixar bem em uma linha de pesquisa sobre “política” ou sobre “instituições”.

É possível que um professor ou professora pertença a mais de um

programa de pós-graduação? A resposta é sim. Eu mesmo, entre 2019 e 2022, fui docente do PPGHIS da UNB e professor-colaborador do PPGHP da UNESPAR. Neste período, orientei pesquisas com enfoques bem diferentes, em sinergia com o programa de pós-graduação e a linha de pesquisa a que eu estava vinculado.

Às vezes, um projeto pode se encaixar bem em mais de uma linha

de pesquisa, cabendo ao candidato ou candidata escolher a qual linha aderir. Alguns programas de pós-graduação podem exigir que se escolha a linha no momento do processo seletivo, enquanto outros só pedem isso depois da aprovação. A definição de uma linha de pesquisa vai indicar determinadas disciplinas que serão cursadas durante o mestrado e (quase sempre) delimitar quem vai realizar a orientação da pesquisa. Mas não se trata de uma divisão rígida dentro do programa – no dia a dia, as pessoas, independente de suas linhas, circulam livremente, encontram-se, debatem, cursam disciplinas juntas, enfim, fazem a mesmíssima pós-graduação.

Para fazer um mestrado é preciso passar em um processo seletivo

disputado, com diversas etapas – que pode ser longo, difícil e quase sempre muito concorrido. O número de vagas não é fixo, geralmente variando entre 15 e 25 por ano. Essas vagas são distribuídas por todas as linhas de pesquisa do programa e valem para todos os candidatos e candidatas, não importa a modalidade de ingresso. As bancas não são obrigadas a preencher todas as vagas. Isso significa que um processo seletivo pode oferecer 20 vagas, receber 40 inscrições, mas aprovar apenas 18 ao avaliar que os demais projetos e candidatos ou candidatas não preencheram os requisitos mínimos de ingresso naquele programa.

Em geral, os editais dos mestrados em História são tornados

públicos pelos programas de pós-graduação por volta de julho e agosto, com todas as etapas do processo ocorrendo até novembro ou dezembro, para início das turmas no ano seguinte. Mas não há regra. Há programas de pós-graduação que fazem seus processos mais cedo – nosso caso aqui na UnB, cujos editais são publicados por volta de maio, visando ingresso de novas turmas no segundo semestre do mesmo ano. Infelizmente, não existe nenhum site que reúna todos os editais de mestrados em História que são publicados no Brasil. Esta seria uma ótima prestação de serviços! Por ora, é preciso acompanhar os sites dos programas para os quais se deseja candidatar e ficar de olho nos prazos de cada um. Dica: crie uma pasta em seu navegador com os links dos programas para os quais você pretende aplicar e anote em sua agenda no celular os prazos de cada um deles. As inscrições, atualmente, costumam ser feitas exclusivamente por meio de sistemas eletrônicos.

Os programas de pós-graduação podem solicitar diferentes

documentos no ato de inscrição. Aqui na UnB, por exemplo, no sistema de ampla recorrência é solicitada uma ficha pessoal preenchida, projeto de pesquisa, cópia de diploma de graduação (ou declaração de provável formando), histórico escolar de graduação, exemplar digital do currículo lattes atualizado, número de registro no Open Researcher and Contributor ID (já já falarei mais sobre ele), cópia do documento de identidade, cópia do documento ou do comprovante de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) e comprovante do recolhimento da taxa de inscrição. Quando aprovado, o mestrando ou mestranda ganha um número de matrícula e carteira de estudante.

Ao longo do mestrado, o mestrando ou mestranda vai cursar

disciplinas, vai ter um orientador ou orientadora, participar de uma turma e ocupar-se de diversas atividades acadêmicas, como apresentação de trabalhos, desenvolvimento de artigos, produção de relatórios para agências de fomento à pesquisa e, claro, vai assistir às aulas. O mestrado é um título, mas para obter esse título não basta a aprovação em todas as disciplinas e participação adequada nas demais atividades acadêmicas: é preciso escrever uma dissertação (logo mais vamos explicar o que ela é) e que esta dissertação seja aprovada por uma banca de professores doutores e/ou professoras doutoras.

Alguns editais de mestrado estabelecem que o candidato ou

candidata deve ser graduado/a em História ou em área afim em curso superior credenciado e reconhecido pelo MEC, enquanto muitos outros não estabelecem área da graduação, devendo apenas este curso de graduação ser reconhecido e credenciado pelo MEC. Na minha graduação em História, lembro de um professor que tinha mestrado e doutorado em História, mas era graduado em Física. A maioria dos programas permite que o candidato ou candidata participe do processo seletivo enquanto ainda está terminando sua graduação. Mas, no ato da inscrição no mestrado, em caso de aprovação, essa pessoa precisa apresentar uma certificado oficial de conclusão da graduação. Não há um tempo mínimo ou máximo de formado como pré-requisito para o mestrado: tanto faz você ter se graduado há um mês ou há 20 anos. Não faz diferença ainda se você se graduou em uma universidade particular ou pública, se em curso presencial ou a distância, se estudou em um grande centro urbano ou numa cidade do interior, nem mesmo se o mestrado que você quer fazer está dentro da sua universidade de origem ou não. É a competência do candidato ou candidata nas diversas etapas do processo seletivo que vai definir a aprovação ou não. Mas, atenção: não existe um Sistema de Seleção Unificada (SISU) para mestrados. Cada mestrado possui seu próprio processo seletivo.

Não há, vale dizer também, restrição territorial: é possível fazer o

mestrado em qualquer estado da Federação. Se a pessoa for aprovada no processo seletivo, ela poderá fazer sua matrícula normalmente, não importa onde nasceu ou reside atualmente, desde que tenha condições, claro, de estar presente nas aulas, reuniões e outras atividades acadêmicas. Atualmente, no Brasil, só há mestrados em História no formato presencial. No exterior há algumas opções à distância. Também é possível fazer mestrado no Brasil com um período determinado de estudo e/ou pesquisa no exterior (falaremos sobre isso mais à frente). É possível fazer o mestrado com bolsa de estudos ou sem bolsa de estudos. A ordem de classificação no processo seletivo costuma ser um dos critérios para definir quais estudantes cursarão o mestrado como bolsistas.

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