Você tem Fome de Quê?

Deepak Chopra · Capítulo 10 de 21

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Você tem Fome de Quê?

Ajuste Pessoal - Deixe que Seu Corpo Tome Conta de Você

AJUSTE PESSOAL

 

Deixe que seu corpo tome conta de você

 

Pontos principais

O sistema corpo-mente se ajusta sozinho. Esse ajuste é chamado homeostase – uma não mudança dinâmica em meio à mudança.

Todas as funções do organismo se ajustam através dos ciclos de realimentação. Os pensamentos, sentimentos e desejos são o que o organismo recebe de mais importante nesses ciclos.

Os indícios de consciência corporal são saciedade/fome, conforto/desconforto, energia/letargia e leveza/peso.

Centenas de ciclos de realimentação funcionam sem esforço para nos manter vivos, saudáveis, vigorosos e em movimento sem a nossa participação consciente. Mas o que fazemos é fundamental para conservar biorritmos importantes, sobretudo o sono. Um biorritmo mais favorável está relacionado a um metabolismo mais favorável, que resulta em mais energia e na adequação do peso normal. Um biorritmo prejudicado gera desequilíbrios hormonais, rompendo muitos desses ciclos de realimentação. O nosso organismo tem consciência de si mesmo, é como uma sinfonia de processos engrenados. Ele não se vê como uma máquina ou uma “coisa”. Devemos considerar o nosso corpo como um verbo, não como um substantivo.

 

Podemos ignorar o nosso corpo, mas ele jamais vai nos ignorar. Tem tomado conta de nós, com lealdade, desde que fomos concebidos. Independentemente de quanto o negligenciamos ou judiamos dele, o corpo não abandona a sua missão. Ele existe para tomar conta de nós, se permitirmos isso. À noite, dormindo, quando ficamos inconscientes, o nosso organismo continua a ajustar centenas de processos sem atenção nenhuma de nossa parte. A missão dele é nos manter vivos, com saúde e em movimento. Essa capacidade é conhecida como autorregulação – 50 trilhões de células funcionando em nome da honra, digamos assim.

Se conscientemente deixamos o corpo tomar conta de nós, ele se tornará nosso maior aliado e companheiro fiel. O mais importante a fazer é parar de interferir nessa regulagem. Em casos sérios de excesso de peso, a interferência assume uma forma física. O peso a mais faz uma pressão desnecessária sobre todo o organismo. Se o corpo funciona como um supercomputador, processando constantemente entradas e saídas, despejar gordura animal derretida e caramelo não vai ajudar.

Digo isso superficialmente, pois as coisas ficam mais sérias se juntamos aí as toxinas mentais e emocionais. Todas as crenças negativas enfraquecem a parceria entre a mente e o corpo. Já tratamos ligeiramente desse assunto, conhecido como homeostase – a capacidade de o organismo preservar a não mudança em meio à atividade. Essas palavras abstratas apontam para a capacidade milagrosa do ajuste pessoal. A vida está estruturada para que esse autoajuste fique longe da vista, de modo que possamos fazer o que quisermos. Talvez uma pessoa vista uma roupa de ginástica, pensando: “Hora de dar uma volta no parque”, o que parece ser uma mensagem simples. Ela está pedindo ao corpo para se mexer. Mas, num nível oculto, essa instrução afeta o açúcar do sangue, o colesterol, a pressão sanguínea, a temperatura, a gordura corporal, a massa muscular, a densidade óssea, os níveis hormonais, a atividade metabólica, a função imunológica e o peso. Não existe nenhum momento em que todas essas funções não estejam sendo reguladas. E a meta principal é a homeostase, que permite que a pessoa faça algo dinâmico (dar uma volta no parque) enquanto conserva um estado constante de equilíbrio do corpo.

Se a homeostase for desligada, o organismo envia um sinal. Por exemplo, talvez a pessoa não tenha corrido durante três meses e, de repente, um lindo dia de primavera a inspira a correr no parque. Despreparado para essa decisão repentina, o corpo fará tudo o que pode para se proteger. Mas, exigido demais, ele vai enviar sinais de desconforto e tensão: a pessoa se sente sem fôlego, os músculos estão fracos, as juntas doem, a respiração fica ofegante, o coração bate acelerado no peito. Esses são resultados automáticos de uma homeostase exigida a ponto de ser necessária uma interferência. O que fazer em seguida depende da pessoa.

 

Como funciona a consciência do corpo

Muitos processos ocorrem simultaneamente no organismo para pensarmos nele como um substantivo. Como mencionei anteriormente, gosto de pensar no corpo como um verbo. A nossa mente consciente não tem como monitorar todos os processos biológicos do organismo. Os sinais básicos do corpo que necessitam de nossa consciência envolvem os temas que temos trabalhado neste livro:

Saciedade/Fome

Conforto/Desconforto

Energia/Letargia

Leveza/Peso

A primeira palavra de cada dupla indica um estado de equilíbrio emocional – a homeostase está tomando conta da pessoa sem pressão, estresse e tensão desmedida. Já a segunda palavra indica que a homeostase está sob pressão. Ou seja, um sistema automático está avisando que precisa que a pessoa corrija conscientemente a situação. Se ela faz a correção, o autoajuste volta ao seu milagroso funcionamento normal, e tudo entra em atividade de novo.

A melhor maneira de corrigir o desequilíbrio é através da consciência do corpo, que não exige esforço. É possível monitorar como nos sentimos, prestando atenção aos sinais primordiais acima listados: saciedade/fome, conforto/desconforto, energia/letargia e leveza/peso.

 

Atitude: Consciência da fome

Quanto mais afinada for a nossa tomada de consciência, maior o contato com o nosso organismo. É comum dizermos “estou morrendo de fome” e ir atrás de um monte de comida quando o corpo, na verdade, está dizendo “tenho um pouquinho de fome” (e se sentiria satisfeito com metade de um sanduíche ou com uma salada).

Da próxima vez que você for comer, pare e classifique sua fome de acordo com esta escala de 0 a 8.

0 a 1: O estômago está completamente vazio – você não consegue sentir nada da refeição anterior em

seu organismo. Ao mesmo tempo, há uma sensação de fome. É nesta hora que você deve começar a comer.

2 a 4: É como se sente quando está comendo com tranquilidade, ou depois de ter acabado de comer,

ainda fazendo a digestão, satisfeito. Você não sente fome.

5: Enquanto se alimenta, começa a se sentir satisfeito.

6: Este é o ponto de maior conforto. Você se sente bem satisfeito – não existe nem sensação de fome

nem nenhum incômodo por ter comido demais. Você deve parar de comer.

7 a 8: Você ultrapassou o nível de conforto. Depois de comer, fica com uma sensação de desconforto,

como peso, falta de vigor ou dilatação do abdômen.

Muitas pessoas sentem o impulso de comer mesmo quando o organismo delas indica que já estão satisfeitas. Talvez não sejam compulsivas, mas essas pessoas estão sentindo algum tipo de pressão e precisam de algum consolo. Ou então é algo normal, como um cliente que telefona inesperadamente e quer marcar um jantar cedo, portanto, a ida a um restaurante algumas horas depois de ter almoçado se torna obrigatória.

Seja qual for a situação, ter consciência do nível da sua fome, e obedecê-lo, preserva a força dos ciclos de realimentação entre a mente e o corpo.

Algumas dicas:

Obedeça ao nível de fome. Não coma se já está satisfeito. E, ao contrário, não deixe de comer caso se sinta faminto (é o que a maioria das pessoas faz, acreditando que assim vai perder peso).

Fique atento aos seus níveis de fome enquanto come. Quando estiver satisfeito (no nível 6 da nossa escala), pare de comer. Levante-se da mesa ou tire o prato da sua frente. Aprenda a considerar a sensação de uma fome leve como um sinal positivo de seu organismo. Não a use como desculpa para começar a comer instantaneamente.

A consciência do corpo é algo que acontece com naturalidade. Se algo dói, por exemplo, o desconforto é um sinal desagradável e instintivamente desejamos melhorar. Mas a reação mental nem sempre é simples. Muitas pessoas com sobrepeso mal se dão conta de suas convicções negativas, de tanto tempo que elas ali estão. Mesmo assim, é possível identificá-las pelos pensamentos prejudiciais que geram. Que tipo de parceria está em andamento entre a mente e o corpo se os seus pensamentos são como os seguintes?

O meu corpo é feio e medíocre.

Estou preso a este corpo. Não há nada que eu possa fazer. Mesmo me esforçando para perder peso, meu corpo não ajuda. Estou muito desapontado com este corpo.

É só uma questão de tempo para que alguma coisa desande no meu corpo. O jeito é ignorar a aparência e o estado do meu corpo.

Obviamente, há dificuldades nessa parceria. De acordo com minha experiência, as pessoas com histórico de problemas de peso são em geral bastante desligadas dessa conexão entre a mente e o corpo. Com certeza, não a usam em benefício próprio.

Amanda, uma paciente minha, desenvolveu diabetes tipo 2 aos 55 anos, depois de viver com sobrepeso desde a adolescência. Eu era apenas mais um de uma longa lista de médicos que ela havia consultado, o que não surpreende, pois o diabetes tem efeitos sistêmicos. O oftalmologista dela lhe disse que a sua visão embaçada era consequência de uma deterioração na retina, que felizmente ainda era pequena. Outros médicos cuidavam de seu cansaço, alterações de humor, hipersensibilidade a medicamentos, instabilidade nos níveis de açúcar do sangue e dores na lombar (esse último problema não estava relacionado ao diabetes).

Amanda é uma mulher estoica e franca. Ela arrasta-se de um médico a outro, determinada a resolver esses sintomas. A primeira coisa que me contou foi: “Eu me considero uma curadora. Trabalho com uma abordagem holística do corpo. Os meus clientes me contam que mudei a vida deles”.

“E você se pergunta por que não muda a sua”, eu a interpelei. Ela concordou.

Perguntei a Amanda o que ela estava fazendo para si mesma, e ela desfiou uma lista impressionante. Consultava-se com um amplo leque de terapeutas alternativos. Tomava suplementos e preocupava-se muito em evitar alimentos processados. Fazia uma lavagem uma vez por mês. Eram todos passos proativos, mas havia algum nó.

“Gosto das coisas que você está fazendo”, disse. “Mas como se sente?” Ela me parecia preocupada e tensa.

“Estou um farrapo”, Amanda admitiu. “Detesto todas essas consultas. Queria que esses problemas sumissem.”

“Tenho a impressão de que todas essas preocupações fizeram você comer mais”, eu disse. Ela tinha ganhado cerca de 4 quilos desde a nossa última consulta, dois meses antes. Amanda concordou, aflita. O corpo dela lhe dizia que havia problemas, mas a sua reação a esse estresse era comer ainda mais. Portanto, o corpo dela já não era mais um parceiro, e ela precisava mudar isso. Havia muito drama também, além das preocupações médicas.

“Você se preocupa com a situação toda”, salientei. “Mas está cuidando dela de um jeito negativo. O desequilíbrio de seu corpo foi tão longe que ele está enviando a você sinais de irritação. É preciso diminuir essa irritação, e, quando fizer isso, a sua irritação também diminuirá. As duas estão intimamente relacionadas.”

O cuidado adequado ajuda o corpo a recuperar a homeostase; a cura não progride até isso acontecer. Amanda poderia fazer muita coisa para oferecer ao seu organismo uma chance de se reajustar:

Poderia parar de comer demais.

Poderia meditar.

Poderia tomar providência para reduzir os níveis de estresse. Poderia avaliar as suas convicções negativas.

Poderia alimentar a conexão entre o corpo e a mente fortalecendo a satisfação de modo positivo.

Essas são reações positivas. Eu tinha também uma sugestão mais imediata. Pedi a Amanda que fechasse os olhos e ficasse em silêncio. Então eu a conduzi pela seguinte meditação:

“Visualize o seu corpo saudável e equilibrado. Veja-o com o peso ideal. Sinta a alegria que é estar assim. Visualize a você mesma sorrindo, sentindo-se satisfeita com esse corpo. Diga a si mesma: ‘Esta sou eu. Quero ter o corpo que estou vendo. Este vai ser o meu corpo o mais rápido possível’.”

Ao longo dessa meditação, Amanda sorriu. Dava para ver a tensão deixando o seu organismo. O rosto dela relaxou, e ela ficou com um ar de contentamento e esperança.

Por que os outros médicos de Amanda não a ajudaram? Porque eles enxergaram o corpo dela como uma máquina quebrada que precisava ser consertada. Tinham pouco conhecimento sobre a figura humana como um todo – e não tinham interesse. Mas essa figura humana era de grande importância para ela. “Pare de comer tanto” era só uma brecha na estratégia entre o corpo e a mente para ela começar a melhorar sua vida.

 

A necessidade de reação

O nosso organismo precisa de entradas e respostas positivas. Os seus ciclos de realimentação funcionam automaticamente, e é por isso que conseguimos sobreviver durante meses ou anos em coma. Mas o sistema nervoso tem uma segunda parte – o sistema nervoso voluntário – que exige a nossa participação. Ele reage diante do que dizemos, pensamos e fazemos.

Desligamento significa que recusamos essa participação. Estamos instruindo a nossa mente e o nosso sistema nervoso a seguirem adiante sozinhos. Pode parecer algo neutro, mas não é. Esse desligamento tem muitas formas enraizadas na autocrítica. As principais são: negação, inércia, apatia e resignação. As pessoas com problemas de peso conhecem isso tudo muito bem. Esse desligamento ou desapego não é sinônimo de sabedoria e calma, como o de um Buda. O desapego espiritual é um estado de paz. Já o tipo de desligamento que ignora o que o corpo está nos dizendo tem origem na negatividade – não há nada de pacífico nele. Uma mistura de pensamentos e convicções maléficas se resume em: “O meu corpo está contra mim”.

É importante reverter essa atitude, pois o nosso organismo sabe o que estamos pensando e o que estamos sentindo. Nós estamos o alimentando de negatividade. Trilhões de células não param de receber mensagens químicas vindas da mente, codificadas como elementos químicos. Um hormônio do estresse como o cortisol desempenha um papel vital em duas funções essenciais à vida: alimentação e sono. Como endocrinologista, quando estudei esse fato, minha atenção se dirigia à estrutura da molécula do cortisol e como ela interagia com os demais hormônios. Essa interação era complexa e fascinante. Impressionava-me como um estresse repentino – causado, por exemplo, pela frase “Está despedido” – instantaneamente causa uma descarga de hormônios do estresse e, dois minutos depois, o corpo inteiro se modificava. Tudo por causa de uma única frase.

Essa ideia me faz enxergar o cortisol não como uma molécula, mas principalmente como uma ameaça. Como uma mensagem de texto (“Está despedido”) enviada pela corrente sanguínea, levando más notícias. Ao estudar medicina, nós ignorávamos essas mensagens porque tudo era muito científico; o lado humano era secundário. Mas, claro, “Está despedido” é uma mensagem humana, assim como os pensamentos negativos sobre o excesso de peso. “Você está gordo” é uma frase que ninguém quer ouvir, e é tão ou mais devastadora do que “Está despedido”.

Os hormônios reajustam o corpo

Vamos analisar mais de perto o que o organismo faz com as mensagens que estão circulando por ele o tempo todo. São centenas de ciclos de realimentação que, sendo interconectados, regulam uns aos outros. Portanto, como podemos reajustá-los de um jeito simples e eficaz?

Como já mencionei anteriormente, o fator mais importante na homeostase é o equilíbrio. Mas em termos fisiológicos, o que está sendo equilibrado? Os elementos-chave são ciclos diários conhecidos como biorritmos. Os processos do organismo não acontecem ao acaso. Eles são rítmicos, e cada um está enredado com os demais, como numa relojoaria imaginária onde centenas de relógios marcam a mesma hora, ainda que cada um com um tique-taque diferente. A pressão sanguínea, por exemplo, segue um padrão de ondas diário, ao subir e descer. O hormônio cortisol rastreia o ritmo do despertar e do adormecer (desligar esse ciclo químico leva aos efeitos ruins provocados pela mudança de fuso ou dos turnos noturnos – ainda que os trabalhadores noturnos achem que se acostumaram a ficar acordados quando deveriam estar dormindo, os seus níveis de cortisol indicam outra coisa).

O ciclo menstrual das mulheres depende de hormônios, e embora as causas da tensão pré-menstrual (TPM) não sejam compreendidas, os pesquisadores suspeitam que uma alteração cíclica nos hormônios, acompanhada de mudanças no cérebro, sejam a resposta. Com uma fisiologia diferente, os homens também têm comportamentos hormonais, e, se fizermos uma pesquisa na internet sobre “ciclo hormonal masculino”, encontraremos quem defenda um ciclo masculino mensal de testosterona, relacionado a mudanças de humor, excitação sexual e depressão. Tal ciclo foi pouco relatado e pouco estudado pela medicina, mas a testosterona passa por um ciclo diário, com pico pela manhã.

Existe uma sinfonia de hormônios em curso pelo corpo, e quando estão equilibrados uns com os outros, o nosso biorritmo segue um padrão natural. Quando o seu corpo está fora de equilíbrio, porém, os níveis de hormônios também refletem isso. Por exemplo, a falta de sono, ao desligar os níveis de cortisol, afeta a reação da fome, e é por isso que as pessoas tendem a comer mais quando o sono é ruim. Esse fator é tão importante que a perda do ritmo natural de sono pode ser a razão para comer em excesso (nas pessoas com depressão crônica, o primeiro sinal de um surto pode ser o sono irregular, e, se isso é resolvido logo, a depressão pode não ocorrer).

Os hormônios são reguladores ou porteiros. Conservam as funções mais importantes do organismo numa certa extensão, nem muito elevadas nem muito baixas. Isso inclui respirar, beber água, comer, digerir, o metabolismo, a excreção e experiências sensoriais, através da audição, do tato, da visão, do paladar e do olfato. Tudo deve ser autoajustado de acordo com limites adequados. Se repentinamente nos assustamos e a respiração fica rápida e entrecortada (um sinal físico de “lute ou fuja”), um hormônio – a adrenalina – leva o coração ao extremo. O organismo sabe que esse extremo só pode ser mantido com segurança por pouco tempo, então a adrenalina passa rapidamente pelo sistema.

Qual a relevância dos hormônios no caso do sobrepeso? Já sabemos que comer demais ou consumir os alimentos inadequados altera o açúcar do sangue, afetando os níveis de insulina e oferecendo o risco de desenvolver diabetes (embora ser pré-diabético também não seja saudável; ou seja, não há segurança apenas porque os sintomas ainda não apareceram). O mais incômodo talvez seja a gordura que se acumula em volta da cintura. O simples fato de essa gordura se localizar ali já faz diferença. As mulheres com gordura abdominal que ainda não entraram na menopausa apresentaram qualidade e formação óssea piores que as mulheres cuja gordura se localizava em outras partes do corpo.

Em ambos os sexos, o efeito desfavorável da gordura abdominal, que só recentemente foi alvo de pesquisas, é devido ao fato de essas células de gordura frequentemente secretarem hormônios na corrente sanguínea. Elas introduzem sobretudo a leptina, o hormônio que aumenta o apetite, que é naturalmente contrabalançado pela grelina, o hormônio da saciedade. Descobriu-se que os níveis de leptina são diretamente proporcionais ao peso do corpo. Em outras palavras, quanto maior o nosso peso, mais fome sentimos, o que é uma ironia cruel, uma vez que a gordura corporal é uma reserva da natureza para momentos de escassez alimentar. A leptina é também fundamental ao metabolismo da gordura, e isso também é cíclico. O metabolismo da gordura atinge o ponto alto entre 9 a 10 horas depois do jantar, à noite. Considera-se que petiscar alguma coisa antes de ir para a cama interfere nesse ciclo, pois gera dois tipos de problema: estamos ingerindo comida quando o corpo não a deseja e ainda inibindo a capacidade de metabolizar gordura.

A leptina está também ligada à síndrome de “regime não funciona”. O efeito rebote, que acontece depois que as pessoas saem de um regime drástico e recuperam os quilos que tinham perdido e alguns a mais, está relacionado ao aumento de leptina. O corpo interpreta esse regime drástico como escassez de alimento, já que as duas coisas significam uma queda drástica nas calorias. Quando a escassez termina, os níveis de leptina se elevam a fim de nos deixar com mais fome e, ao mesmo tempo, o nosso metabolismo é ajustado – também por hormônios – a fim de transformar mais alimentos em gordura. O truque de comer um pouquinho antes de uma refeição funciona porque faz o ciclo leptina-grelina passar de alimentação a metabolismo, quando a fome é naturalmente reprimida.

 

Atitude: Conectando alimento, humor e energia

A medicina confirma: o que comemos e como nos sentimos são aspectos conectados por uma sinfonia de hormônios. Mas quem pode julgar melhor a nossa situação somos nós mesmos. Agora que você já aprendeu a classificar o seu nível de fome real em uma escala de apetite, isso pode ser relacionado a efeitos em seu humor e a níveis de energia.

Nas duas semanas seguintes, faça um diário para acompanhar esses três fatores. Veja um exemplo de uma página desse diário:

Nível de Nível de apetite Humor Humor Nível de

Nível de energia

apetite antes depois de antes de depois de energia antes

depois de comer

de comer comer comer comer de comer

Café da

manhã

Almoço

Jantar

Para avaliar o seu humor, use uma escala de 1 a 10, em que 10 é um estado de bem-estar e alegria e 1 representa sentimentos de profunda tristeza e sofrimento emocional. Classifique também os seus níveis de energia em uma escala de 1 a 10, sendo 10 o mais alto nível de vibrante energia e 1 a sensação de estar acabado e sem conseguir levantar da cama de cansaço.

Por experiência própria, ao acompanhar o meu apetite, humor e nível de energia, comecei a perceber os padrões. Por exemplo, quando eu parava de comer nos níveis 4 a 6 (relacionados a uma refeição leve), eu quase sempre me sentia com energia e contente. Se eu me empanturrasse, no entanto, percebia que sempre me sentia preguiçoso e meio apático.

Por outro lado, se esperasse demais para comer, chegando ao nível 1 ou 2 de apetite, acabava devorando a refeição e me sentindo cansado ou irritado depois.

Lembremos que o diário é uma ferramenta que ajuda a aumentar a conscientização pessoal. Você deve simplesmente observar qualquer padrão sem fazer julgamentos nem críticas. À medida que sua conscientização aumenta, você naturalmente se orientará para fazer alterações na sua alimentação que o ajudem a se sentir mais feliz e com mais energia.

 

Alimentar-se por estresse

Obviamente o seu organismo precisa ter níveis normais de hormônio para seguir o fluxo do biorritmo. Se o biorritmo for desligado, é preciso encontrar um jeito de reajustá-lo. Em termos do desequilíbrio causado pelo ganho de peso, é vantajoso dividir as pessoas com sobrepeso em duas categorias. A primeira categoria tem problemas com insulina e açúcar no sangue. A principal maneira de reajustar os níveis de insulina do corpo é através dos alimentos que consumimos, concentrando-nos em alimentos naturais e evitando o açúcar refinado e outros carboidratos simples. Veja mais sobre isso na seção sobre a filosofia alimentar do Chopra Center.

O segundo tipo de pessoas com sobrepeso tem problemas relacionados ao estresse. O consumo em excesso de açúcar e o desequilíbrio do açúcar no sangue têm uma relação direta, mas o elo entre estresse e ganho de peso é mais indireto e envolve alguns hormônios que à primeira vista não têm muito a ver com fome e gordura corporal. Mesmo assim, estão enredados na sinfonia dos hormônios, pois essa química não age sozinha.

A linha divisória entre problemas de açúcar no sangue e problemas com estresse é imprecisa, mas independentemente da categoria em que a pessoa se encaixa, se ela acumula gorduras extras no corpo, essas células começam a secretar hormônios que afetam o açúcar do sangue e o apetite. Isso está acontecendo com você?

 

Teste: O estresse faz você comer?

Verifique os itens que se aplicam ao seu modo de comer e a sua situação em geral.

q Você é mulher? (As mulheres são mais propensas a comer por causa de estresse. Comem em busca

de consolo. Já os homens são mais propensos a procurar o álcool ou o cigarro.)

q Você é sedentário? (A curto prazo, o exercício físico nos faz comer mais, mas nos exercitar com

vigor e regularidade reajusta a reação ao estresse.)

q Você está solitário ou socialmente isolado? (Falta de vínculo social significa não ter uma válvula

de escape para o estresse do cotidiano.)

q Você belisca quando está se sentindo nervoso ou inquieto?

q Você lida com o estresse sozinho?

q Você tem dificuldade para pegar no sono por causa do estresse e tensão diários ou dorme pelo

menos de sete a oito horas? (O sono irregular desliga o ciclo diário do cortisol.)

q Para aliviar o tédio ou a pressão no trabalho, você faz lanchinhos entre as refeições?

q Quando se sente estressado, vai logo atrás de alimentos adocicados ou gordurosos?

Pontuação: ______

Autoavaliação

Se você marcou 1 ou 2 itens, é provável que não seja o tipo que come por causa de estresse. Você não desenvolveu um ciclo de feedback entre o estresse diário e a comida. Uma pontuação de 5 a 8 itens coloca você certamente na categoria dos que comem por causa de estresse. Você está usando a comida para lidar com a vida e estabeleceu um ciclo de feedback de modo que, quanto mais faz da comida um consolo, menos eficiente isso é, levando você a comer mais.

O que devo fazer?

A chave para quebrar o ciclo da alimentação impulsionada pelo estresse é lidar com o estresse de uma forma melhor. Não brigue com seu apetite; ensine a sua mente a lidar com a reação ao estresse de modo mais efetivo. Como foi visto no teste, é preciso lidar com o estresse escolhendo itens de um cardápio antiestresse:

Meditação

Ioga

Técnicas de relaxamento, como exercícios respiratórios Sono de boa qualidade

Exercícios feitos com vigor e regularidade

Vínculos sociais íntimos

O estresse é um suspeito tão grande de causar problemas de obesidade que ele merece uma atenção especial. Portanto, veja no final do capítulo a seção “Hora de agir”, que fala mais sobre esse problema que afeta a maioria das pessoas de um jeito muito sorrateiro, mesmo quando elas pensam que não têm uma vida estressada.

Comer por causa de estresse é um paradoxo. A curto prazo, a adrenalina, que dispara a reação de lutar ou fugir, fecha o trato digestivo e deprime o apetite. “Estou muito chateado, nem quero comer nada” é a primeira reação ao estresse. (Isso está quimicamente vinculado a uma glândula do cérebro, o hipotálamo, que secreta o hormônio corticotropina, que fundamentalmente diz ao organismo: “Esta é uma emergência. Não é hora de comer”.) Algumas pessoas comem de nervoso e permanecem magras, pois tendo grandes reações a estresses pequenos do dia a dia, os seus hormônios não deixam que sintam fome.

Porém, depois do estresse, graças ao hormônio cortisol, que atiça o apetite e propicia muita motivação, podemos nos sentir propensos a comer. Depois de uma disputa ou de ganhar um jogo de futebol, a pessoa está tão carregada que comer se torna uma necessidade urgente e imediata. O nível de cortisol naturalmente despenca depois que o estresse passa, mas, se ele é constante, mesmo que num nível baixo, comer pode se tornar uma compulsão. (Lembro-me da comovente história de um homem cuja esposa tinha acabado de falecer e, em seu luto, ele se flagrou dirigindo a noite toda pela rodovia Pacific Coast e parando em todos os restaurantes de beira de estrada para comer um bife.)

Embora a pesquisa não seja muito clara sobre esse tópico, o estresse aparentemente faz as pessoas ansiarem por alimentos açucarados e gordurosos. Acredita-se que seja mais um ciclo de feedback controlado por hormônio, pois o açúcar e a gordura reprimem a parte do cérebro que reage ao estresse. Existe uma razão fisiológica para que uma boa fatia de bolo de chocolate seja um consolo. O segredo não é comer cada vez mais bolo de chocolate para permanecer consolado – isso é desastroso para o organismo –, mas lidar com o estresse que desequilibrou os nossos hormônios.

Há 35 anos, quando eu era estudante e me interessei pela primeira vez pelo que então tinha o nome de “moléculas da emoção”, abriu-se uma imensa perspectiva. Os hormônios são a chave para o autoajuste, e é impossível ignorar a conexão entre o corpo e a mente quando consideramos como eles estão dramaticamente envolvidos em nosso modo de pensar, sentir, nos comportar – e na maneira de comer. Anteriormente, tratamos dos quatro hormônios diretamente relacionados à alimentação (leptina, grelina, insulina e adiponectina). Embora não ocupem o centro do palco, outros quatro hormônios entram em cena nos problemas de peso:

Adrenalina

Cortisol

Endorfinas

Hormônios da tireoide

Os dois hormônios do estresse – adrenalina e cortisol – nunca foram relacionados ao peso até descobrirem que eles aumentam os acúmulos de gordura abdominal. As endorfinas, narcóticos naturais fabricados no cérebro, funcionam como analgésicos. Elas aumentam com atividade física, paixão, orgasmo e com alimentos picantes. Não existe uma mensagem única nisso, até percebermos que as endorfinas são um ingrediente do “coquetel de satisfação” do organismo. Sendo assim, sua elevação e queda estão enredados com tudo o que diz respeito à satisfação e ao que fazer para encontrar mais satisfação.

Não pretendo que ninguém memorize as funções dos hormônios – muito pelo contrário. Os nossos hormônios são orquestrados e andam entrelaçados. Eles traduzem os nossos sentimentos em termos de mensagens químicas que podem ser compreendidas pelas células. É surpreendente que isso ocorra, e ninguém sabe ao certo como realmente isso funciona. Por que uma substância química, a adrenalina, deveria nos fazer sentir medo ou o desejo de sair correndo? A ciência não explica, mas o ponto crucial é que os hormônios permitem que conservemos um estado de equilíbrio interno e de tranquilidade ao mesmo tempo que também nos oferecem a possibilidade de reagir rapidamente diante de qualquer alteração na vida.

Em termos de peso, isso significa que devemos considerar além de um simples “hormônio da fome” ou “hormônio da gordura” para entender o panorama como um todo. A descrição didática de hormônio é muito estreita, sendo completamente desconectada da situação humana. Em qualquer conversa sobre metabolismo e obesidade, a tireoide sempre aparece. Para um endocrinologista, a relação entre a atividade da tireoide, as emoções e o metabolismo não é precisa. Mas um nível baixo de tireoide relacionado à depressão ou estresse vai influenciar o metabolismo. Trata-se de um exemplo simples de como enxergar o todo, considerando por que alguém num estado emocional negativo vai enviar sinais hormonais ao organismo que têm um efeito amplo. (No capítulo sobre bem-estar emocional, mais três hormônios entram na sinfonia química.)

 

Sono, o senhor do biorritmo

Os hormônios nos indicam como a mente e o corpo estão inteiramente interconectados. Ao alterar um biorritmo importante, os efeitos serão percebidos em todos os lugares. Principalmente no sono, que é o senhor do biorritmo, ajustando o dia em tudo. Como se sabe, a razão para que a gente durma é ainda um mistério. Quase todas as descobertas feitas nas pesquisas sobre o sono decorreram da falta de sono. Se alguém é forçado a ficar acordado, os primeiros sintomas logo aparecem: lentidão, coordenação reduzida, confusão mental e cansaço físico. Se alguém é forçado a ficar acordado além de 24 horas, o que é difícil de induzir mesmo em condições de laboratório, os sintomas se agravam, levando a alucinações e o organismo a processos físicos caóticos.

Como as pesquisas sobre o sono são conduzidas a partir de um problema de privação de sono, ficamos como nos estudos sobre vitaminas, que são feitos por causa da deficiência delas. A falta de vitamina C leva ao escorbuto, entre outras doenças, mas isso não nos diz como otimizar a vitamina C, o outro lado da história, e com certeza o mais importante em termos da vida cotidiana.

Em relação ao sono, a triste verdade é que temos que começar com a privação, já que grande parte das pessoas adultas relata problemas para ter uma boa noite de sono, e outro tanto diz que deveria dormir melhor. O que acaba com um bom sono? Para começar:

Levar trabalho para casa

Ansiedade

Comer muito tarde da noite

Barulho ou luz demais no quarto

Mudança de fuso horário

Doença

Dores leves

Alguns medicamentos

Interromper o sono para urinar

Hábitos irregulares

Histórico de insônia

Estresse acumulado

Todos esses fatores podem ser facilmente relacionados ao excesso de comida. Mas a falta de sono, apenas ela, rompe o equilíbrio hormonal, e uma das consequências disso é que ficamos com fome e também não controlamos o que comemos (pois a capacidade de tomar decisão fica prejudicada). A leptina, a grelina e o cortisol saem do ritmo normal. Existem efeitos colaterais também. A falta de sono nos deixa irritados ou deprimidos, e isso, por sua vez, nos leva a comer a fim de nos sentirmos melhor.

Pode ser cientificamente comprovado que algumas pessoas são vespertinas, não sentindo sono antes da meia-noite e precisando dormir até mais tarde de manhã, enquanto outras são matutinas, preferindo deitar e acordar cedo. Quem já viveu com alguém que está na categoria oposta sabe por experiência como é difícil mudar essa programação. Não foi feita nenhuma pesquisa para verificar se é possível mudar esse biorritmo.

Dois aspectos, porém, são indiscutíveis. O sono é cíclico. O sono é químico. Como é cíclico, devemos fazer o possível para respeitar a harmonia do organismo com o ritmo das estações e as mudanças desde a manhã até a noite. Como o sono é químico, devemos saber que o cérebro deve secretar certas substâncias para nos fazer adormecer e depois acordar. Não devemos interferir nessa química usando álcool, fumo ou drogas. Mas até sair do horário de sono com muitas variações de rotina é como se voluntariar para mudar de fuso ou para o turno da noite – duas coisas de que o sono não gosta.

As orientações que favorecem uma boa noite de sono são bem conhecidas e as pessoas deveriam praticá-las antes de considerar que têm algum tipo de transtorno de sono.

 

O que leva a um bom sono?

1. Observar horários de rotina para ir dormir.

2. Deixar o quarto o mais escuro possível. Mesmo baixos níveis de iluminação ativam a glândula

pineal, uma pequena área do cérebro que regula os ritmos diários de acordo com a luz ou a escuridão.

3. Deixar o quarto o mais tranquilo possível. Durante o sono, temos fases em que ficamos quase

acordados, e até barulhos leves (o tique-taque de um relógio ou uma torneira pingando) podem nos despertar antes da hora.

4. Regular a temperatura (do aquecedor, do ar-condicionado) de modo a ter um quarto fresco, pois

o corpo se aquece na cama, e calor demais pode nos acordar.

5. Eliminar qualquer dorzinha leve. Elas ficam mais perceptíveis quando nos deitamos. Meio

comprimido de um analgésico antes de dormir pode ser tudo de que precisamos.

6. Uma hora antes de ir para a cama devemos parar as atividades intelectuais. 7. Não devemos ir para a cama zangados ou chateados. 8. Permanecer tranquilos e evitar ficar virando na cama. Devemos nos deitar e esperar que o sono

venha naturalmente.

9. Programar o horário de dormir de modo a ter oito horas tranquilas de sono ininterrupto.

10. Quem tem tendência a se levantar para urinar, não deve tomar nenhum líquido duas horas antes

de ir para a cama.

11. Acordar sem despertador, de maneira que o ciclo natural do sono se ajuste.

Se já tentamos todas essas medidas – não apenas uma vez, mas por pelo menos duas semanas – e ainda temos problemas para dormir, inúmeros outros conselhos podem ajudar. Contudo, as pesquisas parecem um pouco contraditórias. Considerava-se antes que se alguém não tinha uma boa noite de sono durante a semana de trabalho, não poderia compensar no fim de semana. Considerava-se também que os estágios de sono profundo e sono REM (REM vem da expressão em inglês “rapid eyes movements”, ou “movimentos rápidos dos olhos”, observados quando estamos sonhando) só eram atingidos a partir de sete a oito horas de sono ininterrupto.

Agora, parece que se descobriu que é possível atingir o sono profundo e o REM muito mais rapidamente, por isso os pesquisadores passaram a defender cochilos e mais horas de sono para recuperar um déficit. Mas, na minha opinião, a pesquisa sobre o sono não pode ser separada da vida como um todo. Nada atrapalha mais o sono do que tristeza, estresse, sentimento de perda, fracasso, ansiedade, depressão e preocupações cotidianas. Em casos graves de insônia é preciso verificar outras áreas da vida. É isso o que temos feito com a alimentação e a conscientização; sono e consciência convocam a mesma perspectiva. E grande parte das mesmas respostas também se aplicam:

Dormimos bem se estamos felizes.

Quanto mais contentes estivermos, melhor será o sono. Muita inércia e estagnação atrapalham o sono; atividade e envolvimento ajudam o sono. Apatia e cansaço levam a um sono ruim, e, por sua vez, o sono ruim gera apatia e cansaço. Toxinas e dependência de medicamentos como pílulas para dormir atrapalham o biorritmo e

muitas vezes causam problemas de sono.

Não estou dizendo que quando enfrentamos uma fase de insônia é preciso verificar a vida toda. É preciso ter familiaridade com o estresse – assunto abordado na próxima seção “Hora de agir” – e ter consciência do que está derrubando o organismo. Tomar iniciativas é muito melhor do que sentir-se vítima, debatendo-se aleatoriamente em busca de soluções rápidas.

Um pequeno levantamento feito por mim e amigos inclui inofensivas formas de ajudar no sono – e quase todo mundo conhece pelo menos uma delas:

Ao se deitar, repasse o seu dia durante cinco minutos. Relembre cada acontecimento significativo. Sinta-se bem em relação ao dia vivido, sabendo que poderá lidar no dia seguinte com o que não foi feito ou não foi terminado. Este exercício alivia um estado de preocupação leve, substituindo-o por uma sensação de satisfação – nada é mais precioso. Deitado de costas, fique de olhos abertos. Se eles começarem a fechar, tente mantê-los abertos. Esse truque ajuda porque é o oposto de “tentar cair no sono”, que é impossível. Fique deitado de costas, sem se mexer. Durante o sono profundo, os músculos ficam paralisados; assim, imitando essa imobilidade, o seu cérebro será provocado a entrar em estado de sono. Visualize o número 100. Se a imagem sumir ou a sua mente divagar, volte a imaginar o número. Como as pessoas costumam ficar acordadas por causa dos pensamentos, o truque é esse. Ver uma imagem não é algo cognitivo – não há palavras nem pensamentos. Portanto, ao se concentrar no número 100, você vai parar de pensar demais.

HORA DE AGIR:

Como lidar com o estresse

sem comer

 

Se desejamos romper com o hábito de comer quando nos sentimos estressados, é preciso lidar

com o estresse de um jeito melhor. Aprender um pouco mais sobre as perturbações mentais em si ajuda, em especial o chamado “estresse normal do dia a dia”. Ele é considerado normal por duas razões. Nenhum acontecimento traumático provocou esse estresse, e o tipo de pressão que todos nós sofremos é em geral de um nível baixo. Ele tende a passar voando pelo radar. Mas, se uma pessoa se flagra comendo sem conseguir identificar por que teve aquele desejo de comer de repente, é provável que esteja tentando lidar com o estresse.

A comida, mesmo sendo um consolo, não deve ser o primeiro jeito de lidar com o estresse e com

certeza não deve ser a primeira coisa a ser procurada. Três fatores pioram o estresse da vida diária (veja na página 192).

 

Formas ineficazes de aguentar o estresse

Quando você se sente estressado, em quantos dos seguintes comportamentos você cai?

q Procuro comida quando me sinto estressado. q Reajo emocionalmente e às vezes explodo. q Sinto-me apavorado e sufocado. Preciso bloquear o estresse ou me afastar. q Ignoro o estresse e procuro me distrair, assistindo a um programa na TV, navegando na internet

ou jogando um video game.

q Reclamo da pressão, principalmente com pessoas que não são a causa dela. q Passo o estresse adiante, descarregando-o em alguém. q Afasto-me ao máximo das pessoas que me causam mais estresse. q Aguento o estresse até ter como me desligar (por exemplo, indo à academia ou tomando um

drinque).

q Gero ainda mais pressão sobre mim mesmo e sobre os outros, pois acho que isso me fortalece

e me torna mais competitivo.

Esses comportamentos não levam a cabo o que pretendiam: diminuir os efeitos prejudiciais do

estresse. Esse sentimento possui um ciclo de feedback. Começa com um fator estressante (por exemplo, um prazo apertado, um chefe detestável, uma meta de venda inatingível); o resultado é a nossa reação. Podemos interferir em qualquer momento desse ciclo. Quanto mais consciente for a intervenção, maiores as chances de reduzir os efeitos prejudiciais do estresse.

Como já vimos o que não funciona, o que será que funciona?

Ter consciência do que está acontecendo a nossa volta. Monitorar nossos sentimentos íntimos.

Não sufocar as emoções.

Encontrar meios de controlar a própria vida.

Insistir em diminuir o estresse onde puder.

Conhecer mais sobre a mecânica do estresse.

Graças ao autoajuste, o nosso organismo volta ao equilíbrio depois do estresse. Podemos levar

um susto porque ouvimos o barulho de carros trombando nas proximidades, mas um tempinho depois não haverá nenhum indício de que nosso coração bateu mais rápido e de que a pressão sanguínea se elevou. No entanto, três fatores podem aumentar com o tempo, impedindo o reequilíbrio e nos levando gradualmente a um desequilíbrio crônico:

1. Repetição

2. Imprevisibilidade

3. Falta de controle

Consideremos esses como os Três Principais Fatores quando se trata de estresse crônico, pois

eles literalmente podem significar vida ou morte. Em um clássico experimento sobre comportamento animal, os camundongos ficavam numa grade de metal que dava um choque leve – que não os machucava, mas era suficiente para sacudi-los. Os choques eram administrados aleatoriamente, e os camundongos não podiam fugir. Portanto, os três piores fatores estavam ali – repetição, imprevisibilidade e falta de controle.

Embora os choques, se considerados isoladamente, fossem inofensivos, os camundongos logo

definharam e morreram. A capacidade de o organismo deles voltar à homeostase tinha se exaurido. Incapazes de se adaptar, definharam. A conclusão é óbvia: um estresse de baixo nível parece inofensivo, mas em condições ruins ele leva ao colapso da capacidade de adaptação.

Se quisermos lidar com o estresse conscientemente, devemos dividi-lo entre esses três

componentes e reduzi-los ao mínimo no nosso ciclo de feedback.

Repetição: Fazer sempre a mesma coisa torna a mente confusa; isso em si já é estressante, pois

uma paralisação está ocorrendo. Quando exposto a qualquer estresse repetitivo (por exemplo, a pessoa que trabalha em determinados tipos de venda, lidar com o mesmo empregado incompetente, aguentar a grosseria do chefe), o cérebro procura um jeito de lidar com ele, recorrendo a um padrão familiar. Dependendo do temperamento da pessoa, ela vai reagir com raiva, frustração, ressentimento reprimido, tédio ou com um bloqueio mental – a tática do muro de pedra. Esses mecanismos param de funcionar com o tempo, e então basta um estresse leve para gerar reações negativas.

Ao identificar o estresse repetitivo, ficamos diante de outras escolhas. Se achamos essa repetição

intolerável (por exemplo, o mesmo barulho alto toda hora), podemos nos afastar. Se a repetição apenas nos aborrece um pouquinho, basta acrescentar algum tempero e variedade à rotina (por exemplo, em vez de ouvir as mesmas pessoas chatas no trabalho, podemos conversar com alguém diferente). A maior parte das pessoas fica num meio termo em relação a isso. Não podemos nos

afastar nem alterar a situação sem provocar alguma consequência. Nesse caso, temos que trabalhar nós mesmos. É bom identificar as chateações, as coisas repetitivas que nos irritam e mudar a rotina a fim de eliminá-las ou pelo menos suavizá-las. Ao observarmos quais são as causas desse estresse repetitivo, devemos nos conscientizar do modo como estamos lidando com ele. E, então, nos perguntar se existe um meio melhor de fazer isso, e adotá-lo.

Imprevisibilidade: Esse tipo de estresse talvez seja pior do que o estresse repetitivo, pois, se não

conseguimos prever quando algo prejudicial vai acontecer, ficamos sempre vigilantes e apreensivos mesmo quando nada está acontecendo. Crianças que sofreram maus-tratos em casa tornam-se supervigilantes ao crescer. Quando as coisas estão bem, não conseguem aceitar um estado de tranquilidade normal, pois estão condicionadas a enxergar nisso apenas a calmaria antes da tempestade.

Quando uma pessoa se pega olhando por cima do ombro, antecipando alguma coisa ruim, ou se

fica obcecada com pensamentos ruins, o inimigo dela é a imprevisibilidade. Se o estresse está vindo de alguém emocionalmente imprevisível, é preciso se afastar. As chances de alterar essas mudanças de humor, explosões de raiva ou inconstâncias são muito pequenas ou mesmo nenhuma. Se a imprevisibilidade vem de forças externas, é preciso fazer o que pudermos para que se tornem mais previsíveis ou organizar estratégias para lidar com isso (pais de recém-nascidos fazem isso quando se alternam à noite para lidar com o choro do bebê). A pior coisa a fazer é dar acesso a sentimentos de ansiedade e apreensão. Devemos nos reforçar com cenários que combinem razoavelmente com a sequência de eventos, sem deixar que a imaginação vá muito longe. Assim, reduziremos a imprevisibilidade da situação. É assim que os bombeiros e os policiais são treinados a lidar com muitos tipos de situação, de modo que não tenham que improvisar na hora.

Falta de controle : Eu diria que este é o pior fator para causar estresse. É importante ter controle

sobre a nossa vida. Essa é talvez a principal razão para que as pessoas comecem um negócio próprio ou, como ocorre cada vez mais, prefiram viver sozinhas. Os tipos que têm personalidade controladora vão ainda mais longe, tentando administrar todos os detalhes da vida, isso sem mencionar as pessoas a sua volta. No entanto, a falta de controle gera frustração e sensação de desamparo em qualquer pessoa. Não adianta nada simplesmente não fazer nada, pois a frustração acumulada apresenta uma série própria de problemas.

O melhor jeito é assegurar o controle onde ele for importante. Não podemos mandar o chefe

passear e também não podemos dar as costas à carga de trabalho. Portanto, o controle deve ser reivindicado quando possível, por exemplo:

Exigindo respeito.

Reivindicando um ambiente de trabalho digno.

Dando espaço para as outras pessoas e exigindo o mesmo. Trabalhando em coisas que podemos fazer bem.

Assumindo uma carga de trabalho que não nos sobrecarregue. Reivindicando recompensas monetárias compatíveis com o que foi conquistado. Insistindo num mínimo de burocracia.

Não se prendendo ao perfeccionismo.

Se for preciso, recebendo críticas em particular.

Insistindo em nunca receber ataques pessoais.

Fazendo alianças confiáveis, sem o risco de traição. Exigindo a valorização pelo conhecimento e pela experiência.

Essa lista se concentra no local de trabalho, embora esses mesmos princípios se apliquem a nossa

casa e aos amigos. Ao verificar cada item, devemos considerar se deixamos as situações chegarem ao ponto de nos estressarem. Se sim, vamos tomar medidas para corrigir isso. Nós merecemos escrever a nossa própria história, e ter controle sobre ela é sempre um fator importante.

Devemos falar um pouco mais sobre o estresse no trabalho. O trabalho e a vida moderna em geral

estão delineados para debilitar o sentido de controle do próprio indivíduo. Tendo todas as forças amontoadas contra nós – desde as exigências de lucro nas corporações aos cortes de funcionários e de previdência social – a necessidade de termos controle é ainda maior. Não se trata de apenas um controle para mostrar quem manda. Trata-se de controle como meio de reduzir as pressões do cotidiano. Quando conseguimos aperfeiçoar isso, abrimos a porta para uma abordagem muito mais consciente da vida. Por outro lado, se lidamos com as pressões inconscientemente, a percepção fica reduzida e as possibilidades futuras se estreitam com o tempo.

Até agora, abordamos o estresse que nos afeta, mas existem momentos em que contribuímos com o

estresse dos outros. É importante dar alguma atenção a isso e aliviar o estresse que talvez estejamos causando. Uma pessoa consciente se responsabiliza por isso também. Lembremos que o estresse faz parte de um ciclo de feedback, e, quanto mais fazemos para melhorar o que oferecemos a ele, mais benefícios receberemos.

Geramos estresse desnecessário na vida dos outros se nos entregamos aos seguintes

comportamentos:

Sendo exigentes, críticos e perfeccionistas – a melhor receita para o estresse. Dando ordens desordenadas e tendendo a mudanças imprevisíveis. Desrespeitando colegas e/ou o trabalho deles.

Criando um ambiente de trabalho indigno (por exemplo, um lugar onde xingamentos, fofocas e insinuações sexuais sejam comuns).

Não dando espaço para as outras pessoas se expressarem. Passando a sobrecarga para outros apenas porque temos poder para fazer isso. Sobrecarregando os outros com questões pessoais com as quais deveríamos lidar sozinhos. Criticando subordinados em público.

Fazendo ataques pessoais.

Não sendo confiável.

Sendo dado a eventuais traições.

Desvalorizando a experiência e o conhecimento de colegas de trabalho.

Esses comportamentos não são apenas ruins. Eles disparam uma reação estressante nas outras

pessoas, algo facilmente identificável, pois a situação nos afetaria da mesma maneira. É um mito dizer que atitudes rudes, táticas de confronto e pressão constante fazem bem à produtividade. Os melhores ambientes de trabalho propiciam espaço para as pessoas, encorajam a criatividade, permitem que os funcionários definam os próprios horários de trabalho, designam tarefas de acordo com o potencial de cada um e criam um clima de respeito.

Os sinais de estresse podem ser sutis, mas quando atentamos para eles, são inconfundíveis.

Digamos que uma pessoa esteja estressando alguém – vamos nos concentrar de novo no trabalho, sabendo que esses mesmos indícios podem acontecer em casa. As pessoas não ficam contentes perto dela, evitam encará-la nos olhos, faltam ao trabalho ou negligenciam horas de trabalho. Ficam

nervosas na presença dela. O clima fica quieto e tenso quando ela entra numa sala ou quando dá ordens. Acontece uma resistência silenciosa quando ela pede alguma coisa – tem que pedir uma segunda vez e até acontecem atrasos. As pessoas dão desculpas ou então já perderam a motivação. (Vamos substituir essa pessoa por nossos filhos ou marido/esposa, e veremos que tudo isso se aplica em casa também.) Se não nos identificamos com esse exemplo de pessoa responsável ou chefiando, pode ser que estejamos agindo assim por causa de alguém em nossa vida.

Todos esses sintomas são óbvios. Não importa se a pessoa é presidente de uma multinacional ou o

pai sentado à cabeceira da mesa de jantar. O estresse é uma ameaça em qualquer situação, e é por isso que precisamos nos voltar para o oposto do estresse no capítulo seguinte – a desejável meta de um bem-estar emocional.