TED Talks: O Guia Oficial do TED para Falar em Público
13. Abertura e encerramento
Seu obj etivo é chegar a um a palestra cuj a estrutura se torne algo internalizado, para assim poder se concentrar no conteúdo do que está dizendo.
Processo de preparação
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ABERTURA E ENCERRAMENTO
Que impressão você quer causar?
Decorando ou não, você deve atentar para com o quer com eçar e term inar a palestra. No com eço, terá cerca de um m inuto para despertar o interesse do público. E o desfecho vai influenciar decisivam ente o m odo com o ela será lem brada.
Sej a qual for sua escolha para o resto da palestra, recom endo m uitíssim o que roteirize e decore o prim eiro m inuto e as frases finais. Isso com bate o nervosism o e aum enta sua confiança e o im pacto da sua apresentação.
QUATRO FORMAS DE COMEÇAR COM FORÇA
A atenção do público é um a m ercadoria preciosa. Você sem pre vai tê-la no m om ento em que subir ao palco. Não a desperdice com conversa m ole. Não im porta quanto você se sente honrado por estar ali ou se precisa agradecer à m ulher do organizador. O que interessa é convencer os ouvintes de que não se atrevam a se desligar nem por um nanossegundo. Você precisa de um a introdução que capture o público desde o prim eiro instante. Um a afirm ação surpreendente. Um a pergunta instigante. Um a historinha. Um a im agem incrível.
É claro que há ocasiões em que você pode com eçar com um ou dois agradecim entos, principalm ente se o evento tiver um acentuado sentim ento de com unidade.
Nesse
caso,
será
absolutam ente
certo
com eçar
com
agradecim entos a um as poucas pessoas. Isso faz de você parte da com unidade.
Mas, caso agradeça, faça-o num estilo m uito pessoal, de preferência com hum or ou com autêntico calor hum ano. Bill Clinton é m estre nisso. Ele sem pre descobre um caso pessoal que faz seu anfitrião se sentir o m áxim o e, ao m esm o tem po, conquista os dem ais convidados. No entanto, m esm o num am biente com unitário, controle os agradecim entos. Longas e insípidas listas de agradecim ento acabam com a atenção em qualquer contexto. E, quando com eçar a palestra, faça-o com um a introdução atraente.
Lem bre-se de que, em nossa era, cada m ínim o conteúdo participa de um a guerra pela atenção. Ele luta contra m ilhares de outras solicitações de tem po e energia. Isso acontece tam bém quando você está de pé, no palco, diante de ouvintes sentados. Eles têm no bolso instrum entos fatais de distração cham ados sm artphones, os quais podem usar para ter diante dos olhos m ilhares de alternativas à palestra. Quando os e-m ails e as m ensagens de texto com eçam a
disputar a atenção da plateia, sua palestra pode estar condenada. Tem os tam bém o dem ônio furtivo da vida m oderna: o cansaço. Todos eles são inim igos m ortais.
Não dê pretexto para que as pessoas se distraiam . Sej a um general sagaz e controle o desfecho da guerra. Para isso, um a de suas principais arm as é um com eço forte.
Isso vale sobretudo se a palestra estiver sendo gravada para a posteridade on-line. Dezenas de outras palestras, artigos e j ogos atraentes estão a um clique de distância. Se você desperdiçar o prim eiro m inuto de sua apresentação, estará perdendo um a parcela im portante de sua plateia on-line antes m esm o de ela perceber que haverá partes interessantes. E isso pode fazer toda a diferença entre um a palestra viral e um a vítim a de m orte trágica.
Seguem -se quatro recursos para prender a atenção do público.
1. Faça um pouco de teatro
Suas prim eiras palavras têm m uita im portância.
A com ediante May soon Zay id, que tem paralisia cerebral desde o nascim ento por causa de um procedim ento m édico m alfeito, entrou no palco trem endo e com eçou a palestra assim : “Eu não estou bêbada, m as o m édico que m e trouxe ao m undo estava.” Bingo! Apesar dessa introdução insólita, vim os na hora que seríam os tratados a pão de ló. Ela tom ou conta de cada globo ocular e de cada célula cerebral da sala.
O chef e ativista Jam ie Oliver veio ao TED para receber o Prêm io TED anual.
Ele com eçou assim : “Infelizm ente, nos próxim os dezoito m inutos [...] quatro am ericanos que estão vivos vão m orrer por causa do que com em .”
Aposto que você ia querer ouvir m ais.
Ao planej ar a introdução, guie-se pelo tem a da apresentação. Qual é a m aneira m ais eficaz de tornar atraente a ideia de sua palestra? Pergunte a si m esm o: se sua palestra fosse um film e ou um rom ance, de que m odo com eçaria? Isso não quer dizer que você precise enfiar um dram a logo na prim eira frase, pois no com eço você terá alguns m om entos de atenção. Mas, até o fim do prim eiro parágrafo, vai ter de desem buchar algum a coisa.
Zak Ebrahim chegou ao TED2014 com um a história incrível. Mas, no roteiro original, ele planej ava abrir a palestra assim :
Nasci em Pittsburgh, Pensilvânia, em 1983, de um a adorável m ãe am ericana e um pai egípcio que fizeram de tudo para eu ter um a infância feliz. Mas quando eu fiz sete anos a dinâm ica da nossa fam ília com eçou a m udar. Meu pai m e apresentou um lado do islã que poucas pessoas, considerando tam bém a m aior parte dos m uçulm anos, chegam a conhecer.
A verdade, porém , é que, quando dedicam tem po a interagir um as com as outras, as pessoas não dem oram m uito a entender que a m aioria quer da vida as m esm as coisas.
É um a introdução legal... m as não conquista os ouvintes. Zak e eu quebram os a cabeça, e a introdução ficou assim :
Em 5 de novem bro de 1990, um hom em cham ado El-Say y id Nosair entrou num hotel de Manhattan e assassinou o rabino Meir Kahane, líder da Liga de Defesa Judaica. De início, Nosair não foi condenado pelo crim e, m as, enquanto esteve preso por delitos m enores, ele e outros hom ens com eçaram a planej ar ataques a um a dúzia de pontos de referência de Nova York, entre eles túneis, sinagogas e a sede da ONU. Felizm ente, esses planos foram frustrados por um inform ante do FBI. Infelizm ente, o atentado contra o World Trade Center em 1993 não foi. Nosair acabou condenado por envolvim ento nessa conspiração. El-Say y id Nosair é m eu pai.
A plateia ficou vidrada. A introdução tam bém deu certo on-line, e a palestra logo chegou a dois m ilhões de visualizações.
Esta é a introdução do roteiro original que a socióloga Alice Goffm an nos m andou:
Quando eu era caloura da Universidade da Pensilvânia, m e inscrevi num a m atéria de sociologia para a qual deveríam os ir a cam po estudar a cidade por m eio da observação e da participação diretas. Consegui em prego num a cantina do cam pus, fazia sanduíches e saladas. Minha chefe era um a afro-am ericana de uns sessenta anos que m orava num bairro negro perto dali. No ano seguinte, fui m onitora da neta dela, Aisha, que estava entrando no ensino m édio.
Ela estava apenas contando sua história de um a form a que considera natural, m as quando chegou ao TED veio com um a introdução revista digna da paixão ardente de sua palestra:
Duas instituições estão no cam inho que as crianças am ericanas percorrem para chegar à idade adulta. Sobre a prim eira, m uito ouvim os falar: é a faculdade. Mas a faculdade tem alguns problem as. É cara e deixa os j ovens endividados. No fim das contas, porém , é um a possibilidade bastante boa
[...]
Hoj e eu quero falar da outra instituição que está no cam inho que leva da infância à m aturidade nos Estados Unidos. Essa instituição é a cadeia.
A brilhante introdução lhe perm itiu falar da tragédia dos presos am ericanos de um a form a que exige atenção: Ei, eles poderiam estar na faculdade.
Claro que um exagero na teatralidade pode levar o orador a perder público.
Talvez sej a m elhor interagir um pouco com a plateia antes de atingi-la com o raio dram ático. E com certeza você não vai querer sim plificar dem ais o seu conteúdo. Mas, usada da form a correta, ela é um j eito atraente de com eçar um a palestra.
2. Provoque curiosidade
Se eu lhe oferecesse a oportunidade de ouvir um a palestra sobre parasitas, aposto que você recusaria. Mas isso porque você não conhece Ed Yong, autor de textos científicos. Vej a com o ele com eçou sua apresentação: Um a m anada de anim ais selvagens, um cardum e, um bando de aves.
Muitos anim ais se reúnem em grandes grupos que constituem alguns dos m ais belos espetáculos do m undo natural. Mas por que eles form am grupos?
Entre as respostas m ais com uns estão a segurança, a caça coletiva ou o acasalam ento e a procriação. Todas essas explicações, ainda que verdadeiras em m uitos casos, im plicam suposições sobre o com portam ento dos anim ais, com o se eles controlassem seus próprios atos e se encarregassem de seu corpo. Mas m uitas vezes não é o que acontece.
Ele então conta que os indivíduos de um a espécie de cam arão se agrupam sim plesm ente porque o cérebro deles foi tom ado por parasitas que precisam tornar os cam arões visíveis por flam ingos predadores em cuj a barriga o parasita dá continuidade a seu ciclo vital. Em m enos de um m inuto, seu cérebro está dando cam balhotas. O quêêêê?! A natureza é capaz disso? E você está pedindo aos gritos para saber m ais. Com o? Por quê? O que isso significa?
Aguçar a curiosidade é a ferram enta m ais versátil que você tem à disposição para garantir a atenção da plateia. Se o obj etivo da palestra é incutir um a ideia na m ente dos ouvintes, a curiosidade funciona com o com bustível que dá energia à participação ativa deles.
Os neurocientistas falam de perguntas que geram um a lacuna no conhecim ento, lacuna essa que o cérebro luta para fechar. E a única m aneira de alcançar isso é fazendo seus donos ouvirem com atenção o que você tem a dizer.
Isso é bom .
Com o provocar a centelha da curiosidade? A m aneira m ais óbvia é fazer um a pergunta. Mas não qualquer pergunta. Precisa ser um a pergunta surpreendente.
Como construir um futuro melhor para todos? Am plo dem ais. Clichê dem ais. Já fiquei entediado.
Como foi que esta menina de catorze anos, com menos de duzentos dólares na conta bancária, fez sua cidade dar um gigantesco salto para o futuro? Agora a história m udou.
Às vezes, um a breve citação ilustrativa pode transform ar um a pergunta banal num disparador de curiosidade. O filósofo Michael Sandel com eçou assim : Eis um a questão que precisam os repensar j untos: qual deve ser o papel do dinheiro e dos m ercados em nossa sociedade?
Já se interessou? Talvez sim , talvez não. Mas vej a com o ele prossegue: Hoj e em dia, há pouquíssim as coisas que o dinheiro não pode com prar. Se você for condenado a cum prir pena de prisão em Santa Barbara, Califórnia, saiba que, se não gostar das acom odações com uns, pode com prar um upgrade para sua cela. É verdade. Quanto você acha que custa? Qual seria o seu palpite? Quinhentos dólares? Não é o hotel Ritz-Carlton. É um a prisão!
Oitenta e dois dólares por noite.
Se a pergunta inicial não capturar sua atenção de im ediato, o exem plo m aluco da prisão m ostrará por que o assunto é tão im portante. Na verdade, os oradores bons em acionar a curiosidade não fazem um a pergunta explícita. Pelo m enos não de cara. Eles sim plesm ente contextualizam o tem a de um a form a inesperada, assim pressionando o botão da curiosidade.
Eis a introdução de V. S. Ram achandran:
Eu estudo o cérebro hum ano, as funções e estruturas do cérebro hum ano. E
queria que vocês pensassem um m inuto sobre o que isso significa. Eis aqui um quilo e m eio dessa m assa gelatinosa que você pode segurar na palm a da m ão, e ela pode contem plar a vastidão do espaço interestelar. Pode contem plar o significado do infinito e pode contem plar a si m esm a ao contem plar o significado do infinito.
Atiçou sua curiosidade? A m inha, atiçou. De form a análoga, a astrônom a Janna Levin encontrou um m eio de m e deixar m uitíssim o curioso sobre seu trabalho.
Peço que todos aqui considerem por um segundo o sim ples fato de que a im ensa m aioria das coisas que sabem os sobre o universo chega até nós pela luz. Podem os, aqui da Terra, olhar o céu noturno e ver estrelas a olho nu. O
sol queim a nossa visão periférica. Vem os a luz refletida pela Lua. E, desde que Galileu apontou seu telescópio rudim entar para os corpos celestes, o universo conhecido vem chegando a nós através da luz, ao longo de vastas eras da história cósm ica. E, com todos os nossos telescópios m odernos, tem os captado esse assom broso film e m udo do universo — essa série de
instantâneos que nos rem ete ao Big Bang. Contudo, o universo não é um film e m udo, porque o universo não é m udo. Quero convencê-los de que o universo tem trilha sonora, e que ela soa no próprio espaço, porque o espaço é capaz de vibrar com o um tam bor.
A curiosidade é o ím ã que puxa a plateia atrás de você. Caso consiga m anej á-lo com eficácia, até assuntos difíceis renderão palestras de sucesso.
E com “assuntos difíceis” não estou falando apenas de física avançada. As palestras sobre tem as e causas desafiadores são ainda m ais com plicadas. Se quiser propor novas ideias sobre o HIV, a m alária ou o trabalho escravo, você precisa ter ciência de que as pessoas não se abrem facilm ente para esses assuntos. Elas sabem que vai chegar o m om ento em que vão ficar desconfortáveis. Sentem -se tentadas a pegar o iPhone e se desligar m entalm ente antes de chegar a esse m om ento. Um a ótim a form a de com bater isso é começar despertando a curiosidade.
Com o j á se disse, Em ily Oster deu sua palestra sobre aids. Em vez da ladainha de horrores que a plateia devia estar esperando, ela com eçou perguntando se as quatro coisas que todos pensam os saber sobre a aids na África são verdadeiras.
Mostrou um slide com a lista. Os itens pareciam corretos, m as estava claro que ela ia questionar cada um deles. Pronto: um a parte diferente do cérebro entrou em ação. Ela ganhou a atenção.
Se seu tem a é desafiador, a curiosidade será provavelm ente seu m otor m ais poderoso para prender a atenção.
3. Mostre um slide, um vídeo ou um obj eto cativante Às vezes, o m elhor gancho introdutório é um a foto ou um vídeo m agnífico, im pactante ou intrigante.
A artista plástica Alexa Meade com eçou por m ostrar a im agem im pressionante de um a de suas obras enquanto dizia: “Talvez vocês queiram dar um a olhada m ais de perto. Essa pintura é m ais com plexa do que aparenta. Sim , é a pintura em acrílico de um hom em , m as eu não a pintei sobre um a tela. Pintei-a diretam ente no corpo do hom em .” Uau.
Elora Hardy com eçou assim : “Quando eu tinha nove anos, m inha m ãe m e perguntou com o eu queria que fosse m inha casa, e eu desenhei este cogum elo de conto de fadas.” Ela m ostrou um desenho infantil engraçadinho. “E então ela construiu a casa.” Deu para ouvir a plateia respirando fundo quando ela m ostrou a im agem da casa de bam bu que a m ãe tinha construído. Esse foi apenas o prenúncio de um a série de im agens surpreendentes das obras da própria Elora com o arquiteta, m as note com que rapidez ela prendeu a atenção dos ouvintes.
Duas frases e pronto: eles j á estavam pasm os.
Com o m aterial certo, essa é sem dúvida um a ótim a m aneira de com eçar um a
palestra. Em vez de dizer “hoj e eu pretendo falar do m eu trabalho, m as antes preciso lhes dar algum as inform ações”, você pode com eçar dizendo apenas:
“Vou m ostrar um a coisinha.”
É claro que essa abordagem funciona bem para fotógrafos, artistas plásticos, arquitetos, designers ou outros profissionais cuj a obra sej a essencialm ente visual.
Mas tam bém pode funcionar m uito bem para palestras conceituais. Quando contou sua história do universo em dezoito m inutos, David Christian com eçou com um vídeo m ostrando o preparo de um ovo m exido. Só depois de m ais ou m enos dez segundos você percebia que o processo estava acontecendo ao contrário — o ovo estava sendo “des m exido”. Logo aí, nesse intrigante vídeo de abertura, ele revelou o enredo de sua história: o tem po tem um a direção; a história do universo apresenta um a com plexidade crescente.
Um a im agem m agnífica capta a atenção. Mas, com frequência, o im pacto pleno ocorre com a revelação de algo surpreendente sobre ela. Carl Zim m er com eçou com a belíssim a im agem de um a vespa cor de esm eralda. Daí revelou que ela procria transform ando baratas em zum bis e depositando seus ovos no corpo em com a desses insetos. Foi outra introdução vitoriosa nesse estranho nicho das Conferências TED, um nicho dedicado a parasitas inquietantes.
Dependendo do seu m aterial, há m uitas form as de descobrir inícios ainda m ais cativantes:
“A im agem que vocês vão ver agora m udou a m inha vida.”
“Vou pôr um vídeo que, à prim eira vista, pode parecer im possível.”
“Eis o m eu slide de abertura. Vocês podem adivinhar o que é esta coisa?”
“Até dois m eses e m eio atrás, nenhum ser hum ano vivo tinha posto os olhos neste obj eto.”
Procure a introdução que lhe pareça m ais adequada. Instigante, m as autêntica.
Um a introdução que aum ente sua confiança para entrar na palestra.
4. Provoque, m as não entregue dem ais
Às vezes, os oradores tentam inserir coisas dem ais no parágrafo de abertura e acabam entregando a palestra inteira: “Hoj e vou explicar que o segredo do sucesso do em preendedor é sim plesm ente isto: determ inação.” A intenção é boa, m as o orador j á pode ter perdido a atenção da plateia. Ela vai achar que j á ouviu essa palestra. Mesm o que o que venha a seguir sej a cheio de sutilezas, lógica, paixão e persuasão, talvez ela j á não estej a m ais ouvindo.
Suponha que, em vez disso, a palestra com ece assim : “Nos próxim os m inutos, pretendo revelar o que acredito ser o segredo do sucesso de um em preendedor, e com o qualquer um aqui pode pôr isso em prática. Vocês vão encontrar as pistas no caso que vou com eçar a contar.” Provavelm ente, esse orador terá pelo m enos alguns m inutos de atenção.
Então, em vez de entregar tudo de bandej a logo de cara, im agine um a
linguagem capaz de seduzir a plateia e fazê-la desej ar seguir viagem com você.
Cada público responde de um j eito a um a linguagem . Quando criança, eu não gostava m uito de ser arrastado para passeios a pé. Meus pais faziam um bravo esforço de convencim ento... em vão. Diziam : “Vam os sair para cam inhar.
Podem os ver um a bela paisagem do vale.” E o m enino desaj ustado de seis anos que eu era não dava a m ínim a para paisagens, reclam ava o tem po todo na ida e na volta. Com o passar do tem po, eles ficaram espertos e recorreram a um discurso m ais elaborado: “Tem os um a boa para você. Vam os a um lugar especial onde você vai poder lançar um avião de papel num espaço aberto de oito quilôm etros.” Louco por qualquer coisa que voasse, eu saía para a rua antes deles. Era a m esm a cam inhada.
É correto poupar as grandes revelações para o m eio ou para o fim da apresentação. Nas frases de abertura, seu único obj etivo é dar ao público um m otivo para sair da zona de conforto e seguir sua espantosa expedição de descoberta.
Com o lem brou J. J. Abram s em sua palestra sobre a força do m istério, m uito do im pacto de Tubarão se deve a um a escolha do diretor Steven Spielberg, que m anteve o m onstro oculto durante toda a prim eira m etade do film e. É claro que você sabia que ia vê-lo, m as a invisibilidade m antinha a tensão.
Ao planej ar sua apresentação, não hesite em trazer à tona seu Spielberg interior. Edith Widder fez exatam ente isso, em bora com a aj uda de outra criatura m arinha. Quando deu sua palestra sobre a lula-gigante descoberta por sua equipe, ela queria, claro, um a introdução forte. Mostrou as assom brosas dim ensões da lula? Ah, não. Preferiu usar no slide de abertura um a im pressionante im agem artística do Kraken, o m onstro em form a de lula da lenda nórdica. Isso lhe perm itiu enraizar profundam ente na m itologia a história que iria contar. O
m om ento em que a lula-gigante aparece fica cem vezes m ais dram ático por ter sido adiado.
A técnica funciona tanto para criaturas fantásticas quanto para descobertas fantásticas. Fei-Fei Li, professora de Stanford, veio ao TED em 2015 para apresentar seu notável trabalho, m ostrando que a aprendizagem autom ática perm itiu que os com putadores identifiquem visualm ente o conteúdo de fotografias. Mas ela não com eçou com um a dem onstração. Com eçou com um vídeo em que um a criança de três anos olha para fotos e identifica o conteúdo:
“Esse é um gato sentado num a cam a.” “O m enino acaricia o elefante.” Ela nos aj udou a com preender com o é surpreendente a capacidade dem onstrada pela criança e com o seria im portante se pudéssem os treinar com putadores a desenvolver com petências sem elhantes. Foi um a bela m aneira de descrever seu trabalho. Só depois ela passou os vídeos de dem onstração sobre inteligência artificial, de cair o queixo, e ficam os siderados o tem po todo.
Caso você decida fazer um pouco de m istério, não se esqueça de que é m uito
im portante indicar para onde está indo e por quê. Não m ostre o tubarão, m as deixe claro que ele está vindo. Toda palestra precisa de um m apeam ento — uma ideia do lugar aonde você quer chegar, onde está e onde esteve. Se não souberem em que ponto se encontram na estrutura da palestra, seus ouvintes logo ficarão perdidos.
Ao elaborar a introdução, você pode buscar inspiração em qualquer dos exem plos anteriores, ou em todos. Tam bém pode se basear em algum as técnicas j á discutidas: contar um a história, fazer rir. O segredo é encontrar algo adequado para você e para o assunto. Experim ente com am igos. Se parecer artificial ou dram ático dem ais, m ude. Tenha em m ente que o obj etivo é convencer os ouvintes, em poucos instantes, de que sua palestra m erece o investim ento da atenção deles.
Quando estava no ram o das revistas, eu pedia a nossos editores e designers que pensassem na capa com o se ela fosse participar de um a guerra em duas etapas pela atenção. Prim eiro, a guerra de m eio segundo: quando alguém correr os olhos pela banca, será que vai encontrar em nossa capa algo que prenda a atenção e o faça parar por um m om ento? Em seguida, a guerra de cinco segundos: depois que ele parar e olhar, será que vai ler na capa algo atraente o bastante para fazê-lo pegar a revista?
Pode-se pensar na abertura de um a palestra da m esm a form a, só que com tem pos diferentes. Em prim eiro lugar vem a guerra dos dez segundos: você é capaz de fazer algo para garantir a atenção do público enquanto expõe o tem a da palestra? Em segundo lugar vem a guerra do um m inuto: você consegue usar o prim eiro m inuto para garantir que a plateia se em penhe a em preender com você a j ornada com pleta?
As quatro técnicas referidas oferecem excelentes opções para ganhar as duas etapas da guerra, dando à apresentação sua m elhor form a. Talvez você queira com binar duas ou m ais delas na introdução, em bora com certeza não deva usar todas. Escolha as que lhe pareçam certas. Assim , você e seu público plenam ente interessado cam inharão j untos.
SETE MANEIRAS DE ENCERRAR COM FORÇA
Se você conseguiu m anter a atenção do público ao longo da palestra, não estrague tudo com um final m edíocre. Com o Danny Kahnem an explicou tão bem no livro Rápido e devagar: duas formas de pensar e em sua Conferência TED, podem os nos lem brar de um acontecim ento de um m odo m uito diferente de com o ele foi vivenciado, e, no que diz respeito à lem brança, a experiência final é im portantíssim a. Em resum o, se o final não é m em orável, a palestra inteira pode perder esse status.
Eis com o não se deve encerrar:
“Bem , m eu tem po acabou, vou ficando por aqui.” (Como assim?
Você tinha muito mais a dizer, mas não pôde continuar porque não soube se organizar?)
“Por fim , quero agradecer à m inha fantástica equipe, aqui representada: David, Joanna, Gavin, Sam antha, Lee, Abdul e Hezekiah. E tam bém à m inha universidade e a m eus patrocinadores.” (Muito amável, mas você tem mais apreço por eles do que por sua ideia ou por nós, seus ouvintes?!)
“Assim , dada a im portância do tem a, espero que possam os iniciar um a nova conversa sobre ele.” (Uma conversa?! Isso não é meio capenga, não? Qual seria o resultado dessa conversa?)
“O futuro está cheio de desafios e oportunidades. Cada um dos aqui presentes tem com o obj etivo profundo fazer a diferença. Vam os sonhar j untos. Vam os ser a m udança que querem os ver no m undo.”
(O sentimento é lindo, mas clichê não ajuda ninguém.)
“Vou encerrar com este vídeo que resum e m eus argum entos.” (Não!
Nunca termine com um vídeo. Termine com você!)
“Com isso encerro a discussão. Perguntas?” (Ou como evitar aplausos.)
“Lam ento não ter tido tem po de discutir algum as das principais questões sobre o tem a, m as espero ter lhes dado ao m enos um vislum bre dele.” (Não se desculpe! Planeje melhor! Seu trabalho era dar a melhor palestra possível dentro do tempo estipulado.)
“Para encerrar, gostaria de com entar que m inha organização provavelm ente conseguiria resolver esse problem a se tivesse os recursos necessários. Está nas m ãos de vocês m udar o m undo conosco.” (Ah, então tudo isso foi um discurso para arrecadar fundos?)
“Obrigado por serem esse público m aravilhoso. Adorei cada m om ento em que estive aqui falando com vocês. Vou guardar essa experiência na lem brança por m uito, m uito tem po. Vocês foram tão pacientes, e sei que vão levar para casa o que ouviram hoj e e fazer algo m agnífico com isso.” (“Muito obrigado” estaria de bom tamanho.)
É incrível o núm ero de palestras que sim plesm ente m alogram no final. E
quantas outras enveredam por um a série de falsos finais, com o se o orador não conseguisse sair do palco. Se não planej ar com cuidado o final, você pode acabar acrescentando parágrafos e m ais parágrafos. Finalmente, o ponto essencial,
como eu disse... Assim, em conclusão... E, só para destacar mais uma vez, isso é importante porque... E, claro, também é importante ter em mente... Ah, uma última coisinha. É cansativo. E prej udica o im pacto da palestra.
Vej am os sete m aneiras m ais eficazes de encerrar a palestra: Dar um a visão panorâm ica
Você usou a palestra para explicar um trabalho específico. No fim , por que não proporcionar um a visão geral, um conj unto m ais am plo das possibilidades que seu trabalho encerra?
David Eaglem an m ostrou que o cérebro hum ano pode ser entendido com o um reconhecedor de padrões, e, se você conectar a ele novos dados elétricos, ele poderá interpretá-los com o se proviessem de um novo órgão sensitivo, de m odo que se poderiam perceber por intuição novos aspectos do m undo em tem po real.
Eaglem an encerrou sugerindo as possibilidades ilim itadas dessa realidade: Im agine um astronauta capaz de sentir o estado de saúde de toda a tripulação da Estação Espacial Internacional; ou você ser capaz de sentir estados invisíveis de sua saúde, com o o nível de açúcar no sangue e as condições de seu biom a; ou ter visão de 360 graus; ou visão em infraverm elho ou ultravioleta. A questão é a seguinte: à m edida que avançam os para o futuro, som os cada vez m ais capazes de escolher nossos próprios dispositivos periféricos. Não terem os que esperar as dádivas sensoriais da Mãe Natureza, em sua escala de tem po; ela, com o qualquer boa m ãe, j á nos deu os instrum entos necessários para sairm os de casa e definirm os nossa traj etória. Portanto, agora a pergunta é: com o você quer sair de casa e sentir seu universo?
Convoque para a ação
Se você deu um a grande ideia a seu público, por que não encerrar instigando-o a trabalhar nela?
Am y Cuddy, professora da faculdade de adm inistração de Harvard, concluiu sua palestra sobre posturas de poder instando os presentes a tentar aplicá-las na vida e a repassá-las a outras pessoas:
Com partilhe. Divida [essa ideia] com as pessoas, porque as que vão se beneficiar m ais dela são as que não têm recursos, tecnologia, status ou poder. Com partilhe, porque elas podem aplicá-la de m aneira privada. Só vão precisar do próprio corpo, de privacidade e de dois m inutos, e isso pode m udar m uito o rum o da vida delas.
Talvez esse cham ado assertivo tenha contribuído para o extraordinário sucesso da apresentação.
Em sua palestra sobre hum ilhação pública, o escritor Jon Ronson fez um cham ado à ação adm iravelm ente sucinto:
A m elhor coisa em relação às m ídias sociais foi ter dado voz a quem não tinha, m as agora estam os criando um a sociedade de vigilância em que a m aneira m ais inteligente de sobreviver é voltar a não ter voz. Não devem os fazer isso.
Com prom isso pessoal
Convocar a plateia à ação é ótim o, m as de vez em quando o orador acerta em cheio ao assum ir um com prom isso gigantesco. No TED, o exem plo m ais espantoso disso aconteceu quando Bill Stone falou sobre as possibilidades da volta do hom em à Lua e afirm ou estar convencido de que um a expedição poderia criar um a nova indústria de m assa e abrir a exploração espacial para um a nova geração. Foi então que ele disse:
Gostaria de encerrar dando o prim eiro passo aqui no TED. Pretendo liderar essa expedição.
Um com prom isso pessoal com o esse pode ser incrivelm ente atraente. Lem bra o exem plo de Elon Musk no Capítulo 1? “De m inha parte, nunca hei de desistir.
Repito: nunca.” Foi esse o segredo que deu vida nova à sua equipe da SpaceX.
Em 2011, a nadadora Diana Ny ad deu um a Conferência TED na qual relatou a tentativa de fazer algo que ninguém tinha conseguido: nadar de Cuba à Flórida.
Ela tentou a façanha em três ocasiões, às vezes resistindo a cinquenta horas ininterruptas de natação, enfrentando correntes perigosas e m edusas de ferroada quase letal, m as acabou fracassando. No fim da palestra, ela eletrizou a plateia ao dizer:
O m ar continua ali. A esperança continua viva. E não quero ser a louca que faz isso durante anos e anos e anos, tenta e falha, tenta e falha, tenta e falha
[...] Eu posso nadar de Cuba até a Flórida e vou nadar de Cuba até a Flórida.
Dois anos depois, Diana retornou ao palco do TED para descrever com o, aos 64 anos, havia enfim conseguido.
Assim com o em qualquer outra situação, assum ir um grande com prom isso exige bom senso. Se isso for feito da form a errada, pode levar a um desconforto na hora e a um a perda de credibilidade depois. Mas, caso você se envolva plenam ente na transform ação de um a ideia em ação, talvez valha a pena.
Valores e visão
É possível transform ar o tem a da palestra num a visão inspiradora ou esperançosa de com o as coisas deveriam ser? Muitos oradores tentam . A falecida Rita Pierson, que fez um a bela apresentação sobre a construção de um relacionam ento verdadeiro entre professores e alunos, term inou assim : Ensinar e aprender deveriam trazer alegria. Com o este m undo seria poderoso se nossas crianças não tivessem m edo de correr riscos, não tivessem m edo de pensar e contassem com um m entor! Toda criança m erece um m entor, um adulto que nunca desista dela, que entenda a força desse relacionam ento e insista em que a criança sej a o m elhor indivíduo possível. Essa tarefa é árdua? Pode apostar que sim ! Pode apostar tudo. Mas im possível não é. Isso é realizável. Som os educadores. Nascem os para fazer a diferença. Muito obrigada.
Rita m orreu m eses depois da palestra, m as seu cham ado ainda ecoa. A professora Kitty Boitnott escreveu um com ovente tributo: “Eu não a conheci e não sabia dela até hoj e, m as agora, com sua palestra, ela m exeu com igo e m e fez lem brar por que sou professora há m ais de três décadas.”
Moldura que dá certo
Alguns oradores encontram um a form a de recontextualizar habilm ente a ideia que defendem . A terapeuta Esther Perel fez um apelo por um enfoque m ais sincero da infidelidade, que incluísse a possibilidade de perdão. E encerrou assim : Encaro a traição am orosa de um a perspectiva dupla: m ágoa e traição, por um lado; crescim ento e autoconhecim ento, por outro — o que ela fez a você e o que significou para m im . Quando um casal recorre a m im depois de um a traição am orosa revelada, com frequência eu digo: hoj e em dia, no Ocidente, m uita gente terá dois ou três relacionam entos ou casam entos, e alguns vão tê-los com a m esm a pessoa. Seu prim eiro casam ento acabou.
Vocês querem criar um segundo casam ento j untos?
Am anda Palm er, que desafiou a indústria fonográfica a repensar seu m odelo de negócio, term inou desta form a:
Acho que as pessoas ficaram obcecadas com a questão errada, sobre com o fazer o público pagar pela m úsica. Mas e se com eçássem os perguntando com o perm itir que ele pague pela m úsica?
Em am bos os casos, um a pergunta inesperada trouxe um agradável m om ento de insight e encerram ento, fazendo a plateia aplaudir de pé.
Sim etria narrativa
Um a palestra m eticulosam ente construída em torno de um a linha m estra pode, ao rem eter à introdução, dar ensej o a um a conclusão satisfatória. Steven Johnson com eçou sua palestra sobre o nascim ento de ideias falando da im portância dos cafés na Grã-Bretanha industrial. Estes eram lugares em que os intelectuais se reuniam para estim ularem uns aos outros. No fim da apresentação, contou o curioso caso da invenção do GPS, exem plificando todos os seus argum entos sobre o assunto. E então, com brilhantism o, m encionou o fato de que, provavelm ente, todos na plateia haviam usado o GPS naquela sem ana para fazer coisas com o... encontrar o café m ais próxim o. Deu para ouvir a plateia suspirar em reconhecim ento, o que foi seguido de aplausos ocasionados pela m aneira satisfatória com o ele fechou o círculo da narrativa.
Inspiração poética
Às vezes, se a palestra consegue envolver a plateia, é possível encerrar com um texto poético que em ocione. Não se deve recorrer a isso à toa. Mas, quando funciona, é lindo. Brené Brown term inou assim sua palestra sobre vulnerabilidade:
Foi isto o que eu descobri: nos deixarm os ser vistos, vistos em toda a nossa profundidade, vistos em toda a nossa vulnerabilidade; am ar de todo o coração, m esm o quando não há garantias [...] praticar a gratidão e a alegria nos m om entos terríveis em que nos perguntam os Posso amar você tanto assim? Posso acreditar nisso com tanta paixão? Posso ser tão ardente assim? , sim plesm ente parar [...] e dizer: “Sou m uito grata, porque toda essa vulnerabilidade significa que estou viva.” Por últim o, acho que talvez o m ais im portante sej a acreditar que som os o suficiente. Porque eu acredito que, quando com eçam os com um sentim ento que diga “eu sou suficiente”, param os de gritar e com eçam os a ouvir, som os m ais bondosos e gentis com os que nos cercam e m ais bondosos e gentis com nós m esm os. É o que tenho a dizer. Obrigada.
E o advogado especialista em direitos hum anos Bry an Stevenson fechou sua palestra de enorm e sucesso sobre as inj ustiças do sistem a prisional am ericano com as seguintes palavras:
Eu vim ao TED por acreditar que m uitos de vocês entendem que o arco m oral do universo é longo, m as pende para a j ustiça. Que não nos tornarem os seres hum anos plenam ente evoluídos se não nos im portarm os com direitos hum anos e dignidade básica. Que tudo em nossa sobrevivência está ligado à sobrevivência de todos. Que nossas visões sobre tecnologia, design, entretenim ento e criatividade precisam casar com visões de hum anidade, com paixão e j ustiça. E, acim a de tudo, para aqueles entre vocês que, assim com o eu, acreditam nisso, venho dizer sim plesm ente: m antenham o olhar fixo na recom pensa, sigam em frente.