TED Talks: O Guia Oficial do TED para Falar em Público

7. Explicação

As histórias oferecem outra função valiosa: explicação. Para essa finalidade, em geral não são a atração principal, atuam m ais com o apoio. E costum am assum ir a form a de inserções breves que ilustram ou reforçam um a ideia. No próxim o capítulo, vam os nos deter no uso de histórias.

Por enquanto, lem bre-se do seguinte: as histórias ressoam profundam ente em todo ser hum ano. Ao m ontar sua palestra com o um a história ou um a série de histórias inter-relacionadas, você pode aum entar em m uito a sintonia com os ouvintes. Mas, por favor: faça com que ela tenha significado.

Ferram entas da palestra

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EXPLICAÇÃO

Como explicar conceitos difíceis

Dan Gilbert, psicólogo de Harvard, chegou ao TED com um a tarefa intim idante.

Pretendia explicar, num a única palestra breve, o sofisticado conceito da cham ada “felicidade sintética” e a razão pela qual ela nos levava a fazer previsões totalm ente incorretas sobre nosso futuro.

Vej am os com o ele atacou o problem a. Com eçou assim : Quando se tem 21 m inutos para falar, dois m ilhões de anos parecem de fato m uito tem po.

Um a abertura ligada ao presente, m as que despertou interesse de im ediato. E

ele continuou:

Mas, do ponto de vista evolucionário, dois m ilhões de anos não significam nada. Ainda assim , em dois m ilhões de anos a m assa do cérebro hum ano quase triplicou, passando dos 560 gram as desse nosso ancestral, o [ Homo]

habilis, para quase um quilo e m eio de m assa cinzenta que todos tem os entre as orelhas. O que um cérebro grande tem de tão im portante para a natureza querer colocar um dentro de cada indivíduo?

Sentiu um lam pej o de curiosidade? Esse é o prim eiro passo para o sucesso de um a explicação. Assim que é seduzida, a m ente se abre. Ela quer ideias novas.

Gilbert continua a provocar:

Bem , ocorre que, quando os cérebros triplicam de tam anho, não ficam apenas três vezes m aiores; eles ganham novas estruturas. E um dos principais m otivos pelos quais nosso cérebro cresceu tanto foi a aquisição de um a nova parte, cham ada córtex pré-frontal. E o que o córtex pré-frontal faz por você que j ustifique toda a reform a arquitetônica do cérebro hum ano, ocorrida num piscar de olhos do tem po evolucionário?

Enquanto continuava a fom entar nossa curiosidade, Gilbert m encionou o prim eiro conceito com que iria trabalhar: o córtex pré-frontal.

Um a das funções m ais im portantes do córtex pré-frontal é atuar com o um

sim ulador de experiências. Os pilotos treinam em sim uladores de voo para não com eter erros em aviões de verdade. Os seres hum anos dispõem dessa adaptação m aravilhosa para sim ular experiências em suas cabeças antes de vivenciá-las na vida real. Nenhum de nossos ancestrais podia fazer esse truque e nenhum outro anim al é capaz disso na m esm a m edida que nós. É

um a adaptação assom brosa. Ao lado dos polegares opositores, da postura vertical e da linguagem , foi um a das coisas que perm itiram à nossa espécie descer das árvores e ir para os shopping centers.

Eis aí outro conceito novo e im portante, que surge com boa dose de hum or: simulador de experiências. Trata-se de um conceito vital, que recebem os com a aj uda de um a m etáfora sim ples — a do sim ulador de voo. Com o sabem os o que esse equipam ento faz, podem os im aginar o que será um sim ulador de experiências. Mas um exem plo poderia esclarecer sua função? Claro que poderia:

A Ben & Jerry ’s não faz sorvetes de fígado acebolado, e não porque tentaram fazer um pouco, experim entaram e desistiram , enoj ados. É

porque, sem sair de sua poltrona, você pode im aginar o sabor e sentir noj o antes de produzi-lo.

Um só exem plo vívido do sim ulador de experiências em ação, e você j á entende perfeitam ente a ideia. No entanto, a palestra sofre um desvio interessante:

Vej am os agora com o seus sim uladores de experiências estão funcionando.

Vam os apenas fazer um a rápida verificação antes de eu prosseguir com a palestra. Convido vocês a contem plar dois futuros. Tentem sim ulá-los e m e digam qual preferem . O prim eiro é ganhar na loteria; o segundo é ficar paraplégico.

A plateia ri, m as com certo nervosism o, im aginando o que virá. E o que vem é um slide de fato espantoso. Gilbert exibe dados segundo os quais, um ano depois de ganhar na loteria ou ficar paraplégico, os integrantes dos grupos m ostram o mesmo nível de satisfação. O quê?! Isso não pode estar certo. Esse novo conceito, o sim ulador de experiências, de repente levou você a um lugar inesperado. Um lugar desconcertante. Os fatos apresentados não fazem sentido. Você está vivenciando um a lacuna de conhecimento, e sua m ente está ansiosa para vê-la preenchida.

E Gilbert a preenche, m encionando outro conceito novo:

A pesquisa que m eu laboratório está realizando [...] revelou um fenôm eno realm ente espantoso, que estam os cham ando de viés de impacto: a tendência do sim ulador a funcionar m al [...] fazendo o indivíduo acreditar que resultados distintos sej am m ais diferentes do que são na realidade.

Ao receber um nom e — viés de impacto —, de algum a form a o m istério se torna m enos nebuloso. No entanto, nossa curiosidade está m ais desperta do que nunca na tentativa de transpor esse fosso. Será realm ente verdade que podem os errar tanto na previsão de nossos níveis de felicidade futura? Gilbert tira proveito dessa curiosidade para revelar seu conceito-chave.

Pesquisas de cam po e estudos em laboratório nos m ostram que os efeitos de vencer ou perder um a eleição, com eçar ou term inar um relacionam ento, receber ou não um a prom oção, ser aprovado ou reprovado num a prova na faculdade etc. têm m uito m enos im pacto e intensidade, e duram m uito m enos do que as pessoas esperam . Isso m e deixa quase atordoado — um estudo recente sobre a form a com o graves traum as afetam as pessoas indica que, com um as poucas exceções, se o ocorrido tem m ais de três m eses, não exerce absolutam ente im pacto algum sobre a sua felicidade.

Por quê? Porque a felicidade pode ser sintetizada! [...] Os seres hum anos possuem algo que poderíam os cham ar de sistema imunológico psicológico.

Um sistem a de processos cognitivos, em grande parte não conscientes, que os aj uda a m udar a form a de ver o m undo, para poderem se sentir m elhor nas situações em que se encontram .

Aí está a explicação da felicidade sintética. Foi construída com os conceitos de córtex pré-frontal, simulador de experiências e viés de impacto. E, para m elhor esclarecê-la, Gilbert lança m ão de outra m etáfora, a do sistema imunológico.

Com o você j á sabe o que é um sistem a im unológico, fica fácil pensar nela com o um sistem a im unológico psicológico. O conceito não é apresentado de um a vez só, m as pouco a pouco, e com m etáforas para nos guiar e m ostrar com o as peças se encaixam .

Mas talvez ainda não acreditem os piam ente na história. Por isso Gilbert reafirm a o que quer dizer por m eio de um a série de exem plos do funcionam ento do sistem a im unológico psicológico:

Um político em desgraça que agradece aos céus por sua queda.

Um presidiário condenado inj ustam ente e que se refere aos 37 anos de cadeia com o “um a experiência gloriosa”.

E Pete Best, baterista substituído por Ringo Starr, que disse: “Sou m ais

feliz do que teria sido com os Beatles.”

Esses exem plos realm ente convencem a plateia. Em seguida, Gilbert m ostra que esse fenôm eno pode ser observado em toda parte e que é possível levar um a vida m ais sábia e feliz levando isso em conta. Afinal, por que buscam os a felicidade se tem os a capacidade de fabricar, dentro de nós, aquilo que m ais desej am os?

Entretanto, j á vim os o suficiente para revelar os elem entos centrais de um a explicação m agistral. Recapitulem os:

Passo 1. Ele começou exatamente onde estávamos. Tanto no sentido literal,

“Quando se tem 21 m inutos para falar...”, quanto no conceitual, sem pressupostos ousados sobre nosso conhecim ento de psicologia ou neurociência.

Passo 2. Ele acendeu uma fogueira chamada curiosidade. É a curiosidade que leva as pessoas a perguntarem por quê e como. É aquela sensação de que algo não faz m uito sentido, de que um a lacuna de conhecim ento precisa ser preenchida. Essa sensação surgiu logo no com eço e se intensificou radicalm ente com os dados inesperados com parando ganhadores da loteria a paraplégicos.

Passo 3. Ele apresentou os conceitos um a um. Um a pessoa não entenderá o conceito principal sem prim eiro ter sido apresentada às peças de que ele depende. Nesse caso, as peças são o córtex pré-frontal, o sim ulador de experiências e o viés de im pacto.

Passo 4. Ele utilizou metáforas. Gilbert lançou m ão de m etáforas com o o sim ulador de voo e o sistem a im unológico psicológico para esclarecer os conceitos. Para que sej a satisfatória, um a explicação precisa fazer um a ligação entre os fatos não com preendidos e o m odelo m ental que tem os do m undo. As m etáforas e as analogias são os principais m eios para isso, pois aj udam a dar form a à explicação até ela enfim se encaixar no lugar.

Passo 5. Ele se valeu de exemplos. Historietas com o a de Pete Best aj udam a com pletar a explicação. É com o se a pessoa dissesse ao cérebro: “Você acha que com preendeu a ideia? Então, aplique-a a esses fatos. Se encaixar, é porque com preendeu.”

No fim da explicação de Gilbert, nosso m odelo m ental do m undo tinha sido aperfeiçoado. Estava m ais rico, profundo, verdadeiro. Refletia m elhor a realidade.

A explicação é o ato que acrescenta conscientem ente um novo elem ento ao m odelo m ental de alguém ou reorganiza os elem entos existentes de m aneira m ais satisfatória. Se, com o propus, o obj etivo de um a boa palestra é reconstruir um a ideia na m ente de alguém , a explicação é a ferram enta essencial para alcançar esse obj etivo.

Muitas das m elhores Conferências TED atingem seu nível de excelência por m eio de um a hábil explicação. E a dádiva que produzem tem um belíssim o nom e: entendimento. Podem os defini-lo com o o aperfeiçoam ento de um a visão de m undo, de m odo a m elhor refletir a realidade.

Inúm eras fontes, com o a neurociência, a psicologia e a teoria educacional, indicam com o o entendim ento precisa acontecer. Ele é construído com o um a hierarquia, em que cada cam ada supre os elem entos que form arão a nova cam ada. Com eçam os com aquilo que sabem os e acrescentam os as peças pedaço a pedaço, cada um a posicionada m ediante o uso de um a linguagem j á com preendida, apoiada por m etáforas e exem plos. As m etáforas, talvez literalm ente, revelam a “form a” do novo conceito, de m odo a inform ar a m ente com o inseri-lo em seu lugar. Sem essa form a, os conceitos não podem se encaixar; portanto, parte fundam ental do planej am ento de um a apresentação consiste em acertar o equilíbrio entre, por um lado, os conceitos introduzidos e, por outro, os exem plos e as m etáforas necessários para torná-los com preensíveis.

A lexicógrafa Erin McKean nos oferece um bom exem plo do poder das m etáforas:

Se fosse fazer um a palestra sobre a linguagem de program ação JavaScript para um público não especializado, você talvez explicasse que m uitas vezes as pessoas têm o m odelo m ental de um program a de com putador com o um conj unto de instruções executadas em sequência. No JavaScript, porém , as instruções podem ser assíncronas, ou sej a, não há com o ter certeza de que a linha cinco sem pre será executada depois da linha quatro. Im agine que você está se vestindo certa m anhã e põe os sapatos antes de vestir a calça (ou veste a calça antes da roupa de baixo)! No JavaScript, isso é possível.

Um a m etáfora breve, e clique! A luz se acende.

Se a essência de sua palestra for a explicação de um a nova ideia, será conveniente se perguntar: o que você supõe que a plateia j á sabe? O que vai usar para criar sintonia? Quais são os conceitos necessários para construir sua explicação? E que m etáforas e exem plos você utilizará para revelar esses conceitos?

A MALDIÇÃO DO CONHECIMENTO

Infelizm ente, isso não é tão fácil quanto parece. Todos sofrem os de um viés

cognitivo que o econom ista Robin Hogarth cham ou de “a m aldição do conhecim ento”. Em sum a, tem os dificuldade para lem brar com o é não saber algo que conhecem os bem . Um físico vive e respira partículas subatôm icas e pode supor que todo m undo sabe o que é um quark charm . Recentem ente, durante um a festa, fiquei chocado ao ouvir um j ovem e talentoso rom ancista perguntar: “Você vive usando a expressão ‘seleção natural’. O que quer dizer com isso?” Eu achava que qualquer um com ensino m édio com preendesse as ideias básicas da evolução. Estava enganado.

No livro The Sense of Style: The Thinking Person’s Guide to Writing in the 21st Century, Steven Pinker propõe que superar a m aldição do conhecim ento talvez sej a o requisito m ais im portante para quem desej a se tornar um escritor claro. Se isso se aplica à escrita, que perm ite aos leitores parar e reler um trecho várias vezes antes de continuar, é ainda m ais verdadeiro no caso de um a palestra ao vivo. Pinker declara que não basta ter consciência do problem a. O palestrante precisa expor suas versões prelim inares do texto a am igos e colegas e pedir que apontem claram ente qualquer coisa que não com preendam . O m esm o vale para palestras, sobretudo as que tentam explicar um assunto com plexo. Prim eiro, m ostre o texto inicial a am igos e colegas. Depois, ensaie diante de um a plateia privada. E faça especificam ente as seguintes perguntas: Isso fez sentido? Algo ficou confuso?

Com o sem pre adm irei a capacidade de Pinker de explicar nossos m ecanism os m entais, eu pedi a ele que m e aj udasse um pouco aqui. Ele m e contou que, para haver um a verdadeira com preensão, é preciso com unicar toda a estrutura hierárquica de um a ideia:

Um a descoberta im portante da psicologia cognitiva é que a m em ória de longo prazo depende da organização hierárquica coerente do conteúdo: blocos dentro de blocos dentro de blocos. O desafio de quem fala em público é usar a fala, um m eio fundam entalm ente unidim ensional (palavras em sequência), para transm itir um a estrutura m ultidim ensional (hierárquica e entrecruzada). A pessoa com eça com um a teia de ideias na cabeça e, em virtude da própria natureza da linguagem , precisa convertê-la num a fileira de palavras.

Isso exige m uito cuidado, m esm o no nível das frases e da form a com o se relacionam . O orador precisa ter certeza de que os ouvintes entendem com o cada frase se relaciona logicam ente à anterior, se a relação é de sim ilaridade, contraste,

elaboração,

exem plificação,

generalização,

anterioridade

e

posteridade, causa, efeito ou expectativa não cum prida. E os ouvintes precisam saber se o trecho ouvido é um a digressão, um a parte da exposição principal, um a exceção à exposição principal etc.

Im aginando a estrutura de um a palestra explicativa com o um a linha m estra em que outras partes são ligadas — historietas ilustrativas, exem plos, am plificações, digressões, esclarecim entos etc. —, a estrutura geral pode lem brar um a árvore. A linha m estra é o tronco; os galhos, as diversas partes ligadas a ela. Mas, para que haj a com preensão, é preciso que os ouvintes saibam onde se encontram na árvore.

Muitas vezes é aqui que a m aldição do conhecim ento se m anifesta com m ais força. Cada frase é inteligível, m as o palestrante se esquece de m ostrar com o elas se ligam . Para ele, isso está óbvio.

Eis um exem plo sim ples. O palestrante diz:

A força física dos chim panzés é m uito superior à do hom em . O hom em aprendeu a usar ferram entas para am pliar sua força natural. Os chim panzés, é claro, tam bém usam ferram entas.

E a plateia se confunde. O que está sendo destacado aqui? Talvez o palestrante quisesse dizer que as ferram entas im portam m ais do que a força, m as não quisesse dar a im pressão de que os chim panzés nunca usam ferram entas. Ou que os chim panzés agora são capazes de am pliar sua força, que j á é superior à do hom em . Os três períodos não têm relação entre si, e o resultado é um a trapalhada. O trecho anterior poderia ser substituído por um dos seguintes: Em bora a força física dos chim panzés sej a m uito superior à dos hom ens, o hom em utiliza ferram entas de um a m aneira m uito m elhor. E essas ferram entas am pliaram a força natural do hom em m uito além da dos chim panzés.

Ou (e com um sentido bem distinto):

A força física dos chim panzés é m uito superior à do hom em . E agora descobrim os que eles tam bém usam ferram entas. Eles poderiam se valer delas para aprender a am pliar sua força natural.

Isso m ostra que alguns dos elem entos m ais im portantes num a palestra são as palavras, locuções ou frases que dão pistas para a estrutura geral dela: “em bora”,

“um exem plo recente”, “por outro lado”, “vam os explicar m elhor isso”,

“fazendo, por um m om ento, o papel de advogado do diabo”, “vou contar a vocês duas histórias que com provam essa conclusão”, “a título de com plem entação”,

“nesse ponto vocês podem contestar, alegando que”, “ou sej a, em sum a”.

Outro fator im portante é a sequência precisa das frases e dos conceitos, de m odo que a com preensão sej a construída de form a natural. Passei para várias

pessoas as prim eiras versões deste livro, e houve inúm eros casos em que ouvi:

“Acho que entendi. Mas ficaria m uito m ais claro se você trocasse esses dois parágrafos de posição e explicasse um pouco m elhor a relação entre eles.” É

im portante ser claro num livro, e m ais ainda num a palestra. Por fim , é da m áxim a conveniência pedir aj uda a pessoas leigas no assunto, pois serão elas que m elhor perceberão as falhas.

Deborah Gordon, que fez um a Conferência TED sobre a form a com o as colônias de form igas podem nos dar lições relevantes sobre rede de contatos, disse-m e que a busca de falhas em explicações era parte crucial de sua preparação para apresentações:

Um a palestra não é um recipiente ou um com partim ento em que você despej a conteúdo. É um processo, um a traj etória. O obj etivo é levar o ouvinte de onde ele está a um lugar novo. Para isso, tenta-se escalonar a sequência de tal form a que ninguém se perca no cam inho. Mais ou m enos, é com o se você pudesse voar e alguém quisesse lhe fazer com panhia, daí você pegasse a pessoa pela m ão, decolasse e não a largasse, pois, se ela caísse, j á era! Ensaiei m inha palestra diante de am igos e conhecidos que nada sabiam sobre o assunto, perguntando o que não estavam entendendo, sobre o que tinham dúvidas, partindo do princípio de que, se eu preenchesse essas lacunas para eles, estaria fazendo o m esm o para outras pessoas.

Um ponto de especial relevância é a verificação do j argão. Todos os term os técnicos ou acrônim os que a plateia não conheça devem ser elim inados ou explicados. Nada m ais frustrante para um a plateia do que ouvir um a exposição de três m inutos sobre TLAs

sem fazer ideia do que significam .5 É possível tolerar um a transgressão dessa regra, m as, quando term os assim se acum ulam , o público sim plesm ente desliga.

Não estou dizendo que tudo precise ser explicado num nível apropriado a crianças do sexto ano. No TED, existe um a diretriz baseada num princípio de Einstein: “Torne tudo tão sim ples quanto

possível. Mas não sim plifique.” 6 Você não quer insultar a inteligência do público. Às vezes, term os especializados são essenciais. No caso da m aior parte das plateias, não há necessidade de explicar que o DNA é um a m olécula especial que carrega inform ações genéticas. E não é preciso exagerar na explicação. Na verdade, os explicadores m ais hábeis explanam apenas o suficiente para o ouvinte se dar conta de que está captando a ideia. A estratégia deles consiste em apresentar o novo conceito e descrevê-lo apenas o suficiente para que a m ente j á preparada das pessoas o encaixe sozinha no lugar. Isso poupa tem po ao palestrante e satisfaz os ouvintes. Ao fim da palestra, eles se sentem felizes com sua própria sapiência.

DA EXPLICAÇÃO À EMPOLGAÇÃO

Existe outra im portante ferram enta explicativa: antes de tentar expor sua ideia, pense em deixar claro o que ela não é. Talvez você tenha notado que usei essa técnica neste livro, por exem plo, ao analisar estilos de palestras que não funcionam antes de m ostrar as que funcionam . Se um a explicação está construindo um pequeno m odelo m ental num am plo espaço de possibilidades, é útil, antes de tudo, reduzir a dim ensão desse espaço. Quando se elim inam possibilidades plausíveis, a plateia capta o que você tem em m ente com m uito m ais facilidade. Por exem plo, ao explicar por que a atenção aj udava num a dieta, a neurocientista Sandra Aam odt com entou: “Não estou dizendo que você precisa aprender a m editar ou praticar ioga. Estou falando sobre comer com atenção: aprender a com preender os sinais de seu corpo, de m odo a com er quando está com fom e e parar de com er quando j á se satisfez.”

Entre os palestrantes do TED, alguns m estres na arte da explicação são Hans Rosling (gráficos anim ados reveladores), David Deutsch (pensam ento científico não convencional), Nancy Kanwisher (neurociência acessível), Steven Johnson (de onde vêm as ideias) e David Christian (a história num a tela gigante). Respeito dem ais todos eles. Cada um constrói na m ente dos ouvintes um a ideia poderosa que será apreciada pelo resto da vida.

Se você é capaz de explicar bem algo, pode usar essa aptidão para dar ao público um prazer real. A cientista Bonnie Bassler estuda a form a com o as bactérias se com unicam e fez um a palestra em que apresentou pesquisas fantásticas que vinham sendo realizadas em seu laboratório. Ao nos aj udar a entendê-las, ela abriu um m undo de possibilidades fascinantes. Vej am os.

Ela com eçou tornando a palestra relevante para a plateia. Afinal, não se podia partir do princípio de que qualquer um ali sentado se interessasse m uito por bactérias. Por isso, com eçou assim :

Sei que vocês se veem com o seres hum anos, e é m ais ou m enos assim que eu tam bém os vej o. [...] Mais ou m enos um trilhão de células hum anas faz com que cada um de nós sej a o que é e faça tudo o que faz. No entanto, em qualquer m om ento de suas vidas, cada um aqui tem dez trilhões de células bacterianas dentro do corpo ou sobre ele. Ou sej a: em um a pessoa, há dez vezes m ais células bacterianas do que células hum anas [...] Essas bactérias não são passageiras passivas, elas são incrivelm ente im portantes, pois nos m antêm vivos. Elas nos cobrem com um a couraça invisível que afasta as agressões am bientais, o que nos perm ite ser saudáveis. Elas digerem nosso alim ento, produzem nossas vitam inas, educam nosso sistem a im unológico de m odo a afastar os m icróbios nefastos. Ou sej a, fazem todas essas coisas que nos são benéficas e vitais e nunca recebem o devido reconhecim ento.

Muito bem . Agora a questão ficou pessoal. Esses bichinhos são im portantes para nós. Em seguida, um a pergunta inesperada atiça nossa curiosidade: A pergunta para a qual queríam os um a resposta era a seguinte: com o elas conseguiam fazer algum a coisa? Quer dizer, as bactérias são m inúsculas, e precisam os de um m icroscópio para vê-las. Elas levam um a vida m uito chata, crescendo e se dividindo, e sem pre foram vistas com o organism os associais e reclusos. E por isso supúnham os que, agindo individualm ente, fossem pequenas dem ais para exercer um im pacto sobre o am biente.

A história está se tornando fascinante. Por acaso ela vai dizer que as bactérias caçam em bando? Quero saber m ais! Bonnie nos conduz, então, por um a investigação detetivesca baseada em várias pistas que m ostram que as bactérias precisam agir em grupo. Conta o caso espantoso de um a lula biolum inescente que, para ficar invisível, lança m ão do com portam ento sincronizado de bactérias.

E por fim chegam os à sua descoberta de com o bactérias invasivas podem lançar um ataque contra um ser hum ano. Individualm ente, elas não conseguem . Em vez disso, em item um a m olécula de com unicação. À m edida que m ais bactérias se m ultiplicam em seu corpo, a concentração da m olécula aum enta até que, de repente, todas “sabem ”, coletivam ente, que j á estão em núm ero suficiente para atacar e com eçam a em itir toxinas ao m esm o tem po. O processo se cham a percepção de quórum. Uau!

Bonnie disse que a descoberta deu origem a novas estratégias para com bater as bactérias. O obj etivo deixou de ser m atá-las e passou a ser cortar seus canais de com unicação. Diante da dissem inação da im unidade a antibióticos, essa ideia é de fato interessante.

Por fim , ela encerrou a palestra referindo-se a um a im plicação ainda m ais am pla:

Eu argum entaria [...] que essa im plicação é a invenção da m ulticelularidade. As bactérias existem na Terra há bilhões de anos; os hom ens, há poucas centenas de m ilênios. Acreditam os que as bactérias estabeleceram as regras para o funcionam ento da organização m ulticelular

[...] Se podem os im aginá-las nesses organism os prim itivos, podem os esperar que as regras tam bém se apliquem a outras doenças e com portam entos hum anos.

Ao longo da apresentação de Bonnie, cada inform ação foi exposta cuidadosam ente com base no que havia sido dito antes. Nenhum term o técnico deixou de ser explicado. E isso lhe possibilitou abrir novas portas para nós. Ela estava expondo um a ciência com plexa, m as a plateia, não especializada, foi

tom ada de entusiasm o. No fim , para espanto de Bonnie, todos a aplaudim os de pé.

Você só consegue passar ao público um a nova ideia poderosa se tiver aprendido a explicá-la. E isso só é possível passo a passo, alim entado pela curiosidade. Cada passo se baseia naquilo que os ouvintes j á sabem . Metáforas e exem plos são essenciais para m ostrar com o um a ideia é construída. Cuidado com a m aldição do conhecim ento! Você precisa ter certeza de que não está confiando em pressupostos que farão o público se desinteressar. E, quando tiver explicado algo especial, o entusiasm o e a m otivação logo se seguirão.