TED Talks: O Guia Oficial do TED para Falar em Público
16. O cenário
O nervosism o não é um a m aldição. Ele pode ser transform ado e com isso gerar um ótim o resultado. Faça as pazes com seu nervosism o, reúna coragem e vá em frente!
No palco
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O CENÁRIO
Púlpito, monitor de referência, fichas ou (epa!) nada?
A am bientação da palestra é fundam ental. Com pare dois cenários. Cenário A: um orador num pódio, atrás de um púlpito grandalhão, lendo um roteiro dirigido a um a plateia um tanto distante. Cenário B: um orador de pé, desprotegido, num palco pequeno e cercado de público por três lados.
Nos dois casos fala-se em público, m as na verdade são atividades bem diferentes. O cenário B pode parecer assustador. Você fica ali, vulnerável, sem laptop, sem roteiro, o corpo inteiro exposto, sem ter onde se esconder, penosam ente consciente de que todos os olhos estão em você e a curta distância.
O cenário A evoluiu ao longo dos anos para se adaptar às necessidades de cada orador. Antes da eletricidade, ele precisava de um pequeno púlpito onde pôr as anotações. Mas, ao longo do século XX, os púlpitos (ou pódios) foram crescendo cada vez m ais, de m odo a acom odar um a lâm pada para o roteiro, botões para passar slides e, m ais recentem ente, um laptop. Acreditava-se que, com a m aior parte do corpo ocultada e apenas o rosto à m ostra, o orador ganhava autoridade, talvez em virtude da associação inconsciente com um pregador religioso no púlpito. De propósito ou não, os púlpitos m aiores ergueram um a grande barreira visual entre orador e público.
Do ponto de vista do orador, tudo isso pode ser m uito confortável. Com o não achar bom ? Todo o necessário para sua palestra está ali, ao alcance das m ãos. E
você sente m ais segurança. Não im porta se esqueceu de lustrar os sapatos ou se vestiu um a cam isa m eio am arrotada. Ninguém vai ver. Você tem um a linguagem corporal esquisita ou m á postura? Problem a nenhum . O púlpito tam bém esconde isso. Praticam ente só seu rosto estará visível. Ufa! E viva!
Mas, do ponto de vista do público, perde-se m uito. Dedicam os um capítulo inteiro à im portância da sintonia entre orador e plateia. E grande parte da sintonia depende da disposição do orador a se m ostrar vulnerável. É um a interação sem palavras, m as poderosa. Se um orador baixa a guarda, a plateia repete o gesto. Se ele se m antém distante e em segurança, a plateia faz o m esm o.
Richard Saul Wurm an, um dos fundadores do TED, era inflexível quanto a isso. Nada de pódio! Nada de púlpito! Nada de palestras lidas! Ele não gostava de nada que tornasse m ais form al a relação entre plateia e orador. (Isso incluía a gravata, que ele proibiu term inantem ente. Quando Nicholas Negroponte o desafiou e apareceu de terno e gravata, Richard subiu ao palco com um a tesoura e a cortou!)
Essa posição é um a das razões pelas quais as Conferências TED são diferentes daquelas a que o público se acostum ou. Os palestrantes são obrigados a ser vulneráveis. E a plateia corresponde.
Caso você se sinta à vontade, realizar a palestra diante da plateia sem púlpito é a m elhor escolha. A grande m aioria das Conferências TED é assim , e incentivam os todos os palestrantes a tentar. Mas tudo tem um preço, e no TED de hoj e adm itim os que há diversas m aneiras de dar um a palestra, tanto em benefício da variedade quanto para atender às necessidades de cada orador. Para os palestrantes, é bom que sej am levados ao lim ite de sua zona de conforto. Mas, com o eu disse, você pode acabar indo longe dem ais. Aprendi com Daniel Kahnem an e outros que fazer alguém falar num cenário que o faça se sentir seguro e lhe perm ita encontrar as palavras com m ais naturalidade é m ais im portante que m axim izar a vulnerabilidade.
Portanto, o obj etivo deste capítulo é m ostrar os prós e contras de cada cenário e encontrar o m odo de falar que lhe pareça m ais adequado.
A prim eira questão fundam ental: para fazer um a boa palestra, quantas anotações você precisa consultar? A escolha é fácil se você decorou todo o texto ou poderá falar consultando um a pequena lista de tópicos escrita à m ão: suba ao palco e faça um a palestra direta, de ser hum ano para seres hum anos. Nada de púlpito, nada no m eio, só você, um a ficha na m ão e a plateia. Em m uitos aspectos, esse é o padrão-ouro desej ável. Ele vai lhe dar a m elhor oportunidade de construir um a forte sintonia, baseada na vulnerabilidade que você transm ite.
Mas nem todos se sentem bem nessas condições, e talvez nem toda palestra j ustifique o investim ento necessário para você se sair bem nessa situação.
Portanto, se você acha que vai precisar de m uitas anotações, ou m esm o de um roteiro com pleto, qual é o problem a? Eis aqui um a lista de possibilidades de apoio. Estão em ordem crescente em relação à segurança que proporcionam , m as algum as são bem m elhores do que outras.
CÓPIA DE SEGURANÇA
Nesta m odalidade, antes de subir ao palco, você põe um conj unto com pleto de anotações ou m esm o o roteiro na m esa ou no púlpito na lateral do palco, ou ao fundo, j unto com um a garrafa d’água. Você procura dar a palestra na frente do palco, sabendo que, se em perrar, pode ir até as anotações, tom ar um gole d’água e prosseguir. Do ponto de vista da plateia, isso é com pletam ente natural, não há problem a algum . Com as anotações a certa distância, você evitará a tentação de ficar olhando para elas toda hora e terá grandes chances de term inar a apresentação sem usá-las. Mas você sente um alívio só de saber que elas estão ali, à sua m ão.
SLIDES COMO GUIAS
Muitos palestrantes usam slides para refrescar a m em ória. Já falam os disso brevem ente. O que não se deve fazer, claro, é usar o PowerPoint com o um a cópia com pleta da palestra e m ostrar um a série de slides crivados de texto. Isso é horrível. Mas, caso você tenha im agens adequadas para acom panhar cada ponto principal da apresentação, essa possibilidade pode funcionar m uito bem , desde que tenha pensado nas transições. As im agens são lem bretes eficientíssim os, m as ainda assim você pode usar um a ficha com anotações adicionais.
FICHAS MANUAIS
Talvez suas anotações não caibam num a única ficha. Você quer se lem brar de cada transição de slide, dos exem plos que acom panham cada tópico principal ou do texto exato de encerram ento. Nesse caso, o m elhor pode ser usar um conj unto de fichas e folhear um a a um a. Convém prendê-las com um clipe para evitar que saiam da ordem em caso de queda. Essas fichas são quase im perceptíveis e perm item checar em que ponto da palestra você se encontra. O único inconveniente é precisar consultá-las poucas vezes e, quando quiser encontrar um tópico, ter de passar por cinco ou seis fichas para chegar ao que procura.
Um a alternativa é usar um a prancheta ou folhas de papel de tam anho norm al.
Elas exigem poucas viradas de página, porém são m ais visíveis. É provável que as fichas sej am m elhores, e, caso a palestra recorra bastante a im agens, um a boa técnica seria ter um a ficha por slide, com o texto de transição para o slide seguinte.
Dito tudo isso, ainda é im portante que você tenha a palestra na ponta da língua para não ficar toda hora olhando para baixo.
Muitos oradores do TED usam fichas. Talvez você não as vej a na tela, m as isso se deve, em parte, ao bom trabalho de nossos editores de im agem e, em parte, ao fato de m uitos oradores usarem as fichas apenas com o apoio ocasional. O ponto positivo dessa técnica é perm itir que o orador cam inhe livrem ente pelo palco, levando consigo tudo de que precisa para m anter a apresentação nos trilhos.
SMARTPHONE OU TABLET
Alguns oradores vêm preferindo usar aparelhos eletrônicos com o substitutos tecnológicos das fichas. Em vez de levar um a porção de fichas, a ideia é sim plesm ente fazer rolar a palestra na tela. Isso sem dúvida pode libertar o orador do púlpito. Mas não sou grande fã desse recurso. Um dos m otivos é que, quando o orador olha para a tela, inconscientem ente a plateia pensa que a sintonia entre os dois se quebrou. A culpa é das tantas m ensagens de texto que não
param os de receber.
Além disso, m uita coisa pode dar errado. Um sim ples toque acidental na tela pode fazer o roteiro sum ir, e aí você precisar rolar muitas telas até se situar.
Talvez alguém ainda invente o aplicativo perfeito para rem ediar o problem a, porém , até agora, essa solução é m ais dem orada e atrapalhada do que as boas e velhas fichas. Tudo bem que você tenha seu roteiro num iPad com o cópia de segurança, m as não recom endo usar um aparelhinho eletrônico para consultas frequentes.
MONITORES DE REFERÊNCIA
Em m uitas palestras de alto nível, os organizadores instalam m onitores de referência dentro do cam po visual do palestrante. Podem ficar no chão do palco ou no fundo da sala, atrás e acim a do público. Seu principal obj etivo é perm itir que o palestrante se certifique de que o slide avançou sem precisar se virar toda hora. Mas eles tam bém podem ser usados (apenas por você) para m ostrar o texto que acom panha um slide e/ou o slide seguinte, para que possa se preparar. Tanto o PowerPoint quanto o Key note contam com esse recurso, o m odo de exibição do apresentador. Há vantagens óbvias em usá-lo. Se você estruturou a palestra para m ostrar um slide por tópico, pode usar m onitores de referência para m anter o fio da m eada com conforto. Mas tam bém há arm adilhas a evitar.
Às vezes, o orador olha para o m onitor errado, confunde o slide atual com o seguinte e entra em pânico, achando que está m ostrando o slide errado. Mas m uito pior é a tendência de ficar dependente dem ais das notas na tela e consultá-las com excessiva frequência. Isso é ainda m ais em baraçoso do que um orador que não para de olhar para as anotações. A m enos que os m onitores de referência tenham sido instalados bem no m eio da plateia, ela perceberá claram ente quando o palestrante estiver olhando para as telas. O olhar dele estará sem pre voltado para o piso do palco, ou pairando sobre a cabeça dos ouvintes.
Pode ser m uito desconcertante, o inverso do desej ado contato visual que prom ove a identificação.
Além do m ais, há algo de fam iliar e reconfortante em ver que um orador recorre de vez em quando às anotações. Elas estão ali, e todos podem ver o que ele está fazendo. Isso não é problem a. Entretanto, quando os olhos dele procuram um m onitor de referência, pode haver um distanciam ento. De início, talvez a plateia nem note, m as, se continuar acontecendo, ela com eça a achar estranho. É
um pouco com o o Vale da Estranheza, ao qual j á m e referi. As coisas estão quase certas, m as ainda falta algo. E a lacuna fica esquisita.
Isso pode virar um desastre quando o orador decide ler a palestra inteira estam pada nos m onitores de referência. Os dois prim eiros m inutos são ótim os, m as aí o público percebe que o orador está lendo, e de algum a form a a
apresentação perde a vida. Há uns dez anos, tivem os no TED um a experiência desagradável nesse sentido, quando um a celebridade esportiva veio dar um a palestra e nos convenceu de que precisava ter o texto com pleto nas telas no fundo da sala. Durante a apresentação, o que ele disse saiu perfeito. Mas dava para acom panhar os olhos dele lendo, um m etro acim a da cabeça de todos, e isso acabou com o im pacto da palestra.
O único palestrante que j á vi lendo com sucesso nas telas dos m onitores de referência foi o cantor Bono. Ele é um artista nato e conseguiu ler no lim ite de seu cam po de visão enquanto m antinha m uito contato visual com a plateia, usando um tom de voz natural e soltando tiradas agradáveis. Mesm o assim , as pessoas que perceberam que sua fala, inclusive as piadas, estavam nos m onitores do fundo do auditório ficaram decepcionadas. Elas queriam a m ente de Bono ao vivo diante delas. Se quisessem um discurso poderiam ter recebido por e-m ail.
Nossa recom endação veem ente quanto aos m onitores de referência é: use-os apenas para m ostrar slides, os m esm os que a plateia está vendo. Se precisar acrescentar notas, que sej am poucas e com tópicos de apenas duas ou três palavras. Depois, ensaie a palestra com o m enor núm ero possível de olhadas para os m onitores. Nada de ler! Essa é a única m aneira de m anter a sintonia com a plateia.
TELEPROMPTER
Se os m onitores de referência são perigosos, o teleprom pter é m uito m ais. À
prim eira vista, trata-se de um a invenção brilhante. Ele põe as palavras num a tela invisível para a plateia m as bem diante da linha de visão do orador, que assim pode ler um discurso m antendo contato visual perm anente com o público.
Mas tanta engenhosidade tam bém tem seu calcanhar de aquiles. Se usar um teleprom pter, você correrá o risco de com unicar à sua plateia: Estou fingindo olhar para vocês, mas na verdade estou lendo. E a confusão que isso causa pode ser prej udicial.
Você pode retrucar dizendo que é possível que funcione. O presidente Obam a, um dos m aiores oradores de nossa época, vive usando o teleprom pter. Isso é fato.
Mas divide opiniões entre seus ouvintes. Os que estão dispostos a confiar nele e a gostar dele ignoram e consideram a palestra seu m odo autêntico de falar. Mas seus opositores adoram usar o teleprom pter contra Obam a, zom bam dele por não ser capaz de falar abertam ente e ao vivo. Por isso, o estrategista de m ídia Fred Davis acredita que o recurso é deletério para todos os políticos. Disse Davis ao The Washington Post: “Ele é negativo porque sinaliza falta de autenticidade.
Indica que você não é capaz de falar por si. Sinaliza que há alguém por trás soprando o que você deve dizer.”
No TED, hoj e em dia, relutam os em fixar norm as rígidas e definitivas, m as
sem pre desencoraj am os o uso de teleprom pter no palco principal. O público atual prefere que os oradores façam o m elhor possível de m em ória, com anotações, com ideias espontâneas, e rej eita um trabalho “perfeito”, que m isture leitura com falso contato visual. Assim , o que fazer se você precisar de um roteiro de toda a palestra m as não puder lê-lo num m onitor de referência ou num teleprom pter por m edo de não parecer autêntico? Eis a nossa sugestão.
PÚLPITO QUE NÃO BLOQUEIE A VISÃO
Se você precisar consultar um roteiro com pleto, longas anotações ou um tablet, não dissim ule. Sim plesm ente ponha o m aterial num púlpito. Mas pelo m enos se certifique de que o organizador do evento consiga um púlpito legal, m oderno e que não esconda seu corpo, que sej a transparente ou de pé fino, ao contrário do púlpito pesadão de m adeira que esconde o corpo todo. Depois, dedique-se a conhecer a fundo sua palestra para encarar a plateia durante a m aior parte do tem po, e não o púlpito.
No caso da palestra de Monica Lewinsky, essa foi a solução perfeita. Para ela, decorar tudo aquilo era um risco grande dem ais. No ensaio, ela tentou consultar as anotações em m onitores de referência, m as acham os que não estava dando certo. Ela não parava de olhar por cim a das cabeças dos ouvintes, o que quebrava a sintonia. Felizm ente, Monica saiu-se com algo que nunca tínham os tentado no TED, m as que funcionou à perfeição: ela apoiou suas anotações num atril de partitura. Se você assistir à palestra dela, vai ver que isso não a afasta nem um pouco da plateia. Na verdade, ela quase nunca desce o olhar. Mas aquilo lhe deu a segurança de que precisava para brilhar de verdade.
Por que isso funciona m elhor do que m onitores de referência ou o teleprom pter? Por que não há dúvida sobre o que está acontecendo. É sincero e m anifesto. A plateia pode gostar do fato de você claram ente estar se esforçando para não ler sua fala, olhando em volta, fazendo contato visual, sorrindo, m ostrando espontaneidade. E, caso isso sirva para lhe dar m ais conforto e segurança, o público vai perceber isso em seu tom de voz e relaxar j unto com você.