TED Talks: O Guia Oficial do TED para Falar em Público

Fundamentos

Fevereiro de 2015

1. Assim com o a lógica, a gram ática, a geom etria, a astronom ia e a m úsica.

2. No program a TEDx, organizadores locais solicitam um a licença gratuita, o que lhes perm ite realizar um a experiência ao estilo TED. Entre oito e nove eventos dessa natureza são realizados por dia em todo o m undo.

Fundam entos

Fundam entos

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COMPETÊNCIA COMUNICATIVA

A habilidade que você pode construir

Você está sentindo um a angústia, não está?

Subir num palco quando centenas de pares de olhos estão pregados em você é aterrorizante. Você sente pavor de se levantar num a reunião da em presa e apresentar seu proj eto. E se entrar em parafuso e tropeçar nas palavras? E se esquecer totalm ente o que pretendia dizer? Isso poderá criar um a situação hum ilhante! Ou até pôr fim à sua carreira! E, quem sabe, a ideia em que você acredita nunca sej a divulgada!

Esses tem ores podem tirar seu sono.

Mas saiba de um a coisa: quase todo m undo j á sentiu m edo de falar em público. Estudos que pedem a pessoas para listar seus m aiores m edos costum am apontá-lo com o o m ais tem ido, superando o m edo de altura, de águas profundas

— e até da m orte.

Por que isso acontece? O m icrofone não esconde um a aranha venenosa. O

risco de você cair do palco e m orrer é zero. A plateia não vai atacá-lo com forquilhas. Então, por que essa angústia?

Porque há m uita coisa em j ogo. Não se trata só da situação m om entânea, m as da nossa reputação em longo prazo. A m aneira com o os outros nos veem tem enorm e im portância. Som os criaturas essencialm ente sociais. Desej am os o afeto, o respeito e o apoio dos outros. Em enorm es proporções, nossa felicidade futura depende dessas realidades. Para nós, o que acontece num palco afeta substancialm ente esses valores sociais, para o bem ou para o m al.

Entretanto, com a atitude m ental correta, pode-se usar o m edo com o um trunfo valioso. Ele pode ser o elem ento capaz de convencer o palestrante a se preparar de form a adequada.

Foi o que aconteceu quando Monica Lewinsky participou de um a Conferência TED. Para ela, os riscos não podiam ser m aiores. Dezessete anos antes, ela passara pela m ais agressiva hum ilhação pública que se possa im aginar, um a experiência tão dolorosa que quase a destruiu. Mas ali estava ela, tentando voltar a um a vida pública m ais visível, retom ar sua história.

No entanto, Monica não tinha m uita experiência em falar em público, e sabia que se sair m al seria um desastre. Ela m e disse:

A palavra nervosism o não dá conta de descrever o que eu sentia. Era m ais com o se eu m e sentisse... dilacerada de pavor. Raios de m edo. Angústia

elétrica. Se desse para captar a energia de m eus nervos naquela m anhã, acho que a crise energética seria solucionada. Eu estava não só subindo num palco diante de um a plateia respeitada e brilhante, com o seria gravada num vídeo com enorm e chance de ser divulgado publicam ente em um a plataform a de grande difusão. Fui invadida por ecos de um traum a persistente, causado pelos anos em que fui ridicularizada em público. Fui atorm entada por um a insegurança profunda, pela sensação de que o palco do TED não era o m eu lugar. Era contra essa experiência interior que eu lutava.

Mesm o assim , Monica achou um m eio de superar o m edo. Lançou m ão de algum as técnicas surpreendentes, de que falarem os no Capítulo 15. Por ora, basta dizer que funcionaram . Sua palestra recebeu um a ovação, foi vista por um m ilhão de pessoas na internet em poucos dias e recebeu m uitos elogios on-line.

Chegou a lhe valer um pedido público de desculpas da escritora fem inista Erica Jong, que a criticara durante m uito tem po.

Minha m ulher, Jacqueline Novogratz, um a pessoa brilhante, tam bém sofreu com o m edo de falar em público. Na escola, na faculdade e no com eço de sua vida pública, a perspectiva de enfrentar um m icrofone e um a plateia a am edrontava a ponto de fazê-la perder o ânim o. Mas ela sabia que, para levar adiante seu trabalho de com bate à pobreza, teria de persuadir outras pessoas, e por isso com eçou a se obrigar a falar. Hoj e ela faz dezenas de palestras por ano, e com frequência é aplaudida de pé.

Na verdade, em toda parte ouvim os histórias de pessoas que se sentiam aterrorizadas com a perspectiva de falar em público, m as acabaram aprendendo a fazer isso, e m uito bem : por exem plo, Eleanor Roosevelt, Warren Buffett e a princesa Diana, que era cham ada de “shy Di”, ou “Di tím ida”, por odiar falar em público, porém achou um m eio de falar inform alm ente, à sua m aneira, e fez o m undo se apaixonar por ela.

Se você conseguir falar da m aneira certa, os resultados poderão ser prodigiosos. Vej am os, por exem plo, o que o em presário Elon Musk disse aos funcionários da SpaceX, sua em presa de transporte espacial, em 2 de agosto de 2008.

Musk não era considerado um grande orador. Entretanto, naquele dia, suas palavras levaram a um a virada decisiva em sua em presa. A SpaceX j á havia falhado duas vezes em lançam entos de veículos espaciais. Nessa data ocorreria o terceiro lançam ento, e todos sabiam que m ais um fracasso poderia levar a em presa a fechar as portas. O foguete Falcon subiu da plataform a de lançam ento, m as logo após o fim do prim eiro estágio veio o desastre. O foguete explodiu. A transm issão em vídeo foi interrom pida. Cerca de 350 funcionários estavam reunidos na sede, e, com o contou Dolly Singh, a caçadora de talentos da

em presa, o clim a era de total desespero. Musk apareceu para falar a eles. Disselhes que desde o com eço eles sabiam que seria difícil, m as que, apesar do acontecido, naquele dia eles haviam realizado um a coisa que poucos países, que dirá em presas, tinham sido capazes de fazer: com pletado com sucesso o prim eiro estágio do lançam ento de um foguete e levado um a nave ao espaço sideral. O

que tinham de fazer a partir de então era sim plesm ente dar a volta por cim a e voltar ao trabalho. Eis com o Singh descreve o clím ax da fala: Em seguida ele disse, com o m áxim o de energia e em penho que conseguiu reunir após m ais de vinte horas acordado: “De m inha parte, nunca hei de desistir. Repito: nunca.” Acho que, depois disso, a m aioria de nós teria ido atrás dele até os portões do inferno de bronzeador na m ão. Aquela foi a m aior dem onstração de liderança que eu j á havia presenciado. Dali a instantes, a atm osfera no prédio passou do desespero e da derrota para um a agitação generalizada, cheia de determ inação, com as pessoas focadas em seguir em frente, e não em olhar para trás.

Esse é o poder da palavra. Você pode não ser o líder de um a organização, m as um a palestra sem pre pode abrir portas ou transform ar um a carreira.

Participantes de Conferências TED nos contaram episódios m aravilhosos sobre o im pacto de suas palestras. Às vezes ocorrem propostas para livros e film es, bem com o ofertas inesperadas de apoio financeiro. Contudo, as histórias m ais interessantes estão ligadas à prom oção de ideias e de m udança de vida. Am y Cuddy fez um a palestra extrem am ente popular sobre com o a m udança da linguagem corporal pode aum entar a autoconfiança. Ela recebeu m ais de quinze m il m ensagens, vindas de gente do m undo todo, contando com o tinha sido beneficiada.

A palestra m otivadora de William Kam kwam ba — um j ovem inventor do Malawi de apenas catorze anos — sobre a construção de um m oinho de vento em sua aldeia abriu cam inho para um a série de eventos que o levou a ser aceito por um program a de engenharia no prestigiado Dartm outh College, nos Estados Unidos.

O DIA EM QUE O TED PODERIA TER MORRIDO

Conto agora um caso pessoal. Quando assum i o com ando do TED, no fim de 2001, m e recuperava do quase colapso da em presa que eu passara quinze anos construindo. Estava apavorado com a possibilidade de outro enorm e fracasso público. Vinha lutando para convencer a com unidade TED a apoiar m inha visão do program a e tem ia que essa luta não fosse dar em nada. Na época, o TED era um ciclo anual de palestras realizado na Califórnia, organizado e apresentado por

seu proprietário, um arquiteto carism ático cham ado Richard Saul Wurm an, cuj a personalidade exuberante dom inava cada aspecto do evento. Cerca de oitocentas pessoas por ano assistiam às palestras, e a m aior parte parecia conform ada com o fato de que o TED provavelm ente não sobreviveria ao afastam ento de Wurm an. A conferência de fevereiro de 2002 foi a últim a organizada sob a liderança dele, e eu tinha um a chance — e não m ais do que um a — para persuadir essas pessoas de que era perfeitam ente possível continuarm os a realizar as palestras. Entretanto, eu nunca havia organizado um ciclo de palestras e, apesar de todo o m eu esforço de m uitos m eses para prom over o evento do ano seguinte, som ente setenta pessoas com pareceram .

Na m anhã da véspera da prim eira palestra do ciclo, tive quinze m inutos para defender m inhas ideias. E é preciso que você saiba de um a coisa: eu não falo bem em público. Digo hum e sabe o tem po todo. Paro no m eio de um a frase, tentando achar a palavra certa antes de continuar. Talvez passe a im pressão de ser sério dem ais, ou pouco enérgico, ou esquem ático. Meu peculiar senso de hum or britânico nem sem pre é com preendido.

Eu estava tão nervoso naquele m om ento, e tão preocupado com a possibilidade de parecer desaj eitado no palco, que nem consegui ficar de pé. Por isso, em purrei para a frente um a cadeira que estava no fundo do palco, sentei e com ecei.

Ao m e lem brar hoj e desse episódio, eu m e assusto, e m uito. Se fizesse um a avaliação crítica da m inha fala hoj e, eu m udaria m uitas coisas, a com eçar pela cam isa branca e am arrotada. No entanto... eu tinha preparado cuidadosam ente o que queria dizer e sabia que havia na plateia ao m enos algum as pessoas que desej avam m uitíssim o que o TED sobrevivesse. Se eu ao m enos conseguisse lhes dar m otivo para se em polgarem , talvez elas m udassem o rum o das coisas. Por causa do estouro da bolha das em presas pontocom , ocorrido pouco antes, m uitos na plateia tinham sofrido prej uízos com erciais tão graves quanto o m eu. Talvez eu pudesse m e com unicar com elas por essa via.

Falei de coração aberto, com o m áxim o de franqueza e convicção. Disse que acabara de sofrer um violento m alogro com ercial. Que tinha passado a m e considerar um com pleto fracassado. Que o único cam inho que m e perm itira sobreviver m entalm ente tinha sido m ergulhar no m undo das ideias. Que o TED

havia passado a significar tudo para m im — pois se tratava de um espaço ím par em que era possível com partilhar ideias de todas as disciplinas. Que eu faria tudo ao m eu alcance para preservar seus m elhores valores. Que, em todo caso, o program a nos havia proporcionado tanta m otivação e tantos subsídios que não podíam os deixá-lo m orrer, certo?

Ah, sim , eu quebrei a tensão com um a história apócrifa ligada a Madam e De Gaulle, que chocou os convidados num j antar oferecido pelo em baixador britânico quando seu m arido decidiu deixar a vida pública. A em baixatriz lhe

perguntou qual era seu m aior desej o nos anos vindouros, e ela, francesa, respondeu, em inglês: “A penis.” Eu disse que, na Inglaterra, tam bém era isso o que desej ávam os, m as dizíam os a palavra da form a correta, que Madam e de Gaulle não soubera pronunciar: “happiness” , “felicidade”, porém com ênfase no

“a” e pronunciando o “h”. E, para m im , o TED tinha sido um a fonte de m uita felicidade.

Para m eu total espanto, ao fim da palestra, Jeff Bezos, presidente e CEO da Am azon, que estava sentado no m eio da plateia, ficou de pé e com eçou a aplaudir. E todos os dem ais o acom panharam . Foi com o se a com unidade TED

houvesse decidido coletivam ente em poucos segundos que, afinal, apoiaria esse novo capítulo do program a. Então, no intervalo de sessenta m inutos que se seguiu, cerca de duzentas pessoas se com prom eteram a se inscrever para o ciclo de palestras do ano seguinte, garantindo seu sucesso.

Se m inha fala de quinze m inutos tivesse dado errado, o TED teria m orrido quatro anos antes de postar um a palestra na internet. E você não estaria lendo este livro.

No próxim o capítulo, vou explicar por que acredito que essa palestra acabou sendo eficaz, apesar de m inha evidente inabilidade. É um a dica que pode ser aplicada a todas as palestras.

Por m ais que você não acredite na sua capacidade de falar em público, há m edidas que pode tom ar para reverter a situação. A facilidade para falar em público não é um dom congênito concedido a alguns felizardos, m as um am plo conj unto de aptidões. Existem centenas de m aneiras de dar um a palestra, e todo m undo pode descobrir um a linha correta para si e adquirir as qualificações para realizá-la de form a satisfatória.

O GAROTO COM CORAÇÃO DE LEÃO

Há alguns anos, Kelly Stoetzel — a diretora de conteúdo do TED — e eu fizem os um a turnê global à procura de talentos. Em Nairóbi, Quênia, conhecem os Richard Turere, adolescente m assai de doze anos, criador de um a invenção surpreendente. Sua fam ília criava gado, e um dos problem as m ais difíceis que ele enfrentava era o de proteger os anim ais de ataques noturnos dos leões.

Richard havia notado que um a fogueira não intim idava os felinos, m as que andar de um lado para o outro com tochas acesas funcionava. Os leões pareciam tem er luzes m óveis! Mexendo com peças tiradas do rádio dos pais, Richard tinha aprendido eletrônica sozinho e usou esses conhecim entos para criar um sistem a de luzes que acendiam e apagavam em sequência, produzindo um a sensação de m ovim ento. A geringonça foi produzida com sucata — painéis solares, um a bateria de carro e um visor tirado do quadro de instrum entos de um a m oto.

Richard instalou as luzes e... pim ba! Os ataques dos leões cessaram . A notícia da

invenção se espalhou, e outras aldeias quiseram adotá-la. Em vez de tentar m atar os leões — com o faziam antes —, instalaram as “luzes dos leões” de Richard.

Resultado: tanto os aldeões quanto os am bientalistas ficaram felizes.

Aquela era um a façanha e tanto, m as, à prim eira vista, Richard não parecia de form a algum a um bom candidato a palestrante. Extrem am ente tím ido, ele se escondia num canto da sala. Seu inglês era titubeante, e ele sentia dificuldade para explicar sua invenção de form a coerente. Não era fácil im aginá-lo num palco da Califórnia, diante de 1.400 pessoas, num ciclo que reunia, entre outros, Sergey Brin e Bill Gates.

No entanto, a história de Richard era tão cativante que decidim os ir em frente e o convidam os a viaj ar para fazer um a Conferência TED. Durante m eses, trabalham os com ele para enquadrar sua história — achar o ponto ideal para com eçar a contá-la e criar um a sequência narrativa natural. Por causa de sua invenção, Richard havia ganhado um a bolsa de estudo em um a das m elhores escolas do Quênia, onde pôde ensaiar a palestra várias vezes diante de um a plateia de verdade. Isso aj udou a aum entar sua autoconfiança, a ponto de tornar visível sua forte personalidade.

Richard entrou num avião pela prim eira vez na vida e viaj ou para Long Beach, Califórnia. Quando subiu ao palco, dava para notar que estava nervoso, m as isso só o tornou m ais cativante. Ele com eçou a falar, e a plateia prestou atenção em cada palavra — e sem pre que ele sorria a plateia se derretia. Quando acabou, as pessoas sim plesm ente se levantaram e aplaudiram .

O caso de Richard pode incentivar você e todos nós a crer que som os capazes de dar um a palestra decente. Seu obj etivo não é ser um Winston Churchill ou um Nelson Mandela. É ser você. Se você é cientista, sej a cientista; não tente ser um m ilitante. Se é artista, sej a artista; não tente ser um acadêm ico. Se é um suj eito com um , não queira sim ular um im pressionante estilo intelectual; sej a esse suj eito com um . Você não tem obrigação de fazer um a m ultidão se pôr de pé com um a oratória notável. Um tom de conversa pode funcionar m uito bem . Na verdade, para a m aioria das plateias, é bem m elhor assim . Se você sabe conversar com um grupo de am igos durante o j antar, tam bém sabe falar em público.

E a tecnologia vem criando novas opções. Vivem os num a época em que não é necessário saber falar diante de m ilhares de pessoas ao m esm o tem po para exercer grande influência. Podem os falar intim am ente para um a câm era e deixar a internet fazer o resto.

A com petência com unicativa não é um extra opcional destinado a uns poucos.