TED Talks: O Guia Oficial do TED para Falar em Público
9. Revelação
Com efeito, existe um a Conferência TED especificam ente sobre esse tem a: um diálogo socrático entre o psicólogo Steven Pinker e a filósofa Rebecca Newberger Goldstein, no qual ela o convence, pouco a pouco, de que, ao longo da história, a razão é a m aior força por trás do progresso m oral. Não é a em patia, nem a evolução cultural, em bora am bas tenham tido sua relevância, m as a razão. Às vezes, sua influência leva séculos para ser entendida. Na palestra, Goldstein usa citações im portantes de pensadores sobre escravidão, desigualdade de gênero e direitos dos hom ossexuais que antecedem os m ovim entos inspirados por eles em m ais de um século. Não obstante, sua argum entação foi decisiva para o sucesso desses m ovim entos.
O diálogo entre Pinker e Goldstein talvez sej a a m ais im portante discussão de todas as Conferências TED. Contudo, até 2015, teve m enos de um m ilhão de visualizações. A razão não é um a erva que cresce rápido, m as um carvalho que cresce devagar. Não obstante, suas raízes são fortes e profundas, e, ao crescer, ela pode transform ar um a paisagem para sem pre. Estou ansioso por m ais palestras baseadas na razão.
Em três frases:
Persuasão é o ato de substituir um a visão de m undo por algo m elhor.
Em seu cerne está o poder da razão, capaz de causar um im pacto de longo prazo.
A razão se m ostra m ais eficaz quando acom panhada de bom bas de intuição, histórias de detetive, recursos visuais e outros m ecanism os que propiciem plausibilidade.
Ferram entas da palestra
9
REVELAÇÃO
De tirar o fôlego!
Sintonia, narração, explicação, persuasão... Todas elas são ferram entas vitais. No entanto, qual é a m aneira m ais direta de apresentar um a ideia a um auditório?
Sim plesm ente mostrando.
Muitas palestras se baseiam nesse m odelo. Você revela seu trabalho à plateia de m aneira agradável e inspiradora.
O nom e genérico disso é revelação. Num a palestra baseada na revelação, você pode:
Mostrar um a série de im agens de um proj eto artístico novo e ir falando sobre ele.
Fazer um a dem onstração de um produto que inventou.
Descrever sua visão de cidade autossustentável do futuro.
Mostrar cinquenta fotos surpreendentes de sua viagem recente à floresta am azônica.
Existe um a variedade infinita de palestras de revelação, e seu sucesso depende do que será revelado.
Em um a apresentação baseada em im agens, o seu principal obj etivo pode ser apenas criar um a sensação de encantam ento e prazer estético na plateia. Se fizer um a dem onstração, provavelm ente pretenderá surpreender e criar um a expectativa de possibilidade. Se m ostrar um a visão do futuro, vai querer que sej a nítida e atraente a ponto de o público com prar a ideia na hora.
Vam os explorar a fundo essas três grandes categorias.
CAMINHADA MARAVILHOSA
Um a cam inhada m aravilhosa se fundam enta na revelação de um a sequência de im agens ou m om entos m aravilhosos. Se um a palestra é com o um a viagem , pode-se com parar um a cam inhada m aravilhosa a um passeio pelo estúdio de um artista que fornece insights reveladores diante de cada obra de arte. Ou a um a incursão num a paisagem espetacular, tendo um grande explorador com o guia.
Cada passo é um passo, de um a obra para a seguinte, e o senso de deslum bram ento se constrói aos poucos: “Se você gostou disso aí, espere só para
ver isto!”
Supondo que a obra sej a forte, a viagem pode ser divertida, inform ativa ou inspiradora. Essa costum a ser a estrutura preferida de artistas plásticos, designers, fotógrafos e arquitetos, em bora qualquer um que tenha um a obra visual possa usá-la. Até cientistas.
Por exem plo, a breve palestra de David Gallo sobre os m istérios subm arinos foi um a cam inhada m aravilhosa — ou, nesse caso, um m ergulho m aravilhoso.
Ele m ostrou um a série de incríveis im agens e vídeos de criaturas biolum inescentes que m esm o um artista de ficção científica m al poderia im aginar. Em seguida, passou um a assom brosa sequência em que um polvo desaparece de vista ao m udar instantaneam ente o aspecto de sua pele para se assem elhar ao coral atrás dele. E o entusiasm o de Gallo com o exotism o da vida m arinha logo nos contagiou. Além de explicar o que estávam os vendo, ele apresentou um contexto que teve o efeito de aum entar o senso de deslum bram ento.
Esse é o m undo desconhecido, e até hoj e só exploram os cerca de 3% do que existe nos oceanos. Neles j á descobrim os as m ontanhas m ais altas do m undo, os vales m ais profundos, lagos subm arinos, quedas d’água subm arinas [...] E, num lugar em que pensávam os não haver vida algum a, encontram os m ais vida [...] e m ais diversidade e densidade do que na floresta tropical, o que m ostra que não sabem os m uito sobre este planeta.
Ainda existem 97% por descobrir, e esses 97% podem estar vazios ou cheios de surpresas.
É um a palestra de apenas cinco m inutos com um a estrutura sim ples. Mas foi vista m ais de doze m ilhões de vezes.
Outra m aravilhosa cam inhada sim ples, porém bastante atraente foi a da escritora de tem as científicos Mary Roach sobre o orgasm o. Ela nos conduziu ao longo de dez coisas que não sabíam os sobre o orgasm o, inclusive o vídeo de um agricultor holandês com um porco. Trata-se de um vídeo que possivelm ente você não ia querer ver com seus pais ou filhos! Cam inhadas m aravilhosas não precisam ser decentes. Podem ser engraçadas, provocantes e im pactantes.
Do ponto de vista do orador, a vantagem desse tipo de palestra é que a estrutura se m ostra clara. Você sim plesm ente conduz a plateia ao longo de sua obra — ou de algo pelo qual é apaixonado — um a parte por vez. Cada parte é acom panhada de slides ou vídeos, e você apenas segue a sequência, gerando interesse à m edida que avança.
Mas as cam inhadas m aravilhosas funcionam m elhor quando há um tem a claro ligando os passos, algo m ais forte do que um a m era sucessão de exem plos recentes de sua obra. Sem isso, esse tipo de palestra pode facilm ente se tornar
entediante. “Agora vam os ver m eu próxim o proj eto” é um a linha de transição sem graça que convida o público a se rem exer na cadeira. Ao m ostrar um a ligação, ela ganha m uito em força: “Este próxim o proj eto retom a a ideia e a supera em vigor...”
Ainda m ais forte é ter um a linha m estra que una todas as partes. Shea Hem brey nos conduziu por “um a m ostra da obra de cem artistas”. Cada obra era com pletam ente diferente da outra: pinturas, esculturas, fotografias, vídeos e um a m istura de m ídias, abrangendo um grande arco de ideias artísticas. A linha m estra? Todos os artistas eram ele! Sim , Shea havia criado cada um a das obras.
Por isso, nosso senso de deslum bram ento aum entava quanto m ais originais fossem as peças.
No entanto, um a cam inhada m aravilhosa pode dar errado de diversas m aneiras. Principalm ente quando a obra é descrita em linguagem inacessível.
Alguns profissionais, sobretudo os da área das artes visuais e da arquitetura, têm o péssim o hábito de falar de sua obra com linguaj ar superintelectualizado e desnecessariam ente obscuro. Quando sente necessidade de usar esse linguaj ar num a palestra, o orador deve estar preparado para ver os convidados se esgueirando pela porta de trás: “Nesta obra, procurei desafiar o paradigm a identidade-com unidade no contexto de um a dialética pós-m oderna.” Caso sinta a tentação de dizer qualquer coisa rem otam ente parecida com isso, por favor, pegue sua tesoura m ais afiada e, sem dem ora, corte o trecho de seu roteiro.
Num a conversa com igo, Steven Pinker declarou que esse tipo de linguagem é m uito pior do que o uso equivocado de j argão:
“Paradigm a” e “dialética” não são term os técnicos, com o “DNA”, que os especialistas não podem deixar de usar. São m etaconceitos, conceitos sobre outros conceitos, e não sobre coisas palpáveis. Academ ês, econom ês, j argão corporativo e a verborragia dos críticos de arte são entediantes e incom preensíveis porque estão cheios de m etaconceitos, com o abordagem , suposição, conceito, condição, contexto, estrutura, questão, nível, m odelo, perspectiva, processo, categoria, papel, estratégia, tendência e variável.
Isoladam ente, o uso de cada um desses term os é legítim o. Mas econom ize.
Quando se acum ulam , você põe em risco o entendim ento da plateia.
Em vez disso, o obj etivo deveria ser nos dar inform ações privilegiadas.
Com partilhe conosco, em linguagem humana acessível, o que você sonhava no início da obra. Mostre seu processo criativo. Com o você chegou a ele? Que erros com eteu pelo cam inho? Quando m ostrou seus desenhos de Rom a, o ilustrador David Macaulay não se lim itou a obras acabadas, m as revelou erros e im passes e com o os superou para chegar às ilustrações publicadas. Assim , toda pessoa criativa da plateia aprendeu algo. Abrir a cortina do processo de criação é um a
das principais qualidades de um a palestra criativa.
Acim a de tudo, estruture a apresentação de m odo a nos fazer experim entar o m áxim o possível da obra em si. Se for visual, vej a se vale a pena cortar palavras e focar nas im agens. Um a palestra de doze m inutos pode com preender facilm ente m ais de cem im agens. Talvez certas sequências exij am apenas dois segundos por slide. E podem ter sua força am plificada por um a ferram enta quase nunca usada por oradores: o silêncio. Um dos m elhores exem plos de cam inhada m aravilhosa no TED é a do escultor cinético Reuben Margolin. Sua voz sussurrada é o pano de fundo para as obras assom brosas, as perfeitas legendas faladas para um a galeria de pura inspiração. E, vez ou outra, ele ousou silenciar. Alguns dos m om entos de m aior im pacto da palestra ocorreram quando, tendo m ostrado o contexto, ele nos deixou subm ergir visualm ente em sua obra.
Um a form a inteligente de garantir que a cam inhada m antenha a energia é fazer os slides avançarem no m odo autom ático. Para um excelente exem plo disso, dê um a olhada na interessante palestra de Ross Lovegrove sobre seus proj etos de design inspirados na natureza. Mais de cem slides e vídeos de seu trabalho são m ostrados em um a sequência cronom etrada, e Lovegrove sim plesm ente fala de cada um conform e aparecem , form ato que garante um ritm o dinâm ico. Louis Schwartzberg fez algo parecido na palestra sobre seu im pressionante film e Mysteries of the Unseen World. Ele passa clipes do film e ao longo de toda a palestra, enquanto sua voz funciona com o narrativa poética. O
resultado é de cair o queixo.
É possível aperfeiçoar m uitas palestras realizadas em em presas quando as pensam os com o cam inhadas m aravilhosas. Apresentações que se arrastam pelos tópicos do últim o trabalho de seu departam ento logo se tornam entediantes. Em vez disso, pergunte-se com o pode encadear esses proj etos de m odo a suscitar entusiasm o. Com o expor o que eles têm de prazeroso, inesperado ou engraçado?
Com o m udar o tom de “vej am o que realizam os” para “vej am com o isto é interessante”? Suponha que, em vez de enum erar tópicos, você tente casar cada passo da cam inhada com um a im agem intrigante. Suponha que haj a um esforço para im aginar com o sua ideia singular e com partilhável pode beneficiar outras pessoas da em presa. Ah! Agora, sim , você pode ter um a palestra que faça valer a pena desligar o iPhone.
Negócios, ciência, design ou arte: sej a em que área for, não perm ita que os ouvintes passem incólum es por sua obra. Im agine um a rota que atraia, interesse e esclareça. Um cam inho que leve a encantam ento e prazer.
A DEMONSTRAÇÃO DINÂMICA
Suponha que o que você vai m ostrar não sej a apenas um aparato visual, m as um a tecnologia, um a invenção ou um procedim ento inovador. Nesse caso, não
nos basta olhar. Precisam os ver o funcionam ento. Precisam os de um a dem onstração.
Boas dem onstrações podem ser a parte m ais m em orável de um ciclo de palestras. Bem ali, no palco e ao vivo, você vislum bra o futuro.
Em 2006, quando Jeff Han m ostrou o potencial da tecnologia m ultitoque, dois anos antes do lançam ento do iPhone, dava para ouvir a respiração do público. A dem onstração de Pranav Mistry sobre a tecnologia SixthSense teve im pacto sem elhante ao revelar as surpreendentes possibilidades que surgem quando se com bina um celular com um proj etor e um a câm era capaz de detectar gestos.
Exem plo: ao se em oldurar um obj eto distante com os dedos, tira-se um a foto dele que depois pode ser m ostrada em qualquer superfície branca por perto.
Para um a palestra com o essa, o m ais im portante, óbvio, é a qualidade do que você vai dem onstrar. É um invento ou um design efetivam ente curioso? Supondo que sim , pode-se revelá-lo de diversas m aneiras. O que não se deve fazer é usar m etade da apresentação para explicar um contexto tecnológico com plicado. O
público ainda não o viu em ação e pode sim plesm ente se desligar.
Quando você tem algo surpreendente para m ostrar, perm ita-se fazer um pouco de teatro. Não quero dizer que você deva com eçar num tom arrogante ou desenvolto dem ais, m as pode nos em polgar um pouco. Dê à plateia um a pista do que ela vai ver. Depois, conduza-a para o contexto necessário, idealm ente na direção de um clím ax forte quando as bases j á estiverem consolidadas.
Markus Fischer é um inventor incrível. No TEDGlobal de Edim burgo, em 2011, ele m ostrou um extraordinário robô que parecia um a gaivota gigante — e voava! Na verdade, era tão realista que, quando ele a fez voar durante o piquenique pós-evento, ela foi atacada por um bando de gaivotas de verdade, nitidam ente assustadas com a nova concorrente. Ele usou os prim eiros dez m inutos da apresentação para falar de detalhes técnicos do voo, sem dar sinal do que estava por vir. Perdeu parte do público. A natureza assom brosa da própria dem onstração — o voo da gaivota pelo auditório — logo deu j eito nisso. Mas, para a versão on-line, m udam os um pouco a ordem da palestra, de m odo que ele abrisse com a frase “voar com o um a ave é um sonho da hum anidade”. De im ediato, isso deu um belo contexto à palestra, aj udando-a a alcançar m ilhões de visualizações.
Jeff Han acertou em cheio ao com eçar assim sua apresentação: Fico m uito entusiasm ado por estar aqui hoj e. Vou lhes m ostrar um a coisa que acabou de ficar pronta para sair do laboratório, literalm ente, e fico feliz por vocês estarem entre os prim eiros a vê-la pessoalm ente, porque acho que, de agora em diante, ela vai m udar o m odo com o interagim os com as m áquinas.
Em poucas palavras, ele deu sinais instigantes de que teríam os a oportunidade de espreitar o futuro. A partir de então, ele estava pronto para seguir em frente e explicar a tecnologia antes de m ostrá-la em ação. Han contextualizou, m ostrou do que a tecnologia era capaz, suscitou suspiros e aplausos e gerou assom bro durante todo o tem po.
O inventor Michael Pritchard usou um a estrutura sem elhante. Prim eiro, falou rápido de um experim ento sobre com o seria a vida sem água potável. Depois, enveredou por um a explicação da tecnologia por trás da “garrafa salvadora” que havia proj etado. Alguns teriam term inado a palestra ali. Mas a força da palestra estava em m ostrar, não em falar, e Michael usou tudo a que tinha direito. Levou para o palco um grande recipiente de vidro, no qual derram ou a água barrenta de um lago, água de esgoto e excrem ento de coelho, até que a água ficou de um m arrom repulsivo. Depois de fazer a água passar por sua garrafa, verteu-a num copo vazio, o qual m e ofereceu para beber. Felizm ente, ela m e pareceu boa. E, assim , um a teoria tecnológica se transform ou num a prova teatral. Então, Michael falou da im portância de sua tecnologia no socorro a vítim as de catástrofes e para a saúde pública global, m as a verdade é que ele j á conquistara o público com a im pressionante dem onstração da ideia em ação.
A estrutura usada por Han e Pritchard é útil para a m aioria das dem onstrações: Um a provocação inicial.
O indispensável quanto a fundam entos, contexto e/ou história da invenção.
A dem onstração propriam ente dita (quanto m ais visual e teatral m elhor, desde que você não a falsifique).
As im plicações da tecnologia.
Às vezes, um a dem onstração é tão surpreendente que perm ite ao auditório im aginar aplicações e im plicações de fato interessantes. Assim , a dem onstração vai além de um a m era dem onstração e passa a ser um a visão de futuro. É para onde vam os agora.
A PAISAGEM DE SONHO
Os seres hum anos têm um a capacidade única, até onde se sabe. É tão im portante que usam os inúm eras palavras para classificar seus diferentes aspectos: im aginação, invenção, inovação, proj eto, visão. Ela consiste em sistem atizar m entalm ente o m undo e, então, ressistem atizá-lo para criar um m undo que não existe, m as um dia poderá existir.
Surpreendentem ente, som os capazes tam bém de revelar esses m undos
inexistentes a outros indivíduos, na esperança de que eles tam bém se entusiasm em . E, vez por outra, de m aneira ainda m ais m ilagrosa, depois que m uitas pessoas com unicam entre si um a visão, se m ostram capazes de usá-la com o proj eto para tornar real o m undo im aginado. O roteirista convence a produtora a fazer o film e. O inventor convence um a em presa a fabricar a geringonça. O arquiteto convence o cliente a financiar a obra. O em preendedor im pulsiona a equipe de sua nova em presa por acreditar que ela vai m udar o futuro.
Os sonhos podem ser com unicados por m eio de im agens, esquetes, dem onstrações... ou palavras.
Alguns dos discursos m ais retum bantes da história ressoaram j ustam ente porque com unicavam um sonho com eloquência e paixão irresistíveis. O m ais fam oso deles, é claro, foi o de Martin Luther King Jr. no Lincoln Mem orial em Washington, D.C., em 28 de agosto de 1963. Depois de preparar o terreno com cuidado e instilar no público um desej o intenso de pôr fim a séculos de inj ustiças, ele avançou:
Eu tenho um sonho de que, um dia, esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença: “Consideram os essas verdades evidentes em si m esm as de que todos os hom ens são criados iguais.”
Eu tenho um sonho de que, um dia, nas colinas verm elhas da Geórgia, os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes dos donos de escravos poderão se sentar j untos à m esa da fraternidade. [...]
Eu tenho um sonho de que m inhas quatro crianças pequenas um dia vão viver num a nação onde não serão j ulgadas pela cor da pele, m as pelo conteúdo de seu caráter.
O discurso durou dezessete m inutos e quarenta segundos. E m udou a história.
O presidente Kennedy levou a hum anidade à Lua com unicando um sonho antes de tudo. E algum as das palavras que ele escolheu são im pactantes: Escolhem os ir à Lua nesta década, e fazer outras coisas, não porque sej am fáceis, m as porque são difíceis [...] Entendo que, de certa form a, este é um ato de fé e visão, pois neste m om ento não sabem os que benefícios nos esperam . Mas, se eu lhes dissesse, m eus concidadãos, que vam os m andar para a Lua, a 386 m il quilôm etros de distância da estação de controle em Houston, um foguete gigantesco de m ais de trezentos pés de altura, que é o com prim ento deste cam po de futebol — feito de novas ligas m etálicas, algum as das quais ainda não foram inventadas, capazes de suportar tem peraturas e forças m uitas vezes m aiores do que em qualquer situação anterior, m ontado com um a precisão m aior do que a do m elhor relógio,
carregando todo o equipam ento necessário para a propulsão, a dirigibilidade, o controle, a com unicação, os alim entos e os artigos de sobrevivência, num a m issão j am ais tentada rum o a um corpo celeste desconhecido, para depois voltar à Terra em segurança, reentrando na atm osfera a um a velocidade de m ais de quarenta m il quilôm etros por hora, produzindo um calor de quase m etade da tem peratura do sol, quase tão quente quanto hoj e aqui, e fazer tudo isso, e fazer direito, e fazer pela prim eira vez antes do fim desta década
—, então devem os ser intrépidos [...] Mas isso será feito. E será feito antes do fim desta década.
Você poderia pensar que esse enquadram ento da iniciativa — m ostrada com o um a ação carregada de perigos e incertezas — é contraproducente. Mas ele funcionou, e não só porque torna nítido o que vai acontecer. Ele funciona porque nos faz sonhar com heroísm o. Kennedy nos proporciona um a viagem ao futuro para ler a narrativa que acabará sendo contada sobre a façanha.
No TED, a m aior parte das palestras é feita num a linguagem m ais coloquial.
No entanto, a capacidade de pintar um quadro atraente do futuro é um dos m aiores presentes que um orador pode oferecer. Com efeito, os oradores capazes de m ostrar um a paisagem de sonho estão entre os m ais em ocionantes do TED.
Eles não falam do m undo com o é, m as com o poderia ser. A sensação de possibilidade gerada por um a paisagem de sonho bem -feita é capaz de fundir m entes e fazer corações baterem m ais forte.
A visão de Salm an Khan sobre um a revolução na educação, na qual aulas em vídeo perm item que as crianças aprendam cada um a no seu ritm o, foi revelada lindam ente, pouco a pouco, e era possível sentir o entusiasm o tom ando conta da sala.
Para recriar com intensidade a experiência de vida num cam po de refugiados sírios, o cineasta Chris Milk m ostrou sua obra usando a realidade virtual. As pessoas tem em que a realidade virtual possa nos isolar uns dos outros. Milk proporcionou um a visão oposta e em ocionante — a de que instrum entos da realidade virtual podem se tornar m áquinas geradoras de em patia.
A bióloga m arinha Sy lvia Earle usou im agens fortes e linguagem eloquente para descrever a crise de nossos oceanos superpoluídos e subm etidos à pesca predatória. Mas não parou por aí. Falou do que poderia acontecer se criássem os
“pontos de esperança”, áreas protegidas em que a vida m arinha pudesse se recuperar. Sua visão foi tão arrebatadora que um m em bro da plateia fez, ali m esm o, um cheque de 1 m ilhão de dólares e até hoj e, m ais de cinco anos depois, continua apoiando o trabalho dela. A partir de então, o total de espaços protegidos nos oceanos m ais que triplicou.
Há dois segredos para se revelar um sonho com eficácia:
Pinte um quadro nítido da alternativa futura que você alm ej a.
Faça-o de um j eito que outras pessoas tam bém passem a desej ar esse futuro.
Fazer as duas coisas na m esm a palestra é um desafio. A prim eira parte em geral exige apoio visual. Kent Larson passou dezoito m inutos m ostrando ideias radicais de design, com o carros dobráveis e apartam entos que m udam de form a para perm itir que caiba m ais gente nas grandes cidades sem superlotá-las. Por si sós, as ideias não pareciam necessariam ente exequíveis, m as ao m ostrá-las visualm ente ele as tornou m uito m ais convincentes.
O arquiteto Thom as Heatherwick incluiu em sua palestra um slide que talvez sej a o m ais atraente que j á vi no TED. Mostrou o proj eto para um conj unto de apartam entos em Kuala Lum pur com engenhosos arranha-céus curvos que brotavam de um a base estreita, de m odo a criar espaço para um m agnífico parque no térreo. Ele pintou o quadro de um futuro em que eu adoraria ter nascido.
Mas nem sem pre é esse o caso. Muitas vezes, quando as tecnologias são reveladas, a plateia não sabe se fica entusiasm ada ou apavorada. Em 2012, Regina Dugan, então diretora da Agência de Proj etos de Pesquisa Avançada de Defesa (Darpa), revelou um a sequência de tecnologias, com o planadores de alta velocidade e drones em form a de beij a-flor, que eram ao m esm o tem po de cair o queixo e inquietantes, dado seu provável em prego m ilitar. Palestras sobre engenharia genética, sobre a possibilidade de um com putador identificar rostos na m ultidão ou sobre a pesquisa de robôs hum anoides podem parecer m ais arrepiantes do que atraentes.
Com o o orador pode evitar esse tipo de desconforto? O único j eito é tornar claros os m otivos por que vale a pena perseguir esse futuro. Ou apresentar a ideia de um a form a que enfatize valores hum anos, e não apenas a alta tecnologia.
Foi isso que Bran Ferren tentou fazer no TED2014. Ele falou sobre veículos autodirigíveis e sobre o futuro radicalm ente diferente que prenunciam . Mas sua palestra com eçou com a inspiração que ele teve quando criança, enquanto visitava o Panteão em Rom a com os pais, e term inou com um a exortação voltada para a inspiração de crianças no futuro:
Precisam os incentivá-las a encontrar um cam inho próprio, m esm o que sej a m uito diferente do nosso. Tam bém precisam os que elas entendam algo que não é tão valorizado quanto deveria em nosso m undo cada vez m ais dependente da tecnologia: arte e design não são luxo, nem , de form a algum a, incom patíveis com ciência e engenharia. Na verdade, são indispensáveis para aquilo que nos torna especiais.
O que poderia ter sido um a visão puram ente tecnológica, e talvez um tanto aterrorizante, acabou se m ostrando hum ana e esperançosa.
O hum or tam bém aj uda. Juan Enríquez apresentou no TED um a série de palestras de queim ar os m iolos, revelando descobertas im inentes nos cam pos da biologia e da genética que pareceriam bem alarm antes se ele não tivesse dado um j eito de arrancar risos a cada slide. Tendo Juan ao lado, o futuro parece m uito m ais m aravilhoso do que preocupante.
Finalm ente, quanto m ais realizável é um a visão de futuro, m elhor. O fundador da Story Corps, Dave Isay, falou do poder que existe em perguntarm os aos nossos entes queridos sobre o significado de suas vidas — e gravar as respostas. Mostrou, então, um aplicativo com o qual qualquer um poderia fazer isso e enviar o resultado para a Biblioteca do Congresso, criando um registro perm anente. Sua visão de um m undo em que as pessoas ouçam de verdade um as às outras foi inspiradora, e, dias depois da publicação de sua palestra, m ilhares de pessoas gravaram conversas expressivas que nunca haviam tido.
Esse é o poder de nossos sonhos. Eles podem se espalhar, gerar estím ulo e fé e, assim , se tornar realidade. Ao nos darem a sensação de que são possíveis, aqueles que sonham nos inspiram tam bém a trabalhar m ais em nossos sonhos. Se um sonhador inspirado nos convida a acom panhá-lo num a viagem , não podem os recusar sob hipótese algum a.
MISTURAS E COMBINAÇÕES
A verdade é a seguinte: a m aior parte das palestras não se encaixa claram ente em apenas um a das categorias enum eradas até agora. No geral, apresentam elem entos de diversas categorias. Por exem plo, a popular palestra de Am y Cuddy sobre linguagem corporal afeta nossa autoconfiança com um a hábil m istura de explicação e história pessoal. E a de Salm an Khan com eça com sua própria história, m as se transform a num a cam inhada m aravilhosa pelas notáveis características que constituem sua Khan Academ y e term ina com o paisagem de sonho — a visão em polgante do potencial de um novo tipo de educação.
Assim , vou enfatizar: de modo algum as técnicas descritas aqui devem ser vistas como limitadoras. São ferram entas que aj udam a im aginar a m elhor m aneira de introduzir seu proj eto construtivo na m ente dos ouvintes. Selecione, m isture, com bine e aum ente do m odo m ais eficiente e legítim o para a ideia que você quer construir.
Agora, vam os supor que você possua a linha m estra e o conteúdo da palestra e j á tenha entrelaçado sua engenhosa m istura de sintonia, narração, explicação, persuasão e revelação. O que vem a seguir?
É hora de pegar a estrada.
Vam os exam inar quatro elem entos essenciais do processo de preparação, os
quais vão determ inar se sua apresentação é príncipe ou é sapo: Incluir ou não im agens? Em caso positivo, que im agens?
Roteirizar e decorar? Ou se planej ar para falar “na hora”?
Com o treinar os dois tipos de palestra.
Com o com eçar e term inar causando o m áxim o de im pacto.
Podem os ir? Vam os lá, há m uito o que fazer.