Você tem Fome de Quê?
Apresentação
CONSCIÊNCIA
E PERDA DE PESO
POR QUE VAI FUNCIONAR COM VOCÊ
Atualmente há uma onda mudando a vida das pessoas. Ela pode ser percebida nas manchetes dos noticiários: um ex-presidente dos Estados Unidos, impressionado por ter tido um ataque cardíaco muito jovem, anuncia que se tornou vegano. É uma declaração surpreendente e, para justificar sua escolha, Bill Clinton conta a todos como se sente bem – e de fato aparenta estar. Já na Espanha, um amplo estudo descobre que a dieta mediterrânea, rica em peixes, frutas secas e azeite de oliva, consegue reduzir em um terço a incidência de ataques cardíacos. Em termos de dieta, essa foi a maior descoberta em anos. Quem já pensava em abandonar a carne vermelha se sentiu justificado pela medicina.
Essa onda está provocando muitas mudanças. As toxinas presentes nos alimentos processados e industrializados são cada vez menos aceitáveis. A palavra “orgânico” se popularizou. Nunca tanta gente se tornou vegetariana, um estilo de vida cujos benefícios são conhecidos há muito tempo. (Em uma pesquisa britânica, metade das mulheres se descreveu como praticamente vegetariana.) Num mundo sustentável, não há lugar para os efeitos poluidores dos pesticidas e herbicidas. As pessoas estão despertando para uma nova realidade, e uma forma completamente nova de se alimentar está se estabelecendo rapidamente.
Há cerca de cinco anos, fui envolvido por essa onda. Na época eu já comia “bem”. Minha dieta não incluía muita carne vermelha, e havia tempos eu limitava o consumo de toxinas óbvias como o álcool e o tabaco. Gostava do que comia e comia o que gostava. Porém, dando uma olhada na literatura médica, todo dia surgia uma nova descoberta: muitas relações entre o açúcar e a obesidade, entre o álcool e as perturbações no ritmo de sono, entre os carboidratos simples e o diabetes – e muitas dessas descobertas se relacionavam ao excesso de peso.
As evidências apontavam para uma única direção. Tudo indicava que eu precisava encontrar uma dieta ideal. Apenas os hábitos e a negligência me impediam de maximizar a relação entre alimento, corpo e mente.
Sem contar os meus 9 quilos a mais.
Apesar da “boa” alimentação, eu tinha entrado para as estatísticas, juntando-me aos dois terços de norte-americanos que estão acima do peso ou obesos. Entrei para as estatísticas apesar de ser formado em medicina, da minha motivação, dos meus hábitos razoavelmente bons e de ter acesso a qualquer alimento que desejasse. Também sabia que fazer regime era inútil – basta ver os numerosos estudos comprovando o efeito rebote, aquele que nos faz recuperar o peso perdido durante o regime e ainda ganhar cerca de 2 a 5 quilos a mais. Esses quilinhos extras são um jeito de o nosso corpo dizer: “Você tentou me privar. Não faça mais isso”.
Para mim, a solução foi adotar uma dieta ideal, e fiz isso mais ou menos de um dia para o outro. Não havia razão para não mudar meu comportamento diante das evidências médicas que eu conhecia:
Eliminei todos os alimentos industrializados.
Passei a me alimentar com ingredientes mais puros, sempre naturais, e o mais orgânico possível. Já não consumia bebidas alcoólicas, e também eliminei alimentos fermentados, como o queijo. Abandonei o açúcar branco refinado.
Cortei o sal drasticamente.
Abandonei a carne vermelha, consumindo sobretudo frango e peixe, mas já iniciando a transição para uma dieta vegetariana.
Para beber, só água mineral.
Comecei a me preocupar em ter um bom sono.
Como tudo está relacionado, ter uma boa noite de sono fazia parte da minha nova forma de me alimentar. A falta de sono atrapalha o equilíbrio entre dois hormônios (leptina e grelina), responsáveis por nos fazer sentir fome ou satisfação. As pessoas que não dormem direito comem demais facilmente quando o corpo para de enviar a mensagem hormonal correta. A gordura no abdômen também atrapalha esses hormônios. Acabamos num ciclo contínuo que não só não é saudável como é potencialmente perigoso.
Não fiquei preocupado por estar me transformando num fanático por comidas naturais. A minha motivação não era a preocupação nem o medo. A verdade é que a alimentação “normal”, à moda americana, chegou a extremos doentios. Em média, o norte-americano consume cerca de 70 quilos de açúcar por ano, uma quantia absurda de calorias sem sentido, que causam estrago nos níveis de insulina e de açúcar no sangue. Quanto ao nosso vício por alimentos industrializados, responsável por 70 por cento do que os norte-americanos comem, basta dar uma olhada num supermercado qualquer. Há corredores inteiros dedicados aos biscoitos, bolachas e outros lanchinhos, refrigerantes, pizza congelada e sorvete. Quem manda é a economia, e se esses alimentos não vendessem em abundância eles não teriam tanto espaço nas prateleiras.
O que não é extremo é a alimentação natural, com base no melhor conhecimento médico disponível. É disso que se trata a nova onda que a humanidade está vivendo. Devemos prestar atenção, e há muito tempo a nossa sociedade não tem prestado atenção a esse modo deformado de comer.
Eu desejava ter uma “consciência alimentar”. Todos os passos que dei fizeram com que eu me sentisse muito bem. O meu corpo ficou mais leve, mesmo antes de perder 8 quilos, que se foram sem esforço. Parei de fazer certas coisas por impulso, como atender o celular durante uma refeição – por que não nos regalar completamente com o que comemos? Tampouco me privei. Todas as refeições me satisfaziam, pois a alimentação estava em sintonia com o meu corpo, e isso, por sua vez, melhorou o meu humor. Embora eu sempre tenha tido muita energia, passei a ter mais energia e vivacidade do que nunca.
O mais gratificante, porém, foi a reação das outras pessoas. Quando eu falava sobre consciência alimentar, elas concordavam. A maioria já tinha feito o mesmo percurso que eu estava fazendo. A onda era mesmo verdadeira e estava crescendo. Olhando de longe, via que ela tinha alcançado um ponto alto. A consciência coletiva havia recebido o recado.
Tenho certeza de que muito mais gente deseja fazer esse novo percurso, e tinha isso em mente quando decidi escrever este livro. Essas pessoas não precisavam ser persuadidas a adotar novas convicções, pois uma alimentação mais saudável já é uma meta pessoal. No entanto, algumas coisas são impeditivas:
Maus hábitos e condicionamentos antigos.
Medo de mudar e pressão familiar contra a mudança. Uma crença teimosa na eficácia da próxima dieta.
Desencorajamento diante do próprio excesso de peso. Um histórico de não conseguir perder peso.
Desejo insaciável por alimentos salgados, doces e gordurosos. Falta de tempo, o que torna mais fácil buscar alimentos industrializados, redes de fast-food e lanchinhos no meio da tarde.
É uma lista tremenda de obstáculos imensos na vida de milhões de pessoas. Na verdade, é surpreendente que um novo modo de se alimentar tenha sido tão difundido. Basta ver como as propagandas de TV exploram as palavras “natural”, “light” e “nutritivo” a fim de vender nada além de alimento industrializado, ao passo que quase não existem propagandas de frutas frescas, vegetais, grãos integrais e produtos orgânicos.
A fim de superar os obstáculos que levaram você a ganhar peso, sejam poucos ou um monte, não vou repetir os mesmos conselhos sobre alimentação saudável que existem há décadas. Os conselhos são muito bons, mas o que não se diz é como de fato mudar. A chave está na consciência, pois fomos todos treinados e intensamente condicionados a prejudicar o nosso corpo da seguinte maneira:
Comendo sem consciência, sem nos preocuparmos com as substâncias presentes no alimento. Perdendo o controle sobre o apetite.
Optando por porções cada vez maiores.
Fazendo uso emocional do alimento, por exemplo, comendo para aliviar o estresse do cotidiano. Indo atrás da forma mais rápida de satisfazer um desejo alimentar.
Todos esses obstáculos têm início em um só lugar: na mente. O corpo é um reflexo físico das escolhas que fazemos ao longo da vida. Conhecimento é importante, mas apenas acrescentar outros bons conselhos não é a solução para uma alimentação saudável. A solução é transformar a nossa consciência.
Decidi mostrar às pessoas como a consciência pode ser transformadora, como elas podem conquistá-la e por quê. Do contrário, o melhor conselho, mesmo que leve à melhora da alimentação, ainda vai nos restringir às noções limitadas sobre o nosso corpo. Tornar-se um “bom” consumidor rígido, que segue uma série de regras e nunca se desvia delas, tampouco é uma solução satisfatória. Mas, transformando a consciência, todos esses comportamentos arraigados e autodestrutivos podem ser facilmente modificados. Não é possível controlar o que não temos consciência. Se alguém sente uma pedra no sapato, pode logo tirá-la. Os sinais de dor nos dizem instantaneamente que há algo errado. Comer mal não funciona assim. A maioria das vezes nosso corpo não manda avisos, e os efeitos danosos muitas vezes ocorrem de modo imperceptível, gradualmente, longe da vista. É preciso adquirir um novo nível de consciência a fim de notar o que há de errado dentro da gente. Só então se pode mudar isso.
Portanto, se você está acima do peso ou se sentindo apático, ou se seu nível de energia está baixo e você se sente infeliz com a aparência do seu corpo, lembrando-se de como parecia e se sentia muito melhor quando era mais jovem, este livro é para você. Nele há muitas surpresas e descobertas – a principal delas é que o peso ideal é o nosso estado mais natural. O seu corpo pode ser um aliado na busca por um modo de vida melhor, que vai além de apenas perder peso. A consciência revela soluções inesperadas, o que eu chamo de sabedoria aplicada.
Vamos a ela! A jornada é estimulante, e você pode se juntar a essa onda com entusiasmo verdadeiro, sabendo dos benefícios que ela trará à sua aparência e saúde.
Alimentação, peso e fome
Quando alguém deseja ficar com o peso ideal, esbarra em duas escolhas. Pode fazer um regime ou alguma outra coisa. Este livro é sobre essa “outra coisa”. Regimes implicam num tipo inadequado de motivação, e é por isso que raramente levam ao resultado desejado. A gente toma o caminho do sacrifício e da privação. Todos os dias de um regime são de luta contra a fome e de conflito com o autocontrole. Existe um jeito pior de viver?
Para dar certo, é preciso que a perda de peso seja satisfatória – é essa a “outra coisa” que funciona quando o regime falha. Se a pessoa reequilibra os sinais de fome do corpo, o impulso para comer torna-se um aliado, e não um inimigo. Se é possível confiar que o corpo sabe do que precisa, ele vai tomar conta da pessoa em vez de lutar contra ela. Trata-se de acertar as mensagens que conectam a mente e o corpo.
Na medicina, fui treinado a analisar a fome em termos de aumento ou queda de certos hormônios. A fome é uma das mais poderosas mensagens químicas enviadas pelo corpo ao cérebro. Uma pessoa que acabou de fazer uma refeição não deveria sentir fome, nem o lanchinho da tarde deveria levar a um segundo ou terceiro lanchinho. Mas eu já vivenciei essas coisas – assim como milhares de pessoas –, ou seja, a experiência da fome pode acontecer mesmo quando não existe necessidade de comer.
É essa experiência da fome que é preciso mudar quando alguém está comendo demais. Ansiedade e uma fome falsa não são o mesmo que dar ao corpo o combustível de que ele necessita. O nosso corpo não é um carro que bebe gasolina. É a expressão física de milhares de mensagens que chegam ao cérebro e saem dele. O ato de comer envolve a imagem que temos de nós mesmos, os nossos hábitos, condicionamentos e memória. A mente é a chave para a perda de peso, e quando ela está satisfeita, o corpo para de ansiar por mais comida.
A abordagem mente e corpo vai funcionar porque ela exige apenas uma coisa: encontrar a própria satisfação. E isso é algo que a comida, por si só, não pode dar. Devemos nutrir:
O corpo com alimentos saudáveis.
O coração com alegria, compaixão e amor.
A mente com conhecimento.
O espírito com serenidade e consciência pessoal.
Com consciência, todas essas coisas se tornam possíveis. Porém, se nós as negligenciamos, elas se afastam cada vez mais de nosso alcance.
Parece paradoxal, mas para perder peso é necessário se preencher. Se nos preenchermos com outros tipos de satisfação, a comida não mais será um problema. Jamais deveria ter sido. Comer é uma maneira natural de se sentir feliz. Comer em excesso, não. Durante séculos, a vida foi celebrada com banquetes, e algumas dessas celebrações, como casamentos e jantares de formatura, podem ser um ponto culminante na vida de uma pessoa. Que criança não se ilumina diante do bolo de aniversário? Mas o deleite proporcionado pelo excesso de comida é um problema único e peculiar. Sentir-se feliz, em princípio algo bom, transforma-se em algo maléfico.
Nesse momento, a pessoa se vê relacionando comida com felicidade:
Alimentação normal → alimentação em excesso → ansiedade → vício alimentar
Alimentar-se normalmente é bom.
Alimentar-se em excesso parece bom durante o momento, mas leva a resultados ruins a longo prazo.
Ceder à ansiedade não é bom de jeito nenhum – de imediato surgem o remorso, a culpa e a frustração.
Ficar viciado em comida leva ao sofrimento, ao declínio da saúde e à total falta de autoestima.
A descida escorregadia até o sobrepeso começa com algo que na verdade é positivo: o benefício natural do alimento. (Não se pode dizer o mesmo sobre as drogas e o álcool, que são substâncias tóxicas mesmo quando não há vício.) O alimento nos nutre, e quando se alimentar dá errado ficamos divididos entre o prazer a curto prazo (como uma deliciosa lambida num sorvete de chocolate) e o sofrimento a longo prazo (os muitos inconvenientes de estar acima do peso anos a fio).
Mas por que a alimentação normal começa a virar excesso? A resposta é simples: insatisfação. Começamos a comer em excesso para compensar alguma falta. Relembrando dos meus tempos de residência médica, quando ainda estava na casa dos 20 anos, vejo agora como os maus hábitos alimentares se insinuaram. Eu chegava em casa estressado, depois de um turno extenuante no hospital, com a cabeça ainda cheia de casos, alguns pacientes de risco. Em casa, uma esposa amorosa e uma refeição caseira me esperavam.
Em termos de obter as calorias suficientes, sentar-se para jantar reunia todos os requisitos. Seria preciso verificar a situação psicológica para enxergar os problemas ocultos. Na correria do trabalho, eu tinha tomado muito café com petiscos. Por causa do sono, eu não me dava conta do que comia. Assim que entrava em casa, em geral tomava um drinque e deixava um maço de cigarros meio vazio em algum lugar.
Nos anos 1970, eu era um trabalhador comum, que seguia os mesmos hábitos de todos os médicos que eu conhecia. Considerava-me com uma sorte imensa por ter uma esposa muito amorosa e dois lindos bebês em casa. Mas a voracidade com que ingeria o nutritivo jantar caseiro, combinada com todos os outros sinais de uma alimentação estressante, estava determinando um padrão equivocado. Ironicamente, mesmo naquela época, eu me considerava bastante consciente.
Ao passar do ponto crítico, fui ficando mais ciente da solução que proponho neste livro. Não importa quanto o corpo seja judiado, ele consegue recuperar o equilíbrio. A primeira regra é parar de interferir na natureza. Em seu estado natural, o cérebro controla a fome automaticamente. Quando o açúcar no sangue baixa até certo nível, mensagens são enviadas ao hipotálamo, uma região do cérebro do tamanho de uma amêndoa, responsável por regular a fome. Quando ele recebe o aviso de queda no açúcar do sangue, secreta hormônios para que sintamos fome, e, quando já comemos o suficiente, os hormônios se invertem, e nós não sentimos mais fome. Esse circuito entre sangue e cérebro funciona sozinho, como tem sido há milhões de anos. Todo animal com medula espinhal (vertebrado) tem um hipotálamo, e isso faz sentido, pois a fome é uma necessidade muito elementar.
Porém, nos seres humanos, é fácil interferir na fome. O modo como nos sentimos emocionalmente pode nos tornar vorazes ou incapazes de comer. Podemos nos distrair e nos esquecer de comer, ou podemos ser obsessivos e pensar em comida o dia inteiro. No entanto, estamos sempre procurando a satisfação. Existem muitas coisas além da comida que podem nos preencher. O desejo nasce da necessidade, tendo origem nas mais essenciais:
Todo mundo precisa se sentir seguro e protegido. Todo mundo precisa se sentir nutrido.
Todo mundo precisa se sentir amado e querido.
Todo mundo precisa sentir que a vida é relevante e significativa.
Se preenchermos essas necessidades, a comida não passará de mais um prazer entre muitos. Inúmeras pessoas, porém, tendem a comer em excesso como substituição do que realmente desejam. Isso vira um jogo de troca, e elas com frequência não percebem o que está acontecendo. É nessa situação que você se encontra? Eis aqui alguns indicadores comuns:
Você não se sente seguro se não estiver cansado de tanto comer. Esse cansaço traz uma calma que dura algum tempo.
Você não se sente alimentado se suas papilas gustativas não estiverem superestimuladas com açúcar, sal e gordura.
Você não se sente amado e querido, portanto, transforma a comida em “um pouquinho de amor para si”.
A sua vida está sem sentido, mas pelo menos quando come consegue ignorar o vazio interior durante um tempinho.
Se pararmos de nos concentrar tanto em dietas e calorias, vamos perceber que a história do sobrepeso é a história da insatisfação. Temos os melhores alimentos do mundo a nossa disposição, mas devoramos os piores. Somos abençoados com oportunidades de crescer e nos desenvolver, porém nos sentimos vazios.
O meu objetivo é levar você a um estado de satisfação. Quando isso começar a acontecer, você vai parar de comer pelas razões equivocadas. A solução é simples, mas profunda: a fim de perder peso, cada passo desse percurso deve ser satisfatório. Não é preciso fazer análise psicológica; é possível parar de ser obsessivo em relação ao corpo e lidar com o desapontamento e a frustração. Só um princípio vale: a vida é satisfação. Se a vida não está satisfatória, o estômago jamais vai suprir o que falta.
“Eu tenho fome de quê?”
A vida de todo mundo é complicada, e as melhores intenções se extraviam porque as pessoas têm dificuldade de mudar. Os maus hábitos, assim como as lembranças ruins, persistem, teimosos, quando desejamos que sumam. Existe, contudo, uma importante motivação a nosso favor, que é o desejo de felicidade. Eu defino felicidade como um estado de satisfação, e todo mundo quer se sentir satisfeito. Se estamos atentos para isso, para essa motivação mais elementar, as escolhas que fazemos se resumem a uma única questão: “Eu tenho fome de quê?”. Esse desejo verdadeiro nos guiará pelo rumo certo. Desejos falsos nos levam para o rumo errado. Façamos um pequeno teste para comprovar isso. A próxima vez que nos dirigirmos à geladeira em busca de algo para comer, façamos uma pausa. O que nos levou a procurar comida? Só existem duas razões:
1. Temos fome e precisamos comer.
2. Estamos tentando preencher um vazio, e a comida se transformou no jeito mais rápido de fazer
isso.
A medicina atual tem bastante conhecimento sobre os “gatilhos” que disparam o impulso de comer. O corpo secreta hormônios e enzimas que ligam o centro da fome em nosso cérebro com o estômago e o aparelho digestório. Quando bebês, só reagíamos a esse tipo de gatilho. Chorávamos porque tínhamos fome. Agora, o inverso talvez seja verdade: quando temos vontade de chorar, ficamos com fome.
Ao longo da vida, criamos novos gatilhos que um bebê jamais imaginaria. A depressão é um gatilho bem conhecido para o excesso alimentar. Assim como o estresse, perdas súbitas, tristeza, raiva reprimida, entre outros. A que somos mais vulneráveis? Talvez tenhamos apenas uma ideia vaga. A maior parte das pessoas não tem consciência de quando um hábito alimentar está sendo estimulado, pois esses gatilhos são em geral inconscientes – é por isso que são tão poderosos. Respondemos automaticamente a eles, sem pensar.
Teste: O que estimula você a comer em excesso?
As causas mais comuns para a alimentação compulsiva estão nas listas a seguir. Algumas são mais fáceis de superar que outras. Leia-as e verifique o que normalmente faz você comer mesmo quando não tem fome. Marque todos os itens que se aplicam ao seu caso.
Grupo A – Costumo comer em excesso quando…
q estou ocupado ou distraído no trabalho.
q estou com pressa, na correria.
q estou cansado. Não dormi direito.
q estou com outras pessoas que estão comendo.
q estou num restaurante.
q estou diante da TV ou do computador e preciso fazer alguma coisa com as mãos.
q tem um prato cheio na minha frente e acho que preciso esvaziá-lo.
Grupo B – Costumo comer em excesso quando…
q estou deprimido.
q estou sozinho.
q não estou me sentindo atraente.
q estou ansioso ou preocupado.
q tenho pensamentos negativos em relação ao meu corpo.
q estou estressado.
q quero um consolo.
Autoavaliação
Se todos ou a maioria dos itens que você verificou estão no Grupo A, os seus gatilhos são os mais fáceis de superar. É preciso prestar mais atenção aos hábitos alimentares, mas isso deve ser relativamente fácil. Você se flagra comendo quando não tem fome porque o seu principal problema é a distração. Quando se concentrar em uma coisa de cada vez – na refeição à sua frente –, vai conseguir controlar a comilança desatenta.
Se todos ou a maioria dos itens que você verificou estão no Grupo B, você tem fome de algo mais além da comida, e prestar atenção nessas coisas será a melhor forma de perder peso. O importante é não fazer regime. O seu caminho não é a privação, é encontrar satisfação em outras coisas além da comida.
Atitude: Perceber o motivo antes de comer
Como agora você já conhece os seus motivos, poderá monitorá-los. Não é preciso lutar contra a fome, mas dê tempo suficiente para que seu cérebro faça uma escolha. Em vez de ir atrás de comida como um robô, em uma reação automática, permita-se encontrar um jeito de escolher o que realmente deseja. Inicialmente, isso significa um instante de atenção, de consciência de si mesmo, da maneira que especificarei a seguir.
Sempre que estiver prestes a comer fora do horário das refeições, siga os seguintes passos:
1. Faça uma pausa e respire fundo.
2. Pergunte-se se essa fome está sendo estimulada, por exemplo, por um padrão familiar, por
estar se sentindo entediado, inquieto, triste ou querendo alguma distração. Agora você já conhece alguns de seus gatilhos mais comuns, portanto, verifique se algum deles está presente.
3. Uma vez que tenha identificado esse gatilho, pergunte-se se de fato precisa comer. Talvez
possa encontrar uma atividade alternativa, algo que simplesmente adie essa reação ao gatilho, como:
Fazendo alguma tarefa doméstica.
Ligando para um amigo.
Verificando os e-mails e respondendo a alguns.
Lendo um livro.
Bebendo um copo d’água.
Qualquer distração inofensiva serve. O seu objetivo é inserir uma pausa antes de reagir automaticamente a um gatilho. Se ainda sentir fome, vá em frente e coma. Mas adquira o hábito de perceber os gatilhos dessa maneira – é um passo essencial para conseguir superá-los, dando-lhe mais liberdade de escolha.
Eu prometi uma coisa a mim mesmo antes de enfrentar o problema do excesso de comida: a solução tinha que funcionar aqui e agora. O grande defeito do regime é que a gente fica infeliz no presente por causa da promessa de que vai ficar mais feliz no futuro. Mas o desejo não funciona assim. “Eu tenho fome de quê?” acontece no momento presente. Esse impulso pode ser simplificado em algumas categorias básicas:
Temos fome de comida.
Queremos preencher um vazio emocional.
Queremos preencher um vazio mental (tais como baixa autoestima, imagem corporal ruim ou um
sentimento de fracasso e frustração).
A esses eu acrescentaria um quarto impulso, que é espiritual: Queremos preencher um vazio da alma.
Essas motivações, abastecidas pelo desejo, são muito fortes. Uma vez que o desejo tome o rumo certo, podem ocorrer transformações verdadeiras. Seguimos o caminho do desejo todos os dias. O ímpeto de obter mais da vida é natural e profundamente arraigado. Neste livro, você vai descobrir exatamente do que tem fome. Sabendo disso, vai ter um caminho límpido e significativo em termos de mente, corpo e espírito. Eis como será sua transformação:
Você vai se alimentar apenas quando tiver fome de comida. Você não vai se alimentar quando a sua fome for emocional, ou seja, de consolo, segurança,
amor, vínculos com outras pessoas, ou um sentimento de alegria. Você não vai se alimentar se a sua verdadeira fome for de uma vida relevante e significativa, em que tenha propósitos e possa atingir seus objetivos. Essas são necessidades da mente. Você não vai se alimentar se a sua fome for espiritual, de viver com mais leveza ou de ter uma visão mais ampla da alma.
Regime: Uma fuga enganosa
Alguns leitores dirão a si mesmos: “Tudo isso soa muito bonito, mas francamente eu só quero saber o que comer e o que não comer”. Sei exatamente como é isso. Um regime drástico é muito tentador, um conserto rápido. Mas veja o que realmente acontece:
Karen é uma mulher de meia-idade atraente que fica diante do espelho, franzindo o semblante diante do que vê. Quer perder 4 quilos antes do casamento da filha, dali a duas semanas, e nada a desanima. Quando tinha 20 anos, perdia 2 quilos em um final de semana com uma dieta só de suco. Se funcionou na época, vai funcionar agora.
E funciona mesmo, ou quase. No dia do casamento da filha, Karen está 3 quilos mais magra. Quase morreu de fome, mas agora pode comemorar. O que não percebe é que caiu numa armadilha. Os seus antigos hábitos alimentares vão voltar logo, bem como os quilinhos a mais. Já dá para vê-la diante da geladeira no dia seguinte, enquanto a conexão corpo/mente recebe as seguintes mensagens:
Que bom, a festa de casamente acabou. Posso relaxar. Dei duro. Mereço uma recompensa.
Veja só quanta comida sobrou!
Não vou ficar passando fome para sempre.
Não vou jogar fora toda essa comida.
É pouco provável que Karen, tendo essas mensagens para incentivá-la, consiga se conter diante de um belo pedaço do bolo que sobrou. Desculpas vêm à cabeça toda vez que a gente resolve comer demais. O fato de Karen ter atingido a linha de chegada de uma corrida de duas semanas, perdendo peso, não significa nada diante de uma vida de hábitos alimentares que continuam acrescentando quilinhos.
Os Estados Unidos têm loucura por regimes. Todos gostaríamos de encontrar uma fórmula mágica que resolvesse anos de maus hábitos. Isso fez o país entrar num estado bipolar. Em um extremo, o McDonald’s representa a síntese de todos os fast-foods gordurosos e calóricos, e 11 por cento de todas as refeições são feitas em cadeias de restaurantes. No outro extremo, a maior parte do país está de regime ou fingindo que está. Dietas drásticas implicam um tipo voluntário de amnésia. Nos esquecemos do que não funcionou antes e mergulhamos em um novo modismo.
Pensando bem, é bastante estranho que as pessoas façam exatamente o oposto do que aquilo que sabem lhes fazer bem. Vemos isso o tempo todo. Alguém diz: “Estou tentando perder 4 quilos”, e uma hora depois, em um restaurante, serve-se de pão com manteiga assim que ocupa um lugar, e termina a refeição com um brownie quentinho à moda do “só desta vez”. Um estudo de 2013 do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, na Geórgia, Estados Unidos, encontrou uma ligeira diminuição nas calorias – entre 4 e 7 por cento – em crianças em idade escolar, mas nenhuma perda de peso, o que foi atribuído à diminuição da atividade física. Embora nos Estados Unidos o consumo de fast-food tenha recuado cerca de 2 por cento na última década, as pessoas que haviam sido classificadas como obesas na verdade ganharam peso nesse mesmo período. Um grande grupo de apoio on-line para pessoas que emagreceram bastante utiliza uma abordagem semelhante à dos Alcoólicos Anônimos. Comer demais é um problema que sempre ameaça voltar. Uma vez que alguém saiba que tende a comer demais, está destinado a viver com desejos insaciáveis e deve manter uma vigilância constante para não sucumbir a eles. Assim, as calorias devem ser contabilizadas todos os dias, e as recaídas são presságios de perda de controle. Não quero julgar essa abordagem, mas pretendo encontrar uma alternativa a ela.
Para mim, o que funcionou foi a atenção firme: ficar de olho no que eu realmente desejava. Antes de mais nada, queria voltar ao modo normal e saudável de alimentação – e nunca mais escorregar. Sabemos bem que essa segunda parte é que é o problema. Os médicos a denominam “falta de compromisso”. Dizem ao paciente o que ele deve fazer – uma dieta balanceada com muitas frutas e legumes, cortar a carne vermelha, fazer exercícios físicos regularmente, deixar de fumar e diminuir o consumo de álcool – mas, depois de alguns dias, semanas ou meses, os velhos hábitos tomam as rédeas. Existem bons conselhos sobre perda de peso em todo canto, no entanto, 70 por cento da população adulta está acima do peso ou obesa.
As pessoas não são deliberadamente autodestrutivas. Ninguém segue os bons conselhos porque, francamente, comer muito faz a gente se sentir melhor do que se privar ou se comprometer com atividades vigorosas. Um balde de pipoca amanteigada dispara mecanismos poderosos e primitivos do cérebro; a perspectiva de correr 5.000 metros, não. Dividir uma sobremesa com amigos num restaurante aconchegante é festivo e agradável; fazer esteira sozinho na academia, não é.
Quem faz regime repete o que já não funcionou antes.
O slogan “Regimes não funcionam” convive conosco há décadas, e é muito verdadeiro. Todos os estudos de longo prazo mostraram que menos de 2 por cento das pessoas que fazem regime conseguem ter uma perda de peso significativa (7 quilos ou mais), conservando-a por dois anos. Não é falta de força de vontade. O fracasso faz parte de todo esquema de regime. Qual é o primeiro impulso de quem faz regime? Privar-se. Cortando drasticamente o consumo de calorias. A pessoa luta contra os desejos e jura que vai se sustentar com algo como suco de clorofila durante uma semana. Mas essa privação toda cria um outro buraco. Em vez de se sentir triste, sozinha e mal-amada, a pessoa se sente triste, sozinha, mal-amada e ainda passando fome.
Compreendo bem por que as pessoas se privam. Um problema físico deve exigir uma solução física. Os quilinhos a mais ficam bem visíveis toda vez que a gente se olha no espelho. Os vazios invisíveis, não. Além disso, se comer demais significa falta de autocontrole, privar-se seria uma explosão de um imenso autocontrole. “Detesto comer brócolis com suco de limão, mas estou me forçando a isso.” O acréscimo de aflição apenas compõe o problema. Lembremos de uma cena antológica do filme Primavera para Hitler, em que Zero Mostel não consegue acalmar um Gene Wilder arfante e em pânico:
“Estou histérico! Quando isso começa não consigo parar!”, grita Wilder. Sem saber o que fazer, Mostel joga um copo d’água na cara dele. Wilder fica paralisado.
“Estou histérico! E agora estou molhado!”, ele guincha.
Ainda sem saber o que fazer, Mostel dá-lhe um tapa na cara. Wilder se queixa:
“Fiquei dolorido! Estou molhado! E ainda histérico!”
Lembrete: fazer a gente se sentir pior não funciona. Portanto, siga o próximo regime da moda se quiser – pode até fazê-lo enquanto lê este livro, pois, quando perceber que a satisfação é melhor do que se privar, esses regimes drásticos não mais o tentarão. O fato de a perda de peso se relacionar com mais felicidade é o segredo da minha abordagem.