Schistosoma mansoni e esquistossomose

Omar dos Santos Carvalho · Capítulo 39 de 40 · parte 3/3

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Schistosoma mansoni e esquistossomose

35 – Educação em Saúde no Controle da Esquistossomose Virgínia Torres Schall, Cristiano Lara Massara e Maria Cecília Pinto Diniz

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

A esquistossomose é uma doença que, em si, é mobilizadora no município, podendo ser trabalhada como um tema gerador nas escolas, na perspectiva do método de Freire (1994). As palavras geradoras favorecem uma educação crítica, estimulando a consciência da cidadania. Assim, a educação em saúde foi incluída nas escolas como mobilizadora de novos conhecimentos, de reflexão política e percepção das possibilidades de transformação necessárias a uma vida de melhor qualidade.

Portanto, a elaboração de um projeto integrado de controle da esquistossomose e de outras verminoses tomou por base o trabalho com escolares e suas famílias e com professores de quatro escolas da localidade de São José de Almeida, município de Jaboticatubas. O projeto foi construído a partir de reuniões com professores, autoridades municipais das áreas de saúde e educação, entrevistas com profissionais municipais das referidas áreas e com os alunos e uma amostra de familiares.

Após a escolha do tema esquistossomose, as etapas do estudo incluíram:

atualização do diagnóstico da doença entre os professores, alunos e familiares; tratamento dos infectados (Massara et al., 2004);

investigação dos conhecimentos prévios dos alunos e professores sobre a doença (Diniz, Braga & Schall, 2003);

curso para os professores;

acompanhamento, avaliação e supervisão de projetos desenvolvidos pelas escolas para estimular a continuidade e sustentabilidade das ações;

estímulo à integração do tema a outros relativos à saúde e ao meio ambiente.

Como pré-requisitos para as ações pedagógicas, foram pesquisadas e analisadas as representações sociais, sobre a esquistossomose, de escolares da região (Massara, 2003), e realizados cursos de atualização de professores sobre temas relacionados ao controle dos problemas focalizados e apresentação de novas metodologias (Brandão, 1981). As escolas foram incentivadas, mediante reuniões e encontros com as equipes de supervisão e professores, a desenvolver projetos integrados, os quais permitiram uma abordagem pedagógica de saúde e ambiente como temas transversais, com grande sucesso. Por meio de grupos focais com os professores, foi feito um acompanhamento qualitativo do projeto.

Metodologia e Desenvolvimento do Projeto

O trabalho foi realizado em quatro escolas públicas do município de Jaboticatubas. O projeto incluiu 1.466 alunos e seus familiares, estimando-se uma população de mais de 4.500 pessoas, aproximadamente 35% da população do município.

No início, a equipe de pesquisadores começou um trabalho em parceria com as escolas, percebendose uma participação muito promissora. Na primeira fase do projeto, as professoras colaboraram muito com as atividades voltadas para o diagnóstico, sensibilizando os alunos a trazerem material para o exame de fezes, bem como informações para as visitas dos pesquisadores às áreas de campo visando à identificação dos locais de risco de transmissão da doença e coleta de moluscos vetores. Desde essa etapa, a equipe alugou uma casa no distrito e intensificou o relacionamento com as escolas e a comunidade, numa perspectiva da pesquisa participante (Brandão, 1981), o que contribuiu, em muito, para o sucesso do projeto.

Numa segunda etapa, o compromisso de montar projetos sobre saúde em parceria com as escolas foi fortalecido pela realização do curso de educação em saúde para o controle da esquistossomose, ministrado para 33 professores das quatro escolas selecionadas (Massara, 2003).

O curso objetivou informar, construir conhecimentos e estimular esses educadores a atuarem como multiplicadores junto aos seus colegas, aos seus alunos e também a sua comunidade. A discussão sobre pressupostos da educação libertadora (Freire, 1994) foi acompanhada de aulas práticas relacionadas à esquistossomose, sempre abordadas de forma problematizadora. Além de aprenderem noções básicas da doença: ciclo, transmissão, patologia, diagnóstico, tratamento e prevenção, todas as quatro escolas receberam um kit de materiais para o trabalho.

O material incluía: fita de vídeo com informações sobre a doença (Rosemberg, 1995); coleção de conchas de moluscos transmissores; livro O Feitiço da Lagoa, da coleção Ciranda da Saúde (Schall, 1986) ; amostras de vermes (S. mansoni, Taenia sp e Ascaris lumbricoides); pinças e luvas. Foi distribuída pasta com o Manual do Agente de Saúde Pública - Esquistossomose, e o Guia Texto - Esquistossomose mansoni, ambos editados pela Fundação Nacional de Saúde (ministério da Saúde); apostila de coleta de moluscos e identificação de cercárias, elaborada por Massara, Barros & Silva (2002), com colaboração dos Laboratórios de Helmintologia e Malacologia Médica e Educação em Saúde do CPqRR/Fiocruz e duas apostilas sobre água e saúde, a primeira intitulada Projetos e Ações Integradas - manual para professores, profissionais de saúde e líderes comunitários e a segunda, Saber para Prevenir (Schall, 2002a, 2002b).

Foram realizadas aulas teóricas com especialistas convidados de cada área do conhecimento relativa ao tema e aulas práticas com o objetivo de enriquecer e sedimentar os novos conhecimentos. Como dinâmica foi solicitado aos professores que fizessem perguntas sobre esquistossomose, as quais orientaram os conteúdos, sendo, pois, respondidas no decorrer do curso. Algumas oficinas (Miranda, 1995) permitiram dinamizar as aulas.

O conteúdo específico incluiu, nas aulas expositivas, questões como a chegada e instalação da doença no Brasil, a situação atual no país e o ciclo biológico de S. mansoni. Os professores demonstraram muito interesse pelas aulas e relataram suas experiências com a doença ou a de amigos e familiares. Na parte prática, para efeito comparativo, foram apresentadas caixas com moluscos do gênero

Biomphalaria, transmissores da esquistossomose (Figura 11), e outras com moluscos não transmissores. Foram feitas demonstrações de como os moluscos deviam ser coletados, embalados, etiquetados e remetidos ao laboratório para análise. Também foram examinados com lupa caramujos experimentalmente infectados, sob luz artificial e por esmagamento, para se observar a presença de cercárias; além de outros tipos de cercárias, para comparação quanto a tamanho, bifurcação da cauda e morfologia.

Figura 11 - Apresentação das caixas com moluscos do gênero

Biomphalaria, transmissores da esquistossomose que podem ser

encontrados no ambiente local

 

Foto: arquivo de imagens do Laboratório de Helmintologia e

Malacologia Médica.

Em outras aulas foram ministradas noções de diagnóstico, com ênfase no método quantitativo de Kato-Katz (Katz, Chaves & Pellegrino, 1972), em que cada participante, após coleta de material, teve a oportunidade de realizar seu próprio exame. Lâminas positivas foram montadas e colocadas em microscópios para

observação dos ovos de S. mansoni e de outros vermes (Figura 12).

Figura 12 - À esquerda: aula prática sobre o método quantitativo de Kato-Katz, em que cada professor participante teve a oportunidade

de montar duas lâminas com o seu próprio material. À direita:

Alunos observam ovos e larvas de Schistosoma mansoni ao

microscópio

 

Foto: arquivo de imagens do Laboratório de Helmintologia e

Malacologia Médica

O médico da equipe falou sobre sintomatologia, tratamento, cura e reinfecção. A atividade foi enriquecida por depoimentos dos professores sobre suas vivências com a doença e as de seus familiares, além do tratamento que era feito há anos pela Fundação Nacional de Saúde (FNS).

Apresentou-se aos professores os resultados obtidos com a pesquisa, como: prevalência da doença nos escolares e nas famílias, percentuais de famílias que tinham acesso à rede de esgoto, de água (com uso de filtro), fossa (e sua localização), energia elétrica e destino do lixo; a freqüência e motivos pelos quais as pessoas da área tinham contato com as águas dos córregos e riachos do local; número e localização dos caramujos coletados, com porcentagem de infectados. Estreitou-se parceria, para exames e tratamentos periódicos, entre o posto de saúde e as equipes do Programa de Saúde da Família e os residentes do programa de internato rural da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ênfase deve ser dada ao processo de descentralização das ações de controle das verminoses para a rede de atenção básica, o que foi demandado pelo projeto.

A pedagoga da equipe também apresentou resultados de sua dissertação de mestrado, desenvolvida na área, sobre a representação social do grupo estudado (Diniz, 2003). As representações dos escolares não estavam ancoradas ao conhecimento internalizado por práticas escolares de educação e saúde, e sim baseadas apenas nas informações que pais e professores tinham ‘apreendido’ nas campanhas de períodos em que a esquistossomose era ainda um problema muito mais grave do que até então. Tais resultados demonstraram a força da educação informal, aquela que se dá nas interações do dia-a-dia, e o equívoco das metodologias tradicionais de transmissão de informações nas escolas. Mostraram, ainda, a necessidade de trabalhos que enfoquem questões como prevenção, saneamento e o envolvimento de autoridades e da comunidade, além de exemplos bem-sucedidos de controle da doença.

Discutiu-se ainda com os professores em treinamento:

modelos de projetos integrados em educação em saúde que priorizam, em sua elaboração, partir da realidade dos alunos, permitindo melhor compreensão de demandas e problemas e facilitando a construção participativa de conhecimentos;

perspectivas de uma educação problematizadora e a importância da esquistossomose como um tema gerador que possa motivar reflexões sobre o seu ambiente, a questão da água, direitos do cidadão e políticas públicas;

elaboração de projeto de planejamento estratégico para alcançar os objetivos propostos em permanente colaboração, especificamente com os alunos, e com a comunidade em geral;

necessidade de análise exploratória sobre a esquistossomose na região, com identificação e investigação sobre as formas de transmissão da doença e de sua relação com o meio ambiente e hábitos da população.

Como estratégias foram priorizadas possibilidades de projetos que garantissem o envolvimento dos alunos e a observação de seus hábitos, realização de entrevistas com as famílias, criação de jornal ou revista para a divulgação dos resultados, criação coletiva de histórias próprias da comunidade, organização de feiras de ciências, concurso entre as escolas incluindo os familiares e por fim o

estabelecimento de um plano de melhorias sanitárias (Figura 13).

Destacou-se também a necessidade de se efetivar um plano de avaliação do projeto, preferencialmente com o apoio da prefeitura (secretarias de Educação e Saúde), das associações de bairro e das famílias.

Ponto de grande interesse do curso, na parte prática, foi a dissecação de camundongos normais e experimentalmente infectados. Isto possibilitou a comparação entre animais com alterações patológicas da doença, como as que ocorrem no fígado, e a observação, com auxílio de lupa, da presença de vermes no

intestino (Figura 14). Este fato concreto aumentou o grau de percepção dos agravos da doença, reforçando, assim, a atenção para o seu controle, como foi verificado posteriormente nos grupos focais. Tal prática, apresentada em vídeo, pode ser divulgada para numerosas escolas de áreas endêmicas.

Figura 13 - Atividades com professores e alunos na sala de aula e

no campo

 

Foto: arquivo de imagens do Laboratório de Helmintologia e

Malacologia Médica

Figura 14 - Dissecação de camundongos experimentalmente

infectados e não infectados

 

Foto: arquivo de imagens do Laboratório de Helmintologia e

Malacologia Médica

Em relação ao ambiente, abriu-se o campo para discussões sobre o conceito e a situação de saneamento básico no próprio município e no país. Dados sobre a situação do Brasil no ano do projeto (2003/2004) foram apresentados, como a informação de que 98% dos municípios eram atendidos por algum tipo de serviço de abastecimento de água, mas apenas 64% eram abastecidos por rede pública. Menos de 50% dos municípios tinham serviço de esgotamento sanitário, dos quais em 85% dos casos o esgoto era lançado diretamente nos rios e em 80% dos municípios brasileiros os esgotos não eram tratados. Estes dados foram comparados com os do próprio município, gerando assim discussões para busca de soluções adaptadas às condições locais. O debate sobre a relação entre diversas doenças ocasionadas pela falta de saneamento básico foi importante para se fazer repensar propostas, ações e intervenções.

Na parte prática, deu-se ênfase aos diversos tipos de tratamento de esgotos, metodologias do tratamento primário e secundário e construção de diferentes tipos de fossas, seus custos, vantagens e desvantagens.

Por fim, o curso reservou espaço para a definição e elaboração de projetos que foram desenvolvidos pelas escolas, além da identificação dos professores-chave que se responsabilizariam pelo processo em cada escola.

O projeto teve continuidade com grupos focais de professoras e alunos das quatro escolas, de modo a estimular novas propostas pedagógicas e seguimento dos projetos integrados.

Alguns depoimentos das professoras participantes ilustram as possibilidades dessa alternativa de trabalho, como abaixo descrito:

Participando do curso reforcei alguns conhecimentos e adquiri

novos (e muitos) que desconhecia. Porém precisava continuar

estudando sobre o assunto, pois assim terei base maior e

melhor, buscando sensibilizar pessoas (alunos, familiares dos

alunos, comunidade em geral) quanto da importância do

mesmo: transmissão, causas, conseqüências. Não imaginava

que o assunto fosse tão interessante. Importante é que ainda

estava desconhecido de nós, formadoras de opinião de

pessoas, lutando por cidadania (professora A).

Buscarei usar os conhecimentos adquiridos na busca de

sensibilização das pessoas quanto à importância do tema em

questão. Poderei aplicar estes conhecimentos no campo social

onde atuo (família, escola e comunidade escolar; comunidade

através da Associação Comunitária, do Projeto Manuelzão, da

Conferência São Vicente de Paula), em todos estes buscamos

com que as pessoas melhorem suas condições de vida, que

tenham boa saúde. Na prática poderei utilizar dos meios:

palestras, filmes, visitas técnicas, folhetos informativos, busca

de parcerias e outros (professora C).

Após o curso, os professores desenvolveram diversos projetos com os alunos, que incluíam atividades variadas em sala de aula e também extracurriculares. Uma das professoras expressou as possibilidades de inserir a saúde em todas as matérias curriculares, como conta:

Foi possível incluir a saúde em tudo, matemática, português,

história, geografia, globalização, ciências, até em ensino

religioso desenvolvemos um projeto contendo sobre estas

coisas aí, o que deu para trabalhar nós trabalhamos, dentro das

palavrinhas que eles iam descobrindo (professora D).

Um grande evento foi organizado no final da primeira fase do projeto para apresentação dos trabalhos, momento este de participação de famílias. A equipe de coordenação conseguiu fazer um acompanhamento do projeto, por intermédio dos grupos focais. Os professores continuaram a desenvolver diversos projetos, excursões para observação local e intervenções no ambiente, mobilizando a comunidade. Alguns realizaram dias temáticos sobre preservação das águas, coleta seletiva de lixo, entre outros, com passeios pela comunidade, apontando iniciativas compromissadas e participativas.

Em relação à esquistossomose, há relatos interessantes, dos professores e alunos, que apontam para atitudes mais positivas frente a cuidados específicos e a prevenção da doença. Observou-se nos grupos envolvidos maior percepção e compreensão dos riscos da doença, além de uma mudança dos hábitos refletidos na busca de diagnóstico e nos cuidados para evitar a infecção. Os relatos abaixo evidenciam esta mudança:

Eu li com a turma um livro de histórias O Menino do Rio, aí eu

tava lendo e na capinha tinha um menino barrigudo, não falei

em xistose hora nenhuma e quando cheguei no meio do

capítulo eles me disseram: ‘é xistose, é xistose’ (professora N).

É bem marcado mesmo, porque esse ano, sem que eu tocasse

no assunto, nem nada, não estava nem pensando nessa

história, e quando a gente começou a trabalhar o Projeto da

Água, aí eu coloquei no quadro assim: Água do Bem; do outro

lado, Mal da Água. Aífoi um por um, tinha que ser rápido, uma

palavra só, quando chegou no Mal da Água a primeira palavra

foi xistose, depois eles montaram um poema, e quase todo o

poema da Água do Mal saiu xistose também, quer dizer:

esqueceu, não esqueceu (professora R).

Outro relato de uma das professoras no grupo focal reforça o valor do trabalho desenvolvido:

Eu acho assim, nossas condições são precárias, tanto médicas,

sanitárias, populações pobres, quanto mais carente mais difícil

é para trabalhar. Assim eu acho esse trabalho que estamos

desenvolvendo muito bom, sério sabe, traz casos à população,

leva a saber o que de maligno tem aquela coisa, muitas

pessoas queriamfazer exame, paravam na rua e perguntavam

como podiam fazer, sabe (professora V).

Houve, portanto, maior atenção para os aspectos do ambiente ligados à transmissão, o que levou ao comentário da supervisora de uma das escolas: “Se um trabalho desta natureza tivesse sido iniciado há uns dez anos atrás, talvez hoje a doença estivesse controlada”.

Considerações Finais sobre a Experiência Relatada Foi possível discutir com os professores as questões estruturais da instalação e permanência da esquistossomose no município de Jaboticatubas, rememorando e representando a construção social dessa endemia em relação às condições de vida da população.

Pôde ser percebida a distribuição desigual dos diferentes grupos de risco, a relação com o processo produtivo e as transformações do ambiente e da sociedade que vêm contribuindo para a manutenção da doença.

O processo de mudança na organização da produção agropecuária de pequenos produtores e a transformação de suas propriedades em áreas de lazer e turismo rural promoveu discussões sobre a necessidade urgente de medidas de controle da doença pelo poder público local, em conjunto com os moradores. Estes aspectos, associados a estímulos de outros projetos que estão acontecendo na região, como o Projeto Manuelzão (UFMG), encaminharam diversas ações pedagógicas, associadas a projetos de ampliação do saber para a comunidade, mobilizando atividades extracurriculares, como caminhadas educativas, visitas aos mananciais da localidade, atenção para a coleta seletiva de lixo e riscos do desmatamento, transcendendo o foco na doença e enfatizando a promoção da saúde.

Considerando os trabalhos antes referidos, só a prática estabelecida com continuidade e devidamente avaliada poderá atestar a sua efetividade, no sentido de contribuir significativamente não apenas para a promoção da saúde, mas para o exercício de uma cidadania plena e responsável, bem como para alcançar condições mais dignas e felizes de vida. Assim, é de suma importância se avaliar criticamente os projetos, programas e serviços dedicados à educação em saúde na escola, bem como se ter clareza quanto ao compromisso com seus objetivos, os quais devem estar afinados “com o respeito pela dignidade e a verdadeira diversidade da experiência humana”, como apropriadamente sugerem Homans & Aggleton (1988), em relação à Aids, o que pode ser generalizado para quaisquer outras questões de saúde.

E, reafirmando questionamentos antes referidos (Schall & Struchiner, 1995; Luckesi, 1995), face à diversidade metodológica que caracteriza a educação e particularmente a educação em saúde, necessário se faz que os novos paradigmas e propostas sejam avaliados em situações reais, por meio de pesquisas que possam se tornar acessíveis aos professores e profissionais da saúde, nas quais sejam incluídos estudos de custo e benefício, análises multivariadas em diferentes contextos e populações, onde sejam coletados os dados relativos aos processos, ao impacto imediato e conseqüências a longo prazo. Há muito por fazer. Testar o impacto das teorias mais promissoras poderá contribuir para o desenvolvimento da própria teoria, ampliando o seu valor de predição, como também para um avanço na prática, melhorando a efetividade da saúde pública. Como sugerem Glanz, Lewis & Rimer (2002), “o laboratório da educação em saúde é o mundo real e é nele que a teoria necessita ser testada e refinada”.

 

Perspectivas

Como discutido ao longo do capítulo, a educação em saúde no Brasil é um campo ainda pouco desenvolvido, que se manteve restrito a programas pontuais e iniciativas de alguns poucos grupos de pesquisadores até a década de 1980. De lá para cá, a área vem recebendo maior atenção e hoje, por intermédio da Rede de Educação Popular, percebe-se o grande potencial de crescimento das ações e pesquisas. Este crescimento deve ser consolidado nos próximos anos, requerendo também maior aporte de produção teórica, publicações acessíveis aos profissionais da saúde da rede do SUS, materiais educativos de qualidade e maior investimento na melhoria da formação dos profissionais, mediante maior oferta de bons cursos. Outra necessidade fundamental está na formação de equipes multidisciplinares, que trabalhem de forma integrada, interagindo saberes e práticas entre os profissionais, com a participação ativa das populações envolvidas.

Um dos pontos de maior dificuldade para as ações e pesquisas em educação em saúde está na descontinuidade conseqüente às mudanças políticas que sempre promovem substituição dos quadros profissionais e das ênfases nos problemas, com cada partido ou lideranças enfatizando diferentes questões. Esta dependência da política é um dos pontos que precisa ser equacionado: quanto mais a população tomar em suas mãos a supervisão de seus direitos públicos, aí incluídos os de saúde, maior será a sustentabilidade dos programas. Assim, as ações de educação em saúde devem estar pautadas na participação e envolvimento de pessoas-chave da comunidade, comprometidas com o seu fazer profissional e com a população, que possam garantir a continuidade dos programas.

Para finalizar, a mensagem da professora Hortênsia de Hollanda, em entrevista a Schall (1999), constitui uma síntese dos pressupostos da prática da educação em saúde defendida neste capítulo. Suas reflexões, prática e orientação se mantêm atuais e exemplares:

Isto aqui era para um programa de treinamento de agentes

locais de saúde e tinha que ter estas noções:

Nos trabalhos com comunidade, antes de começar a agir,

conhecer é a primeira coisa, começar a ver, olhar… devolver

aos moradores do bairro o que foi detectado na etapa anterior.

Ver a saúde no contexto geral de vida e não começar logo com

problema de saúde. Depois, ter boa comunicação na hora de

conversar com as pessoas do bairro. Partir do conhecimento…

do conhecimento das pessoas do bairro e não dos seus

próprios conhecimentos. Isso era fundamental, porque a regra

era partir do seu conhecimento (do professor). Aprender uns

com os outros, devolver as perguntas das pessoas do bairro,

não tentar dar respostas prontas. Isso era uma coisa que tinha

realmente… eles tinham que ser mais participativos… Dar

tempo para as pessoas pensarem é importante quando discutir

os problemas do bairro, juntar o maior número de pessoas do

bairro; o agente não deve se afastar das pessoas do bairro…

efazer conexões a partir dos problemas do dia-a-dia das

pessoas do bairro. As melhores formas de conhecer bem os

problemas das pessoas são: visita nas casas, reuniões do

bairro, pesquisa, conversas descontraídas sem perguntas

prontas. Não deixar anotações atrapalharem a conversa,

procurar fazer trabalhos em grupo, devolver ao bairro a

resposta do levantamento do problema, depois tentar resolver

juntos os problemas, escolher o quefazer em cada momento.

Então é isso… (lições da professora Hortênsia de Hollanda em

um curso para agentes de saúde).

Materiais Informativos/Educativos: exemplos que podem estimular projetos e ações educativas

Considerando a iniciativa de alguns pesquisadores e/ou instituições de saúde de desenvolver materiais informativos/educativos associados a projetos e ações voltados ao controle da esquistossomose, decidiuse apresentar aqui alguns exemplos.

Tais materiais serão apenas apresentados de forma descritiva, sem quaisquer comentários críticos ou adicionais.

É importante ressaltar a necessidade de que os materiais educativos devem levar em conta a diversidade dos ambientes e fatores propícios à transmissão, devendo ser adequados às localidades onde a ação educativa acontece. Quando são desenvolvidos de forma compartilhada, com a participação da população, podem resultar em maior envolvimento do processo educativo.

Livros e Cartilhas

1) Título: O Feitiço da Lagoa (Schall, 1986)

Autor(es): Virgínia Schall

Editora: Antares, Coleção Ciranda da Saúde MEC/Capes/Padct/SPEC/Fiocruz

Ano de publicação: 1986

Conteúdo: o material educativo foi construído de forma coletiva com alunos de escola de foco isolado da esquistossomose no Rio de Janeiro, de 1983 a 1986. Visa oferecer às crianças noções básicas sobre esquistossomose, motivando e mobilizando sua atenção para situações típicas da vida de uma criança da área, o que estimula identificação com o personagem. Apresenta informações com uma linguagem acessível à compreensão infantil e sugere atividades extracurriculares, no folheto que acompanha o material educativo, para que se estabeleça um processo educativo mais duradouro. O texto em verso conta a história de um menino sadio que adquire a esquistossomose ao entrar em uma lagoa a convite de amigos, o que provoca mudanças em sua vida. Levado ao médico, esclarecido sobre a doença (que pensa ser um feitiço) e curado, retorna à escola, transmite os conhecimentos e propõe divulgação na cidade e reivindicação de melhorias nas condições da lagoa. As ilustrações são claras e apropriadas ao imaginário da criança.

 

2) Título: Esquistossomose: é melhor prevenir que remediar (Gomes dos Santos, 1990)

Autor(es): Marilena Gomes dos Santos

Editora: Fiocruz, Série Esquistossomose n. 2

Ano de publicação: 1990

Conteúdo: a cartilha narra as aventuras de Chico e Zeca, duas crianças nascidas e criadas numa cidade do interior que se encontram a caminho de uma farmácia. Na conversa entre os amigos, noções do ciclo do parasito, da transmissão, da sintomatologia e do tratamento da doença são oferecidas ao leitor numa linguagem de fácil entendimento. As ilustrações são claras e estão desenhadas com base no imaginário da criança.

 

3) Título: Parte 1 - O Caminho da Esquistossomose Dentro do Nosso Corpo (Virgínia Schall, Cristiano Lara Massara, Martin Johannes Enk, Héliton da Silva Barros, Erica da Silva Miranda)

ISBN: 978-95-99016-09-1 - Ano de publicação: 2007

Parte 2 - O Caminho da Esquistossomose no Meio Ambiente (Virgínia Schall, Cristiano Lara Massara, Martin Johannes Enk, Héliton da Silva Barros)

ISBN: 978-85-99016-08-4 - Ano de publicação: 2007

1a. Edição: mil exemplares de cada uma (apoio financeiro: Vice-Presidência de Referência e Meio Ambiente - Fiocruz)

Conteúdo: trata-se de uma abordagem em linguagem simples e com imagens que poderão ser utilizadas pelos profissionais com a população. As escalas das imagens dão as dimensões de aumento, o que deve ser ressaltado com a população para evitar fantasias e distorção da representação dos parasitos e vetores.

 

4) Teatro de fantoches “O X da Xistose” (Cristiano Lara Massara, Graciela Larissa Amaral, Héliton da Silva Barros, Martin Johannes Enk)

Duração: 20 minutos

Esta montagem é uma adaptação livre da obra de Virgínia Schall, O Feitiço da Lagoa, feita pela nossa equipe multidisciplinar, com o objetivo de complementar os programas de controle da esquistossomose, potencializando a prevenção de doenças e a promoção da saúde. Numa linguagem simples e cientificamente correta, o texto permite conhecer melhor as relações de transmissão da doença e entender quais os danos causados por ela. Tais abordagens favorecem a construção de conhecimentos científicos corretos e atitudes de prevenção de doenças, bem como o desenvolvimento de pensamento crítico e potencialização da força das ações coletivas, fundamentais para o exercício da cidadania.

Vídeos

1) Título: Doença do Caramujo (Rosemberg, 1995)

 

Autor(es): Brani Rozemberg

Editora: Multimeios/Cict/Fiocruz

Ano do lançamento: 1995

Tempo de duração: 28’04”

Acompanha manual do usuário, com dicas e informações sobre o uso do vídeo, além de debate.

Conteúdo: o vídeo, criado para motivar a discussão em grupo sobre o problema da esquistossomose, é resultado de uma pesquisa sobre a forma como esta doença era compreendida por trabalhadores rurais do município de Conceição do Castelo, Espírito Santo. Na região, a ‘doença do caramujo’, como é chamada, é um problema freqüente, bem conhecido dos moradores. Os atores deste filme são os próprios moradores, que aceitaram partilhar com o público suas experiências e as descobertas que fizeram ao longo da pesquisa. Propositalmente o filme não traz respostas prontas sobre como resolver o problema da esquistossomose, já que as soluções variam muito de lugar para lugar e devem ser discutidas em grupo, levantando os interesses, as motivações, as dificuldades e os recursos de que o grupo dispõe. O filme, por si só, não completa a proposta almejada. Para que sua utilização faça sentido, a apresentação do vídeo deverá ser seguida de um bom debate. O manual, com dicas e informações para o uso do vídeo, é dirigido aos interessados em motivar moradores de municípios endêmicos a se unirem em busca de soluções locais para o problema da esquistossomose.

CD-ROM

 

1) Título: Schistosomiasis (em inglês) (The Wellcome Trust, 1998)

Autor(es): The Wellcome Trust

Editora: Cabi Publishing

Ano de lançamento: 1998

Conteúdo: o CD é um guia prático e completo para pesquisadores, profissionais da saúde e professores que atuam na pesquisa ou no ensino da esquistossomose. Aborda interativamente todos os tipos de esquistossomose, com fotografias de alta definição de vários aspectos da doença.

Home pages

1) Endereço: www.unifesp.br/dmed/gastro/pee/01.htm

Autora: Patrícia de Jesus Ribeiro

Departamento de Enfermagem - Ambulatório de Esquistossomose Disciplina de Gastroenterologia

Programa de Educação em Esquistossomose

Universidade Federal de São Paulo

E-mail de contato: patyribeiro@hotmail.com

Conteúdo: os autores apresentam a doença de forma divertida e caricaturada. Os desenhos são bem feitos, mas mostram a realidade com um toque de exagero. Em artigo publicado por Ribeiro et al. (2004), os autores avaliam o programa proposto.

2) Endereço: www.cpqrr.fiocruz.br/labes

Autores: alunos da disciplina de pós-graduação em educação em saúde

Laboratório de educação em saúde

Centro de Pesquisa René Rachou/Fiocruz

E-mail de contato: cecilia@cpqrr.fiocruz.br/massara@cpqrr.fiocruz.br

Conteúdo: página elaborada por alunos de pós-graduação, com atualização anual. A esquistossomose é abordada de forma mais detalhada, direcionada a um público adulto. O tema apresentado é dividido de forma didática em subtítulos: Introdução, História, Aspectos clínicos e epidemiológicos, Aspectos educacionais, Cursos de atualização, Galeria de fotos, Bibliografia sugerida. Possui links interessantes para consulta e e-mails para contatos.

3) Endereço: www.who.int/tdr/diseases/schisto/default.htm

Autor: Tropical Disease Research (TDR) - OMS (em inglês)

Conteúdo: de conteúdo mais técnico, esta home page aborda algumas informações sobre a doença, o ciclo de vida do parasito e as estratégias de pesquisa para controle da endemia.

Referências

AFONSO, L. Oficinas em Dinâmica de Grupo: um método de intervenção psicossocial. Belo Horizonte: Edições do Campo Social, 2002.

AMARAL, R. S. & PORTO, M. A. S. Evolução e situação atual do controle da esquistossomose no Brasil. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, 27: 73-90, 1994.

BAKHTIN, M. Estética de la Creación Verbal. Buenos Aires: Siglo Veintiuno, 1985.

BARBOSA, C. B.; SILVA, C. B. & BARBOSA, F. N. Esquistossomose: reprodução e expansão da endemia no Estado de Pernambuco no Brasil. Revista de Sáude Pública, 30: 609-616, 1996.

BARBOSA, C. C. G. S. Esquistossomose em Pernambuco: determinantes bio-ecológicos e sócio-culturais em comunidade de pequenos agricultures da Zona da Mata. Rio de Janeiro: Ensp/Fiocruz, 1996.

BRANDÃO, C. R. (Org.) Pesquisa Participante. São Paulo: Brasiliense, 1981.

BRASIL. Decreto-lei 49.974, 21 jan. 1961. Regulamenta a lei 2.312, de 03 set. 1954 e estabelece o Código Nacional de Saúde. Brasília, 1961.

BRASIL. Ministério da Saúde. O Que é Esquistossomose. Superintendência de Campanhas de Saúde Pública [s.l./s.d.].

CÁCERES, F. A crise da República populista. In: CÁCERES, F. História do Brasil. São Paulo: Moderna, 1995.

CARSON, R. Silent Spring. Nova Iorque: New Yorker Magazine, 1962.

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