Quero fazer mestrado em História!

Bruno Leal Pastor de Carvalho · Capítulo 6 de 37

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Quero fazer mestrado em História!

3. A História do Mestrado em História

3. A HISTÓRIA DO MESTRADO EM

 

HISTÓRIA

 

DURANTE MUITO TEMPO não havia mestrados em História no Brasil. Quem quisesse fazer mestrado na área precisava sair do país. Isso começou a mudar no início da década de 1970, logo após do processo de institucionalização das pós-graduações no país, impulsionada a partir do Parecer nº 977/65 do Conselho Federal de Educação, que definiu e fixou as características dos cursos de mestrado e doutorado no Brasil.

O primeiro curso de mestrado em História credenciado pelo antigo

Conselho Federal de Educação foi o da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Essa primeira experiência teve início em outubro de 1972. O mestrado era oferecido na área de História do Brasil, com as opções de História Econômica e História Demográfica, que faziam muito sucesso naqueles anos. Mas antes desses mestrados já havia outros em funcionamento, embora ainda não reconhecidos formalmente pelas instâncias superiores.

Os mestrados em História pioneiros em nosso país foram criados

por aqueles que depois se tornariam o Programa de Pós-Graduação em História Econômica da Universidade de São Paulo (USP) e o Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense (UFF), em 1971. Os paulistas começaram a sua experiência mesclando nomes consagrados da historiografia – como Eurípedes Simões de Paula e Olga Pantaleão –, com os de jovens historiadores – como Fernando Antonio Novais e Edgard Carone. Em pouco tempo, o novo mestrado da USP passou a receber estudantes que vinham de outras áreas, da Economia à Engenharia. Já no caso dos fluminenses, o processo de organização e execução do mestrado em História contou a liderança de Aidyl de Carvalho Preis e Francisco Falcon (Vainfas, 2017, p.3). A primeira dissertação foi ali defendida em 29 de julho de 1974, intitulada “A Evolução do Sistema Financeiro na Época Vargas”, de Geraldo de Beauclair Mendes de Oliveira (ele próprio viria a ser professor do Instituto de História da UFF), orientado pelo historiador norte-americano especializado em História do Brasil, Stanley Hilton. Essa dissertação teve 67 páginas, um número bem menor do que a média das dissertações atuais, que têm cerca de 150/200 páginas. Na época, explica Falcon, foram contratados historiadores que estudavam História do Brasil, popularmente conhecidos como “brazilianistas”, caso do citado Hilton, orientador de Oliveira, e também de Richard Graham. “Os motivos dessa opção por professores norte-americanos e não por professores da USP, por exemplo, têm a ver, segundo a professora Aidyl Preis, com uma oferta da CAPES no sentido de financiar sua contratação” (Falcon, 2013, p.25).

Em poucos anos, outras regiões do país foram ganhando os seus

mestrados em História. O Centro-Oeste ganhou o seu primeiro na Universidade Federal de Goiás (UFG), em 1972. Pouco depois, em 1976, foi a vez da UnB. No Nordeste, o pioneirismo foi da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que teve seu mestrado em História inaugurado em 1974. Esse mestrado formaria gerações de historiadores e historiadoras que depois atuariam em vários estados brasileiros. É curioso notar como o processo seletivo do mestrado em História da UFPE, assim como muitos outros da época, tinham exigências bem diferentes das de hoje. Em anúncio publicado no Diário de Pernambuco, em 1973, o professor Vamireh Chacon, então coordenador daquele mestrado, listava os requisitos para a inscrição no processo seletivo, dentre os quais estavam: “título de eleitor”, “atestado de idoneidade moral” e “exame psicológico”. Os pernambucanos ofereciam 25 vagas (número próximo ao da maioria dos mestrados atualmente) e a nota mínima para aprovação era 7. Até o final de 2019, de acordo com dados oficiais daquele programa de pós-graduação em História, foram aprovadas 636 dissertações de mestrado e 238 teses de doutorado (o doutorado entrou em funcionamento em 1991).

Em 1977, a historiadora Cecília Maria Westphalen, que atuou por

muitos anos como professora do Programa de Pós-Graduação em História da UFPR, publicou na Revista Brasileira de História (RBH) um estudo inédito sobre a situação dos programas de pós-graduação em História no Brasil. Naquele ano, segundo levantamento de Westphalen, estavam em funcionamento 6 programas de mestrado em História no país, com clara concentração nas regiões sul e sudeste: USP (1971), UFF (1971), UFPR (1972), PUC-SP (1972), PUC-RS (1973) e UFPE (1974). No total, já tinham sido titulados 83 mestres em História no Brasil: 29 pela USP, 21 pela UFPR, 18 pela PUC-SP e 15 pela UFF. Nessa listagem, a historiadora não incluiu o programa da Universidade Federal de Goiás (UFG) por “não considerá-lo Programa autônomo, mas como extensão do Programa da Universidade de São Paulo, que, mediante Convênio, enviou os professores que ministram disciplinas, sendo que os concluintes defendem suas dissertações na própria USP” (Westphalen, 1977, p.410).

Desde então, os programas de pós-graduação em História no Brasil

cresceram e se consolidaram; deixaram as grandes capitais e se interiorizaram, alcançando mais e mais parcelas da sociedade. As políticas públicas dos dois primeiros governos Lula (2003-2010) foram fundamentais para o desenvolvimento do Ensino Superior como um todo. Muitos investimentos foram feitos em universidades do país inteiro, aumentando o número de instituições de ensino, docentes e discentes. A maior dessas políticas foi certamente o (Programa) de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), que de acordo com o Decreto Nº 6.096/2007, que o instituiu, tem por objetivo “criar condições para a ampliação do acesso e permanência na educação superior, no nível de graduação, pelo melhor aproveitamento da estrutura física e de recursos humanos existentes nas universidades federais.” Os resultados vieram rapidamente: o número de municípios atendidos por universidades federais passou de 114 em 2003 para 237 até o final de 2011. Desde o início da expansão foram criadas 14 novas universidades e mais de 100 novos campi que possibilitaram a ampliação de vagas e a criação de novos cursos de graduação.

Outro capítulo importante desta história é o dos mestrados

profissionais em História. Em 2003, foi aprovado o primeiro mestrado profissional em História no Brasil, na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, voltado para a questão de bens culturais e projetos sociais. Em 2014, foi a vez do primeiro mestrado profissional em rede nacional, o ProfHistória, voltado para a qualificação de professores e professoras de História que atuam no Ensino Básico.

Nos últimos 10 anos, com a expansão das políticas afirmativas e de

reparação histórica, um número crescente estudantes negros, negras e indígenas, oriundos de escolas públicas, vem tendo acesso aos programas de pós-graduação em História. Em 2020, Izaque João se tornou o primeiro indígena Kaiowá a defender uma dissertação em História, na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Ainda há muito mais a se fazer para ampliar o acesso à pós-graduação e torná-la mais plural, mas já podemos perceber as turmas de pós-graduação se tornando mais diversas, ainda que este esteja sendo um processo muito lento. Hoje, as turmas dos cursos de pós-graduação em História expressam muito mais representatividade do que no passado. Essas mudanças têm muitos efeitos positivos. Os temas, os debates e os projetos de pesquisa são alguns desses efeitos.

Segundo Carlos Fico, Claudia Wasserman e Marcelo de Souza

Magalhães, ex-coordenadores da área de História na CAPES, o período de 2000 a 2018 viu a proliferação de novos cursos, em diferentes instituições e regiões do Brasil. “Dos 62 cursos de mestrados acadêmicos existentes, 38 cursos, ou 61%, foram criados nos últimos dezoito anos. No caso dos doutorados, no mesmo período foram criados 24 dos 38 cursos existentes, ou 63%. Tal intensificação fica mais evidente com os dados sobre os cursos de mestrado profissional: um dos cursos foi criado em 2003, ficando solitário por quase uma década, e os nove restantes entre 2012 e 2016” (Fico; Wasserman; Magalhães, 2018, p.268).

Apenas três estados da federação não possuem, atualmente,

mestrados acadêmicos em História. Todos estão na região Norte: Acre, Roraima e Tocantins. Por outro lado, esses estados possuem o mestrado profissional em Ensino de História, o ProfHistória. O estado do Rio de Janeiro é o estado com o maior número de programas de pós-graduação em História: 25 no total. Ele é seguido por Rio Grande do Sul (14), São Paulo (13) e Minas Gerais (12). Esses dados mostram que, apesar dos avanços expressivos registrados nos últimos 20 anos, os mestrados em História ainda se concentram na região Sudeste.

Em 2022, algumas das experiências pioneiras de mestrado em

História celebraram 50 anos. É o caso da UFG, que na ocasião publicou o e-book gratuito “50 anos de Pós-Graduação em História na UFG”, organizado por Marlon Salomon e outros pesquisadores e pesquisadoras. Também é o caso da UFPR, que celebrou os seus 50 anos de seu Programa de Pós-Graduação em História com uma série de homenagens e discursos. Use o QR Code abaixo para ler, na íntegra, o discurso da então coordenadora deste programa, a professora Ana Paula Vosne Martins:

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