TED Talks: O Guia Oficial do TED para Falar em Público

6. Narração

Felizm ente, a m aior parte das oportunidades de falar se dá diante de plateias fundam entalm ente receptivas. Você não terá dificuldade em estabelecer sintonia com elas. E assim sua palestra poderá brilhar.

Ferram entas da palestra

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NARRAÇÃO

O fascínio irresistível das histórias

As histórias aj udaram a nos tornar quem som os. Digo isso no sentido literal.

Dados de pesquisas arqueológicas e estudos antropológicos levam a crer que a m ente hum ana evoluiu em paralelo com a narração de histórias.

Há cerca de um m ilhão de anos, os hom inídeos, nossos ancestrais, com eçaram a controlar o uso do fogo, e, ao que parece, isso exerceu im pacto enorm e na evolução deles. O controle lhes proporcionou aquecim ento e defesa contra predadores, além de lhes perm itir cozinhar alim entos, o que gerou consequências im portantes para o crescim ento do cérebro. No entanto, aconteceu tam bém outra coisa.

O fogo criou um novo estím ulo aos vínculos sociais. O calor e a luz uniam as pessoas ao cair da noite. Isso parece ter ocorrido em todas as culturas antigas de caçadores e coletores ao longo dos últim os trezentos m il anos.

E o que eles faziam durante o tem po que passavam j untos? Aparentem ente, um a form a de interação social passou a predom inar em m uitas culturas: a narração de histórias.

A antropóloga Polly Wiessner dedicou quarenta anos à pesquisa de certas culturas coletoras, gravando quem dizia o quê e quando. Em 2014, publicou um trabalho que m ostra um a diferença m arcante entre as reuniões diurnas e as noturnas. As conversas travadas durante o dia, m esm o as que envolviam grupos m aiores, giravam em torno de discussões econôm icas e troca de m ensagens sociais. À noite, o clim a era m ais leve. As pessoas podiam cantar, dançar ou praticar rituais, m as a m aior parte do tem po era dedicada à narração de histórias.

Casos que traziam indivíduos de lugares distantes para j unto da fogueira e para o coração e a m ente dos ouvintes. Histórias de gente viva ou m orta. Presente ou distante. Histórias hilárias, tensas, aterrorizantes. Histórias contadas por hom ens.

Histórias contadas por m ulheres. Muitas vezes os m elhores contadores de histórias eram pessoas m ais idosas, algum as j á cegas, que eram respeitadas por sua arte.

Segundo a dra. Wiessner, essas histórias desem penharam um papel crucial na expansão da capacidade hum ana de im aginar, sonhar e com preender os pensam entos alheios. Elas perm itiram à m ente hum ana explorar vastas redes sociais e im aginar com unidades situadas m uito além dos lim ites geográficos de seu próprio grupo social. As histórias davam prestígio aos contadores m ais hábeis e forneciam inform ações úteis aos que prestavam atenção. (Um ouvinte atento

aprendia, por exem plo, a evitar os perigos que eram descritos num a história.) Por isso, é provável que essas aptidões, por parte de contadores e de ouvintes, tenham sido valorizadas ao longo da evolução do hom em m oderno.

Todos gostam os de ouvir histórias. Elas contribuíram para m oldar a form a com o nossa m ente recebe e transm ite inform ações.

Com certeza, o poder das histórias persiste ainda hoj e — basta pensarm os nas indústrias bilionárias construídas em torno da literatura de ficção, do cinem a e da TV.

E não nos surpreende que m uitas das m elhores palestras se baseiem na narração de histórias. Todo m undo aprecia e com preende um a história, o que nem sem pre acontece no caso de explicações difíceis e argum entos com plexos.

No geral, um a história tem um a estrutura linear sim ples, que facilita acom panhá-la. O ouvinte sim plesm ente deixa o contador levá-lo num a viagem , passo a passo.

Graças às longas eras em que ouvim os histórias ao redor de fogueiras, nossa m ente acom panha um a narrativa m uito bem .

Além disso, é natural que, ao escutar um a história, o ouvinte m ostre em patia com as experiências vividas pelos personagens. Ele se vê im erso em seus pensam entos e em oções. Na verdade, sente fisicam ente o que os personagens sentem ; se eles estiverem estressados, em polgados ou eufóricos, o m esm o acontecerá com o ouvinte. E isso o leva a se interessar pelo desfecho, prende sua atenção.

Quais são os elem entos de um a boa história? A fórm ula clássica consiste em : um protagonista luta por um obj etivo, encontra um obstáculo inesperado e disso resulta um a crise. O protagonista tenta superar o obstáculo, o que leva a um clím ax e, por fim , a um desenlace. (Tam bém pode haver interrupções e reviravoltas no enredo.)

Ao contar um a história num palco, lem bre-se de quatro pontos principais: Fundam ente-a num personagem pelo qual a plateia possa sentir em patia.

Construa tensão, sej a m ediante curiosidade, intriga social ou perigo real.

Dê o nível correto de detalhes. Se forem insuficientes, a história não será vívida; se forem excessivos, ela se arrastará.

Term ine com um a resolução satisfatória, sej a ela engraçada, com ovente ou reveladora.

É claro que, com o tudo depende da habilidade narrativa, vale a pena fazer um aj uste fino em suas histórias. Muitas vezes, sobretudo no caso de histórias nossas, nós a enchem os de detalhes que consideram os essenciais, m as que o público em geral não precisa saber. Ou pior: nos esquecem os de m encionar um dado

fundam ental de contexto, sem o qual a história não faz m uito sentido.

Eis um a boa história:

Um a vez, quando eu tinha oito anos, m eu pai m e levou para pescar.

Estávam os num barco m inúsculo, a oito quilôm etros da praia, quando caiu um a tem pestade. Papai pôs um colete salva-vidas em m im e m urm urou em m eu ouvido: “Filho, você confia em m im ?” Assenti. Ele m e j ogou para fora do barco. [Pausa.] Isso m esm o, sem brincadeira. Ele m e j ogou no m ar! Caí na água e voltei à superfície, tentando respirar. A água estava incrivelm ente gelada. As ondas eram assustadoras. Monstruosas. Em seguida, papai tam bém m ergulhou. Apavorados, vim os o barquinho virar e afundar. Mas papai m e segurou o tem po todo, dizendo que tudo ia dar certo. Quinze m inutos depois, chegou o helicóptero da Guarda Costeira. Eu soube depois que, com o sabia que o barco estava danificado e iria afundar, papai havia cham ado a Guarda Costeira, dando nossa localização exata. Achou que era m elhor m e j ogar no m ar do que correr o risco de ficarm os presos quando o barco virasse. E foi assim que aprendi o verdadeiro significado da palavra

“confiança”.

E eis aqui a form a com o não se deve contar essa história: Aprendi o que é confiança com m eu pai, quando eu tinha oito anos e fom os apanhados por um a tem pestade quando estávam os pescando cavala. Ainda não tínham os pegado nenhum a quando a tem pestade caiu. Papai sabia que o barco ia afundar, porque era um daqueles barcos infláveis da m arca Saturn, que em geral são bem fortes. Mas um dia esse tinha sofrido um furo, e papai achou que isso poderia acontecer de novo. De qualquer form a, a tem pestade era forte dem ais para um barco inflável, e ele j á estava se enchendo de água. Por isso, papai ligou para o serviço de salvam ento da Guarda Costeira, que na época ficava à disposição 24 horas por dia, todos os dias da sem ana, ao contrário de hoj e. Ele inform ou a nossa localização, e aí, para evitar o risco de ficarm os presos debaixo do barco, pôs um colete salva-vidas em m im , m e j ogou na água e depois tam bém pulou do barco. Ficam os à espera da Guarda Costeira, e, de fato, quinze m inutos depois o helicóptero apareceu

— acho que era um Sikorsky MH-60 Jay hawk — e nos levou em segurança.

A prim eira versão tem um personagem com quem a plateia se preocupa e um a dram aticidade intensa que beira a incredulidade, até que tudo se resolve de m aneira eficaz. A segunda é um a m ixórdia. O narrador m ata a dram aticidade ao revelar a intenção do pai cedo dem ais, não se esforça nem um pouco para transm itir a experiência real do m enino e peca por um excesso de detalhes

irrelevantes para a m aioria do público, enquanto outros detalhes pertinentes, com o as ondas gigantescas, ficam de fora. O pior de tudo é que a frase-chave que fundam enta a história — “Filho, você confia em m im ?” — é om itida. Se você vai contar um a história, certifique-se de saber por que a está contando, elim ine todos os detalhes desnecessários para dem onstrar o que desej a e inclua inform ações que perm itam aos ouvintes im aginar vividam ente o que aconteceu.

Algum as das m elhores palestras são m ontadas em torno de um a única história.

Essa estrutura gera enorm es benefícios para o palestrante: Cria a linha m estra. (É sim plesm ente o arco narrativo da história.) Se a história for envolvente, você obtém um a reação intensa da plateia.

Caso a história sej a a seu respeito, você cria em patia em relação a algum as coisas pelas quais m ais preza.

Você não esquece o que vai dizer porque a estrutura é linear; e para seu cérebro é m uito fácil lem brar fatos em sequência.

Por isso, m uitas pessoas usam um a chance de falar em público apenas para contar a própria história. Esse é o tipo de palestra m ais sim ples e fácil de preparar. E oferece outra vantagem : você sabe a sua história. Com certeza a conhece m elhor do que qualquer um na plateia.

Se sua j ornada foi extraordinária e a narrativa tem coerência, esse tipo de apresentação pode funcionar m uito bem .

Entretanto, tam bém aqui há um a arm adilha. Lem bre que o obj etivo é dar. Às vezes, histórias pessoais não cum prem essa função. Podem entreter ou interessar ao público, ou podem inflar o ego do palestrante. Mas não dão à plateia autom aticam ente algo que ela possa levar para casa: percepções, inform ações que em basem ações, perspectiva, contexto, esperança.

E isso é péssim o. Um a das principais razões que nos levam a rej eitar pedidos daqueles que desej am realizar um a palestra no TED é que eles trazem histórias atraentes, m as sem um a ideia central que envolva a narrativa. Isso nos parte o coração, porque com frequência essas pessoas são m aravilhosas e fascinantes.

Contudo, sem o invólucro de um a ideia, isso é um a oportunidade perdida.

A m udança que se faz necessária é um a m ontagem bem -feita de sua j ornada, que ligue m om entos críticos e perm ita ao outro entender o sentido deles. Sem isso, m esm o que sua vida tenha sido notável, a palestra poderá parecer errática e autocentrada. No entanto, se sua j ornada revelar algo im portante que você tenha aprendido, e se cada passo dela for revelado com hum ildade, honestidade e vulnerabilidade, todos terem os m uito prazer em refazê-la com você.

E, se você for contar sua história, há outra condição essencial e inegociável: ela precisa ser verdadeira. Pode parecer óbvio, m as, para o nosso pesar, às vezes

os palestrantes são tentados a exagerar ou até inventar. Exatam ente porque um a história pode exercer tanto im pacto, eles querem m ostrar a si m esm os ou suas organizações da m elhor form a possível, e às vezes desrespeitam e cruzam aquela linha cham ada verdade. Essa é a m aneira m ais fácil de destruir sua reputação.

Quando as palestras são postadas na internet, talvez m ilhares de olhos a vej am .

Basta que um a única pessoa note algo não m uito correto, e você se verá em apuros. O risco não com pensa.

Se você com bina um a história verídica com o desej o de usá-la em benefício de terceiros, pode dar a seus ouvintes um presente extraordinário.

A psicóloga Eleanor Longden desej ava contar ao público que, na faculdade, havia com eçado a ouvir vozes dentro de sua cabeça e que isso lhe rendeu um diagnóstico de esquizofrenia e um a internação num hospital psiquiátrico, o que a levou à beira do suicídio. A história por si só é eletrizante, m as ela a m ontou de um a form a que os ouvintes deixam a palestra com inform ações estim ulantes a respeito da esquizofrenia, das doenças m entais em geral e de com o podem os reform ular nossas reações a esses problem as. Eis aqui um trecho da parte final: Não existe honra ou privilégio m aior do que facilitar para alguém esse processo de cura; dar apoio m oral, estender a m ão, dividir a carga de sofrim ento e m anter a esperança de recuperação. E, igualm ente, para os sobreviventes do infortúnio e da adversidade, que não precisem os viver para sem pre definidos pelas situações incapacitantes que nos aconteceram .

Som os únicos. Som os insubstituíveis. O que está dentro de nós nunca poderá ser invadido, distorcido ou roubado. A luz nunca se apaga.

O explorador Ben Saunders fez um trekking no polo sul que quase lhe custou a vida. Ele é um hábil contador de histórias e possui excelentes fotografias para ilustrar o que aconteceu. Perto do fim da palestra, ficam os na expectativa de ouvir as recom endações rotineiras que os aventureiros nos fazem , convidando-nos a sair da rotina e descobrir nosso eu verdadeiro no desafio assum ido.

Contudo, Ben nos surpreendeu. Falou de m om entos difíceis que vivera depois do trekking e disse que o destino com que tinha sonhado durante m uitos anos fora m enos satisfatório do que a viagem . O que levar para casa? Não deposite sua felicidade no futuro:

Se não puderm os nos sentir felizes aqui, hoj e, agora, durante nossas j ornadas, em m eio à confusão e às lutas que todos nós vivem os, os circuitos abertos, as listas inacabadas de coisas a fazer, as conclusões de que da próxim a vez será m elhor, talvez nunca sintam os essa felicidade.

Andrew Solom on, autor de livros sobre política, cultura e psicologia, contou

com o era hum ilhado na infância, antes m esm o de revelar que era gay, e transform ou a história num ensaio arrebatador sobre identidade que qualquer um pode apreciar e do qual pode tirar proveito.

Sem pre há quem queira confiscar nossa hum anidade, e sem pre há as histórias que a restauram . Se viverm os em voz alta, poderem os derrotar o ódio e expandir a vida de todo m undo.

Baseando-se em um a história, Sir Ken Robinson realizou um a deliciosa celebração da im portância da criatividade infantil. Ele conta com o, na década de 1930, um m édico notou que um a m enina que ia m al na escola m ostrava um a grande vontade de dançar. Em vez de m edicá-la, ele convenceu a m ãe a m atriculá-la num a escola de dança. A m enina se cham ava Gillian Ly nne, que se tornou a coreógrafa de enorm e sucesso do com positor e produtor m usical Andrew Lloy d Webber. Contada no estilo inim itável de Sir Ken, a história é um a ilustração com ovente dos perigos e do potencial presentes na form a com o as escolas lidam com a criatividade e é o trecho da palestra que transform a a hilaridade em m otivação.

O PODER DA PARÁBOLA

Algum as histórias são planej adas com cuidado com o m etáforas. Existe um a palavra útil que designa esse tipo de história: “parábola”.

Tradicionalm ente, um a parábola é um a história que encerra um a lição m oral ou espiritual. É um instrum ento que vem sendo usado com m uita eficácia por m estres religiosos ao longo da história. Acho que não há com o negar que as histórias de Jesus Cristo têm tido ainda m ais visualizações do que as de Sir Ken.

Mas podem os estender o sentido da palavra de form a a incluir qualquer história com o poder da m etáfora.

Lawrence Lessig, professor de direito, é um brilhante contador de parábolas.

Em 2013, ele participou de um a Conferência TED em que argum entou que o dinheiro havia corrom pido de form a irrecuperável o processo político am ericano. Pediu que im aginássem os um país, a Lesterlândia, onde só as pessoas cham adas Lester tivessem direito ao voto. É evidente que isso seria ridículo.

Entretanto, em seguida inform ou que o núm ero de indivíduos cham ados Lester nos Estados Unidos é m ais ou m enos igual ao núm ero de pessoas que contribuem com valores significativos para os partidos políticos. E que as prioridades dos congressistas são, em larga m edida, definidas por esses colaboradores, de m odo que, na prática, só as opiniões e os votos deles é que im portam . Nessa parábola, todos nós m oram os na Lesterlândia.

O j ornalista Malcolm Gladwell tam bém se especializou em parábolas, e o

apelo dessa form a de história se reflete nas vendas im pressionantes de seus livros e no alto núm ero de visualizações de suas palestras. Sua palestra m ais vista, acredite ou não, é um a história sobre a criação de form as de m olho de espaguete. Mas ele a usa com o um a parábola para a ideia de que as pessoas desej am coisas m uito diferentes, m as m uitas vezes não têm palavras para expressar o que querem , até você lhes fazer as perguntas certas.

O que cada palestra tem de gratificante é o m odo de captar o significado da história. Você não quer insultar a inteligência do público em purrando-lhe a conclusão exata que ele deve tirar da história que você contou. Mas quer se certificar de que a história possui elem entos suficientes para que seus ouvintes liguem os pontinhos. E nesse sentido é im portante você conhecer sua plateia.

Um a parábola pode funcionar m uito bem para um público que j á conhece a área de atuação do palestrante, m as quem não pertence a ela vai precisar de m uito m ais elucidação. É im portante você testar seu m aterial com alguém que conheça a plateia, a fim de ver se ele será recebido com clareza, e não com m al-entendidos.

O cam inho da parábola encerra m uitos outros riscos. Às vezes, a analogia não se aj usta bem . Ela pode tanto esclarecer quanto induzir ao erro. Ou você pode passar tanto tem po contando a história que acaba não tirando as conclusões necessárias. Entretanto, nas m ãos certas, um a parábola pode entreter, inform ar e inspirar — tudo ao m esm o tem po.