TED Talks: O Guia Oficial do TED para Falar em Público

12. Ensaios gerais

A conclusão é a seguinte: na verdade, a m aior parte dos oradores do TED

roteiriza e decora a palestra inteira e faz de tudo para evitar que pareça decorada. Se você tiver tem po e quiser abrir cam inho através do autom atism o do Vale da Estranheza, provavelm ente terá m ais chances de encapsular tudo o que pretende dizer e evitar as arm adilhas com uns da palestra decorada. Mas, caso não tenha tem po para decorar de verdade até que a apresentação se transform e em algo j á internalizado, ou caso j á saiba que não é assim que vai dar um a excelente palestra, por favor, não tom e esse rum o.

O segredo é descobrir o m odo com o você se sente confiante e se ater a ele.

Caso a opção lhe pareça preocupante, tenho boas notícias: quando você com eça a ensaiar, a diferença entre os dois m odos com eça a se desvanecer. Os pontos de partida podem ser diferentes, m as nos dois casos você term inará com um a palestra preparada em detalhes e feita com paixão.

Processo de preparação

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ENSAIOS G ERAIS

Espere aí, eu preciso ensaiar?

Sej a qual for seu m odo de falar, existe um instrum ento bem sim ples e óbvio que pode m elhorar sua palestra, m as que a m aioria dos oradores raram ente usa: ensaiar. Muitas vezes.

Os m úsicos ensaiam antes de tocar. Os atores ensaiam antes de as portas do teatro se abrirem ao público pagante. No caso da palestra, o que está em j ogo é tanto ou m ais do que em qualquer concerto ou peça, ainda que m uitos oradores aj am com o se achassem que podem sim plesm ente subir ao palco, que tudo dará certo de prim eira. É por isso que, volta e m eia, sim plesm ente porque alguém não se preparou da form a adequada, centenas de ouvintes precisam suportar m inutos interm ináveis de um a aflição desnecessária. Lam entável.

O m aior com unicador corporativo dos últim os tem pos, Steve Jobs, não chegou lá apenas com talento. Dedicou horas a cuidadosos ensaios para lançar cada produto im portante da Apple. Ele era obcecado pelo detalhe.

A m aior parte dos grandes sucessos do TED só existiu porque os oradores trabalharam horas em seu preparo. Jill Bolte Tay lor, cuj a palestra sobre seu AVC

explodiu na internet em 2008, m e contou:

Eu ensaiei literalm ente centenas de horas. Muitas e m uitas vezes, m esm o durante o sono, quando eu acordava recitando a palestra. Com o o assunto era m uito delicado para m im , eu revivia a m anhã do AVC toda vez que relatava o caso. E, com o m inha em oção era autêntica, a plateia percebeu que a história era autêntica, e em barcam os j untos nessa viagem .

Susan Solom on, cientista especializada em células-tronco, é igualm ente enfática sobre a im portância do ensaio:

Para que você se prepare para a palestra, deve ensaiar tantas vezes que se sinta capaz de realizá-la dorm indo e para qualquer público. Ensaie diante de am igos. Ensaie sozinho. Ensaie de olhos fechados. Ensaie cam inhando pelo j ardim . Ensaie na m esa de trabalho, m as sem consultar anotações. E certifique-se de incluir nos ensaios as im agens que vai apresentar, pois a sincronia entre elas e a fala é decisiva.

Rachel Botsm an acha que se deve ter cuidado com quem assiste aos ensaios:

Treine a fala diante de alguém que não saiba nada sobre seu trabalho.

Com eti o erro de ensaiar com pessoas m uito chegadas a m im e àquilo que faço. O m elhor retorno virá de quem possa m ostrar as lacunas ou se você está pressupondo que a plateia j á saiba isto ou aquilo.

Introvertida confessa, Susan Cain credita ao público dos ensaios m elhorias im portantes em sua fala:

Levei a sério o conselho do TED: se você vai decorar sua palestra, decore tão bem que as palavras saiam espontaneam ente. Não basta treinar diante do espelho ou enquanto leva o cachorro para passear. Use um palco de verdade e tenha pelo m enos um ouvinte. Na noite da sexta-feira que antecedeu m inha palestra, o extraordinário professor Adam Grant, de Wharton, reuniu um grupo de trinta de seus m elhores alunos e ex-alunos, e eu dei m inha palestra para eles. O retorno deles foi tão pertinente que passei o resto da noite acordada reescrevendo a parte final da apresentação.

Depois tive de passar o resto do fim de sem ana decorando tudo outra vez.

Não aconselho esperar até o últim o m inuto, com o eu fiz! Mas recom endo fortem ente trabalhar com um público de verdade e um am igo sagaz com o Adam .

Mas tem os aqui um a surpresa: m esm o palestrantes que não acreditam em roteirização e m em orização acentuam a im portância do ensaio. Eis o que diz o educador Salm an Khan:

Faça a palestra pelo m enos cinco vezes em seu quarto, parafraseando as ideias centrais. Mesm o que se confunda ou esqueça algo, obrigue-se a term inar cada tentativa (e sem pre controle o tem po). Na m inha opinião, o m érito do treino está m enos na m em orização e m ais em fazer você se sentir à vontade, reduzir a tensão. Se estiver confiante e em estado de relaxam ento, todos vão ficar m ais satisfeitos.

A escritora Mary Roach concorda:

Minha palestra não foi escrita palavra por palavra nem decorada. Mas foi ensaiada — pelo m enos 25 vezes, usando dez fichas e um cronôm etro.

Existe um tipo de m em orização não intencional que surge naturalm ente com a repetição. Acho que é isso que se procura. Decorar pode parecer m ais seguro, porém um pouco de risco vai bem . Medo é energia, e você vai querer um pouco de energia passando por você.

A expressão memorização não intencional é im portante. Se ensaiar bastante, você pode acabar conhecendo a palestra da m elhor form a possível. Quando Clay Shirky veio ao TED falar sobre um a inflam ada polêm ica a respeito da legislação de direitos autorais, fiquei assom brado com sua capacidade de transm itir aquela coisa com plicada com clareza, sem recorrer a um roteiro e m esm o sem anotações. Perguntei a ele com o fazia isso. Resposta: ensaios sucessivos. Mas ensaios que realm ente dessem vida à palestra. Vej a o que ele respondeu: Certa vez ouvi a resposta que Ron Vawter, o m aior ator que j á conheci, deu a um a pergunta sobre sua técnica de ensaio. Ele disse: “Sim plesm ente digo as palavras até que elas pareçam estar saindo de m im .” Isso é o que eu faço

— m e preparo para um a palestra dando a palestra. Com eço com um a ideia básica, im agino um a ou duas frases introdutórias e depois m e im agino explicando-as a pessoas que se interessam pelo assunto.

No início, trata-se m ais de ter um a ideia sobre o que serve e o que não serve — m ais um a edição do que um ensaio. Naquela Conferência TED, eu tinha um bom trecho sobre a falta de recursos em outras atividades que não a TV, m as achava esquisito insistir naquilo, então cortei. Depois de um tem po, aj usto o ritm o e o com passo. No fim , analiso sobretudo as transições.

Os slides aj udam , claro, m as é particularm ente im portante ensaiar a transição de um para o outro. O público precisa perceber na sua voz quando você está reforçando um a ideia e quando está m udando de assunto.

Sem pre tom o notas, m as nunca escrevo a palestra — um a palestra não deve parecer um texto lido em voz alta. O que faço é um a lista daquilo que o pessoal de teatro cham a de sequências: aqui tem os um a ideia sobre o DMCA, depois outra sobre o Sopa, depois outra sobre o DNS e assim por diante. Fiz a últim a lista dessas sequências pouco antes de subir ao palco, com o um últim o lem brete.

Se j untar os conselhos de Cain, Khan, Roach e Shirky, você verá que a distância entre as palestras decoradas e as im provisadas com eça a dim inuir. O

orador que m em oriza bem dom ina de tal form a a apresentação que pode se concentrar em sua paixão pelas ideias que ela contém . As m elhores palestras im provisadas foram ensaiadas tantas vezes que os oradores sabem exatam ente que cam inho seguir e encontram na m em ória m uitas de suas frases de m aior efeito.

Não estam os falando aqui de duas m aneiras de dar um a palestra, m as de duas m aneiras de construí-la. Algum as pessoas partem de um roteiro, outras de um a lista de tópicos, m as o processo de ensaio aproxim a m uito esses dois grupos. Em am bos os casos, o obj etivo é um a palestra m inuciosam ente estruturada e feita com foco no que acontece na hora.

Talvez, a essa altura, você possa retrucar que odeia apresentações ensaiadas.

Sem pre descobre que são ensaiadas, por m ais que o orador tente fazê-las parecer espontâneas. As palestras precisam ter viço, singularidade, vida!

Eu conheço um grupo m inúsculo de oradores capazes disso. Eles são produto de um a vida de experiência e/ou de um a capacidade extraordinária de elaborar um a ideia e focar nela em tem po real. Mas, para a m aioria das pessoas, o fato de dar um a palestra “fresca” traz consigo terríveis desvantagens: perda de foco, esquecim ento de pontos essenciais, falta de clareza, extrapolam ento do tem po, isso para só m encionar algum as. Não recom endo em absoluto essa opção.

Quando o público acha que um a palestra parece ensaiada, o problem a não é ensaio demais, é ensaio de menos. O orador ficou preso no Vale da Estranheza.

Mas vam os adm itir: ensaiar dá trabalho. O ensaio é estressante. Até um a repassada em voz alta no quarto é trabalhosa. Pode haver ocasiões em que sim plesm ente não há tem po para isso (nesse caso, falar tendo em m ãos um a lista de tópicos, ou um roteiro ao qual se recorra o m ínim o possível, é a m elhor opção). Mas, caso a palestra sej a im portante, você tem para consigo m esm o e para com sua plateia a obrigação de ensaiar para vencer o estresse. Assim , o nervosism o com eça a dar lugar à confiança e depois ao entusiasm o.

A escritora Tracy Chevalier superou a relutância ao ensaio e descobriu com o ele pode dar form a à palestra:

Os organizadores do TED dão m uita ênfase ao ensaio. Tanto m e disseram que eu devia ensaiar que m e aborreci. Já havia feito m uitas palestras sem nunca treinar da m aneira com o o TED esperava. Afinal, acabei ensaiando e fiquei m uito contente. Em geral as palestras não são cronom etradas de m odo tão estrito, e m eu estilo é quase sem pre m ais coloquial e superficial. O

treino faz você perceber com o m uitas palestras são palavrosas. Treine, controle o tem po e corte digressões e tudo o que não for necessário.

Descobri tam bém que, ao falar em voz alta, encontrava frases que funcionavam bem . Decorei as frases e usei-as com o âncoras, ou com o colchões de am ortecim ento. Não decorei a palestra toda — pode soar falsa, a m enos que você sej a um ator —, m as decorei sua estrutura e algum as frases de colchão de am ortecim ento, o que tornou a palestra m elhor e m ais com pacta.

Até Bill Gates, um dos hom ens m ais ocupados do m undo, dedica bastante esforço a aprender e ensaiar suas Conferências TED. Já houve um tem po em que ele foi considerado um orador fraco. Levando a sério a preparação, ele deu a volta por cim a e m inistrou influentes palestras sobre saúde pública, energia e educação.

Se ensaiar para fazer um a boa apresentação m erece o tem po de Bill Gates,

Susan Cain, Tracy Chevalier e Salm an Khan, provavelm ente tam bém m erece o seu.

Algum as perguntas a fazer à plateia durante ou depois dos ensaios: Consegui prender sua atenção logo de cara?

Fiz contato visual?

A palestra conseguiu transm itir um a ideia nova?

Cada passo da j ornada foi satisfatório?

Houve exem plos suficientes para esclarecer tudo?

Com o ficou m eu tom de voz? Soou coloquial (o que em geral é bom ) ou com o um serm ão (o que em geral é ruim )?

Eu variei tons e ritm os?

Parecia que eu estava recitando?

As tiradas hum orísticas pareceram naturais ou forçadas? O hum or foi suficiente?

Com o estavam os recursos visuais? Aj udaram ou atrapalharam ?

Você notou algum detalhe irritante? Estalei a língua? Engoli m uitas vezes? Andei dem ais de um lado para o outro? Usei m uitas expressões com o “né?” ou “aí”?

Meus gestos foram naturais?

Term inei na hora certa?

Em algum m om ento você se entediou? Devo cortar algum a coisa?

Recom endo que você film e esses ensaios para se ver em ação. É possível que note algum trej eito do qual não tinha a m enor consciência e prefira elim iná-lo.

Por fim , falem os do lim ite de tem po. É m uito im portante levar o relógio a sério. Isso vale sobretudo quando se faz parte de um grupo de palestrantes.

Estourar o lim ite roubará tem po dos oradores seguintes. Mas não se trata apenas de evitar que eles ou o organizador se aborreçam . Trata-se tam bém de dar a m elhor palestra possível. Com a louca e m oderna econom ia da atenção, as pessoas reagem a conteúdos fortes e claros. Ninguém tem paciência para gordura. E não é apenas um fenôm eno atual. Ao longo da história, m uitas das falas de m aior im pacto foram breves e diretas. O discurso de Getty sburg, de Abraham Lincoln, durou pouco m ais de dois m inutos. O orador que o antecedeu falou durante duas horas; o que ele disse j á foi esquecido há m uito tem po.

No que se refere aos dias atuais, a últim a coisa que você vai querer é se preocupar com o tem po. Por isso, use os ensaios para burilar a palestra.

Considere cortar m aterial até ter certeza de term inar com folga dentro do lim ite.

Isso vai dar tem po para os risos da plateia e um a ou duas pequenas m ancadas.

No dia da apresentação, caso tenha certeza de que vai ficar dentro do tem po, volte-se com pletam ente para o assunto em que deve estar focado: explicar com

entusiasm o a ideia que lhe é tão cara.

O artista perform ático Rives tem um a boa sugestão.

Considere seu prazo com o sendo 0,9 m ultiplicado pelo tem po que lhe deram .

Escreva e ensaie sua palestra de m odo a ocupar nove décim os do tem po estipulado: 1 hora = 54 m inutos; 10 m inutos = 9; 18 m inutos = 16m in12s (sim , é isso). Depois, suba ao palco e ignore o relógio. Você vai ter tem po para andar de lá para cá, fazer pausas, se confundir um pouco, arrancar um a reação do público. Além disso, seu texto vai ficar m ais enxuto, e você se destacará entre os dem ais oradores que dançarão conform e a m úsica do lim ite de tem po.

Resum indo:

Para um a palestra im portante, ensaiar diversas vezes é fundam ental, de preferência diante de pessoas de confiança.

Trabalhe nela até que caiba com folga no tem po que lhe deram e insista no feedback sincero da plateia do ensaio.