TED Talks: O Guia Oficial do TED para Falar em Público
11. Roteirização
Após planej ar os recursos visuais, é hora de voltar às palavras e decidir o que fazer para transform á-las num a palestra real. Há duas m aneiras bem distintas de fazer isso, e, com o verem os, os m elhores oradores do m undo discordam frontalm ente com relação a esse ponto. Para nossa sorte, há um a form a de transpor esse fosso.
Processo de preparação
11
ROTEIRIZAÇÃO
Decorar ou não decorar?
Num a Conferência TED recente, um físico brilhante e prom issor tinha sido convidado a dar um a palestra sobre novas descobertas im portantes em sua área.
Ele tinha fam a de ser o m elhor expositor de tem as científicos na universidade em que trabalhava. As palestras que realizava sem pre lotavam , graças ao seu dom de transform ar o com plexo em sim ples, o obscuro em instigante. E, na preparação da palestra, ele nos encantou com sua paixão, sua eloquência, sua clareza. Fiquei ansioso à espera de seu grande m om ento.
Ele com eçou bem , dom inando o palco e apresentando um a m etáfora intrigante que a plateia lotada estava adorando desvendar. E aí... veio o prim eiro escorregão. Por alguns instantes, ele ficou perdido. Sorriu, pediu um tem po, pegou o iPhone e tentou se situar. E foi em frente. Nenhum problem a. Só que isso se repetiu quarenta segundos depois. A m etáfora estava ficando com plicadíssim a.
As pessoas coçavam a cabeça e com eçavam a se sentir desconfortáveis por ele.
Dava para perceber a voz dele com eçando a ficar tensa. Ele tossiu. Passei-lhe um a garrafa d’água. Por um instante, parece que aj udou. Mas não. Num a aterrorizante câm era lenta, a palestra im plodiu bem diante de nós. Com o m ais tarde observou a com ediante Julia Sweeney, era com o se ele estivesse desaparecendo em um dos buracos negros de que falava. Pegou o celular de novo, m ais duas, três, quatro vezes. Com eçou a ler do aparelho. O sorriso e a paixão sum iram . A garrafinha d’água ficou vazia. Gotas de suor brilhavam em sua testa. A im pressão era de que ele estava prestes a m orrer sufocado. Ele deu um j eito de term inar, sob aplausos acanhados, solidários.
Sua palestra foi a que m ais deu o que falar no evento. Mas não da form a com o ele havia sonhado.
A questão é a seguinte: a culpa não foi dele. Foi m inha. Na preparação, eu o incentivei a em pregar um tem po na criação de um a palestra bom bástica e roteirizá-la m inuciosam ente. Era um a técnica usada pela m aioria dos palestrantes e pareceu funcionar bem no ensaio. Só que esse não era o estilo dele.
Ele havia explicado m agistralm ente o assunto a inúm eras turm as de estudantes usando palavras que lhe saíam com fluência, espontâneas, vindas direto de seu cérebro extraordinário. Eu deveria ter lhe pedido que trouxesse essa sua aptidão para o TED. (Na verdade, ele trouxe. Na véspera, subira ao palco para dar de im proviso um a explicação brilhante sobre um a im portante questão atual da física. Foi o roteiro que o confundiu.)
Existem m uitas m aneiras de preparar e dar um a palestra, e é im portante descobrir a que m ais com bina com você. Porque, quando chega a hora, m esm o com algo sensacional preparado, há um a longa lista de coisas que podem dar errado. Por exem plo:
Seu tom de voz dar sono na plateia.
Você falar com o se estivesse recitando.
Seu tem po acabar antes de você dizer m etade do que pretendia.
Você se em baralhar tentando casar os slides com as frases que preparou.
Você não conseguir passar os vídeos ou o controle rem oto não funcionar direito.
Você não conseguir fazer contato visual com um só m em bro da plateia.
Você se sentir desconfortável no palco, sem saber se deve cam inhar um pouco ou ficar no m esm o lugar. Entre um a coisa e outra, acaba balançando o corpo ou andando esquisito.
A plateia não rir quando você esperava que risse.
A plateia rir quando você não esperava em absoluto que risse.
A ovação com que você sonhava dar lugar a um as palm inhas chochas só por educação.
E aquilo que todos nós m ais tem em os: você esquecer o que ia dizer, dar um branco e paralisar.
Felizm ente, com um a preparação cuidadosa, pode-se m inim izar esses riscos.
Mas, com o m ostra o caso relatado, a preparação tem de ser correta. E o ponto de partida é saber como você pretende fazer a palestra. Cada orador tem sua abordagem . Neste capítulo, vam os m ostrar com o identificar o m elhor enfoque para você.
Há alguns anos, o TED era bem rígido quanto às regras das palestras: nada de púlpito. Nunca leia sua palestra. E, em geral, essas regras faziam sentido. As pessoas reagem bem à vulnerabilidade de um orador que fica ali desprotegido, sem púlpito, falando de m em ória. É a form a m ais pura de com unicação pessoal.
Mas a variedade tam bém tem sua força. Se todo palestrante ficasse no m eio do palco, enunciando com clareza vibrante um a palestra perfeitam ente decorada, logo a plateia se cansaria. Quando um grupo de pessoas se m obiliza para um a sem ana de palestras, os oradores m ais im pactantes são os que fazem as coisas de um m odo diferente. Se todos falarem sem roteiro, o professor excêntrico que lançar olhadelas de esguelha a um púlpito para ler a palestra poderá m uito bem ser o único a ficar na lem brança.
E, acim a de tudo, o que im porta é que os oradores se sintam à vontade e
confiantes, fazendo sua apresentação do m odo que m elhor lhes perm ita focar no assunto que os entusiasm a.
Descobrim os isso quando convidam os o ganhador do Prêm io Nobel Daniel Kahnem an para falar no TED. Conhecido com o pai da econom ia com portam ental, ele é um pensador extraordinário, dono de um instrum ental de ideias capaz de m udar qualquer visão de m undo. De início, pedim os a ele que falasse à m aneira tradicional do TED. Nada de púlpito. Fique de pé no palco, com algum as anotações, caso necessário, e faça a palestra. Mas, no ensaio, ficou claro que ele se sentiu pouco à vontade. Não conseguira decorar a palestra toda, por isso ficava fazendo pausas, baixando os olhos desaj eitadam ente e procurando o fio da m eada.
Enfim , eu lhe disse: “Danny, você j á deu m ilhares de palestras na vida. Com o se sente m ais à vontade para falar?” Ele respondeu que gostava de pôr o com putador no púlpito para consultar as anotações com m ais rapidez. Tentam os fazer isso, e ele relaxou de im ediato. Mas estava olhando para a tela um pouco dem ais. Chegam os a um acordo: ele poderia usar o púlpito em troca de olhar para a plateia o m áxim o que pudesse. E foi exatam ente o que ele fez. Em nenhum m om ento de sua excelente palestra pareceu que ele estivesse recitando ou lendo. Ficou coerente. E ele disse tudo o que pretendia, sem em baraço algum .
Por isso, hoj e em dia, não tem os regras fixas. Dam os apenas sugestões para aj udar os palestrantes a encontrar o cam inho m ais eficaz para cada um .
Um a das prim eiras decisões im portantes que você precisa tom ar — de preferência, assim que com eçar a preparar a exposição — é se vai querer: A. escrever toda a palestra, com o um roteiro com pleto (para ler, decorar ou com binar as duas coisas), ou
B. ter um a estrutura claram ente desenvolvida e falar na hora sobre os pontos a tratar.
Há argum entos fortes a favor de cada um a dessas estratégias.
PALESTRAS ROTEIRIZADAS
A m aior vantagem de optar pelo roteiro é poder fazer o m elhor uso possível do tem po. Pode ser dificílim o condensar tudo o que você quer dizer em dez, quinze ou dezoito m inutos. Se houver necessidade de explicações com plicadas, ou passos im portantes em seu processo de persuasão, talvez sej a indispensável selecionar cada palavra e aj ustar à perfeição cada frase ou parágrafo. A palestra roteirizada tem outra vantagem : podem os com partilhá-la antecipadam ente. Adoram os quando os palestrantes nos m andam um esboço do que vão dizer dois m eses antes do ciclo de palestras. Isso nos dá tem po de com entar quais elem entos podem ser
cortados e quais talvez precisem de explicação m ais detalhada.
Mas o grande obstáculo da palestra roteirizada é que, a m enos que sej a feita da m aneira correta, ela pode não parecer saída do forno. Um a coisa é ouvir a leitura, outra é ouvir a fala. Em geral (há exceções), os ouvintes preferem de longe a fala. É um enigm a. Se as palavras são as m esm as e todos os presentes sabem que foram escritas pelo palestrante, que im porta com o elas chegam a nós?
Talvez sej a porque a com unicação de pessoa para pessoa se configure um processo dinâm ico, que se desenrola em tem po real. Você diz um a coisa. Eu olho nos seus olhos e inconscientem ente faço todo tipo de j uízo. Será que você quer dizer isso m esm o? Seu entusiasm o por isso é genuíno? Você se com prom eteu com isso? Com o ouvinte, até que eu descubra essas respostas, seria um risco m e abrir com você. Isso significa que é da m aior im portância observar alguém
“pensar alto” na hora. Podem os perceber sua convicção e nos dispom os a participar do entusiasm o de ver que alguém identificou um a boa ideia, lutou por ela e, por fim , lhe deu form a. O fato de perceberm os que você quer dizer exatamente o que está dizendo no m om ento nos perm ite aderir àquele significado.
Por outro lado, quando são lidas, as palavras podem soar im pessoais e distantes. É um pouco com o assistir à reprise de um a partida. O j ogo j á acabou.
Mesm o quando não sabem os o resultado, não nos envolvem os dem ais. (E
im agine com o a experiência de ver um a reprise seria ainda pior se percebêssem os que a narração foi lida e acrescentada depois do j ogo, e não feita em tem po real. As palestras lidas podem passar essa sensação.) Portanto, se você prefere a opção do roteiro, pode recorrer a três estratégias principais:
1. Tenha o texto na ponta da língua, de m odo que em momento algum ele pareça roteirizado. (Em breve falarem os m ais sobre esse ponto.) 2. Recorra ao roteiro (estej a ele num púlpito — preferencialm ente de um tipo que não esconda seu corpo todo — ou talvez num a tela ou m onitor), m as com pense isso olhando para o público a cada frase, para fazer contato visual com ele. Observe que eu não disse “leia o roteiro”. Você pode ter o discurso todo diante de si, m as é im portante que se encontre no m odo fala, e não no m odo leitura. A plateia percebe a diferença. Tudo depende da expressividade das palavras, conform e você as pronuncia com toda a naturalidade e o entusiasm o possíveis. Trata-se de fazer contato visual com a plateia, sorrir e assum ir outras expressões faciais. Trata-se de ter tal intim idade com o roteiro que você só precise dar um a olhada nele a cada um a ou duas frases. Claro que isso dá trabalho, m as vale a pena, e é bem
m enos assustador do que a m em orização total.
3. Concentre o roteiro em tópicos e planej e-se para expressar cada um em palavras espontâneas. Essa técnica tem suas dificuldades, que serão tratadas adiante em “Palestras não roteirizadas”.
Há apenas duas situações em que você deve se ater à leitura do roteiro: 1. Sua palestra é acom panhada de im agens ou vídeos deslum brantes exibidos enquanto você fala. Nesse cenário, o que você diz funciona com o um a legenda que confere intensidade poética às im agens. A atenção dos ouvintes está na tela. Assim foi a palestra do fotógrafo Jam es Nachtwey, ganhador do Prêm io TED.
2. Você é um escritor de m ão cheia, e a plateia sabe que está ouvindo um texto escrito. Mas, com o verem os m ais à frente, m esm o no caso de grandes escritores e de roteiros poéticos, não ler pode ser m ais eficaz.
Apesar dessas recom endações, para a m aior parte dos oradores, a m aneira m ais segura de realizar um a palestra eficaz consiste em roteirizar e estudar até assim ilar tudo. Mas essa é um a tarefa árdua. Para a m aioria das pessoas, decorar um a palestra de dezoito m inutos pode levar cinco ou seis horas. Um a hora por dia, durante um a sem ana. Se você não dispõe desse tem po, m elhor nem tentar seguir esse cam inho. Quando subir ao palco, a últim a coisa que vai querer é sofrer tentando se lem brar do roteiro.
Quando isso acontece, o problem a não é tanto o risco de paralisar. É que seus ouvintes vão perceber que você está recitando. Vão ver seus olhos rolarem entre dois parágrafos, tentando lem brar a frase seguinte. O m ais provável é que notem seu tom de voz m onótono e robotizado, porque você está concentrado em recuperar as frases certas em vez de lhes atribuir um a expressividade real.
Isso é quase um a tragédia. Você dedicou tanto esforço para criar um a palestra fascinante, m as na hora nem lhe deu chance de causar im pacto.
É possível corrigir esse problem a. Mas dá trabalho.
Im agine-se observando um am igo que, ao longo de um a sem ana, tenta decorar sua apresentação. Vam os supor que todos os dias você peça para ele fazer a m elhor versão de sua palestra sem se valer de anotações. Você perceberá algo estranho: no início, ele vai ser m uito convincente (ainda que um tanto desestruturado). Seu am igo ainda não sabe nada de cor, então se lim ita a fazer o que pode para dar as inform ações m ais ou m enos na ordem planej ada.
Mas depois de alguns dias você observa um a m udança. Ele chega ao ponto de saber de cor boa parte da palestra, e essa parte é expressa em parágrafos eloquentes. Mas... você não vê neles a vivacidade original. Percebe o estresse a
que ele está subm etido. Escuta coisas com o “vej am os”; “um m inutinho”; “vou recom eçar” . Ou sim plesm ente ouve aqueles parágrafos com o que declam ados por um robô.
Essas características revelam que a palestra está sendo recitada, em vez de falada com expressividade. Eu cham o essa fase da preparação de Vale da Estranheza . O term o, em prestado da anim ação com putadorizada, designa o fenôm eno que ocorre quando os personagens antropom orfizados estão m uito perto de parecerem reais, m as ainda falta um pouco. O efeito é de arrepiar, pior do que se o anim ador desistisse totalm ente do realism o. Se seu am igo orador subir ao palco nesse m odo, a palestra provavelm ente irá fracassar. Seria m elhor ele deixar de lado a apresentação roteirizada e, em vez disso, escrever sete tópicos para falar um pouquinho de cada um . Ou levar o roteiro para o palco.
Mas, se ele insistir no processo de m em orização, lá pelo sexto ou sétim o dia você vai observar um a m udança anim adora. De um a hora para outra, seu am igo passará a saber a palestra de verdade. Ele a conhecerá tão bem que se lem brará dela de estalo. De repente, seu am igo se tornou capaz de usar sua atenção consciente para se concentrar outra vez na expressividade das palavras.
Portanto, o que eu digo aos oradores que pretendem decorar a palestra é o seguinte: Que ótimo. Você está se dando a melhor oportunidade de um grande sucesso. Mas é fundamental que atravesse o Vale da Estranheza e não fique lá.
Caso não se disponha a assumir esse compromisso, não decore!
E com o fazer para decorar? Os palestrantes do TED usam um a porção de m étodos. Ao que parece, Pam ela Mey er, que deu um a palestra de sucesso sobre com o descobrir um m entiroso, falava sinceram ente ao dar este conselho: No Cam p Seafarer, Carolina do Norte, tínham os de cantar as m úsicas do acam pam ento e nadar cachorrinho ao m esm o tem po. Depois, para dificultar, além de nadar cachorrinho tínham os de balançar os dedos indicadores na batida da m úsica, num a coreografia com plicada. Você só decora plenam ente sua fala quando é capaz de realizar outra atividade que exij a energia m ental enquanto dá a palestra. Consegue realizá-la enquanto m ede os ingredientes para fazer brownies? Consegue fazer a apresentação arquivando todos os papéis espalhados em sua m esa? Caso consiga dar a palestra com seu esforço cognitivo m obilizado a esse ponto, será capaz de se sair bem no palco.
Assista à apresentação de Pam . Parece decorada? Não. Soa totalm ente natural.
O palestrante do TED e artista perform ático Rives concorda: Quando tenho tem po de decorar um a palestra, eu decoro a $#@! toda.
Decoro m inha fala até que saia com o um a m elodia. Trabalho a fala na
m inha boca. Falo rápido e falo devagar, cantarolando e a todo volum e, calm o e calm íssim o. Ensaio até conseguir representar a palestra, sem m e lem brar dela. E, ufa, recitando. Meu ritual de m em orização norm alm ente acontece na noite, ou nas noites, da véspera da palestra, num quarto de hotel.
Eu ligo a TV num program a de entrevistas, com o volum e um pouco m ais alto do que o habitual para gerar o m áxim o de interferência cognitiva. Então (sem brincadeira) seguro um a das pernas levantada e recito a palestra diante da m inha im agem no espelho. Se paro de sorrir, eu tenho de recom eçar. Se perco a postura, tenho de recom eçar. Quando sobrevivo a um a recitação com pleta, não esqueço m ais a palestra, e os sorrisos aparecem na hora certa.
Se você passa m uito tem po dirigindo, pode considerar a possibilidade de gravar a palestra (lendo-a para seu sm artphone, por exem plo) e depois ouvi-la em volum e baixo tentando se antecipar à gravação. Depois tente de novo num a velocidade m aior (a m aioria dos sm artphones tem essa função). Um a das instrutoras de palestras prediletas do TED, Gina Barnett, afirm a que o im portante é ser capaz de recitar a fala no dobro da velocidade norm al. Quando você conseguir fazer isso sem dificuldade, dar a palestra à velocidade norm al se tornará um a ação autom ática, e você poderá focar 100% na expressividade. Ela tem tam bém um excelente insight sobre com o se deve considerar a m em orização. “O que eu digo às pessoas é: a prática não leva à perfeição. A prática torna a imperfeição tolerável. Isso porque, quando você sabe algo de trás para frente, pode JOGAR com os im previstos, em vez de suprim i-los.”
Então, esse é o segredo. Não pretenda recitar a palestra. Você deve vivê-la.
Incorporá-la. Seu único obj etivo é chegar ao ponto em que lem brar as palavras deixe de ser um esforço e você possa usar o tem po de apresentação para passar paixão e expressividade a seus ouvintes. Você deve dar a impressão de que está expondo essas ideias pela primeira vez.
Isso é possível. Nem toda ocasião em que você vá falar j ustifica esse investim ento de tem po. Mas, quando j ustifica, vale a pena.
Outra questão essencial para as palestras roteirizadas é a do tipo de linguagem a se usar. Linguagem falada ou escrita? A linguagem que usam os no dia a dia é bem diferente da que os escritores usam . Mais direta, m enos poética.
O conselho da m aioria dos treinadores é se ater rigidam ente à linguagem falada. Dessa form a, pode-se falar de m em ória, no m om ento. Afinal, trata-se de um a palestra, não de um texto. Martin Luther King não disse: “Vívida, potente, inesquecível é a visão que trago hoj e até vocês.” Ele disse: “Eu tenho um sonho.”
Dan Gilbert, professor de Harvard, aconselha seus alunos a fazer prim eiro sua apresentação diante de um gravador, depois transcrevê-la e por fim usar a transcrição com o prim eira versão da palestra. Por quê? “Porque, quando
escreve, a pessoa é levada a usar palavras, frases, estruturas e ritm os que ninguém usa na fala espontânea. É por isso que, se partir de um texto escrito e tentar adaptá-lo para a apresentação oral, você estará basicam ente tentando transform ar um a form a de com unicação em outra, e o m ais provável é que a alquim ia dê errado.”
Com o verem os, m uitos outros oradores acreditam que a m elhor m aneira de
“escrever” um a palestra é sim plesm ente tentar dizê-la em voz alta inúm eras vezes.
No entanto, m ais um a vez, é um erro ser excessivam ente rígido acerca disso.
Bons escritores são capazes de fazer outro tipo de palestra, voltada de antem ão para a elegância da linguagem escrita.
Vam os dar um a olhada neste parágrafo de um a m em orável apresentação de Andrew Solom on no TED2014:
Não procuram os as experiências dolorosas que talham nossa identidade, m as procuram os nossa identidade na esteira de experiências dolorosas. Não som os capazes de suportar um torm ento que não tenha razão de ser, m as podem os resistir a um a grande dor se acreditarm os que há nela um propósito. A tranquilidade nos m arca m enos do que a dificuldade.
Poderíam os ser nós m esm os sem nossos prazeres, m as não sem as desventuras que conduzem nossa busca por sentido.
Com o se vê, Solom on é um escritor extraordinário. Esse é o tipo de linguagem que encontraríam os num livro ou num a revista, e não a que usam os espontaneam ente num a conversa com am igos na m esa de bar. O segredo está no lirism o da linguagem — palavras com o “talhar” e “desventura”. Trata-se de um texto forte e deve ser ouvido com o tal. Mesm o que ele tenha falado a partir de suas anotações, o poder poético da linguagem fez com que nos sentíssem os nas m ãos de um grande artífice. Nós desejávamos que a palestra tivesse sido escrita de antem ão. (Aliás, Andrew m e contou que é assim que ele realmente fala com os am igos nas m esas de bar. Bem que eu queria ver isso.) Palestras com o a de Andrew podem ser lidas. Talvez devam ser lidas. Mas, se você pretende tom ar esse cam inho, m esm o sendo excepcional na arte da escrita, dê à plateia a honra de conhecer seu próprio roteiro tão bem que possa passar um a sensação de sentimento na hora. Atribua significado a cada frase. Erga os olhos sem pre que puder e faça contato visual. E, quem sabe, se quiser agregar um m om ento de forte im pacto j á perto do fim , abandone o roteiro antes de chegar à últim a página. Afaste-se do púlpito, j ogue fora as anotações, vá para a frente do palco e chegue à conclusão com todo sentim ento.
PALESTRAS NÃO ROTEIRIZADAS
Esse term o cobre um a grande variedade de palestras, desde as totalm ente im provisadas até as preparadas e estruturadas em detalhe, acom panhadas de ricas im agens. O que todas elas têm em com um é que, na hora de falar, o orador não tenta recorrer a um a frase escrita específica, m as pensa sobre o assunto e procura as m elhores palavras para transm itir a essência da questão. No m áxim o, usa algum as anotações para aj udar a abordar os principais elem entos da palestra.
Muito pode ser dito sobre não usar roteiro. A palestra pode soar original, cheia de vida, real, com o se você estivesse pensando em voz alta. Se esse é o estilo com que você se sente m ais à vontade, e se vai falar sobre um assunto que conhece m uito bem , talvez essa sej a a m elhor escolha.
Mas é fundam ental distinguir não roteirizada de não preparada. Num a palestra im portante, a segunda possibilidade é inadm issível. Infelizm ente, m uitas palestras não roteirizadas desem bocam em exposições capengas, incongruências, esquecim ento de elem entos indispensáveis e digressões repetitivas.
Sendo assim , com o você pode se preparar para um a palestra não roteirizada?
Depende m uito da viagem para a qual pretende levar a plateia. É bem m ais fácil construir um a palestra em torno de um único tem a do que um a exposição com plexa ou perm eada de sutilezas. O segredo do processo é voltar à m etáfora da viagem e se perguntar com o será cada passo. No m ínim o, o rótulo de cada passo pode ser um a lista de tópicos ou suas anotações m entais.
Você tam bém vai precisar de um a estratégia para evitar as arm adilhas m ais com uns dessa abordagem :
1. De repente não conseguir encontrar palavras para explicar um conceito essencial. Antídoto: praticar em voz alta diversas versões dos passos da viagem até ficar confiante de que tem absoluta clareza m ental sobre cada um deles.
2. Deixar de fora algo essencial. Vale a pena trabalhar na transição de cada passo, o que faz com que a sequência surj a naturalm ente.
Talvez sej a bom dedicar-se a lem brar as frases de transição ou acrescentá-las às anotações.
3. Estourar o tempo. Isso é preocupante para os organizadores do ciclo de palestras e para todos os oradores seguintes. Tam bém pode cansar a plateia. Evite. Os únicos antídotos são: A. Ensaiar a palestra diversas vezes para ter certeza de que ela cabe no tem po estipulado.
Se não couber, corte m aterial. B. Consultar disciplinadam ente o relógio e saber em que ponto é preciso estar na m etade do tem po. C.
Preparar um a apresentação que não ocupe m ais de 90% do tem po reservado.
Muitos oradores sucum bem à tentação de usar slides com o m uletas. Essa opção, em sua pior form a, leva à proj eção de um a série de slides sem graça, repletos de texto e tópicos que o orador enum era cansativam ente. Hoj e em dia, a m aioria das pessoas reconhece que essa é um a péssim a form a de dar um a palestra. Quando j á foi vista no slide, a palavra falada tem im pacto zero. Deixa de ser novidade.
Um conj unto de slides bem estruturado pode aum entar sua confiança e fazer avançar a palestra, m as precisa ser usado com sutileza. Você pode, por exem plo, m ostrar um a nova im agem para cada elem ento de sua fala, desde que o tem a estej a relacionado. Se em pacar, basta avançar para o próxim o slide. Você voltará ao cam inho naturalm ente. Mas lem bre-se de que isso não é o ideal. Um a transição engenhosa e oportuna de slides pode acrescentar bastante im pacto a um a apresentação. Muitas vezes, é possível criar expectativa antes de m ostrar um slide. E isto nos leva ao futuro das grandes cidades [clique] é m uito m ais eficaz que Ah, sim, agora quero falar sobre o futuro das grandes cidades.
Para dizer a verdade, o velho m étodo das fichas com breves anotações escritas à m ão ainda é um a form a aceitável de m anter o fio da m eada. Use palavras que evoquem frases fundam entais, ou falas que façam avançar para o próxim o passo da palestra.
Um a coisa a levar em conta é que o público não se im porta se você fizer um a pausa para tom ar pé da situação. Talvez você sinta algum desconforto. Eles, não.
O segredo é relaxar. Quando o astro dos DJs Mark Ronson participou do TED2014, foi exem plar a esse respeito. Em dado m om ento ele se perdeu, m as sim plesm ente sorriu, foi até um a garrafa de água, bebeu um gole, disse ao público que aquela era sua m uleta m ental, exam inou suas anotações e bebeu outro gole. Quando recom eçou, todos estavam gostando dele m ais do que antes.
Aliás, os oradores do TED têm opiniões m uito diversas sobre a escolha entre o roteiro decorado e um a palestra preparada espontânea.
A escritora Elizabeth Gilbert é definitivam ente adepta da prim eira opção: Eu sem pre decoro m inhas palestras — ou pelo m enos chego o m ais perto possível da m em orização total. A m em orização faz com que eu m e sinta à vontade e segura; a im provisação m e faz sentir caótica e vulnerável. Mesm o quem , com o eu, gosta de falar em público pode considerar isso algo assustador, e o m edo é capaz de provocar um branco. Mas, quando m e esforço bastante para decorar um a fala, com o se fosse um poem a ou um a m úsica, posso sim plesm ente recitá-la, m esm o que m inha m ente consciente estej a vazia. Prefiro dar a im pressão de estar recitando a correr o risco de m e perder, de parecer que não tenho um plano ou não faço a m ínim a ideia do assunto sobre o qual estou falando. Na m inha prim eira Conferência TED, fiquei tão nervosa e inquieta que m inha m ente consciente parou de
funcionar por com pleto durante pelo m enos m eus cinco prim eiros m inutos no palco. Felizm ente, m inha m em ória profunda e m inha boca ainda funcionavam , e assim as palavras saíram exatam ente com o eu tinha ensaiado. Com o passar dos m inutos, conform e entrei na seara conhecida da m inha fala, consegui relaxar aos poucos, e lá pela m etade da palestra eu j á estava gostando daquilo e im provisando em alguns m om entos. Mas a m em orização rigorosa foi o que garantiu m inha segurança durante o ataque de nervos inicial. Assim , passei a pensar na m em orização com o um treino de com bate; quando a batalha com eça, você quer agir por instinto, não por pensam ento consciente.
Am anda Palm er concorda:
Sou um a im provisadora de m ão cheia, m as palestra não é lugar de im proviso, ainda m ais num palco com o o do TED, em que o tem po é rigorosam ente controlado. Pensei em deixar espaços na palestra em que eu m e perm itiria refletir e divagar um pouco, m as, ao escrever, reescrever e ensaiar, entendi que poderia transm itir MUITO m ais conteúdo se fizesse o trabalho de antem ão e reduzisse m eus quarenta segundos de divagação a um a pílula concentrada de cinco segundos.
Pam Mey er m e disse que a razão para roteirizar um a palestra é que, com isso, você pode ter certeza de que cada frase vale a pena:
Sabe quando você vai dar um a palestra e gosta m ais de algum as partes do que de outras? Você tem de adorar cada frase. É indispensável que você repasse o roteiro e os slides, então se pergunte: “Isto é essencial para passar m inha m ensagem e é interessante, interessante de verdade? Eu adoro dizer esta frase?” Depois passe cada frase e slide por esse teste. Se algo entrar na lista do talvez... está fora.
Salm an Khan tem um a posição diferente:
Quando o público acredita que você está falando em tem po real, o im pacto é m uito m aior do que se ele ouvisse as palavras exatas. Sou m ais propenso a fazer um a lista de tópicos sobre os quais quero falar e tentar com unicar essas ideias em linguagem espontânea, com o se estivesse conversando com am igos à m esa de j antar. O segredo é m anter o foco nas ideias e deixar que as palavras fluam . A plateia percebe se você está pensando no que diz ou se apenas decorou um roteiro.
Steven Johnson concorda:
Em cada um a das m inhas Conferências TED, decidi não decorar nada, exatam ente porque o público detecta o texto decorado com m uita clareza, e isso tira a atenção da natureza espontânea e com prom etida própria da fala ao vivo. O outro problem a do discurso decorado é que, quando ele falha, o resultado é catastrófico. Se você falar orientado por um esquem a básico e deixar algo escapar, ou esquecer um pedacinho, o m ais provável é que só você perceba. Mas, se estiver recitando de m em ória e lhe der um branco, provavelm ente vai travar, sem ter com o fugir. É com o se seu teleprom pter m ental congelasse.
Um dos oradores m ais talentosos do m undo, Sir Ken Robinson, tam bém é da m esm a opinião. Ele m e contou que diversos trechos da bom bástica palestra sobre criatividade foram im provisados.
As pessoas devem fazer o que as deixa à vontade no palco e as aj uda a relaxar. Se a m em orização funciona, devem m em orizar. Mas com igo não é assim . Um a de m inhas prioridades ao dar um a palestra é estabelecer um a relação pessoal com a plateia, e para isso preciso de espaço para im provisar.
Sej am dez pessoas ou dez m il, sej a um sem inário ou um com ício, sinto que o essencial é falar com as pessoas, e não para as pessoas, e ser autêntico ao fazer isso. No entanto, planej o m inhas palestras com o m aior cuidado.
Sem pre que subo ao palco, sei o que quero dizer até a hora de sair. Mas eu quero tam bém m e conectar com os ouvintes que estão na sala naquele exato m om ento. Não im porta em quantas salas eu j á tenha falado: a plateia do presente é sem pre nova e diferente.
Já para Dan Gilbert, não se trata de isto ou aquilo. Em prim eiro lugar, ele roteiriza suas palestras (tom ando o cuidado de usar um a linguagem coloquial): Mas, quando vou falar, não m e prendo ao roteiro que escrevi. Então, por que escrevo? Porque é escrevendo que você descobre onde estão as lacunas!
Um a grande palestra é, ao m esm o tem po, roteirizada e im provisada. É
exatam ente com o um a grande apresentação de j azz: prim eiro, porque a abertura e o fecham ento são sem pre totalm ente roteirizados; segundo, porque a estrutura geral é toda determ inada antes do prim eiro sopro da trom pa; e, terceiro, o que torna o j azz interessante e sedutor é que, no m eio da m elodia, sem pre haverá um ponto (ou diversos pontos) em que o intérprete pode abandonar a partitura e criar espontaneam ente algo que capte o espírito daquele público específico, naquela sala específica, naquele
m om ento específico. O intérprete pode até passar alguns instantes nisso, m as sem pre deve saber quando voltar para casa e onde fica a casa. Um a palestra toda im provisada é com o o free j azz: quase sem pre um a abom inação. Um a palestra toda roteirizada é com o um concerto de m úsica clássica: intrincada, profunda, executada com perfeição, m as quase sem pre tão previsível que dá sono à plateia, pois desde o início ela sabe que não haverá surpresas.
E o guru Rory Sutherland tam bém recom enda o m elhor de cada alternativa: Acho que foi Churchill quem disse: “Ensaie suas observações im provisadas.” Ou pelo m enos deixe espaço na palestra para alguns adendos opcionais. Se tudo cam inha para a conclusão em perfeita sincronia, a palestra ganha pontos na lógica, m as pode levar o público a se sentir com o que com pelido a um a m archa forçada, e não a um a cam inhada prazerosa em boa com panhia.